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Puma GTS

Agachou-se junto ao carro e encostou uma das faces na lateral da carroceria de fibra de vidro, bem no final da traseira. Sorria tirando uma linha do modelo.
Diriam mesmo que apreciava uma bela dona na praia, a julgar pelo prazer de seus olhos admirando as linhas arredondadas dos paralamas, o arrojo das rodas esportivas. Levemente, com a ponta do dedo, contornou as letras estilizadas em metal do emblema pregado ao capô: Puma GTS. Soletrou as iniciais separadamente e com firmeza, para que saíssem bem claras: G-T-S. Grand Turismo Spyder, era esse o significado, o que também foi dito em bom som no silêncio da garagem. E como houvesse estacionado há poucos minutos, suspenso no ar ainda pairava o cheiro da gasolina queimando no velho motor de 1.600 cilindradas.
Respirou fundo, como quem cheira eucaliptos numa floresta. Abaixou a capota de lona. Com ela assim, ganhava mais destaque a principal graciosidade do modelo.
Chegou-lhe às narinas outro cheiro que o deliciava: o do couro dos bancos e do painel, curtido pelos anos.
Inspirou novamente, feito um provador de essências. Quando se preparava para entrar no carro e sair de novo, a mulher chegou lá de dentro. Também foi e voltou com os olhos pelo carro, mas sem admiração. Ao contrário, fazia o ar impaciente de quando não se enxerga necessidade nos objetos.
– De que ano é esse carro? – perguntou ríspida, a voz amargando contrariedade.
Já ao volante ele respondeu seco, sem deixar-se roubar de sua contemplação.
– 78. Ela permaneceu em pé, ao lado. Calada, mastigava condenações como se fossem chicletes passados e sem sabor, há horas na boca. Um modelo mil, zero quilômetro, muito mais útil à família, talvez custasse até menos do que aquilo ali, atravancando a garagem.
– Ainda por cima, amarelo – acabou deixando escapar, confirmando irritação.
Ele verificava botões no painel, inabalável. Sacudiu de leve a alavanca do câmbio para mostrar que não o atingia o azedume da mulher. Olhou-a com a frieza de uma lâmina de gelo.
– É, amarelo – e respondeu sem perguntar qual era o problema com a cor. – Foi moda na época, eu adorava – ele explicou, mas na verdade queria dizer outra coisa: ela que aceitasse, não pretendia desfazer o negócio.
A mulher descruzou os braços tensos, que desabaram na linha da cintura. Ela que se conformasse agora com aquele playboy tardio, tomado de embevecimento solene, entregue a transcendências feito alguém que entoa mantras, medita no monte, ora na catedral.
– Em 78 eu tinha quatro anos – ela pensou em voz alta, e logo imaginou o que diriam os vizinhos se ouvissem: então, ela também estava ficando velha? Deu-se por vencida, voltou para dentro sem que ele notasse de pronto.
Mal a mulher saiu, chegou o cunhado. Só foi percebido porque abriu a boca com a costumeira empáfia e desprezo normal por tudo que não era contemporâneo.
– Esse carro não tem timer de ar-condicionado nem controle elétrico de retrovisor? Ele ajeitava os retrovisores, para não se irritar.
– Não, na época não existiam essas frescuras – e quando respondeu, virou a chave na ignição. Acelerou o motor barulhento que gritava pelo cano de descarga, mais aberto que o normal. Pisou mais fundo, mais forte, sem piedade do silêncio. Queria mesmo que o estrondo reverberasse nas paredes e ensurdecesse aquele fedelho de vinte e poucos anos que achava que o mundo havia começado quando ele nasceu.
Deu ré, manobrou na porta de casa e arrancou deixando o portão aberto. O fedelho que fechasse, em vez de ficar ali parado, com aquela cara gorda e mole de bunda flácida.
Na medida em que o giro do motor subia, o vento da tarde entrava inteiro pelo carrinho conversível, sem ser bloqueado por vidros elétricos fechados de pavor. O vento entrava e remexia seus cabelos, trazia poeira das ruas para colar em seu rosto, chegava a subir pela barra da calça eriçando os pelos das pernas.
Desceu acelerando na primeira avenida, uma reta inclinada com uma leve curva no meio e uma bem acentuada no final. Ali jogou a terceira, o ronco do motor na reduzida venceu o barulho do vento e ganhou o céu entardecido de outubro. Na saída da curva, apertou de vez o acelerador e o motor encheu novamente.
O ponteiro do conta-giro subiu trazendo de volta com ele o vento indomado da velocidade. A liberdade é amarela e conversível, foi o átimo de poesia que lhe veio à cabeça. Sorriu com gosto. Não tivesse as mãos ao volante, anotaria a frase para que depois de sua morte os netos a encontrassem em papel envelhecido dentro de um livro e a creditassem a autor desconhecido.
Inspirou o perfume volátil que misturava gasolina queimada e o cheiro de alguma flor ou árvore, e tendo sobre a cabeça as primeiras estrelas, o pensamento acabou pegando o caminho mal sinalizado de um desses túneis da memória. E quando abriu totalmente a cortina da lembrança, viu que era domingo, desses também de outubro, em que o calor da primavera avisa como será o verão no Rio.
Era 1980, por aí, ele ainda não tinha 13 anos. Caminhava nem alegre nem triste pouco à frente do grupo barulhento de seus pais, tios e primos mais velhos. Chateado com assuntos de adulto, entrou por uma pequena trilha de pedra ao largo da Estrada das Paineiras e logo saiu numa clareira da mata. Deparou com o carro amarelo, igual ao que conseguira comprar depois de grande, estacionado junto a uma fonte d’água. A capota arriada deixou que ele visse braços que desciam e subiam, mãos que acariciavam om45 bros, rostos que se perdiam dentro dos cabelos. Escutou sussurros, palavras confusas, outros sons que tempos depois conheceu como estalos de beijos.
Menos de um minuto pode observar a cena. À moda de bichos que pressentem a chegada sorrateira dos homens, o casal interrompeu o amasso. O homem, ajeitando-se no banco do motorista, estava de costas, mas a garota ficou bem de frente e abaixou tão rápido a camiseta branca que se ele houvesse piscado os olhos não teriam sido aqueles os primeiros seios nus que viu na vida. Uma eletricidade estranha atravessou músculos que ele não imaginava existirem em seu corpo.
Era pequena, delgada, o tipo de garota que se faz bela exatamente porque é comum. Pele, cabelos, olhos, todos quase da cor da terra úmida da mata erguida atrás. O olhar pousado nele logo perdeu o constrangimento e tornou-se divertido, foi para sempre a referência imediata quando alguma mulher o olhava com malícia.
Renata, Marisa. Anos depois ainda achava que o cara a havia chamado por algum desses nomes, mas não tinha certeza porque foi exatamente nessa hora que a família chegou também pela trilha, gritando por ele, a mãe em voz alta “menino, assim você se perde”, fazendo-o mais pirralho e ridículo perante os vinte anos que a garota aparentava.
Voltou para casa sem pensar em seu time de botão, no campeonato da escola, nas figurinhas de Fórmula 1 repetidas. Durante a adolescência, a juventude, e tantas vezes já na fase adulta, pairou pelo escuro do quarto a imagem nua daquele corpo de mulher, flutuando na lua cheia entre os bancos de um carro esporte estacionado furtivamente junto à mata. E agora, depois que a noite caíra por completo, reduziu a velocidade para entrar forte numa curva, acelerar bem no meio dela, e ao final da reta que se anunciava, quem sabe, conseguir voltar no tempo.
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