André Giusti – A Liberdade é Amarela e Conversível

INÍCIO

Arquivo de março, 2010

O adeus do bibliófilo

Na semana em que o Brasil perdeu José Mindlin, eu e o poeta Alexandre Pilati conversamos na BandNews 90,5 FM em Brasília sobre o dono da maior biblioteca particular do mundo.

O meu papo com o Pilati vai ao ar todas as 2ªs feiras às 16h51 e as 3ªs às 11h30. Abaixo, o texto do Pilati que serviu de base para a nossa conversa no ar.

O adeus do bibliófilo

Por Alexandre Pilati.

 

Se vamos ao dicionário, encontramos a seguinte definição de bibliófilo: “indivíduo que tem amor aos livros, especialmente os belos e raros; colecionador de livros. Esta definição fica pequena ou insuficiente se a comparamos com a vida, a atividade e a dedicação aos livros do maior bibliófilo brasileiro, o paulista José Mindlin, que faleceu no último dia 28/02 aos 95 anos. Muito mais do que alguém que amava os livros raros e os colecionava, Mindlin foi um dos grandes estudiosos e humanistas do país. Na verdade, o que o bibliófilo amava nos livros era a possibilidade que cada um deles tem de fazer com que o leitor vislumbre um mundo melhor. Num país que despreza a leitura, Mindlin, portanto, significa muito.

Ele era um apaixonado pelos livros e pelas histórias que vivem dentro e fora deles. A seu respeito, o crítico literário e amigo pessoal Antonio Candido escreveu no prefácio de Uma vida entre livros (Edusp, 1997): “ele é um leitor indiscriminado e seletivo, glutão e refinado…ele é o tipo ideal de leitor, porque sabe que praticamente nenhuma leitura é perda de tempo se der prazer.”

 

A origem da bliblioteca e suas preciosidades

Mindlin era dono da maior biblioteca privada do país, com cerca de 45 mil volumes. Para atingir esse número expressivo, começou cedo: aos 13 anos de idade. Foram mais de 80 anos dedicados à leitura e à busca de obras e documentos raros. Para se ter uma idéia da sua paixão pelos livros, Mindlin passou quase 15 anos procurando uma primeira edição de O Guarani, do cearense José de Alencar, autor do Romantismo brasileiro. Ele fez uma verdadeira peregrinação atrás do volume, que estava com um colecionador grego, a quem Mindlin mandou muitas cartas, sem resposta. O blibliófilo estava em Paris quando um livreiro que era seu conhecido, por coincidência, disse que estava com o colecionador grego. Na viagem de retorno ao Brasil, Mindlin dormiu no avião da Air France e o livro se perdeu. Já sem esperanças, alguns dias depois, a empresa aérea o contatou dizendo que a preciosidade havia sido encontrada intacta. Assim, o raríssimo exemplar d’O Guarani, de 1857, um dos três que havia no mundo inteiro, passou a integrar a biblioteca de Mindlin.

Entre os inúmeros tesouros individuais da sua biblioteca, estão a primeira edição de Os Lusíadas, de 1572, o original de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, além de obras de Carlos Drummond de Andrade, que o autor enviava pessoalmente para Mindlin, com dedicatórias escritas em versos.

A Brasiliana Guita e José Mindlin

Estes livros e tantos outros documentos constam do acervo que foi doado à Universidade de São Paulo, em 2006, formando a chamada Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. São cerca de 17.000 títulos, ou 40.000 volumes que reúnem obras de literatura brasileira (e portuguesa), relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários (originais e provas tipográficas), periódicos, livros científicos e didáticos, iconografia (estampas e álbuns ilustrados) e livros de artistas (gravuras). Parte desse acervo pode ser consultada no site: www.brasiliana.usp.br.

Uma vida entre livros

Uma vida entre livros é o resumo da vida de José Mindlin e também o título da “biografia de sua biblioteca”, que foi escrita em 1996 e publicada pela Editora da USP. Atendendo a uma sugestão de Antonio Candido, Mindlin narra, num texto que transborda paixão pela leitura e pelos livros, como formou a sua imensa biblioteca, contando episódios marcantes de sua vida. É um livro que todos que amam a leitura deveriam ler.

Como o próprio bibliófilo gostava de dizer “os homens passam. Os livros ficam”. E Mindlin deixou mais que livros; deixou um legado preciosíssimo para o país. O legado do exemplo de um homem de sucesso como empresário que sabia que a humanidade é mais importante do que o acúmulo de capital. Sua devoção aos livros era uma devoção ao gênero humano.

 

 

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Brasil x Argentina. O lado babaca da rivalidade.

Um dos problemas da publicidade é que ela sempre descobre uma fórmula atraente de vender produtos usando como pano de fundo um mote qualquer que mexa, de preferência, com paixões, gostos e costumes nacionais. É assim com louras, cervejas, carros, churrasco. É assim com o futebol.

O outro problema da publicidade é parecer não se dar conta de que o uso com validade indeterminada desses motes cansa, esgota o consumidor, perde sua essência primeira, ou seja, a graça. É como piada repetida várias vezes. Pela mesma pessoa.

Nossa rivalidade com os argentinos me parece ser um desses casos em que em todo almoço de família o cunhado conta a mesma história sobre o Lula e a Dilma. Talvez os publicitários não tenham reparado que a cutucada trivial em nossos vizinhos já não provoca as mesmas risadas de antes. Mas não estão sozinhos. Pra sorte da categoria, talvez o consumidor também não tenha notado que a piada gastou. Então, fica rindo sem muito querer rir, fica rindo porque o comercial é bem produzido, porque quando o assunto é argentino sendo sacaneado, temos que rir pois o senso comum já decidiu que é engraçado espezinhar argentino. E não fica bem dizer que uma coisa não é engraçada quando todo mundo acha – ou pensa – que é.

Enfastiado, vejo começar a descer a avalanche de comerciais sobre a copa do mundo. Das mega-produções dos anúncios dos bancos ao amadorismo dos comerciais de lojas de sapatos, há invariavelmente, em boa parte deles, um argentino objeto de deboche do brasileiro sempre malandro, bancando superioridade com suas cinco copas do mundo contra as duas dos hermanos, palavra que, aliás, a banalidade desses comerciais fez o favor de tornar insuportável.

Não tenho idéia se essa chatice tem sua versão no outro lado das Cataratas do Iguaçu, mas fico imaginando se eles resolvessem nos dar o troco alardeando o número de livrarias que existem em Buenos Aires ou a decisão de punir os generais que mandaram torturar e matar durante a ditadura deles. Levaríamos um toco de 3 X 0 só no primeiro tempo.

A propaganda cumpre seu papel de ser massiva não apenas no desgastado palco da rixa entre os dois países. Seja qual for a situação tomada como pretexto para vender alguma coisa, o objetivo claro é impedir que o sujeito respire até que se convença de que sua existência será bem melhor se tomar aquela cerveja da loura boazuda ou trocar de operadora de celular.

Mas é na época dos grandes eventos, como a copa do mundo, que a capacidade de exaurir os nervos do cidadão alcança grau máximo. Hoje, no twitter, o comediante Rafael Bastos (CQC, da Band) disse que a publicidade faz com que ele odeie os eventos antes de eles começarem. Lembrei-me das Olimpíadas de 2004, do massacre da mídia querendo nos convencer – e convencendo milhões – de que a ginasta Daiane dos Santos era uma divindade encarnada que pulava de um lado a outro ao som de Brasileirinho. Nada contra ela, mas quando seus resultados ficaram bem abaixo do que prometiam o Galvão Bueno e a Coca-cola, confesso que não senti a mínima pena. Ao contrário, sobreveio-me alívio ao pensar que a frustração me livraria de enxergar o rosto da ginasta até no ralo do banheiro.

Este ano, claro, não será diferente, mas estou preparado, aguardando tranquilo que a Visa, o Itaú, a Vivo tentem me convencer que a seleção do Dunga é a de 70 rediviva.

PS: Meu quarto livro de contos, A liberdade é amarela e conversível, está sendo sorteado na comunidade Viciado em Livros, que tem mais de 90 mil participantes no Orkut. Acesse http://goo.gl/gOCf e concorra.

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O povo unido. Por mim mesmo, de preferência.

É lenda que o brasileiro não se mobiliza para protestar ou reivindicar. Mentira, folclore. Há sim muita mobilização e capacidade de fazer barulho. Desde que seja em interesse próprio, financeiro de preferência.

Os recentes escândalos em Brasília mereceram a perplexidade da população. Só que ninguém passou da boca aberta de espanto para abrir a boca e gritar de revolta. Indignados, mas passivos, todos assistimos pela televisão ao grupo de estudantes que invadiu a Câmara Legislativa do Distrito Federal, mal ou bem os únicos que ousaram dizer aos ladrões que “aqui ninguém é palhaço não, vamos acabar com essa pouca vergonha”. Mesmo assim houve quem enxergasse excessos e radicalismo.

Entretanto, se o motivo é o aumento da gratificação, o cumprimento do acordo salarial ou pedir para ganhar o mesmo que outra categoria, aí aparece gente de todo os cantos, a praça lota, a avenida é bloqueada, verdadeiros cantos de guerra são entoados, fazendo as veias ameaçarem pular do pescoço.

Esta semana, centenas de policiais e bombeiros do Brasil inteiro fecharam a Esplanada dos Ministérios. Faziam protesto para pressionar deputados e senadores a aprovar projeto que desse às duas categorias o mesmo salário dos colegas do Distrito Federal. Uma das principais vias da cidade ficou fechada por mais de seis horas, atrasando a vida de milhares de pessoas no meio da tarde de um dia comum. Ouvindo gritos inflamados dos manifestantes, a PM não se meteu a besta de tirá-los dali para liberar o trânsito. Eram policiais, certamente havia gente armada. A todo o momento, o comando da operação no local informava sobre negociações com os líderes do protesto, negociações intermináveis que não devolviam a Brasília, naquele momento, o direito de ir e vir. Aliás, foi a mesma PM que em dezembro não negociou um minuto sequer e chegou descendo o cassetete e mandando bombas de gás em cima dos estudantes que protestavam contra a bandalheira do governo Arruda.

Ou seja, mobilização existe, capacidade de se organizar também, desde que seja por um direito individual, não importando se o protesto massacra o direito maior, que é o coletivo.

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Carro preto.

Desde que se entendia por gente, isso ainda na época dos velhos opalões, Zedias via cruzarem a cidade aqueles carrões pretos, com placas especiais feitas de chumbo e letras e números dourados, alguns com o brasão da República. Nelas, sempre vinha escrito que figurão viajava naquele carro, ministro de não sei o quê, presidente de não sei onde, desembargador do tribunal X, que ninguém sabia onde ficava e muito menos para que servia. Era preciso que ficasse claro quem viajava naquele carro, para que nenhum brasileiro mirrado, verminoso e morto de fome se metesse a besta.

O problema é que Zedias nunca engoliu muito bem essa história de carro oficial. O pai, escriturário até as migalhas da aposentadoria, se espremia no ônibus, no trem e lá ia ganhar a vida, e foi assim a vida toda.

Mas o pai não é ministro, Zé, não é autoridade, um irmão tentava que Zedias aceitasse os fatos com a correta resignação que cabe ao contribuinte assalariado.

Por isso mesmo, ué! Se é autoridade, tem dinheiro pra comprar automóvel, e Zedias não se curvava.

Ele mesmo ia para cima e para baixo na base no vale-transporte. Carro só foi ter aos trinta anos, já casado, um Fiat 147, que não se fabricava mais há muitos anos.

Diziam que em Paris o prefeito ia trabalhar de metrô, então por que aqui flanava-se a bordo de modelos impecáveis, com motorista à disposição, ar-condicionado ligado e os vidros levantados que é para não sentir o cheiro e o bafo quente do país que paga aquilo tudo?

E nada dos carros mais baratos, nacionais feitos para a classe-média bem média. Parece que só presta se forem daqueles em que o interior é mais luxuoso que a sala da casa de Zedias, uns que, contam, não são nem feitos no Brasil, vêm de encomenda lá de fora.

Tirando do bolso da gente é fácil ter luxo, né? Rir com dente é mole, quero ver é rir sem dente. E lá ia Zedias praguejando contra qualquer engravatado que passasse escondido em carro preto.

Até que calhou de Zedias estar parado no sinal e ao lado encostar um estalando de novo, a lataria brilhando tanto que servia de espelho. O preço daquilo talvez fosse o de muito apartamento por aí. Na traseira, a placa informava a utilidade do figurão na Terra: ministro tal da turma tal do tribunal superior de sabe-se lá o que faz de bom pelo povo. Calhou também da gasolina ter aumentado de preço pela terceira vez em duas semanas, e de naquela manhã Zedias ter recebido em casa a facada do IPVA.

Olhando aquela suntuosidade motorizada, Zedias ficou resolvendo enquanto o sinal estava vermelho: falo ou não falo? E como o verde demorasse, buzinou uma duas três vezes, até que o motorista abaixou o vidro.

- Que é, cara?

- Chama a autoridade aí detrás.

- Chamar pra quê?

- Manda o figurão abaixar o vidro, pô, não sou bandido não.

O vidro fumê da porta traseira veio, então, descendo lentamente. Lá dentro apareceu uma cara gorda e vermelha, uma papada banhuda entalada no colarinho, um nariz torcido de quem passou numa fossa aberta.

Com uma espécie de ironia raivosa, Zedias mandou a estribeira às favas.

- ‘Tá gostando do carrão, ministro? O senhor deveria me agradecer, porque fui eu que paguei pro senhor, saiu do meu bolso.

Antes que o vidro levantasse todo, o sinal abriu e o motorista arrancou.

- Pros quintos dos infernos vocês! – e Zedias saiu bem atrás.

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A liberdade é amarela e conversível. E solidária.

O meu 4º livro de contos é destaque no Março temático Literário-gastronômico do restaurante Panelinha, na 116 norte, em Brasília. O evento, como bem sugere o nome, reúne gastronomia e literatura e faz parte de uma parceria chamada Confraria do Bem. A confraria junta o restaurante Panelinha e a ONG Chamaeleon, que ampara crianças vítimas não apenas de violência ou abuso sexual, mas de maus tratos de forma geral e covardias afins.

A idéia é simples: o cliente vai ao restaurante, se delicia com o cardápio, conhece a obra de um escritor contemporâneo e de quebra colabora com o trabalho de proteção a essas crianças.

Até 31 de março, A liberdade é amarela e conversível (Coleção Rocinante, 7Letras, 2009) será vendido abaixo do preço das livrarias e internet, onde custa R$ 28. Por causa do projeto social, o freguês do Panelinha poderá adquirir o livro por R$ 22,40, um desconto de 20%. Parte de meus direitos autorais serão doados ao projeto tocado pela ONG Chamaeleon.

Completando a programação, no dia 27 de abril darei palestra no restaurante sobre liberdade. Na verdade, será mais um bate-papo, uma troca de idéias acerca do tema com os frequentadores do restaurante.

Espero vocês.

Bom apetite e boa leitura.

As crianças agradecem.

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Eddie Vedder melhor do que o Pearl Jam?

Por duas ou três vezes estive com o disco solo do Eddie Vedder nas mãos para comprar. Fiquei naquele compra- não compra levo-não levo, mas sempre o devolvi às prateleiras das cada vez mais vazias lojas de CD.  Até que o aprendiz de feiticeiro da BandNews FM e “batera” da banda brasiliense Lafusa, Guilherme Guedes, despejou Into the Wild em meu poderoso Ipod de 120GB. Já na metade da audição do disco em que a capa é Eddie Wedder em cima de um ônibus, deu pra perceber o tempo que perdi sem ter na minha Library o trabalho solitário do vocalista do Pearl Jam.

Into the Wild explora o que Eddie Wedder tem de melhor como vocalista: a voz. Aquele timbre grave, que no entanto não deixa de ser alto, está de tal forma nítido nas 13 faixas do CD, que assume com naturalidade o posto de principal elemento deste trabalho de Wedder. E isso não vinha acontecendo nos últimos discos do Pearl Jam, em que os pedais e estridências das guitarras, excessivos em alguns casos, chegam a suplantar a voz de um dos melhores cantores da história do Rock, ou pelo no que se fez no gênero nos últimos 30 anos. E antes que perguntem: eu adoro Pearl Jam.

Colaboram com a excelência da voz de Eddie Wedder em Into the Wild, as belas melodias, na verdade a característica do disco que primeiro salta aos olhos (ouvidos, né?) de quem escuta pela primeira vez. Pela segunda também, e daí em diante. São melodias simples, que parecem ter brotado sem esforço do compositor e que da mesma forma entram em nossos ouvidos. E como a simplicidade faz a cama para a beleza, temos belas canções, baladas aconchegantes para se ouvir no carro ou em casa em tardes nubladas de vento de chuva, como esta em que escrevo. Todas, é bom que se diga, amparadas em ótimos arranjos e harmonias. Destaque para Rise, Hard sun, End of the road e No more, mas qualquer uma que eu relacionasse aqui não seria injustiça. Nessas quatro, e em todas elas, há um túnel remissivo para a metade dos anos 90, tão a cara do Pearl Jam. Quem viveu a época saberá do que falo.

Aliás, por falar nessas coisas de túnel do tempo, escuto Gin Blossons, banda americana que fez sucesso aqui por volta de 95, 96 com duas músicas: Follow you down e Highwire, do CD Congratulations I’m sorry. E ficaram nisso, nunca mais ouvi falar dos caras, que faziam (ou fazem) uma espécie de surf music mais denso, encorpado. Notícias deles, só no Google. Quem tiver outras, que as traga.

Gin Blossons será minha retribuição pelo Eddie Wedder ao ipod do Guilherme Guedes.

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