André Giusti – A Liberdade é Amarela e Conversível

INÍCIO

Arquivo de agosto, 2010

Em algum lugar o Lago é “democrático”

O projeto original do urbanista Lúcio Costa para Brasília previa que o Lago Paranoá fosse margeado por uma grande área comum, destinada a que as pessoas desfrutassem livremente da maior atração natural da capital do país. Creio eu que a idéia de Lúcio era que o Lago fosse para o morador de Brasília, e quem a viesse visitar, o que a praia é para o carioca, ou seja, referência de lazer e convivência.

A politicagem das relações na capital do país, regidas em boa parte dos casos pela promiscuidade, não permitiu a concretização de muitos dos conceitos de Lúcio Costa para a cidade. O usufruto democrático do Lago Paranoá é um exemplo. Endinheirados o suficiente para erguer mansões e “amansar” as autoridades, os milionários da cidade fecharam praticamente todos os acessos ao lago, justamente com seus casarões cinematográficos que ocupam as chamadas áreas públicas. Nos poucos pontos onde é possível se chegar à beira do Paranoá, o mato e o abandono campeiam, até porque ocupar com criatividade espaços públicos e abandonados não é um dos talentos de Brasília.

Exceção à regra é o Parque Península dos Ministros, situado no ponto mais nobre do Lago Sul, por sua vez bairro mais nobre da cidade. Lá, uma mistura de ciclovia e pista de cooper e caminhada, cercada de belíssimas árvores, permite que as pessoas curtam uma das mais belas paisagens da cidade em que nasceram ou escolheram para viver. Sua localização o torna uma espécie de crème de la crème, e por isso chega a ser irônico que justamente lá o Paranoá seja democrático do jeito que foi pensado originalmente. Aliás, não apenas o Lago, mas toda uma cidade que era para ser de todos, e que a usura transformou num privilégio de poucos.

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Oito anos de FLIP

Por Alexandre Pilati*

Até este domingo o mundo literário nacional respira a oitava edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty. Com a presença de autores mundialmente respeitados, como Julian Barnes, Don DeLillo e Eric Hobsbawm a primeira Festa Literária Internacional de Paraty, realizada em 2003, inseriu o Brasil no circuito dos festivais internacionais de literatura. Ao longo de suas edições seguintes, a Flip ficou conhecida como um dos principais festivais literários do mundo, caracterizada não só pela qualidade dos autores convidados, mas também pelo entusiasmo do público e pela hospitalidade da cidade.

Nos cinco dias de festa, a Flip realiza cerca de 200 eventos, que incluem debates, shows, exposições, oficinas, exibições de filmes e apresentações de escolas, entre outros, distribuídos em Flip. O que atrai mesmo a atenção do público na FLIP é ver, lado a lado, autores internacionais de renome e escritores brasileiros.

Dois destaques da Flip desse ano: Isabel Allende e Ferreira Gullar

Quem não está lá na Flip, pode aproveitar a oportunidade para conhecer ou lembrar obras de dois nomes de destaque na edição deste ano, a chilena Isabel Allende e o brasileiro Ferreira Gullar.

Com a desistência de Lou Reed, a grande atração internacional da Flip de 2010 é Isabel Allende. A peruana naturalizada chilena Isabel Allende (1942, Lima, Peru) lança na Flip seu mais novo livro, A ilha sob o mar. Depois de três anos sem publicar – seu último trabalho, A soma dos dias, foi lançado em 2007 –, Isabel volta à ficção com a história da escrava Zarifé. Jornalista desde os dezessete anos, Isabel estreou na literatura com A casa dos espíritos, em que utilizou os manuscritos das cartas que escreveu para seu avô, enquanto ele convalescia no leito de morte, para retratar os fantasmas da ditadura de Augusto Pinochet. A escritora se transformou em um verdadeiro best-seller mundial, com dezoito livros publicados em mais de trinta idiomas.

Grande nome entre os autores brasileiros, o poeta Ferreira Gullar participa na Flip de uma mesa em comemoração aos seus 80 anos de vida. Ferreira Gullar é poeta, crítico de arte, tradutor, cronista, dramaturgo e ensaísta e nasceu São Luis do Maranhão. Em 1951 mudou-se para o Rio, onde ficou conhecido pelo movimento neoconcreto, que criou ao lado de Lygia Clark e Hélio Oiticica. Sempre engajado politicamente, nos anos 60 Gullar foi presidente do CPC da UNE, filiou-se ao Partido Comunista e ajudou a fundar o grupo Opinião. Preso após o decreto do AI-5, em 1968, foi exilado, período em que escreveu sua obra mais famosa, Poema Sujo. Retornou ao Brasil em 1977 e, depois de uma nova passagem na prisão, voltou a publicar regularmente – já são mais de 40 títulos, muitos deles premiados. Em 2010, ao completar 80 anos, Gullar, que já foi indicado ao Nobel, recebe o Camões, o mais importante prêmio da língua portuguesa, e se prepara para lançar novo livro de poemas, Em Alguma Parte Alguma. 

 

Todas as segundas, 16h31, e ter’cas, 11h31, eu e Alexandre Piliati conversamos sobre literatura na BandNews FM, 90,5, Brasilia.

 

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Revista Machado

Já está no ar o primeiro número da Revista Eletrônica Machado ( http://www.revistamachado.com.br/ ) .

Neste número de estreia, você confere um conto meu, O corredor.

Escrevi essa história no ano passado. Fala de um homem que disfarça a angústia do desemprego correndo pelas ruas da cidade. Estava inédito até ganhar o mundo nas páginas da Machado. Preservei-o assim até agora por causa dos concursos literários que exigem o absurdo do ineditismo do texto mesmo na grande rede.

Mas acho que tomei a atitude certa. Vale mais participar dessa linda edição da revista, do que ficar em casa, com o conto na gaveta, esperando sair o resultado de concursos que muitas vezes pecam pela importância e, quiçá, pela lisura.

O que chama a atenção é a beleza do trabalho gráfico, um show de cores fortes casadas com tipologia moderna e bem atraente, amparados por um tratamento fotográfico de muito bom gosto. Pena que, pelo custo que seria termos uma revista dessa no papel, não é possível manuseá-la. Mas é belíssima – e muito benvinda -  mesmo que somente no mundo virtual.

Confiram!

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Saudades da Vila Sésamo

Morreu nesse fim-de-semana o cenógrafo Cyro Del Nero. Era o tipo de pessoa cujo trabalho tornou-se bem mais conhecido do que o próprio nome, ou seja, o que fazia era mais importante do que ele como pessoa, uma relação totalmente invertida quando se trata das celebridades de hoje em dia.

Cyro Del Nero tornou-se marco nos cenários da TV brasileira nos anos 70, e assim deverá manter-se mesmo após a morte. Eu não sabia, mas é dele a arte do clip em que Raul Seixas canta Gita, mostrado no Fantástico em algum domingo de 1974.

Eu me lembro muito bem do Raul cantando Gita. Por isso, da mesma forma, me lembro perfeitamente de um sucesso da TV em que Cyro Del Nero também assinou os cenários: Vila Sésamo. O programa foi a referência televisiva mais forte de quem nasceu no final dos anos 60, só sendo desbancado nesse aspecto em 1977, quando estreou o Sítio de Picapau Amarelo na versão com Zylka Salaberry, Dirce Migliaccio, Júlio César e Rosana Garcia.

No link com a notícia sobre a morte de Cyro Del Nero, é possível conferir alguns momentos da Vila Sésamo, tais como os impagáveis Ênio e Beto, e atuações singelas de artistas do naipe de Armando Bogus e Aracy Balabanian. Não farei o papel do saudosista que acha que tudo do passado era melhor. Hoje em dia, minhas filhas assistem a programas e desenhos igualmente interessantes (recomendo o desenho Madeleine, na TV Futura), mas a Vila Sésamo tratava criança como criança, sem desprezá-la com imbecilidades nem pretendê-la adulta para integrá-la ao mercado consumidor.

Assistindo aos vídeos do programa, é engraçado pensar que aqueles meninos e meninas que aparecem brincando junto com os atores são, hoje em dia, quarentões e quarentonas feito eu, preocupados com o que os filhos vêem na TV, e que a vida da gente não está no youtube de um modo que seja possível clicar no play para se voltar atrás quando dá saudades.

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