A minha forma de chorar sua ausência esta noite

– Toledo, é Brasília! Atende aqui.
Tibúrcio, secretário de redação, levantou o fone
preto acima da cabeça, sinalizando onde estava naquele
imenso mundo de grandes mesas apinhadas
uma junto à outra. Com a outra mão ergueu o corpo
do aparelho para entregá-lo a Toledo, que vinha
apressado, quase correndo, o nó da gravata praticamente
na metade do peito, a barriga sobrando acima
da cintura da calça. Tirou da boca o cigarro e com ele
entre os dedos passou a mão na cabeça ajeitando os
cabelos ralos.

Marão passou por mim e parou ao meu lado. Tirou
um maço de minister do bolso.

– Toma, ontem filei dois teus – e ergueu o maço
junto a mim.

Eu peguei sem me dar conta exatamente do que
fazia. Prestava atenção em Toledo carregando o telefone
para dentro de sua sala e fechando a porta com
a bunda. Alguém da sucursal, no outro lado da linha,
falou alguma coisa que mereceu dele um soco na
mesa, não de raiva, mas sim de tensão. Eu lia em seus
lábios palavrões cabeludos, e o braço, cuja mão segurava
o cigarro, girava no ar ao som de puta-que-o-pariu
pra cima. Em dado momento parou, ficou quieto.
Só se mexeu para acender outro cigarro, que tragou
forte duas vezes e deixou ficar queimando enquanto
apenas ouvia o que lhe falavam de Brasília.

Assim que Toledo se aquietou, eu acendi o cigarro
e me debrucei no janelão. Peguei de frente a luz do
sol de janeiro, que às quatro e meia da tarde ainda ardia
com tudo, a caminho das montanhas da Tijuca.
– Porra, esse verão tá demais, pior que ano passado
– eu falei meio para mim, meio para o nada, um pouco
pro Marão que virava a garrafa de café do meu lado.

Todo verão eu achava pior que o anterior. O sol
na minha cara, um fio de suor descendo da minha
costeleta, outro da minha nuca, correndo pelas costas.
A tragada do cigarro queimando minha garganta, o
café do Marão jogando fumaça no inferno da tarde.

– Isso aqui hoje tá um cu de Zé – ele disse, interrompendo
meus pensamentos que derretiam. – Já liguei
pra casa e avisei que não tenho hora. Falei logo:
olha, isso aqui tá um cu de Zé, nem sei se volto hoje.
Quando a coisa apertava muito, Marão era de
dormir no Jornal mesmo. De manhã a mulher trazia
roupa nova, escova de dentes e os apetrechos para ele
fazer a barba. Eu também já dormi no jornal, dias seguidos
até. Quando pelo mundo afora matavam presidentes
ou explodiam metrôs e embaixadas, eu dormia
no jornal. Só que não tinha ninguém para me
trazer roupa limpa. Durante uma certa época achei
que Adalgisa algum dia pudesse fazer isso, agora quase
não acredito mais. Hoje também me sinto cansado,
sem enxergar sentido algum em perder noites por causa
de acontecimentos que não mudam a minha vida.

Lá embaixo, pequeno que ficava visto de um 15o
andar, um caminhão de som fazia a última convocação
para o grande comício da moralidade na Cinelândia.
Os ecos que a mim chegavam lá em cima pediam
renúncia imediata e eleições em seis meses para
limpar o mar de corrupção em que o país estava mergulhado.

Pequenos grupos, próximos uns dos outros,
acompanhavam o veículo pela Presidente Vargas, carregando
faixas de protesto e bandeiras de partidos.
Traguei o cigarro até o filtro e lancei a guimba no
espaço, pensando sem muita convicção em acertar o
sindicalista que berrava naquele microfone distorcido.
Como alguém que desliga a TV enfadado de um
filme repetido, me virei ao encontro da redação. Marão
se afastara um pouco, berrava ordens a um repórter,
queria saber se o Governador iria ao comício ou
acompanharia tudo do Palácio Guanabara.

No exato instante em que finalmente me enchi
de coragem para ligar para Adalgisa e explicar o desenrolar
dos acontecimentos, sabendo o que significaria
aquele telefonema, Toledo saiu de sua sala e deu
quatro ou cinco pancadas na sineta que mantinha
em cima de um arquivo. Era assim que ele convocava
toda a redação em casos de extrema urgência. Às vezes
também fazia isso para chamar a atenção e contar
uma piada daquelas que coravam as pedras e as mulheres,
pelo menos no tempo em que as mulheres ainda
coravam com certas piadas.

Mas pela cara, nosso bom e velho editor-chefe
não tocara a sineta por causa de piadas. As máqui12
nas cessaram e as mãos que nelas redigiam ficaram
suspensas, acompanharam olhos e rostos erguidos e
aflitos no aguardo do mando que se seguiria e certamente
tornaria aquela mais uma noite longa na vida
de todos nós naquela sala. Quem telefonava desligou.
Alguns amassaram o cigarro no cinzeiro. Apenas as
máquinas de telex não entendiam que o momento
exigia silêncio e permaneciam doidas enviando telegramas
das agências de notícia.

O telefone tocou na minha mesa. Não atendi,
muito mais porque achava pouco provável que fosse
Adalgisa.

Toledo acendeu um cigarro e na primeira tragada
parecia que puxava também as palavras. Estava mais
calmo agora, embora a preocupação se fizesse em sua
testa.

– A coisa tá fedendo em Brasília.
A fumaça saiu espalhada de sua boca, desceu-lhe
em jatos pelas ventas.

– O Presidente convocou todo o ministério para
uma reunião de emergência, agora às seis da tarde. Dizem
que vai renunciar, que vai entregar a carta pro ministro
da justiça levar ao Congresso. As forças armadas
estão de prontidão, já tem tanque se aproximando do
palácio. Se ele não sair por bem, sai na marra.
Quietos, esperávamos a parte que nos caberia.

– Vamos atrasar o fechamento do jornal. Só vai
rodar quando a situação estiver mais resolvida.
Bateu palmas duas vezes, dispersou a convocação.
Cada um voltou para seu canto, sua máquina, seu tele13
fone. A engrenagem tornou a girar, tumultuada e aflita.
Nossa noite longa começou antes que o sol caísse.

Como se houvéssemos ensaiado, nós, editores,
ficamos parados onde estávamos, servindo de desvio
para repórteres, redatores e copys que buscavam
seus lugares na crise. Só nos mexemos quando Toledo
apontou para cada um e para todos ao mesmo tempo,
e praticamente num mesmo gesto espetou o indicador
no ar, na direção de sua sala, aquele quadrado
de compensado e vidro onde a nicotina substituía o
oxigênio. Marão acendeu um cigarro, ofereceu outro
ao Tibúrcio. Toledo pegou um café. Eu estava tenso e
angustiado. Adalgisa não entenderia.

Com a janela fechada, a fumaça não se movia. Ficava
estagnada, feito uma cortina suja em uma velha
casa trancada. Azulava a cara do Toledo, do Marão e
do Tibúrcio. Por trás dela Toledo explicava que queria
seis páginas da política, outras tantas para o comício
na cidade, os correspondentes e a reação em todo
o país.

– De você – e apontou para mim, editor da parte
internacional – a repercussão na Europa, liga para
o Walfrido em Washington, fala praquele bosta preguiçoso
que não é pra ficar enrolando, diz que a coisa
tá feia e que tem que mandar muita matéria. Quero
também a posição dos países vizinhos, a Bolívia passa
por situação parecida. Na Argentina...

E a voz do Toledo foi caindo no desaparecimento,
feito volume de rádio que vai se abaixando até sumir.
Tudo porque o telefone tocou na minha mesa
e vi o contínuo atender e anotar um recado. Fiquei
olhando de longe aquele pedaço de papel, suscetível a
qualquer vento repentino.

Bolívia, Argentina, embaixadas, o Walfrido, a
Europa inteira. Adalgisa, maior que o mundo todo.
Saí da sala do Toledo cheio de ordens incompreendidas.
Meu coração veio na boca ao reconhecer, na
caligrafia semialfabetizada do contínuo, as letras do
nome de Adalgisa seguido do verbo no pretérito: ligou,
assim mesmo, seco e objetivo, sem tempo a perder
nunca mais comigo e com nossos planos.

Enquanto eu contava os toques demorados do
telefone chamando, via sem enxergar um telegrama
de agência. Quatro, cinco toques. O premier francês
acredita que o Brasil encontrará uma solução democrática
para a crise.

– Oi Adalgisa, sou eu.
E o oi dela, contrafeito, carregava a distância das
friezas da voz.

– É que a coisa tá complicada por aqui, lá em
Brasília, tá tendo uma reunião, não sei se você ouviu,
bem... o fechamento, o Toledo disse que não tem
hora, e a gente tinha marcado de jantar na casa do
Oscar e da Wilma...
Respondeu ainda mais distante. Adalgisa escorria-
me pelos dedos.

– Eu ouvi no rádio, sim, que o presidente deve
renunciar, e você com certeza...
Com a frase incompleta, ela mesma se respondia.
Inseguro, eu também usava períodos não terminados,
só que medrosos, para dizer que não seria possível o
nosso encontro, o jantar com amigos, talvez nem a
nossa vida, eu reconhecia, mas isso eu não disse, embora
fosse do que eu mais tivesse certeza. Eu falava
como quem circunda com o dedo aquela cicatriz que
começa a secar e que nos enlouquece de coceira, sem
que possamos coçar exatamente onde foi aberta a carne,
para que não volte a sangrar. Mas Adalgisa começou
a sangrar assim mesmo, com uma frase quase em
silêncio de tão baixo que falou. Parecia mais decidida
do que triste ou magoada.

– Bem, o jantar é às 8 e meia; se até uma hora
antes você não se livrar disso aí, eu vou ligar pro Ruy
para ele me levar.

Desligou. Fiquei com suas últimas palavras nos
ouvidos, aos poucos vencidas por telefones e telex.
Ruy era advogado famoso, defendia alguns dos
corruptos envolvidos na lama do governo. Apareceu na
vida de Adalgisa sete, oito meses antes, e foi rivalizando
comigo, ganhando terreno à medida que pelo mundo
matavam primeiros-ministros, davam tiros em papas
ou implantavam ditaduras, e eu cancelava cinemas, teatros,
bailes e jantares com Adalgisa, porque queriam
seis páginas, porque queriam a repercussão sobre as Filipinas,
porque tinha que esperar a radiofoto de Kyalami,
porque o Toledo, porque o Toledo... merda, Toledo,
Marão, Tibúrcio, Walfrido, Bolívia e Argentina.
Presidente, vá renunciar na puta-que-o-pariu!
Acendi um cigarro e cheguei à janela, controlei
a vontade de também dar socos na mesa. Lá embai16
xo, cordões de alguma gente barulhenta seguiam pela
calçada, feito colunas de formigas. Carregavam faixas,
pediam um país melhor. Mas a maioria era mesmo de
uma massa que atravessava em silêncio e sem ilusões os
sinais da Presidente Vargas, indiferente a tudo, principalmente
a mim. Lancei o cigarro no meio da cidade
quando deram seis horas. Pela previsão a reunião estava
começando lá em Brasília. Restava uma hora e meia
para ligar para Adalgisa, o presidente renunciar, o país
voltar à normalidade política e o jornal ficar pronto.

– As consequências aqui na Bolívia são imprevisíveis,
dependerão muito do desenrolar dos fatos aí no
Brasil – e a posição esquivada do embaixador entravame
pelos ouvidos vazios. De vez em quando eu colocava
um hã hã sem vontade naquela conversa que era
praticamente um monólogo. Meus olhos desinteressados
acompanharam Toledo desde o outro canto da
sala até o momento em que passou na minha frente.
O nó da gravata quase na metade do peito, a fralda da
camisa solta, para fora da calça.

– A porra da reunião sequer começou. Aquele
merda tá embromando, não quer largar o osso – e lá
se foi Toledo berrando para todos e para ninguém em
especial. Rolos de fumaça azul saíam da boca e se perdiam
atrás de sua nuca.

Olhei a hora, mais de sete e quinze. Cortei o embaixador
quando ele entusiasmado embalava nos reflexos
no Chile, na Argentina e no Uruguai. Eu disse
muito obrigado, que não faria mais perguntas, e ele
desligou decepcionado.

Toledo voltava por onde veio, anunciando que
outros tanques encostaram junto ao palácio.
– Eu acho que esse sujeito só sai na base da porrada
– e parou em frente à minha mesa, sem cerimônia,
abrindo as calças e colocando para dentro a camisa
amarfanhada. Pousou um copo de café fumegante e
me perguntou, acendendo o cigarro que esperava no
canto da boca:

– E a Bolívia, você falou? – embolava as palavras
na fumaça que lhe saía metade pela boca, metade pelas
ventas. Ergui em silêncio meu bloco encardido de
outros acontecimentos. O embaixador rendera apenas
alguns parcos rabiscos.

– Duas laudas. Não, melhor duas e meia – e me
deu as costas, os fundilhos largos sobrando abaixo do
períneo, a bunda chata sem contorno na fazenda da
calça, a barriga enorme chegando sempre na frente
de Toledo.

Nenhuma ideia surgia-me a partir de meus garranchos
esparsos nas folhas do bloco. Palavras estavam
soltas e frases pela metade não possuíam um significado
que eu pudesse lembrar. Sequer um parágrafo de
abertura que fizesse sentido era capaz de me vir à cabeça,
quanto mais noventa linhas concatenadas.

Enverguei o pescoço com todo meu cansaço e
desânimo e encostei de leve a testa na madeira escura
da mesa que atravessara o século até ali, colecionando
calada histórias de desespero iguais à minha.

Mantive-me assim por dois ou três minutos, o nariz
imprensado no móvel, sentindo aquele cheiro defini18
tivo de velharia e óleo de peroba. Fechei os olhos com
força para conseguir a escuridão total e de lá, quem
sabe, alçar de vez a minha fuga. Mas não havia o botão
do som que calasse as máquinas, os telefones e as
vozes. Levantei o rosto esfregando nas vistas as costas
das mãos, limpando uma espécie de choro ressecado.
E tão logo recuperei a dimensão do ambiente, já dei
com Toledo e seus gestos amplos de cigarro entre os
dedos. O velho homem de imprensa era paternal e
bonachão. Em dias normais teria reparado que uma
dor profunda me roubara o prazer pela existência.
Levaria-me aos botecos imundos da rua Uruguaiana
e deitaria sua filosofia simples sobre trabalho, vida,
amor, amizade e mulheres, que, se não resolvia meus
problemas, me ajudava a encontrar outro ângulo, geralmente
menos complicado, para eles. Mas não hoje,
neste dia encalacrado para um país sem rumo.

– Brasília ligou. Os ministros estão chegando
para a reunião. Um a um entrando no palácio, mas
sem declarações. Só quem falará é o presidente – e
com as mãos espalmadas fazia um gesto de quem colava
um imenso cartaz na parede. Na verdade, Toledo
enxergava, flutuando no ar rarefeito da redação, os
contornos das letras garrafais de uma manchete pulsante:
Do palácio só me tiram morto! Disse o presidente,
ou algo parecido. Ia e voltava movido pela
tensão entusiasmada dos fatos.

– A Bolívia, a Argentina, o Walfrido! – passou
outra vez em frente à minha mesa e foi falando o resto
pelo caminho, palavras que perdi na confusão da
minha mente e no barulho da redação. Quando voltou,
veio lançando a pergunta a todos e a ninguém ao
mesmo tempo, deixando no ar para quem a pegasse
primeiro:

– E o governador? Foi pro comício?
– Tá saindo agora, tá indo pra lá – Marão respondeu
de um canto que não pude ver.

Dentro da balbúrdia, o toque solitário do telefone
vinha do outro lado da cidade. Tocava apenas para
mim, para o meu ouvido direito imprensado pelo
fone. No quarto toque, olhei o relógio: 19h29. Mais
um e ela atendeu. A voz era de pressa e enfado ao mesmo
tempo, sem que um fosse mais do que o outro.
Adalgisa, você vai ao jantar? – e Toledo passou
por mim, me olhou certo de que eu falava com a Bolívia,
com o Walfrido, com a Argentina.

– Vou. Estou indo.
Não tinha porque eu dizer que liguei na hora
combinada e ela não estava me esperando. Eu sabia
que ela sabia que não havia sentido me esperar.

– Talvez se pudéssemos remarcar para amanhã,
ou no fim de semana, quando a coisa deve estar mais
calma... – eu negociava feito um devedor que perdera
todo crédito.

– O aniversário da Vilma é hoje. Fim de semana
eles vão para Itaipava.

– E você...

– ...estou indo.

– ...com aquele...

– ...homem simpático, educado e muito gentil.

– Advogado de corrupto, de ladrão do dinheiro
público.

– Profissional de respeito, que cumpre seu papel
na sociedade.

– Que por dinheiro defende até o assassino da
própria mãe. Até Hitler, se ele pagasse bem...

– Como os jornalistas, que escrevem contra ou a
favor, dependendo do interesse do dono do jornal.
Eu dei um soco na mesa, o mesmo que há mais
de uma hora eu segurava. Berrei, tentando recuperar
o controle.

– Porra, Adalgisa! O país tá indo pro buraco, ninguém
sabe quem vai mandar nessa merda amanhã e
você preocupada com um jantar de uma fresca que só
se importa com festas e varizes?

Toledo passou de volta e fez um sinal de aprovação
com o polegar: “dá duro, aperta ele”, achando
que eu falava com o Walfrido.

Adalgisa suspirou, aborrecida de perder tempo
comigo e minha pregação ideológica arranjada às
pressas.

– O Ruy está buzinando lá fora. Preciso ir.

– Você quer que eu faça o quê? Que eu largue o
jornal sem fechamento e vá me enfurnar no apartamento
hipotecado da tua amiga pra ouvir sobre as infidelidades
de mais duas ou três imbecis feito ela?

– O Ruy está esperando na portaria. Já são quase
oito horas.

– Você sabia da minha vida quando nos conhecemos.
Quer que eu largue tudo por causa da sua vida
social? Tudo bem, me dê um tempo, eu vou vender
seguros, vou virar corretor de imóveis.

– O Ruy, não é educado fazer esperar tanto. Ainda
tenho que comprar umas flores para a Vilma.
Ela desligou quando eu estava a ponto de partir
para a agressão moral. Bati com força o telefone e me
lembrei que nos últimos tempos ele vinha apanhando
muito por culpa de Adalgisa.

– O porta-voz do governo falou há pouco com os
jornalistas. O presidente se recusa a entregar o cargo
ao vice. Taí o imbróglio. Nem sei como isso termina

– Toledo parou em frente a mim. Peguei dele um cigarro
que acendi sem perceber. Adalgisa! O presidente
e o vice estão rompidos, e no fim da noite aquele
advogado de ladrão – e ladrão por tabela – vai tentar
meter a mão nos teus peitos no banco de couro do
carrão americano dele.

A Bolívia, a Argentina, a Europa e o Walfrido.

– Alô, Walfrido, porra! Não vai passar matéria,
não? O que o presidente americano acha? Ele já sabe
que no Brasil macaco não anda na rua? Walfrido, o jornal
não te paga pra ficar passeando nos States, não! Noventa
linhas daí também – e bati o telefone outra vez.

Nada me restava, a não ser desses vazios que o
amor deixa na gente e três ou quatro páginas de jornal
para serem escritas.

Dobrei as mangas da camisa e as bainhas da calça.
Folguei o nó da gravata até que parecesse um laço
aguardando o último instante do enforcado. Tirei os
sapatos. Em momentos de aperto no jornal eu gosta22
va de andar só de meias, escorregando pela escuridão
do sinteco gasto. Adalgisa – e sozinho fui falando até
o café, onde acendi um cigarro –, você vai ver a melhor
cobertura de uma editoria internacional sobre a
crise no Brasil, essa vai ser a minha forma de chorar
sua ausência esta noite. Fumei com raiva, tentando
organizar na mente a disposição dos telegramas
mandados pelas agências internacionais, a matéria do
Walfrido e o que me falou o embaixador, aquela merda
das notas que tomei.

– Embaixador, desculpe o horário e o incômodo,
tê-lo tirado da cama. E quem dorme com uma
crise dessas, não é mesmo? É que faltaram algumas
perguntas.

E o homem se empolga, retomando suas impressões.
Anoto até mais do que preciso.

– Toledo, olha aqui, a Bolívia. Deram 120 linhas.

– Corta! Tá louco, tudo isso!
Você vai ver, Adalgisa, a melhor cobertura, o meu
compromisso é com a verdade, é com o povo desse
país. Vou esfregar o meu jornal na cara desse otário
que tá te levando na conversa.

Cortei trinta linhas da Bolívia. Escrevi outras
trinta sobre os negócios escusos que dois clientes do
Ruy mantinham com a carteira de exportação do
Banco do Brasil. Todos os fatos precisam ser trazidos
à luz da moralidade de um novo governo, botei
lá pelo meio da página, e falei em cadeia, em ressarcimento
à nação. Adalgisa veria a minha forma de chorar
sua ausência esta noite.

Já eram quase onze horas quando a mão pesada
de Toledo tocou outra vez a campainha. Duas convocações
de emergência em poucas horas; aquele era realmente
um dia histórico no jornal.

– O presidente está irredutível! – Toledo falava em
tom de tribuna quando a ocasião era grave ou solene.
Ainda estava tenso e vibrante, mas já se notava o cansaço
do dia tentando golpear seu fôlego entusiasmado.
Soprou a fumaça da primeira tragada do cigarro.

– Ele diz que não renuncia, acha que ainda tem
apoio de parte do povo e das forças armadas. O ministro
da Justiça resolveu entregar o cargo na reunião.
O ministro do Exército tenta negociar antes de mandar
as tropas invadirem o palácio.

Olhos pesados fitavam Toledo. Outra vez apenas
o destempero das máquinas de telex e os telefones,
que insistiam, abandonados nas mesas. Olivettis, Remingtons
e pessoas em silêncio aguardavam ordens
feito uma trincheira que há três dias não dorme esperando
um ataque. Olhei o relógio. Os jantares na
casa de Vilma acabavam sempre entre onze e meia e
meia-noite.

– Vamos rodar com o que temos – e o comandante
comunicou sua decisão aos entrincheirados. –
Mas ninguém sai, todo mundo fica. Quando a coisa
acontecer, rodamos edição extra.
Meio humanos, meio máquinas, voltamos aos
nossos lugares.

– Oi, Vilma, perdão por não ter ido. Hoje é um
dia daqueles. Adalgisa pode atender?

Deixou-me esperando com a desfaçatez normal.
Pelo telefone largado em algum canto da casa, eu ouvia
bater de talheres e encontrar de copos, risos e vozes,
entre elas a de Adalgisa, que de repente calou.

Trinta, quarenta segundos se passaram e ouvi passos
destacados dos outros ruídos, se aproximando do
aparelho. Uma coisa gelada subiu-me do estômago,
passou queimando pela garganta e ficou na boca sem
sair nem voltar.

– Ela não quer falar com você – e fez do silêncio
o conselho para que eu não insistisse.

Fui até o janelão onde o corpo encarcerado dava
fuga à alma oprimida. Lá embaixo, manifestantes
voltavam do comício decepcionados, estavam crentes
que o pulha largaria tudo sem demora. A noite sem
vento tinha cheiro de óleo diesel e maresia, ou daquele
café morno, vencido pelas horas, que me arrancou
o gelado da boca. Um tempo nublado, abafado e estático
sustentava o céu desde os lados da Praça da Bandeira
até as bandas da Praça Mauá. Chovia em minha
cabeça, um temporal de angústia e tristeza.
Tocaram-me o ombro e voltei àquele mundo
chapeado de luzes brancas. Era o Tibúrcio.

– Estamos por conta do Walfrido. A internacional
é a única coisa que falta rodar e ele não manda a
matéria.

Joguei pra trás, em direção à janela, o cigarro que
acabara de acender, e a passos largos e decididos fui até
minha mesa. Vilma, aquela vaca, nunca foi com a minha
cara mesmo, deve estar enchendo os ouvidos da
Adalgisa, doida pra ela se acertar com o advogadozinho
ladrão, pra ver se ele mexe os pauzinhos junto aos corruptos
pra tirar ela e o marido da merda em que estão.

– Walfrido, porra! Tá de brincadeira? Manda essa
merda logo que aqui ninguém tem a vida toda pra te
esperar, não! – e bati o telefone chamando a atenção
de quem estava próximo, e também do Toledo, invariavelmente
de um lado a outro.

– Isso! Dá duro nesse merda! – e parou sacudindo
a garrafa vazia de café. Perguntou pra todos e outra
vez para ninguém se não se fazia mais café naquela
redação.

– Não, não está mais. Ela já foi embora há uns
quarenta minutos. O Ruy foi levá-la em casa – e fiquei
ouvindo a hostilidade silenciosa de Vilma. Toledo
vinha ao meu encontro dizendo que uma garrafa
de café fresco já estava a caminho.

– Desligou? Eu queria ter uma conversinha com
esse merda. Acho que vou demitir esse cara – e retomou
seu périplo interminável.

Os toques do telefone atravessavam a cidade,
mas chegavam a mim descrentes e sem esperança. Há
mais de duas horas eu ligara para a casa da Vilma, e
de lá à casa de Adalgisa não eram mais do que vinte
minutos. Isso se outros caminhos não a levassem para
outro lugar.

O telefone ainda insistia no impossível quando
jogaram em minha mesa o telex com a matéria do
Walfrido. Tive que cortar vinte linhas e ainda reescrever
os dois últimos parágrafos. Esse merda ganha
em dólar pra eu ficar consertando o trabalho dele! Me
manda pra Washington, Toledo, pra Roma, pro Burundi,
pra qualquer lugar em que o telefone não toque
sem resposta no meio da madrugada.

De novo na janela, eu engolia o café insuportável,
mas nem ele vencia mais aquela coisa gelada que encrostou
em minha boca feito lodo em muro úmido.

Na calçada, uma fila de Kombis era carregada com os
exemplares do jornal que saíam da gráfica direto para
as bancas. Um ou outro trabalhador da madrugada
parava e comprava ali mesmo o jornal, levando no
papel ainda quente das prensas as notícias alarmantes
que não fariam diferente o dia de cada um.

– O ministro do exército mandou chamar de volta
o ministro da justiça. Já estão lá há quase duas horas.
Ninguém entra e ninguém sai, ninguém diz nada,
não acontece nada – e Toledo começou a falar assim
que passou por mim e me tocou o ombro. Quando
virei-me, dei com ele se esforçando para nos deixar a
par dos últimos acontecimentos. Aquele ímpeto do
início da noite fora vencido pelo cansaço, e ele não tinha
mais forças para se fazer ouvir por toda a redação.

Nos cantos mais distantes da sala, repórteres, redatores
e copys dormiam com a cara enfiada nas máquinas,
aproveitando a mudez passageira do telex.
O telefone deu dez, quinze toques, em cada uma
das outras três ou quatro vezes que liguei. Chamava
em vão no meio do silêncio, feito alguém sozinho
que passa mal de madrugada e que morre aos poucos
pedindo socorro sem ser ouvido. De tanto que liguei, o barulho renitente das chamadas ficou na minha
cabeça se repetindo feito conselho de mais velho,
falando que era besteira insistir. Depois das quatro
da manhã deixei para lá. Acabei cochilando aquele
sono estremecido de quem tem a mente perturbada
e o corpo mal acomodado numa cadeira de escritório.

Todos também dormiram, guardados pela estagnação
dos fatos em Brasília. Nem Toledo resistiu; esparramou-
se em sua cadeira giratória de chefe, os pés
na mesa, a respiração difícil saindo-lhe pela boca em
roncos tremendos.

Acordei com a claridade do dia tomando aos
poucos o janelão. Uma aragem quente revirava papéis
sem importância àquela altura. As luzes brancas
da sala esperavam a chegada do sol. Olhei em volta
duvidando se o dia anterior havia realmente acabado.

No jornal, às vezes, parecia que o tempo não se dividia
em noites e dias. Senti as pernas fracas e um vazio
apertando o peito lá por dentro. Um telefone tocou
acordando outros dois ou três, entre eles o Tibúrcio.

– Toledo, Brasília. Atende aqui.

E Toledo também acordou. Veio pesado com sua
barriga e sua velhice precoce, esbarrando de sono nas
cadeiras e mesas que estavam pela frente.
Depois de uma arrastada negociação, o presidente
renunciou às cinco e quinze da manhã, hora em
que Ruy deixou Adalgisa em casa.

Às seis e meia a mulher do Marão chegou trazendo
umas roupas para ele.




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