André Giusti – A Liberdade é Amarela e Conversível

INÍCIO

Considerações sobre o caldeirão fervendo

1)Uma coisa que nunca quisemos enxergar por causa do hábito da acomodação: se a gente apertar, eles cedem.

De uma hora pra outra, começaram a reduzir o preço das passagens, mais rápido até do que quando decidem reajustar. Onde não subiu, estão dizendo que não há motivo para subir (vide Brasília). E quem ainda não reduziu o preço, tá se virando para ver que jeito dá nisso (São Paulo, onde uns dias atrás, antes do pau quebrar de verdade, o Prefeito disse que redução de preço nem pensar).

Aliás, pelo que vi rapidamente na TV, no Brasil os donos de ônibus bancam só 10% do custo operacional da frota. O governo entra com 20% e, claro, você já sabe qual bolso mordem os 70% restantes.

Na Europa, a conta é dividida igualitariamente entre empresas, governo e passageiros. Ou seja, não precisa muita ginástica para descobrir como reduzir o preço da passagem.

2)É claro que o que fizeram com o Caco Barcelos, impedindo-o de trabalhar numa das manifestações, é demonstração de indigência intelectual. O fogo ateado ao caminhão da Record é boçalidade, estupidez.

Mas, infelizmente, é também sinal de que, assim como as demais instituições, a imprensa talvez também esteja distante dos anseios do povo, não está falando a língua das necessidades das pessoas.

3)Domingo passado, em cerca de meia hora, vi em Brasília, cidade que não tem parque industrial, três porches e uma masseratti. Hoje, o jornalista Mino Pedrosa informa que um mero diretor do órgão responsável por fiscalizar os ônibus da cidade, cuja profissão de origem é cobrador de uma das empresas de ônibus da capital, comprou uma camionete de R$ 130 mil, à vista, um supermercado e uma loja de carros usados.

4)Entendeu, então, porque um monte de gente encheu o saco e está indo às ruas?

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A pauta é essa, o recado está dado

Pois eu acho que o mais importante das manifestações é justamente elas não terem a tal da pauta objetiva, fechadinha, prontinha para ser posta em panfletos e faixas verde – limão.

Me dão asco as manifestações daqueles nichos do serviço público com seus carros de som ensurdecedores e com todo mundo vestindo a mesma camiseta branca pedindo aquilo que só interessa ao próprio umbigo: o pagamento da gratificação tal, o cumprimento do acordo tal, a bonificação retroativa a sei lá quando. Esse tipo de manifestação sim prejudica o trânsito, atrasa a vida das pessoas, o país, porque é egoísta, porque protesta em favor do próprio interesse e bolso.

Cada um de nós, mesmo que critique, está representado nas passeatas dos últimos dias, porque, ao que tudo indica, tratam-se das manifestações do saco cheio, da paciência esgotada, e não existe no país de hoje pauta mais objetiva do que essa.

É inegável que o Brasil é melhor do que era dez anos atrás, e para que não soe partidário, também é inegável que o país em 2003 era melhor que aquele de uma década antes.

O que, no entanto, não mudou a nosso favor é o jeito de fazer política, que na verdade nunca foi “fazer política”, mas sim servir à politicagem.

O partido que está no poder – com a ajuda do meu voto, inclusive – está há dez anos desperdiçando justamente a chance de mudar a posição da chave de politicagem para política. Mais do que uma expectativa, havia uma certeza de que ele faria isso, mas o que se vê é o caminho na direção oposta a nossa antiga esperança.

E é por isso que quase 300 mil botaram para quebrar ontem à noite.

Não é mesmo por causa de R$ 0,20, mas sim contra uma filosofia de poder, de governar, que está em piores condições que o transporte público, as escolas, os hospitais.

Essa é a pauta.

Quem importância há, então, se apenas uma pessoa apareceu na reunião num acarpetado e refrigerado gabinete de Brasília?

O que tem que ser dito está sendo dito nas ruas, não precisa de reunião para isso.

O poder que entenda o recado e cumpra a pauta.

PS: Presidenta Dilma! Aproveite a chance! Mande às favas a governabilidade! Prefira o povo ao Afif, por exemplo, que a senhora ainda tem chance.

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Ainda é tempo de protestar sim

Dou razão aos que dizem que agora não adianta mais protestar contra a realização da Copa do Mundo no Brasil.

Realmente, isso tinha que ter sido feito cerca de cinco anos atrás, no dia em que o Brasil foi escolhido, e o Lula apareceu abraçado ao Blatter e ao Ricardo Teixeira, essa sim, mancha irremovível – e injustificável – na trajetória do ex-presidente.

Não adianta mais protestar.

Não contra isso.

Mas ainda dá tempo, e vale muito a pena, ir pra rua e gritar para que haja realmente o tal legado da Copa, que nos foi vendido em troca de apoiarmos o Brasil como sede do evento.

E é bom mesmo que ponhamos a boca no trombone, pois, pelo que se anuncia, o tal legado nos será negado, com perdão da rima pobre.

Em Brasília, o Veículo Leve sobre Trilhos, promessa de melhoria para a mobilidade urbana, virou lenda, encrenca nos tribunais e, pra variar, dinheiro posto fora, já que se gastou para fazer o projeto e abrir um canteiro de obra que está abandonado, cuja serventia atual é só enfear a cidade e atrapalhar o trânsito, prejudicando, ironicamente, a mobilidade urbana.

No Rio, me parece sem muita convicção o discurso de que a Baía de Guanabara está sendo despoluída, e que a meu ver seria o principal benefício que o carioca teria com as Olimpíadas, outro evento propagado como a redenção da estima nacional perante o mundo.

Isso sem falar na formação de uma cultura olímpica em nossos jovens, em nossas escolas públicas, para que realmente pudéssemos sonhar com a equiparação competitiva, algum dia, aos países papadores de medalhas. Essa cultura olímpica, definitivamente, não foi nem rascunhada.

Copa do Mundo e Olimpíadas ofereceram, mais do que qualquer outra coisa, a oportunidade de o Brasil finalmente aprender a se planejar, esquecer no passado o seu modo torto de improvisar tudo e achar, equivocadamente, que a coisa sempre acaba dando certo. O atropelo na ampliação dos aeroportos mostra que mais uma oportunidade está sendo perdida.

Por isso acho que é tempo de protestar sim, não contra o que já foi feito, possivelmente roubado, mas pelo que ainda pode ser feito para, de verdade, beneficiar a população.

Vamos antes que seja tarde também, e o único legado seja aquele que vai encher os bolsos da meia dúzia de sempre.

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Top 10

1 – Qualquer manifestação contra preço e condições do transporte público no Brasil é necessária. Se esse transporte fosse melhor, você que está na sua Toyota Hilux não ficaria tanto tempo preso no engarrafamento.

2 – R$ 0,20 a mais na ida e na volta do trabalho, somados, ao final de cinco dias úteis, equivalem ao almoço de dois dias nos restaurantes populares do DF, por exemplo, uma das unidades da federação com o custo de vida mais alto. Mas nós, que compramos queijo cottage e peito de peru todos os dias, não temos como saber disso.

3 – Depredar patrimônio público é injustificável, mas é difícil que entre milhares não haja os porra-louca e até mesmo os infiltrados para implantar a baderna e jogar a sociedade – conservadora – contra os manifestantes.

4 – Eles não invalidam o movimento.

5 – Finalmente alguém entendeu que é muito cômodo ficar reclamando no feicibúqui, e foi pra rua viver a vida real.

6 – Qual o problema de os manifestantes serem jovens de classe-média? Prefiro eles nas ruas do que trancados nas academias, preocupados apenas com os bíceps e com a bunda. Quando minhas filhas crescerem, quero que elas coloquem a boca no trombone.

7 – Me dá sono a ladainha dos burocratas petistas do governo repetindo que tudo não passa de orquestração para manchar a imagem do Brasil lá fora.

8 – Repito: prefiro o pau quebrando ao marasmo classe-média com seu ingresso pro jogo do Brasil na mão.

9 – As manifestações fizeram a TV Globo parar um pouco de transmitir ao vivo o diário do Neymar.

10 – E por falar em Copa do Mundo, o Brasil lembra aquele sujeito que não paga o colégio dos filhos há quatro meses, mas comprou um carro de luxo em 96 prestações.

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A bola murcha do rádio e do futebol

Minha paixão pelo rádio certamente nasceu quando comecei a acompanhar as transmissões das partidas de futebol por volta de 1975.

Meus locutores favoritos eram José Carlos Araújo (até hoje é) e os falecidos Jorge Cury, cujo um dos bordões era “Anotem teeeeeeeeeeeeeeeempo e placar no Maracaaaaaaaaaaaaaaa!; e Waldir Amaral: “Você, ouvinte, é a nossa meta! Pensando em você é que procuramos fazer o melhor!”.

Mas a bola do rádio esportivo parece que murchou. José Carlos ainda reina sozinho e não vejo – ou melhor, ouço – ninguém com muita pinta de que vá assumir o trono. Os locutores esportivos de hoje em dia não nos deixam mais com os nervos à flor da pele, com aquele modo de narrar que nos fazia achar que a bola já estava entrando, quando ainda nem passara da linha do meio campo. Ou , no caso de Waldir Amaral, justamente o contrário: a pelota já estava na rede e ele ainda narrava o passe pro gol. O que dava nos nervos do mesmo jeito.

Talvez a culpa não seja de meus ouvidos, muito menos dos narradores. É possível que venha de um certo desencanto que já há alguns anos nutro pelo futebol.

O que era uma espontânea expressão da identidade de um povo, cada vez mais se torna refém de uma sofisticada engrenagem financeira. Quase não se entrevista mais jogadores à beira do campo, então, não há mais um Dadá Maravilha para dizer que era um prazer jogar em Belém, “a terra onde Jesus nasceu”, segundo ele. Hoje as entrevistas têm que ser após o treino, de banho tomado, na frente de um painel lotado de marcas de patrocinadores.

É claro, o chato sou eu que não entendo que futebol é um negócio, como música, indústria de automóveis e fábrica de macarrão.

Mas quem suporta o Neymar 24 horas por dia na nossa frente, em todos as TVs que ligamos, em todos os lugares por onde passamos? E essa campanha para que a gente acredite que ele é mesmo esse gênio da bola e que vai salvar nossa medíocre seleção de um vexame em casa?

Tudo bem. Se pegarmos dez exemplares das antigas revistas Cruzeiro e Manchete, em pelo menos oito estarão ou Pelé ou Garrincha. Ou seja, a massificação não é de agora.

Mas hoje é muito maior, até porque existem muito mais formas de se massificar um produto, uma pessoa, um candidato a ídolo e a Deus.

E a vantagem de antigamente é que não tinha o Galvão Bueno.

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É com o Z ou com S?

Meu nome é André Luis, embora nem eu mesmo lembre muito bem disso.

Durante toda a vida, e até hoje, fui obrigado a responder: seu nome é com Z ou com S?

Minha filha mais nova se chama Clarice. E agora, além de responder pela grafia do meu nome, tenho que deixar bem claro também: Clarice com C.

A dúvida das pessoas é filha das “desnecessidades” da Língua Portuguesa.

Qual a utilidade de Z e S desempenhando a mesma função? Precisamos de verdade de C e SS, se apenas um deixaria tudo resolvido? Decidir-se por apenas um em nada prejudicaria o uso da língua. Isso é tão certo quanto escrever criança com Ç. Pensando bem, qual a utilidade do Ç se já existe SS? E vice-versa.

A Tia Eni da primeira série diria que “ora! Há regras para a utilização dos fonemas”, mas acho que ela nunca pensou que aquilo que se ajeita simplificando dispensa regras.

O tal acordo (?) ortográfico de alguns anos atrás perdeu a oportunidade dourada de tornar nossa língua um instrumento prático de comunicação escrita, e não fonte de tormentos sem utilidade.

É que certamente foi fechado por quem não entende que ela não precisa se manter complicada para continuar bela.

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A perigosa cafonice das festas country

A escola em que minhas filhas estudam decidiu que a festa junina de algumas turmas será festa country, com as crianças fantasiadas de cowboy, cowgirl ou com indumentária equivalente.

Ouço Rock’n Roll desde que me entendo por gente. Amo Blues e gosto um tanto de soul music e jazz. Adoro escritores americanos como John Fante. Portanto, nada contra a cultura americana.

Mas as festas juninas são uma das joias da coroa que é o nosso folclore, e folclore é uma espécie de cédula de identidade de um povo. Não se dispensa a nossa identidade para usar a dos outros.

Quem mora no Distrito Federal, no entanto, consegue entender essa queda cada vez mais acentuada pela cafonice das botas de salto alto, camisa xadrez, lenço no pescoço e cintos de fivela grande (que, aliás, resumem a cafonice).

O DF é um pequeno quadrilátero recortado num cantinho do estado de Goiás, e tanto aqui, quanto nas terras goianas, vive uma classe média/elite que, não obstante habitar uma das regiões mais belas do país, pensa que está (ou sonha estar) no Texas ou no Arizona.

São camadas da sociedade que mesmo favorecidas economicamente não têm acesso à cultura. E não têm por preguiça (entre as quais, a de ler), por indolência, por que preferem se empanturrar fácil com o conteúdo pasteurizado da mídia. Contentam-se com mero entretenimento raso.

Passando ao largo da cultura, não chegam nem perto do nosso folclore, e aí facilitam a invasão e a agressão de outras culturas à nossa, de costumes estranhos aos nossos. E é preocupante quando uma escola começa a aceitar, ou a nem perceber, essa invasão e essa agressão.

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Faroeste Caboclo e ganância

Igualmente a outras cidades, Brasília é senhora de hipocrisias e demagogias.

A principal delas está ligada à histórica saga da construção da cidade. Portanto, é a mais antiga também: Brasília, capital da esperança!

A frase possui uma variante, ou quem sabe uma irmã mais nova e menos famosa: Brasília, capital de todos os brasileiros!

Poucas coisas no Planalto Central se revelam tão ilusórias como esses dois bordões cantados aos quatro ventos por poetas de deslumbramento alienado e versos enjoativos; por jornalistas e cronistas descomprometidos com a verdade nessa boa terra sim, mas não por causa do que prega essa propaganda enganosa, que não resiste à mais superficial das investigações.

Aos ufanistas, o convite que verifiquem os números da mais recente pesquisa do Instituto de Pesquisas Economicamente Aplicadas (IPEA). De acordo com o levantamento, o Distrito Federal é a única das unidades da federação onde a desigualdade social aumentou (http://migre.me/eRfJV )

E o que o filme Faroeste Caboclo, do cineasta Renê Sampaio, tem a ver com isso? De forma objetiva, a história de João do Santo Cristo, transportada da música de Renato Russo para as telas, comprova o estudo do Ipea e desmascara o desbunde cego, que não se liberta de um sonho de cidade que, definitivamente, não é para todos, não é sequer para muitos.

O filme se passa na virada dos anos 70 para os 80, mas qualquer morador mais atento sabe que ele acontece ao vivo todos os dias, ainda hoje na capital do país.

Por falar em Brasília e mudando de assunto para encerrar: levantamento do site G1 mostra que as diárias dos hotéis da cidade estão até 400% mais caras por causa da Copa das Confederações.

Parece que a ganância não se contenta mais em ser só ganância. Quer ser também irracionalidade. Ou pouca vergonha mesmo.

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A reedição de um jorro de juventude

A segunda edição de um livro traz uma sensação ímpar, particular para o autor. Ainda mais quando se trata de nosso primeiro livro. Ainda mais passados 17 anos de seu lançamento.

Para a segunda edição de Voando pela Noite (Até de manhã), a Editora 7Letras me pediu que lesse seus onze contos, nada menos do que os primeiros que escrevi, quando passei a me aventurar no fantástico mundo da prosa.

Eu não abria o livro desde o início da década de 2 mil, portanto, há mais de 10 anos.

A impressão foi a de que estava revendo, depois de anos, alguém que conheci pequeno, de fraldas, e que agora me aparecia jovem, no primeiro ano da universidade. E seu rosto, perdido no tempo, me era ainda extremamente familiar.

Mas a maior delícia desse mergulho nos meus primórdios de contista foi verificar o salto tecnológico dos últimos 20 anos. Como foi escrito no início dos 90’s, os personagens do livro telefonam de orelhões de ficha, pois não há celular, e deixam recados em secretárias eletrônicas de fita K7; dirigem carros com carburador, fumam em ambientes fechados; já escutam CD, mas basicamente ainda ouvem discos de vinil.

As únicas alterações feitas dizem respeito ao novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa. Não me pareceria sincero, e roubaria sua autenticidade, alguma mexida no texto com intuito de correção. Quando já famosa, uma banda de Rock não regrava seu primeiro disco, pois não há sentido em adequar o passado às exigências estéticas do presente.

Os contos estão escritos como foram escritos, com seus pecados literários, suas traições de estilo, suas literatices, suas infantilidades de primeiro livro. Mas, em contrapartida, há toda a energia de fio desencapado que a juventude possui, e suas histórias estão carregadas dos excessos de um cara que, aos 20 e poucos anos, descobriu definitivamente na literatura a forma como traduziria o mundo e a vida.

Flying by night, beibi! Let’s play that!

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O paralelo da digestão

No começo colocamos a mesa com todo cuidado. Trazemos flores, e mesmo nos dias mais corridos da semana, não esquecemos música ambiente que amacie a conversa e a mastigação.

Aliás, no início mastigamos bastante: mais de 30 vezes em cada garfada, como recomendam os gastros e os nutricionistas. Mais até que mastigar, sentimos os sabores, e sentir os sabores é a real finalidade. Pensando bem, o que nos leva a sentarmos à mesa é a nossa fome real e verdadeira, nossa fome sincera. Isso no início.

Depois de um certo tempo, alguns sabores já passam despercebidos: não os principais – o da carne, do peixe –, mas os das especiarias, aqueles que faziam a diferença sem nos darmos conta, sem sabermos que estavam na receita. As flores ainda são postas, mas não são mais tão notadas, e já não saberíamos dizer se sentiríamos sua falta se não fossem trazidas. A música, se toca, não amacia a conversa: temos endurecido os assuntos e já não mastigamos tanto quanto o recomendado. Mas continuamos comendo.

Os anos já levaram das paredes alguns calendários. Flores, só as plásticas, e estão sempre lá sem serem notadas, pois as usando, não há a necessidade de um ramo novo a cada dia.

A música foi substituída pelo silêncio das bocas, que quase não mastigam mais, engolem quase de pronto, já que é preciso ir rápido com tudo isso, recolher logo os pratos, pois assim se evita os assuntos endurecidos. Sabores? Aquele que nos restou é apenas um que é de uniforme pasta sem sal, temperos ou especiarias. Engolimos, apenas para que não nos doa o estômago mais tarde.

No final, sabores, flores e músicas parecem apenas lembranças absurdas do tempo em que mastigávamos. Agora, engolimos direto, melhor até seria se houvesse um buraco na garganta em que colocássemos a comida, poupando-nos de passá-la pela boca. E no silêncio que já é de muito tempo, abolimos até mesmo os assuntos endurecidos.

Mas, então, de estômago pesado e digestão difícil, em algum momento da noite precisaremos decidir: queremos abrir mão de comer para sempre, ou vamos brigar pelo prazer de sentir fome outra vez?

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