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Fotografia de Carmem Lúcia

O mais engraçado é que antes jamais havia reparado naquela fotografia, quase descartada entre tantas outras também antigas, guardadas por tia Neuza.
Passei tardes inteiras da minha infância e adolescência naquele quarto de hóspedes destacado da casa construída por meu avô, onde outra tia, Abigail, ficou morando depois de casada, e onde tia Neuza também permaneceu, convencida de que seria mesmo a solteirona a ajudar a criar os filhos da irmã.
Em caixas de sapatos e de camisas masculinas, ela guardava o passado da família e o que achava valer a pena guardar do seu próprio. Repetidas vezes escarafunchei pais, avós, bisavós, primos, outros tios; gente que morreu jovem, que morreu com noventa anos, que até hoje não deve ter morrido; pessoas que a própria tia Neuza nem lembrava mais quem haviam sido e muito menos que fim tiveram. Mas garanto que antes jamais me chamou a atenção aquela fotografia em preto e branco ainda tão conservada, e que naquela tarde encontrei em meio às poses antigas de tantos fantasmas e muitos mortos-vivos.
Reconheci ali, bem jovens, a própria tia Neuza e as outras irmãs de meu pai: Abigail, Nancy, Leonor, Dalimar, Aurora e Natércia, nesta ordem, perfiladas junto ao muro de pedra de uma casa. Mas a moça que fechava a fileira, pela aparência a mais nova de todas, não era minha tia, eu nunca havia visto.
Até mostrar a fotografia e perguntar a tia Neuza de quem se tratava, fiquei minutos absorto, olhando o rosto perfeito de tão belo. Minha curiosidade foi aos poucos se transformado em fascínio.
Quando, enfim, perguntei, tia Neuza ergueu os pequenos olhos azuis acima dos óculos de leitura. Sua memória não titubeou sequer um segundo.
– Era Carmem Lúcia – foi apenas o que disse, seca, quase áspera, e me devolveu a foto. Sim, mas quem era Carmem Lúcia, insisti com o silêncio de meus olhos de repente aflitos, com a alma inteira, como se jamais na vida houvesse querido saber tanto outra coisa. Quem era Carmem Lúcia do nariz afilado, lapidado como em mármore branco? Quem era Carmem Lúcia dos lábios finos, como se fossem talhados em pétala pelo espinho da própria rosa? Eu seguia perguntando sem palavras, a foto nas mãos espalmadas como as de quem recebera um baque, as vistas em minha tia Neuza indiferentemente calada e arrumando dedais, agulhas e carretéis. Deus, Cristo, tia! Quem fora essa mulher que nos últimos minutos me roubara o chão desde o fundo do tempo?
Tomou de volta a foto. Ouvia os gritos de meu silêncio, tateava minha angústia plasmada na tarde suspensa. – Carmem Lúcia era colega de Aurora e Natércia, estudaram as três no Instituto de Educação. Tinha a idade da Natércia, a mais nova de todas nós.
Olhou o verso da foto, que me devolveu outra vez. Em meio tom de voz, repetiu a data escrita a lápis. Não sei porque pareceu-me resignada.
– 16 de janeiro de 1960. Era isso, Natércia tinha quase 18 anos, ela é de abril. Carmem Lúcia fazia aniversário em maio ou junho.
Um nome, uma data sumindo no calendário. Era ainda muito pouco para meu encanto faminto.
Mas tia Neuza continha-se, como se não devesse falar tudo. – Carmem Lúcia morava aqui no Grajaú também, no 111 da Caruaru. De vez em quando aparecia aqui em casa. Esse retrato foi tirado aqui mesmo na Marechal Jofre, na calçada dessa casa aí de frente. Apesar do tanto que de repente queria saber, estranhamente não me ocorriam perguntas exatas sobre fatos concretos. Daquela foto vinha um magnetismo que me puxava para dentro dela própria, e dela eu não desgrudava os olhos, examinando detalhes: a janela da casa aberta ao fundo; o jasmineiro florido; a imagem em azulejo de Santa Rita de Cássia na fachada, e invadindo o enquadramento pela esquerda, a traseira de um carro que me pareceu um Chevrolet Bel Air. Mas na verdade a foto toda era apenas Carmem Lúcia, e mesmo que a cena sugerisse que ela havia sido tão-somente uma coadjuvante num retrato de família, eu só enxergava razão da fotografia existir em Carmem Lúcia, com sua altivez de quem participou com divertimento de toda a balbúrdia que minhas tias devem ter feito naquela hora.
– O curioso é que depois dessa foto ela sumiu, nunca mais soubemos de Carmem Lúcia – e tia Neuza pousou em mim aqueles olhos azuis e gelados. Veio da janela escovando uma sapatilha de pano. Manteve os olhos em mim, e aos poucos eles tornaram-se acusatórios. Falou como se eu soubesse o que havia acontecido, do paradeiro de Carmem Lúcia. – Dizem que desapareceu no mundo com um sujeito, o mesmo que esperava por ela do outro lado da calçada até que batessem o retrato.
Lá fora escurecia. Talvez uma hora tenha passado sem que me desse conta. Em casa, coloquei velhos discos. Até a madrugada ouvi Paul Anka, Neil Sedaka, The Platers, as primeiras do Elvis. Também Cely Campello, em um disco de novela que há pelo menos vinte anos não saía do armário. Entrei pela madrugada imaginando o corpo pequeno e delgado de Carmem Lúcia, girando a saia longa e plissada da foto, mexendo feliz em um salão de juventude. Eram altas horas quando adormeci, vendo seu rosto pairar no teto. Acordei com a impressão de que não dormi sozinho, de que alguém levantou da cama e foi embora sem fazer barulho antes que eu despertasse.
Logo cedo toquei a campainha de minhas tias. Não havia ninguém. Insisti sem esperança e lá dentro a sineta fez eco na casa deserta. A varanda quieta, as cadeiras de ferro vazias. Daquela mansidão sobreveiome um desalento, como se eu houvesse marcado com alguém que não me esperou, porque cheguei atrasado muitos anos.
Olhei para trás e a casa em frente pareceu-me igual, sem grandes mudanças desde a foto. Atravessei para observar a calçada, quase crendo no absurdo de encontrar marcas dos pés de Carmem Lúcia. Um homem desceu a rua de bicicleta e no sentido contrário uma dona carregava sacolas; nada além disso naquela manhã azul de sábado, em que o vento passava pedindo silêncio.
Resolvi tomar a direção da esquina mais distante. Há muito eu não reparava naqueles casarões com suas colunas redondas, em que o tempo acumulava nascimentos e mortes. Em cada casa, Carmem Lúcia esgueirava- se pelas pilastras antigas. Nem bem seu vulto desaparecia nalguma porta principal que se abria para uma varanda, do outro lado da rua já me espiava por trás da cortina de uma grande janela. Mais adiante, estava em um banco de jardim, só que levantou-se e saiu depressa mal ameacei apertar o passo. Reapareceu no fundo de um corredor de garagem, e sumiu outra vez em uma sacada.
Não fui até o final da rua. Dobrei antes à esquerda e depois à esquerda outra vez. Desci cerca de cem metros por entre tamarineiras imensas que me escondiam o sol. Caminhava, e em meus ouvidos antigas baladas dos anos 50 moviam meus passos. Eu as ouvi de tal maneira reais, que era como se algum vizinho estivesse acordando toda a rua com música. Numa casa mais à frente, Carmem Lúcia cantava baixo, po88 dando uma roseira. Largou a tesoura, sumiu detrás de um grande ipê amarelo ao pressentir minha chegada.
Parei em frente ao 111 da rua Caruaru e o que havia ali, agora, era uma academia de ginástica. Um homem lavava a calçada do prédio ao lado. Perguntei e ele disse que era novo no serviço, não sabia o que antes havia ali. Um senhor de boina, óculos escuros e bengala se intrometeu quando ouviu a conversa, afinal morava na rua há mais de sessenta anos, conheceu todo mundo. Sim, era uma casa de altos e baixos na frente, atrás tinha uma vila. Moraram aí dona Arlete, dona Lígia, dona Vera, seu Coimbra, seu Fausto, seu Sebastião e dona Judite, dona Virgínia e seu Abel, Marta, Beatriz, Dinéia, Adalberto, Jorge Luis... de Carmem Lúcia, não lembro de nenhuma. Moraram aí muitos jovens, que vi crianças e hoje até já são avós.
Sabe-se lá quantas horas andei a esmo. Vi Carmem Lúcia tomando sorvete, dirigindo um fusca dos primeiros modelos, sempre me escapando, para desespero de minha própria ilusão. Cansado, parei para beber água e acabei pedindo também um café bem forte.
Apoiado no balcão, dei com os olhos naquela mulher de seus sessenta e poucos anos, dois netos lambuzados de chocolate e um belo rosto delicado, mesmo com os vincos da idade. O porte magro e pequeno tinha lá muita vitalidade para conter beliscões de um menino no outro. Repreendia com autoridade serena as birras do que parecia ser o mais novinho dos dois.
Deixei o café esfriando, aproximei-me e perguntei com medo: – Dona Carmem Lúcia? Olhou-me tranquila, como se soubesse que eu estava ali e me aproximaria para saber. Sorriu de leve, e assim também balançou a cabeça, mas não respondeu de pronto. Ficou pensando no que diria. Manteve o sorriso tênue e intrigante. Pareceu-me o mesmo da foto.
– Não, não sou – havia em seus olhos uma espécie de compreensão. Voltei de costas até o balcão e ela virou-se para os netos. Uma rajada de vento frio levantou toalhas de papel e guardanapos. Em minutos o tempo virou, e uma névoa úmida cobriu o alto dos morros, ocultando grandes torres de energia fincadas na mata.
Com um menino em cada mão, avisando da chuva, lançou-me um olhar plácido antes de ir. O vento jogou-lhe os cabelos no rosto, onde um sorriso indecifrável quem sabe desmentia a resposta anterior.
Saí na direção contrária, apressando o passo, encolhendo os braços junto ao peito, na vã tentativa de me agasalhar. A tarde caminhava escura e veloz na direção da noite. As luzes dos postes se acenderam e uma garoa muito fina, quase poeira d’água, descia gelada, chegando no vento.
O portão da casa de minhas tias estava entreaberto. No silêncio do mundo, soou o barulho da dobradiça enferrujada quando o empurrei. Subi o corredor da garagem para chegar aos fundos da casa. Um outro portão que leva ao quintal também estava aberto. Depois dele, uma escada de pedra sobe ao quarto de tia Neuza. Chamei-a e também a Tia Abigail. Chamei meus primos. Pelas janelas escancaradas, não vinham respostas. O vento dava nas cortinas. De três em três, ganhei os degraus até lá em cima. Sabia que não precisava bater na porta. Pressionei com o dedão a velha maçaneta em forma de língua de gato. Tia! Tia! Chamei mais pelo costume, aproveitando para recuperar o fôlego. A escuridão da quase noite assaltava o quarto, mas a penumbra não impediu que eu encontrasse a foto largada na mesa de cabeceira. Bastou pegá-la para que passasse a ventar ainda mais forte. As janelas bateram com violência, a ventania derrubou pequenos enfeites, dissipou a névoa e pôs em fuga as nuvens escuras, que passavam feito cavalos loucos. De reprente o sol ressurgiu, clareando em instantes o ambiente austero do quarto de tia Neuza. O alto dos morros reapareceu, com seu contorno tangendo o anil do céu. Agora já não havia mais silêncio. Vozes, risos, mesmo gargalhadas vinham lá de fora. Da janela, vi que algumas moças ajeitavam-se com algazarra para uma fotografia do outro lado da rua.
Desci correndo. Carmem Lúcia sorriu quando abri o portão e, afoito, parei na calçada. Arregalou os olhos contentes, saudando minha chegada. Depois fez um gesto discreto para que eu esperasse. Ansioso e feliz, eu quis saber as horas, talvez quatro ou quatro e meia, a julgar pela luz da tarde. O dono passava flanela no Bel Air, vermelho, de capota branca. Ao longe, alguém ouvia música alta; Chubby Checker, pensei. Pessoas arrumavam o salão da casa ao lado; haveria uma festa, pelo jeito. Minhas tias estavam alegres, afinal era sábado e elas eram jovens.
Depois que bateram o retrato, Carmem Lúcia atravessou a rua, aproximou-se já pegando-me pelas mãos. Antes de começarmos a caminhar, voltouse para trás e acenou despedindo-se do grupo. Eu fiz o mesmo, mas nenhuma delas me olhou. Era como se não me vissem. A não ser Tia Neuza, que veio até a beira da outra calçada, fazendo questão que eu visse seus olhos azuis convictos e silenciosos.
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