A persistência do vazio imenso

Nunca conseguiu explicar por que sentia no peito
aquele imenso vazio que vinha desde a adolescência.

Até para si disfarçava, mas por dentro procurava
algo que não conseguia saber o que era. Fez faculdade,
comprou carro, casou-se, e o tal do vazio teimando
em tirar a graça completa de tudo, reduzindo à
metade o prazer pela vida, impondo sempre a impressão
de que estava faltando um pedaço para que as coisas
fossem do jeito que ele queria.

Só que as coisas nunca eram, e ele não sabia explicar
o porquê.
Aos trinta anos, tinha um casamento estável,
duas filhas pequenas, a mais velha já sendo alfabetizada
numa escola relativamente considerada, que levava
dois salários mínimos de mensalidade. Moravam
sem luxo nem miséria numa casa boa sem ser esplêndida,
sala, dois quartos, longe dos bairros nobres, mas
também da periferia. Não levavam supérfluos do supermercado,
mas o básico, o que alimenta de verdade,
esse não faltava, as crianças tomavam até iogurte,
e eles chegavam a comer filé a cada cinco ou seis domingos.

Tinham uma ou outra roupa de marca para
as melhores ocasiões, e o carro dele, que fora top de linha
algum dia, estava lá com seus doze anos, mas não
deixava na mão, aguentava até viagens para perto.

Mas aquela inquietude a corroê-lo por dentro!
Era como se em alguma vez na vida, o houvessem feito
engolir um ácido, não com o objetivo de matá-lo
de imediato, mas ao longo dos anos, e não sem antes
deixá-lo louco. Acordava beijava mulher filhas tomava
café via o dia saía pro trabalho comia voltava via a
noite beijava mulher filhas ouvia palavras de carinho
dormia de novo: sem estar satisfeito, sem que a vida o
completasse com o que ela poderia lhe dar.

Estava estagnado. À noite, no minúsculo terraço,
ocupado quase inteiro pela máquina de lavar, ele olhava
a rua quieta, e feito quem brinca com uma moeda
entre os dedos, girava ainda na cabeça a frase que
o amigo dissera na hora do almoço, quando chegou a
tocar preliminarmente no assunto do vazio, da agonia,
da satisfação pela metade, da certeza de que lhe faltava
um bom pedaço de tudo, mesmo que ele não soubesse
dizer o que era esse tudo, sua dimensão, sua cara,
seu nome, seu limite. É, você está estagnado, e o outro
diagnosticou sem a paciência necessária para ouvir o
resto daquele jorro de desespero de quem procura sentido
na vida. Estagnado, nesse escritório de contabilidade,
ficando louco com balanços e faturas, ganhando
isso que a gente ganha só pra comer, pagar colégio de
filho, botar meio tanque de gasolina e vestir mais ou
menos. A gente precisa de segurança, salário alto no
fim do mês, poder programar a vida pros próximos
anos, ter dinheiro para investir, comprar casa grande,
carro zero – a gente anda de fubeca, né? –, chácara fora
pra fim de semana, viajar sem prestação, pôr os filhos
num colégio decente para eles passarem pra universidade
do governo e pararem de dar despesa.

Olhando a noite que caminhava para o fim, suspirou
como se assim pudesse agradecer ao amigo que
o fizera enxergar o que durante anos boiara na escuridão
da sua própria cabeça. Sentia-se o doente que
afinal ouvira o diagnóstico preciso da dor misteriosa
que há tempos o vinha minando e roubando sua alegria.

Era então aquela casa, tão apenas decente, sem
nada mais do que decência. Eram aqueles ternos da
promoção do crediário em dez vezes; aquele colégio
da filha que ninguém conhecia, que não anunciava na
televisão; aquele carro que perdia potência na subida,
que ninguém olhava no sinal.

Descobertas as causas, na manhã do dia seguinte,
seguro do que dizia, comunicou à mulher que iriam
mudar de vida. Ela, pega de surpresa, sorria à meiaboca
tentando compreender: mudar? De casa, de emprego?
Sim, de tudo, por etapas programadas, o que
temos não é o suficiente para a nossa felicidade nem
para o futuro das meninas – ele, confuso, apressado,
jogava o paletó nas costas e interrompia a frase
para engolir café –, e quando elas casarem? Nem um
quarto-e-sala poderemos dar? Saiu pela porta feito
mariposa enxotada, deixando que a mulher decifrasse
aquelas palavras atropeladas. De repente fala em
mudar daqui, sair do emprego, e já emenda com o
casamento das meninas? Sem entender nada, acabou
perguntando ao cesto de pão se eles não eram então
felizes como ela supunha e se sentia.

Passou na banca e comprou um jornal de concursos.
Concurso público, havia dito o amigo, é a salvação.
Ficar trabalhando pros outros? Patrão só te tira o couro,
chupa o sangue e te põe no lixo quando você está
só no bagaço. E essa coisa de ser dono do próprio negócio,
de ser empresário, seu próprio patrão, também
não tá com nada. Pra mim, pra você, duros desse jeito,
vamos abrir o quê? Pegar empréstimo e comprar forno
caseiro de fazer pizza em casa? Morre tu e tua mulher
de tanto trabalhar e ainda vão à falência. Serviço público,
não, vida mansa, tem estabilidade, ninguém te tira
de lá, você só sai se quiser ou fizer uma besteira muito
grande, e mesmo assim... mas não é qualquer concurso.

Pra trabalhar nessas repartiçõezinhas de bosta,
com todo mundo fedendo a mofo e ganhando miséria,
também não presta. Tem que ser prum cargo com salário
alto, fora vantagens, licenças, gratificações. Não vê
o Valadares? É alto funcionário! Já viu o casarão? Tem
também o sítio, comprou um carro alemão, a filha tá
fazendo doutorado na Suíça, abriu consultório pro filho.

O negócio é se encostar no estado.
Sim, o Valadares, o Valadares! E folheava o jornal.
O amigo lembrou bem, o Valadares vivia sorrindo,
bem disposto, corado, tinha umas camisas lindas
o Valadares, falava de bons lugares, belos países.
Tribunal de Justiça, Secretaria de Fazenda, Receita
Federal. Escolheu aquele do melhor salário, cinco
vezes o seu, o jornal dizia também das gratificações,
das vantagens após algum tempo, e era só ter curso
universitário, qualquer um, que podia fazer.

Seis meses, um ano levou devorando apostilas,
comprou livros, fez dois cursinhos, teve aulas particulares
de matérias específicas, deparou com assuntos
que jamais ouvira falar na vida, não eram interessantes
mas o levariam ao objetivo. As filhas cresceram
nesse ínterim e ele sem notar muito, às voltas que estava
com os estudos e sem poder largar aquele escritório
de onde, se Deus quisesse, se libertaria em poucos
meses.

Em um total de vinte candidatos aprovados, foi
o 18o colocado. Tomou posse em duas semanas, começou
imediatamente. Entregou na concessionária
o antigo carro como quem se despe de uma roupa
imunda de lama e esterco. Saiu de lá com um modelo
zero, nacional, enquanto ainda não eram possíveis os
japoneses ou alemães. Tirou a filha do colégio, colocou-
a em um que anunciava na televisão, onde estudavam
os filhos dos novos colegas de trabalho. No final
do ano, mudaram. Entregaram a velha casa como
entrada e com mais trinta e poucas prestações foram
para uma de três quartos, suíte, uma varanda média,
jardim na frente, pequeno quintal atrás.

Mas à época em que a casa foi quitada, para a sua
própria surpresa, tomaram conta dele outra vez o vazio
e a insatisfação, como antiga doença que volta a
apresentar sintomas quando se julgava que estivesse
curada.

Algum tempo ficou pensativo, falando quase
nada, a mulher estranhando aquele jeito de pessoa
que tinha compromisso marcado, mas que estava presa em casa por causa de um temporal. Em cada canto que parava, um suspiro impaciente antes de dar meia-volta.

Então, agora, era aquele tribunal, ele acabou descobrindo,
e aquele serviço de secretariar juízes. E era
também aquela casa média, sem espaço no quintal
para construir piscina, sem lugar no jardim para uma
fonte d’água que chamasse a atenção da rua; e era o
segundo carro zero, que ainda só podia ser de modelo
nacional.

Então comprou jornal de concursos e estudou
mais um ano, e debruçou todas as noites sobre livros
e apostilas. E foi aprovado para o cargo de maior destaque
no tribunal superior; e finalmente comprou outro
modelo nacional que não aquele, mas agora um
com toda tecnologia; e mudaram-se da casa menos
de dois anos depois; e construiu piscina; e colocou
chafariz com luzes que todos passavam apenas para
admirar; e comprou chácara, que vendeu para inteirar
no sítio, do qual se desfez por um apartamento
grande no litoral; e ô vida muquirana a sua naquele
tribunal; e fez prova para trabalhar no órgão mais
conceituado do governo; e tendo passado para ocupar
função de extrema responsabilidade, precisava de
uma casa em que pudesse construir quadra de tênis;
mas carecia também de carro alemão, que comprou,
ficou três meses, mas achou melhor o Jipe inglês, que
logo pegou e deu de entrada num esportivo italiano;
e fez reforma para ampliar a casa – poucas salas, ele
dizia – e investiu em fazendas e comprou uma; e
separou-se da mulher, que não acompanhava a cabeça
dele porque contentava-se com pouco; e usou de seus
conhecimentos para sair do órgão mais conceituado
do governo porque aquilo não era lugar de ser feliz; e
foi para o Palácio do governo ganhando bem mais; e
comprou duplex na praia; e deu a casa para a mulher
no divórcio; e foi morar numa cobertura maior que a
casa; e mandou as filhas para a França, para a Bélgica;
e deu amplos apartamentos para cada uma quando
voltaram; e montou confecção para uma, escritório
de advocacia bem localizado para outra; e casou-se
outra vez, com uma pouco mais velha que as filhas; e
pediu licença no trabalho e ficaram seis meses rodando
o mundo, e de volta construíram casa que foi capa
de revista; e achou que era homem do mar e comprou
barcos de tantos e não sei quantos pés; e pediu outra
licença, navegou a costa toda por oito meses; mas descobriu
que não era do mar, vendeu o barco e trocou
o esportivo italiano por outro que aquele já estava velho;
e deu fartos rega-bofes quando as filhas casaram
e apartamentos mobiliados como elas quiseram; e separou-
se da segunda mulher, deu a casa para a vigarista,
comprou outra enorme para viver sozinho, morrer
sozinho com aquele imenso vazio por dentro que ele
nunca conseguiu descobrir o que era afinal.






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