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A minha forma de chorar sua ausência esta noite

– Toledo, é Brasília! Atende aqui. Tibúrcio, secretário de redação, levantou o fone preto acima da cabeça, sinalizando onde estava naquele imenso mundo de grandes mesas apinhadas uma junto à outra. Com a outra mão ergueu o corpo do aparelho para entregá-lo a Toledo, que vinha apressado, quase correndo, o nó da gravata praticamente na metade do peito, a barriga sobrando acima da cintura da calça. Tirou da boca o cigarro e com ele entre os dedos passou a mão na cabeça ajeitando os cabelos ralos.
Marão passou por mim e parou ao meu lado. Tirou um maço de minister do bolso.
– Toma, ontem filei dois teus – e ergueu o maço junto a mim.
Eu peguei sem me dar conta exatamente do que fazia. Prestava atenção em Toledo carregando o telefone para dentro de sua sala e fechando a porta com a bunda. Alguém da sucursal, no outro lado da linha, falou alguma coisa que mereceu dele um soco na mesa, não de raiva, mas sim de tensão. Eu lia em seus lábios palavrões cabeludos, e o braço, cuja mão segurava o cigarro, girava no ar ao som de puta-que-o-pariu pra cima. Em dado momento parou, ficou quieto. Só se mexeu para acender outro cigarro, que tragou forte duas vezes e deixou ficar queimando enquanto apenas ouvia o que lhe falavam de Brasília.
Assim que Toledo se aquietou, eu acendi o cigarro e me debrucei no janelão. Peguei de frente a luz do sol de janeiro, que às quatro e meia da tarde ainda ardia com tudo, a caminho das montanhas da Tijuca. – Porra, esse verão tá demais, pior que ano passado – eu falei meio para mim, meio para o nada, um pouco pro Marão que virava a garrafa de café do meu lado.
Todo verão eu achava pior que o anterior. O sol na minha cara, um fio de suor descendo da minha costeleta, outro da minha nuca, correndo pelas costas. A tragada do cigarro queimando minha garganta, o café do Marão jogando fumaça no inferno da tarde.
– Isso aqui hoje tá um cu de Zé – ele disse, interrompendo meus pensamentos que derretiam. – Já liguei pra casa e avisei que não tenho hora. Falei logo: olha, isso aqui tá um cu de Zé, nem sei se volto hoje. Quando a coisa apertava muito, Marão era de dormir no Jornal mesmo. De manhã a mulher trazia roupa nova, escova de dentes e os apetrechos para ele fazer a barba. Eu também já dormi no jornal, dias seguidos até. Quando pelo mundo afora matavam presidentes ou explodiam metrôs e embaixadas, eu dormia no jornal. Só que não tinha ninguém para me trazer roupa limpa. Durante uma certa época achei que Adalgisa algum dia pudesse fazer isso, agora quase não acredito mais. Hoje também me sinto cansado, sem enxergar sentido algum em perder noites por causa de acontecimentos que não mudam a minha vida.
Lá embaixo, pequeno que ficava visto de um 15o andar, um caminhão de som fazia a última convocação para o grande comício da moralidade na Cinelândia. Os ecos que a mim chegavam lá em cima pediam renúncia imediata e eleições em seis meses para limpar o mar de corrupção em que o país estava mergulhado.
Pequenos grupos, próximos uns dos outros, acompanhavam o veículo pela Presidente Vargas, carregando faixas de protesto e bandeiras de partidos. Traguei o cigarro até o filtro e lancei a guimba no espaço, pensando sem muita convicção em acertar o sindicalista que berrava naquele microfone distorcido. Como alguém que desliga a TV enfadado de um filme repetido, me virei ao encontro da redação. Marão se afastara um pouco, berrava ordens a um repórter, queria saber se o Governador iria ao comício ou acompanharia tudo do Palácio Guanabara.
No exato instante em que finalmente me enchi de coragem para ligar para Adalgisa e explicar o desenrolar dos acontecimentos, sabendo o que significaria aquele telefonema, Toledo saiu de sua sala e deu quatro ou cinco pancadas na sineta que mantinha em cima de um arquivo. Era assim que ele convocava toda a redação em casos de extrema urgência. Às vezes também fazia isso para chamar a atenção e contar uma piada daquelas que coravam as pedras e as mulheres, pelo menos no tempo em que as mulheres ainda coravam com certas piadas.
Mas pela cara, nosso bom e velho editor-chefe não tocara a sineta por causa de piadas. As máqui12 nas cessaram e as mãos que nelas redigiam ficaram suspensas, acompanharam olhos e rostos erguidos e aflitos no aguardo do mando que se seguiria e certamente tornaria aquela mais uma noite longa na vida de todos nós naquela sala. Quem telefonava desligou. Alguns amassaram o cigarro no cinzeiro. Apenas as máquinas de telex não entendiam que o momento exigia silêncio e permaneciam doidas enviando telegramas das agências de notícia.
O telefone tocou na minha mesa. Não atendi, muito mais porque achava pouco provável que fosse Adalgisa.
Toledo acendeu um cigarro e na primeira tragada parecia que puxava também as palavras. Estava mais calmo agora, embora a preocupação se fizesse em sua testa.
– A coisa tá fedendo em Brasília. A fumaça saiu espalhada de sua boca, desceu-lhe em jatos pelas ventas.
– O Presidente convocou todo o ministério para uma reunião de emergência, agora às seis da tarde. Dizem que vai renunciar, que vai entregar a carta pro ministro da justiça levar ao Congresso. As forças armadas estão de prontidão, já tem tanque se aproximando do palácio. Se ele não sair por bem, sai na marra. Quietos, esperávamos a parte que nos caberia.
– Vamos atrasar o fechamento do jornal. Só vai rodar quando a situação estiver mais resolvida. Bateu palmas duas vezes, dispersou a convocação. Cada um voltou para seu canto, sua máquina, seu tele13 fone. A engrenagem tornou a girar, tumultuada e aflita. Nossa noite longa começou antes que o sol caísse.
Como se houvéssemos ensaiado, nós, editores, ficamos parados onde estávamos, servindo de desvio para repórteres, redatores e copys que buscavam seus lugares na crise. Só nos mexemos quando Toledo apontou para cada um e para todos ao mesmo tempo, e praticamente num mesmo gesto espetou o indicador no ar, na direção de sua sala, aquele quadrado de compensado e vidro onde a nicotina substituía o oxigênio. Marão acendeu um cigarro, ofereceu outro ao Tibúrcio. Toledo pegou um café. Eu estava tenso e angustiado. Adalgisa não entenderia.
Com a janela fechada, a fumaça não se movia. Ficava estagnada, feito uma cortina suja em uma velha casa trancada. Azulava a cara do Toledo, do Marão e do Tibúrcio. Por trás dela Toledo explicava que queria seis páginas da política, outras tantas para o comício na cidade, os correspondentes e a reação em todo o país.
– De você – e apontou para mim, editor da parte internacional – a repercussão na Europa, liga para o Walfrido em Washington, fala praquele bosta preguiçoso que não é pra ficar enrolando, diz que a coisa tá feia e que tem que mandar muita matéria. Quero também a posição dos países vizinhos, a Bolívia passa por situação parecida. Na Argentina...
E a voz do Toledo foi caindo no desaparecimento, feito volume de rádio que vai se abaixando até sumir. Tudo porque o telefone tocou na minha mesa e vi o contínuo atender e anotar um recado. Fiquei olhando de longe aquele pedaço de papel, suscetível a qualquer vento repentino.
Bolívia, Argentina, embaixadas, o Walfrido, a Europa inteira. Adalgisa, maior que o mundo todo. Saí da sala do Toledo cheio de ordens incompreendidas. Meu coração veio na boca ao reconhecer, na caligrafia semialfabetizada do contínuo, as letras do nome de Adalgisa seguido do verbo no pretérito: ligou, assim mesmo, seco e objetivo, sem tempo a perder nunca mais comigo e com nossos planos.
Enquanto eu contava os toques demorados do telefone chamando, via sem enxergar um telegrama de agência. Quatro, cinco toques. O premier francês acredita que o Brasil encontrará uma solução democrática para a crise.
– Oi Adalgisa, sou eu. E o oi dela, contrafeito, carregava a distância das friezas da voz.
– É que a coisa tá complicada por aqui, lá em Brasília, tá tendo uma reunião, não sei se você ouviu, bem... o fechamento, o Toledo disse que não tem hora, e a gente tinha marcado de jantar na casa do Oscar e da Wilma... Respondeu ainda mais distante. Adalgisa escorria- me pelos dedos.
– Eu ouvi no rádio, sim, que o presidente deve renunciar, e você com certeza... Com a frase incompleta, ela mesma se respondia. Inseguro, eu também usava períodos não terminados, só que medrosos, para dizer que não seria possível o nosso encontro, o jantar com amigos, talvez nem a nossa vida, eu reconhecia, mas isso eu não disse, embora fosse do que eu mais tivesse certeza. Eu falava como quem circunda com o dedo aquela cicatriz que começa a secar e que nos enlouquece de coceira, sem que possamos coçar exatamente onde foi aberta a carne, para que não volte a sangrar. Mas Adalgisa começou a sangrar assim mesmo, com uma frase quase em silêncio de tão baixo que falou. Parecia mais decidida do que triste ou magoada.
– Bem, o jantar é às 8 e meia; se até uma hora antes você não se livrar disso aí, eu vou ligar pro Ruy para ele me levar.
Desligou. Fiquei com suas últimas palavras nos ouvidos, aos poucos vencidas por telefones e telex. Ruy era advogado famoso, defendia alguns dos corruptos envolvidos na lama do governo. Apareceu na vida de Adalgisa sete, oito meses antes, e foi rivalizando comigo, ganhando terreno à medida que pelo mundo matavam primeiros-ministros, davam tiros em papas ou implantavam ditaduras, e eu cancelava cinemas, teatros, bailes e jantares com Adalgisa, porque queriam seis páginas, porque queriam a repercussão sobre as Filipinas, porque tinha que esperar a radiofoto de Kyalami, porque o Toledo, porque o Toledo... merda, Toledo, Marão, Tibúrcio, Walfrido, Bolívia e Argentina. Presidente, vá renunciar na puta-que-o-pariu! Acendi um cigarro e cheguei à janela, controlei a vontade de também dar socos na mesa. Lá embai16 xo, cordões de alguma gente barulhenta seguiam pela calçada, feito colunas de formigas. Carregavam faixas, pediam um país melhor. Mas a maioria era mesmo de uma massa que atravessava em silêncio e sem ilusões os sinais da Presidente Vargas, indiferente a tudo, principalmente a mim. Lancei o cigarro no meio da cidade quando deram seis horas. Pela previsão a reunião estava começando lá em Brasília. Restava uma hora e meia para ligar para Adalgisa, o presidente renunciar, o país voltar à normalidade política e o jornal ficar pronto.
– As consequências aqui na Bolívia são imprevisíveis, dependerão muito do desenrolar dos fatos aí no Brasil – e a posição esquivada do embaixador entravame pelos ouvidos vazios. De vez em quando eu colocava um hã hã sem vontade naquela conversa que era praticamente um monólogo. Meus olhos desinteressados acompanharam Toledo desde o outro canto da sala até o momento em que passou na minha frente. O nó da gravata quase na metade do peito, a fralda da camisa solta, para fora da calça.
– A porra da reunião sequer começou. Aquele merda tá embromando, não quer largar o osso – e lá se foi Toledo berrando para todos e para ninguém em especial. Rolos de fumaça azul saíam da boca e se perdiam atrás de sua nuca.
Olhei a hora, mais de sete e quinze. Cortei o embaixador quando ele entusiasmado embalava nos reflexos no Chile, na Argentina e no Uruguai. Eu disse muito obrigado, que não faria mais perguntas, e ele desligou decepcionado.
Toledo voltava por onde veio, anunciando que outros tanques encostaram junto ao palácio. – Eu acho que esse sujeito só sai na base da porrada – e parou em frente à minha mesa, sem cerimônia, abrindo as calças e colocando para dentro a camisa amarfanhada. Pousou um copo de café fumegante e me perguntou, acendendo o cigarro que esperava no canto da boca:
– E a Bolívia, você falou? – embolava as palavras na fumaça que lhe saía metade pela boca, metade pelas ventas. Ergui em silêncio meu bloco encardido de outros acontecimentos. O embaixador rendera apenas alguns parcos rabiscos.
– Duas laudas. Não, melhor duas e meia – e me deu as costas, os fundilhos largos sobrando abaixo do períneo, a bunda chata sem contorno na fazenda da calça, a barriga enorme chegando sempre na frente de Toledo.
Nenhuma ideia surgia-me a partir de meus garranchos esparsos nas folhas do bloco. Palavras estavam soltas e frases pela metade não possuíam um significado que eu pudesse lembrar. Sequer um parágrafo de abertura que fizesse sentido era capaz de me vir à cabeça, quanto mais noventa linhas concatenadas.
Enverguei o pescoço com todo meu cansaço e desânimo e encostei de leve a testa na madeira escura da mesa que atravessara o século até ali, colecionando calada histórias de desespero iguais à minha.
Mantive-me assim por dois ou três minutos, o nariz imprensado no móvel, sentindo aquele cheiro defini18 tivo de velharia e óleo de peroba. Fechei os olhos com força para conseguir a escuridão total e de lá, quem sabe, alçar de vez a minha fuga. Mas não havia o botão do som que calasse as máquinas, os telefones e as vozes. Levantei o rosto esfregando nas vistas as costas das mãos, limpando uma espécie de choro ressecado. E tão logo recuperei a dimensão do ambiente, já dei com Toledo e seus gestos amplos de cigarro entre os dedos. O velho homem de imprensa era paternal e bonachão. Em dias normais teria reparado que uma dor profunda me roubara o prazer pela existência. Levaria-me aos botecos imundos da rua Uruguaiana e deitaria sua filosofia simples sobre trabalho, vida, amor, amizade e mulheres, que, se não resolvia meus problemas, me ajudava a encontrar outro ângulo, geralmente menos complicado, para eles. Mas não hoje, neste dia encalacrado para um país sem rumo.
– Brasília ligou. Os ministros estão chegando para a reunião. Um a um entrando no palácio, mas sem declarações. Só quem falará é o presidente – e com as mãos espalmadas fazia um gesto de quem colava um imenso cartaz na parede. Na verdade, Toledo enxergava, flutuando no ar rarefeito da redação, os contornos das letras garrafais de uma manchete pulsante: Do palácio só me tiram morto! Disse o presidente, ou algo parecido. Ia e voltava movido pela tensão entusiasmada dos fatos.
– A Bolívia, a Argentina, o Walfrido! – passou outra vez em frente à minha mesa e foi falando o resto pelo caminho, palavras que perdi na confusão da minha mente e no barulho da redação. Quando voltou, veio lançando a pergunta a todos e a ninguém ao mesmo tempo, deixando no ar para quem a pegasse primeiro:
– E o governador? Foi pro comício? – Tá saindo agora, tá indo pra lá – Marão respondeu de um canto que não pude ver.
Dentro da balbúrdia, o toque solitário do telefone vinha do outro lado da cidade. Tocava apenas para mim, para o meu ouvido direito imprensado pelo fone. No quarto toque, olhei o relógio: 19h29. Mais um e ela atendeu. A voz era de pressa e enfado ao mesmo tempo, sem que um fosse mais do que o outro. Adalgisa, você vai ao jantar? – e Toledo passou por mim, me olhou certo de que eu falava com a Bolívia, com o Walfrido, com a Argentina.
– Vou. Estou indo. Não tinha porque eu dizer que liguei na hora combinada e ela não estava me esperando. Eu sabia que ela sabia que não havia sentido me esperar.
– Talvez se pudéssemos remarcar para amanhã, ou no fim de semana, quando a coisa deve estar mais calma... – eu negociava feito um devedor que perdera todo crédito.
– O aniversário da Vilma é hoje. Fim de semana eles vão para Itaipava.
– E você...
– ...estou indo.
– ...com aquele...
– ...homem simpático, educado e muito gentil.
– Advogado de corrupto, de ladrão do dinheiro público.
– Profissional de respeito, que cumpre seu papel na sociedade.
– Que por dinheiro defende até o assassino da própria mãe. Até Hitler, se ele pagasse bem...
– Como os jornalistas, que escrevem contra ou a favor, dependendo do interesse do dono do jornal. Eu dei um soco na mesa, o mesmo que há mais de uma hora eu segurava. Berrei, tentando recuperar o controle.
– Porra, Adalgisa! O país tá indo pro buraco, ninguém sabe quem vai mandar nessa merda amanhã e você preocupada com um jantar de uma fresca que só se importa com festas e varizes?
Toledo passou de volta e fez um sinal de aprovação com o polegar: “dá duro, aperta ele”, achando que eu falava com o Walfrido.
Adalgisa suspirou, aborrecida de perder tempo comigo e minha pregação ideológica arranjada às pressas.
– O Ruy está buzinando lá fora. Preciso ir.
– Você quer que eu faça o quê? Que eu largue o jornal sem fechamento e vá me enfurnar no apartamento hipotecado da tua amiga pra ouvir sobre as infidelidades de mais duas ou três imbecis feito ela?
– O Ruy está esperando na portaria. Já são quase oito horas.
– Você sabia da minha vida quando nos conhecemos. Quer que eu largue tudo por causa da sua vida social? Tudo bem, me dê um tempo, eu vou vender seguros, vou virar corretor de imóveis.
– O Ruy, não é educado fazer esperar tanto. Ainda tenho que comprar umas flores para a Vilma. Ela desligou quando eu estava a ponto de partir para a agressão moral. Bati com força o telefone e me lembrei que nos últimos tempos ele vinha apanhando muito por culpa de Adalgisa.
– O porta-voz do governo falou há pouco com os jornalistas. O presidente se recusa a entregar o cargo ao vice. Taí o imbróglio. Nem sei como isso termina
– Toledo parou em frente a mim. Peguei dele um cigarro que acendi sem perceber. Adalgisa! O presidente e o vice estão rompidos, e no fim da noite aquele advogado de ladrão – e ladrão por tabela – vai tentar meter a mão nos teus peitos no banco de couro do carrão americano dele.
A Bolívia, a Argentina, a Europa e o Walfrido.
– Alô, Walfrido, porra! Não vai passar matéria, não? O que o presidente americano acha? Ele já sabe que no Brasil macaco não anda na rua? Walfrido, o jornal não te paga pra ficar passeando nos States, não! Noventa linhas daí também – e bati o telefone outra vez.
Nada me restava, a não ser desses vazios que o amor deixa na gente e três ou quatro páginas de jornal para serem escritas.
Dobrei as mangas da camisa e as bainhas da calça. Folguei o nó da gravata até que parecesse um laço aguardando o último instante do enforcado. Tirei os sapatos. Em momentos de aperto no jornal eu gosta22 va de andar só de meias, escorregando pela escuridão do sinteco gasto. Adalgisa – e sozinho fui falando até o café, onde acendi um cigarro –, você vai ver a melhor cobertura de uma editoria internacional sobre a crise no Brasil, essa vai ser a minha forma de chorar sua ausência esta noite. Fumei com raiva, tentando organizar na mente a disposição dos telegramas mandados pelas agências internacionais, a matéria do Walfrido e o que me falou o embaixador, aquela merda das notas que tomei.
– Embaixador, desculpe o horário e o incômodo, tê-lo tirado da cama. E quem dorme com uma crise dessas, não é mesmo? É que faltaram algumas perguntas.
E o homem se empolga, retomando suas impressões. Anoto até mais do que preciso.
– Toledo, olha aqui, a Bolívia. Deram 120 linhas.
– Corta! Tá louco, tudo isso! Você vai ver, Adalgisa, a melhor cobertura, o meu compromisso é com a verdade, é com o povo desse país. Vou esfregar o meu jornal na cara desse otário que tá te levando na conversa.
Cortei trinta linhas da Bolívia. Escrevi outras trinta sobre os negócios escusos que dois clientes do Ruy mantinham com a carteira de exportação do Banco do Brasil. Todos os fatos precisam ser trazidos à luz da moralidade de um novo governo, botei lá pelo meio da página, e falei em cadeia, em ressarcimento à nação. Adalgisa veria a minha forma de chorar sua ausência esta noite.
Já eram quase onze horas quando a mão pesada de Toledo tocou outra vez a campainha. Duas convocações de emergência em poucas horas; aquele era realmente um dia histórico no jornal.
– O presidente está irredutível! – Toledo falava em tom de tribuna quando a ocasião era grave ou solene. Ainda estava tenso e vibrante, mas já se notava o cansaço do dia tentando golpear seu fôlego entusiasmado. Soprou a fumaça da primeira tragada do cigarro.
– Ele diz que não renuncia, acha que ainda tem apoio de parte do povo e das forças armadas. O ministro da Justiça resolveu entregar o cargo na reunião. O ministro do Exército tenta negociar antes de mandar as tropas invadirem o palácio.
Olhos pesados fitavam Toledo. Outra vez apenas o destempero das máquinas de telex e os telefones, que insistiam, abandonados nas mesas. Olivettis, Remingtons e pessoas em silêncio aguardavam ordens feito uma trincheira que há três dias não dorme esperando um ataque. Olhei o relógio. Os jantares na casa de Vilma acabavam sempre entre onze e meia e meia-noite.
– Vamos rodar com o que temos – e o comandante comunicou sua decisão aos entrincheirados. – Mas ninguém sai, todo mundo fica. Quando a coisa acontecer, rodamos edição extra. Meio humanos, meio máquinas, voltamos aos nossos lugares.
– Oi, Vilma, perdão por não ter ido. Hoje é um dia daqueles. Adalgisa pode atender?
Deixou-me esperando com a desfaçatez normal. Pelo telefone largado em algum canto da casa, eu ouvia bater de talheres e encontrar de copos, risos e vozes, entre elas a de Adalgisa, que de repente calou.
Trinta, quarenta segundos se passaram e ouvi passos destacados dos outros ruídos, se aproximando do aparelho. Uma coisa gelada subiu-me do estômago, passou queimando pela garganta e ficou na boca sem sair nem voltar.
– Ela não quer falar com você – e fez do silêncio o conselho para que eu não insistisse.
Fui até o janelão onde o corpo encarcerado dava fuga à alma oprimida. Lá embaixo, manifestantes voltavam do comício decepcionados, estavam crentes que o pulha largaria tudo sem demora. A noite sem vento tinha cheiro de óleo diesel e maresia, ou daquele café morno, vencido pelas horas, que me arrancou o gelado da boca. Um tempo nublado, abafado e estático sustentava o céu desde os lados da Praça da Bandeira até as bandas da Praça Mauá. Chovia em minha cabeça, um temporal de angústia e tristeza. Tocaram-me o ombro e voltei àquele mundo chapeado de luzes brancas. Era o Tibúrcio.
– Estamos por conta do Walfrido. A internacional é a única coisa que falta rodar e ele não manda a matéria.
Joguei pra trás, em direção à janela, o cigarro que acabara de acender, e a passos largos e decididos fui até minha mesa. Vilma, aquela vaca, nunca foi com a minha cara mesmo, deve estar enchendo os ouvidos da Adalgisa, doida pra ela se acertar com o advogadozinho ladrão, pra ver se ele mexe os pauzinhos junto aos corruptos pra tirar ela e o marido da merda em que estão.
– Walfrido, porra! Tá de brincadeira? Manda essa merda logo que aqui ninguém tem a vida toda pra te esperar, não! – e bati o telefone chamando a atenção de quem estava próximo, e também do Toledo, invariavelmente de um lado a outro.
– Isso! Dá duro nesse merda! – e parou sacudindo a garrafa vazia de café. Perguntou pra todos e outra vez para ninguém se não se fazia mais café naquela redação.
– Não, não está mais. Ela já foi embora há uns quarenta minutos. O Ruy foi levá-la em casa – e fiquei ouvindo a hostilidade silenciosa de Vilma. Toledo vinha ao meu encontro dizendo que uma garrafa de café fresco já estava a caminho.
– Desligou? Eu queria ter uma conversinha com esse merda. Acho que vou demitir esse cara – e retomou seu périplo interminável.
Os toques do telefone atravessavam a cidade, mas chegavam a mim descrentes e sem esperança. Há mais de duas horas eu ligara para a casa da Vilma, e de lá à casa de Adalgisa não eram mais do que vinte minutos. Isso se outros caminhos não a levassem para outro lugar.
O telefone ainda insistia no impossível quando jogaram em minha mesa o telex com a matéria do Walfrido. Tive que cortar vinte linhas e ainda reescrever os dois últimos parágrafos. Esse merda ganha em dólar pra eu ficar consertando o trabalho dele! Me manda pra Washington, Toledo, pra Roma, pro Burundi, pra qualquer lugar em que o telefone não toque sem resposta no meio da madrugada.
De novo na janela, eu engolia o café insuportável, mas nem ele vencia mais aquela coisa gelada que encrostou em minha boca feito lodo em muro úmido.
Na calçada, uma fila de Kombis era carregada com os exemplares do jornal que saíam da gráfica direto para as bancas. Um ou outro trabalhador da madrugada parava e comprava ali mesmo o jornal, levando no papel ainda quente das prensas as notícias alarmantes que não fariam diferente o dia de cada um.
– O ministro do exército mandou chamar de volta o ministro da justiça. Já estão lá há quase duas horas. Ninguém entra e ninguém sai, ninguém diz nada, não acontece nada – e Toledo começou a falar assim que passou por mim e me tocou o ombro. Quando virei-me, dei com ele se esforçando para nos deixar a par dos últimos acontecimentos. Aquele ímpeto do início da noite fora vencido pelo cansaço, e ele não tinha mais forças para se fazer ouvir por toda a redação.
Nos cantos mais distantes da sala, repórteres, redatores e copys dormiam com a cara enfiada nas máquinas, aproveitando a mudez passageira do telex. O telefone deu dez, quinze toques, em cada uma das outras três ou quatro vezes que liguei. Chamava em vão no meio do silêncio, feito alguém sozinho que passa mal de madrugada e que morre aos poucos pedindo socorro sem ser ouvido. De tanto que liguei, o barulho renitente das chamadas ficou na minha cabeça se repetindo feito conselho de mais velho, falando que era besteira insistir. Depois das quatro da manhã deixei para lá. Acabei cochilando aquele sono estremecido de quem tem a mente perturbada e o corpo mal acomodado numa cadeira de escritório.
Todos também dormiram, guardados pela estagnação dos fatos em Brasília. Nem Toledo resistiu; esparramou- se em sua cadeira giratória de chefe, os pés na mesa, a respiração difícil saindo-lhe pela boca em roncos tremendos.
Acordei com a claridade do dia tomando aos poucos o janelão. Uma aragem quente revirava papéis sem importância àquela altura. As luzes brancas da sala esperavam a chegada do sol. Olhei em volta duvidando se o dia anterior havia realmente acabado.
No jornal, às vezes, parecia que o tempo não se dividia em noites e dias. Senti as pernas fracas e um vazio apertando o peito lá por dentro. Um telefone tocou acordando outros dois ou três, entre eles o Tibúrcio.
– Toledo, Brasília. Atende aqui.
E Toledo também acordou. Veio pesado com sua barriga e sua velhice precoce, esbarrando de sono nas cadeiras e mesas que estavam pela frente. Depois de uma arrastada negociação, o presidente renunciou às cinco e quinze da manhã, hora em que Ruy deixou Adalgisa em casa.
Às seis e meia a mulher do Marão chegou trazendo umas roupas para ele.
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