André Giusti - foto: Luana Lleras
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A banalização da recompensa

Escolas de classe média de Brasília darão carros 0km e ‘tablets’ aos alunos que alcançarem os primeiros lugares no Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Levam, dessa forma, para dentro da sala de aula, prática consagrada há algumas gerações em diversas famílias abastadas. A promoção, por mais que diretores insistam em dizer que tem [...]

Escolas de classe média de Brasília darão carros 0km e ‘tablets’ aos alunos que alcançarem os primeiros lugares no Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Levam, dessa forma, para dentro da sala de aula, prática consagrada há algumas gerações em diversas famílias abastadas.

A promoção, por mais que diretores insistam em dizer que tem o objetivo de incentivar o aluno a se esforçar em obter boa colocação no exame, vestiu roupa de estratégia de marketing. O objetivo nítido é fazer com que o colégio abocanhe as primeiras posições, apareça bem no ranking a ser publicado nos jornais e atraia mais e mais alunos. Afinal, qual adolescente às portas de completar 18 anos não vai querer estudar no colégio que dá um carro?

Em um mundo cada vez mais acostumado a enxergar a vida pela ótica do mercado, a ideia é boa e deverá atingir seu propósito. Como não tenho formação acadêmica que me credencie analisá-la pelo prisma pedagógico, tento enxergá-la – ela e seus efeitos – pela lente das agruras que a vida impõe a todo ser humano em trânsito nesse planeta.

Nos últimos anos, trabalhei com diversas pessoas na faixa dos 20 aos 30 anos, e diariamente constatava a dificuldade que essa geração tem para ouvir um não. A qualquer de seus pedidos negados, segue-se sempre a cara amarrada de quem – para quem vê de longe – sofreu a maior e mais cruel das injustiças. Não pensam que aquele seu pedido, se atendido, muitas vezes poderá prejudicar, e muito, o andamento do trabalho ou sobrecarregar os colegas. E com a mesma dificuldade que possuem para enxergar os limites de seus direitos, sentem-se igualmente desmerecidos, desprestigiados quando executaram a contento a tarefa, mas não receberam elogios do chefe.

Imagino que para eles, elogios – e outras recompensas – deveriam estar vinculados ao cumprimento obrigatório dos deveres que a cada um compete dentro de um ambiente de trabalho. E é bom frisar que em boa parte dos casos o trabalho é feito apenas dentro dos limites estritos do satisfatório, sem brilho, sem diferencial.

Boa parte do tempo a que me referi acima, passei tentando compreender porque procedia assim a tal da geração X, Y, Z, ou sei lá que outra letra a determine. Adquirida a dádiva da paternidade, percebi que os “injustiçados” vieram de uma criação que banalizou a recompensa, que aceitou como quotidiano a paga com doce à criança que comeu tudo no almoço; o tênis novo pelas notas boas no bimestre; o carro zero pela aprovação no vestibular.

E como me parece que as escolas estão institucionalizando essa prática, é de se esperar para os próximos anos ainda mais choro, lamúria e beicinho quando não apenas o chefe, mas a própria vida pegar e disser “você não fez mais do que a sua obrigação”.

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Comentários (2)

  1. Denise Giusti -

    Isso é educação! Ótimo texto, deveria esse sair em outro meio de comunicação para que pais e educaradores pudessem refletir mais!

  2. HUGO GIUSTI -

    É isso aí André, lá em casa era assim – ” não fazem mais que a obrigação”!!

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