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Por mais que eu tenha acelerado na estrada, não cheguei com o dia ainda claro. Alcancei, no máximo, um resto de sol sumindo atrás da montanha. O acender da noite, ali, era igual ao anoitecer em outras cidades quase mortas do interior; àquela hora com o expediente encerrado, pouca gente movimentava a avenida que margeia a rodovia e seus postos de gasolina, lojas de autopeças e armazéns que vendem fertilizantes e defensivos agrícolas. Havia um ou outro núcleo de vida, principalmente botequins, que não demorariam tanto a cerrar as portas e mandar para casa os fregueses diários, torpes de cerveja vagabunda e pinga barata. Às vezes essas cidades possuem um centro em que há um ensaio de vida noturna, eu pensei, querendo acreditar que encontraria algum canto onde pudesse comer alguma coisa. Não conhecia patavina ali, era minha primeira vez no lugar. Vi muito pouco da cidade, e do que vi não gostei. As ruas escuras de terra eram tomadas de uma ponta a outra por construções, algumas inacabadas ou mesmo abandonadas; desse modo, tornaram-se desenhos lúgubres e fantasmagóricos a compor o lugar. Havia também galpões e depósitos, todos passados da hora de funcionamento, e em suas fachadas apagadas, a noite encarava os raros transeuntes com um rosto sinistro e hostil.
Parei o carro em frente ao endereço que o geolocalizador indicava. Não havia número nem nome de pousada. Apenas um grande e pesado portão de ferro. Não era alto e vi que para além dele abria-se um imenso terreno bem arborizado. Bati com os dedos dobrados no metal, bati palmas, chamei em voz alta “ô, de casa”. O ambiente me respondeu com o silêncio das árvores na noite sem vento.
O portão não tinha trinco. Era de correr, então decidi arrastá-lo para abrir, contando com a hipótese de ver surgir na defesa da propriedade um enfurecido rottweiler. Aberto o portão, corri para dentro do carro. Se houvesse cachorro, teria que mastigar a lataria antes de me alcançar. Meti a primeira e entrei no terreno. Não apareceu cachorro algum, muito menos gente. Havia mais dois carros estacionados no local. Espalhados pelo terreno, uns dez chalés, todos às escuras. Ao fundo, um sinal de vida, enfim. Uma casa diferente dos chalés tinha luz acesa. Fui até lá e topei com um misto de cozinha e recepção, onde uma mocinha, vestindo uma touca de cozinheira, me recebeu, descascando frutas.
“E o resto do grupo?” Ela quis saber quando me identifiquei.
“Chega amanhã. Não te avisaram?”.
O grupo sairia de Brasília às duas da madrugada em um ônibus fretado. “Chegam por volta das oito, e aí a gente vai pro passeio”, expliquei.
Semanas antes, quando decidi ir, já tinha bem claro na cabeça: “De jeito nenhum eu vou de ônibus, sair daqui de madrugada. Eu vou no meu carro. Chego antes, durmo bem e acordo inteiro. Essa gente vai estar triturada de tentar dormir no ônibus, ainda mais nessa estrada cheia de remendo”.
“Cada quarto da pousada dá pra três pessoas. Sai bem mais em conta. O grupo todo vai dividir”, Irene sugeriu erguendo as sobrancelhas, queria me pôr nesse embrulho. E isso era outro problema: nem todo mundo se conhecia no grupo. Eu mesmo conhecia apenas Irene e uma outra mulher, e claro que elas não dormiriam no mesmo quarto que eu. “Irene, meus tempos de escoteiro se foram. Com a minha idade eu não vou dormir com um macho que eu não sei quem é roncando feito porco do meu lado”. “Mas é companheirismo, cara, é a proposta do grupo e do passeio”. “Louvável proposta. Me deixa dormir sozinho no meu quarto que no dia seguinte estarei com toda disposição para ser companheiro”.
Quando Irene me disse que estava organizando mais um passeio com trilha e cachoeira, Cláudia ainda não havia voltado para casa. O passeio estava marcado para o fim de semana seguinte ao seu retorno. Enxerguei na trilha e na cachoeira enfurnadas em Goiás uma distração, uma chance de pensar e sentir um pouco menos de saudades.
Mas a brincadeira que Irene inventou não seria apenas trilha e cachoeira.
“Irene, que porra é essa de caverna, Irene?”. “Tá no roteiro. Será que você não viu?”, ela respondeu. Conversávamos pelo áudio do zap, eu me instalando no quarto da pousada e ela ainda em Brasília, terminando de arrumar a bagagem. “Eu sou obrigado a entrar em caverna? Já me libertei das minhas encarnações no paleolítico”. “Você não é obrigado a coisa nenhuma. Enquanto o grupo tá lá dentro, espere do lado de fora”. “E quanto tempo vocês vão ficar dando uma de troglodita?”. “Umas três horas pelo menos”. “Puta merda, Irene…”. “Leva um livro. Você não diz que com um livro o tempo passa mais rápido? Vai ser o primeiro trilheiro intelectual que eu vou guiar”, e debochada encerrou a conversa, para continuar se aprontando.
“Por que essa moda agora de entrar em caverna, hein?”, e discutia comigo mesmo, sozinho no quarto bem mequetrefe da pousada. “se o bom é a luz do dia, o vento, os pássaros… querem ficar trancados, fiquem em casa, porra!”.

Pendurei minhas roupas em um cabide de guarda-roupa, sustentado por dois suportes colados a um vão da parede que servia de espaço para um frigobar, que não havia no quarto. Era isso o guarda-roupa. Virei as costas para desfazer o resto da bagagem e escutei atrás de mim o barulho. As roupas vieram abaixo com o cabide de guarda-roupa e com os suportes, espalhando minhas roupas pelo chão. Peguei-as e as deixei mais ou menos esticadas em uma cama de solteiro posta ao lado da de casal, em que eu dormiria. Eram oito da noite e eu precisava de um banho. Àquela hora, na sexta-feira anterior, minha sombra e a de Cláudia vagavam abraçadas pelas paredes seculares do casario histórico de Pirenópolis.
“Eu sinto sua falta aqui comigo…”, confessei a saudade, já desanimado com o que se anunciava para o meu fim de semana. Aquele sábado e domingo seria justamente para não pensar tanto em Cláudia, mas pelo jeito, a tática estava dando errado. “Aí é legal?”, ela quis saber. “Não sei, mas tô começando a achar que não”. “Ué, não é igual a Pirenópolis, não?”. “Provavelmente não”.
Separei uma muda de roupa. Com ela sairia à caça de um buraco com alguma salubridade onde pudesse comer um sanduíche e tomar uma cerveja. Resolvi deixar o chuveiro para quando voltasse. Água morna ajuda no sono, pensei, já desconfiando de que não dormiria muito bem naquele quarto, naquela cama.
A mocinha da recepção-cozinha me ensinou a chegar a uma rua em que havia dois restaurantes. Perguntei qual deles era melhor. “Tanto faz”, ela me respondeu e temi que tenha feito cara de “Os dois são a mesma bosta”. “Se você usar o geolocalizador chega rapidinho”. Agradeci e fui por mim mesmo, eu me recusava a ser um dependente de aplicativo até para andar a pé. Além do mais, nenhum aplicativo me livraria do que aconteceu minutos depois: dar de cara com uma gangue de cachorros vira-latas. Latindo e rosnando, foram se aproximando de mim, lentamente. Tentei conquistar a simpatia deles, mas não deu muito certo. O que deu certo e me livrou foi o passa-fora de um homem magro, curvado e careca. Saiu de uma casa mal-acabada e com dois gritos colocou todos para dentro. “Não mordem não, fique tranquilo”, e voltou pra dentro. Fiz que acreditei, mas já achando melhor não passar por ali na volta, a cachorrada poderia mudar de ideia e adotar outro comportamento.
Eu pensava ainda nos cachorros quando dei de novo pela ausência de Cláudia. Era como se ela andasse ao meu lado naquela cidade semimorta. Foram três meses juntos, feito namorados efetivos, namorados de fato, e não apenas de direito, afastados pelos milhares de quilômetros que tentávamos, mas não conseguíamos encurtar.
Cheguei à rua dos restaurantes com a cabeça longe. Quando aterrissei, percebi que o primeiro que a mocinha me indicou me lembrava aqueles cabarés decadentes em que uma cantora, igualmente decadente, cantava boleros do tempo de meus falecidos pais. Torci para que o segundo fosse ao menos uma polegada melhor. E era. Era até bacaninha, bem transado, como se diz. O problema estava em um telão pendurado na parede, atrás de mim. “Ué, agora você escuta a trilha sonora do desmatamento, do machismo, do racismo, da violência contra a mulher e do trabalho escravo?”, e dessa forma Cláudia respondeu o vídeo que gravei e mandei para ela, de brincadeira; ela enumerou as diversas classificações que eu usava para a música sertaneja. “É Goiás, amada. Além do mais, não tenho opção aqui”. Quando chegou a primeira cerveja que pedi, mandei mensagem: “Eu sinto tua falta, Cláudia. Demais”, insisti. Às vezes eu mesmo me achava chato com essa história, mas era mais forte do que eu. Ela respondeu mandando corações.
“Irene, essa cidade é uma merda, é horrorosa!”, enquanto esperava a segunda cerveja e um sanduíche, gravei a mensagem, só que baixinho, para que ninguém em volta escutasse. Ela estava on-line. “E daí? A gente não vai passear na cidade, a gente vai pras cachoeiras”. “Mas você disse que o lugar era tipo Chapada dos Veadeiros…”. “As cachoeiras são. Mas você sabe que nenhuma cachoeira fica no centro da cidade, né?”. Eu quis saber onde eu encontraria o grupo. “No estacionamento da trilha da caverna”, ela respondeu. Procurei no aplicativo. Nada do que apareceu tinha o nome da maldita caverna. Deixei para cuidar disso depois, porque chegaram a segunda cerveja e o sanduíche.
Pensei em tomar a terceira, mas deixei pra lá. Eu teria que acordar às seis da manhã no dia seguinte, um sábado, e esperar três horas na entrada de um buraco de pedra, escuro e cheio de água, provavelmente também de morcego. Paguei a conta e em cem metros me vi isolado na noite alta daquela cidade tão tenebrosa quanto desconhecida por mim. De suas casas apagadas, de suas obras não terminadas me parecia que sairiam sádicos monstros devoradores de caras solitários que vagam por um cu de mundo feito aquele. Cláudia só estaria de volta a Brasília dali a dois meses. Tudo estaria igual? Ela estaria igual? Me querendo, me desejando? Em alguns momentos tudo entre nós dois me parecia incerto feito o fundo de uma caverna.
Abri o geolocalizador, que me mandou pelo mesmo caminho da ida. Ou seja, pela rua dos cachorros. Tentei não demonstrar que eu estava com medo. Cinco se aproximaram, latindo e rosnando. Dessa vez o careca envergado não deu as caras. Olhei pro lado, havia algo no chão que parecia um pedaço de pau, mas era um cano semienterrado. Toquei o foda-se e apressei o passo, mas sem correr. Não sei se eram os mesmos da ida, pois agora me pareceram com menos vontade de me abocanhar. Acabaram ficando para trás, latindo e rosnando sem muita convicção, como se dissessem “dessa vez a gente vai aliviar, mas não apareça aqui de novo não”. Eu queria nossa cama, teu calor, teu suspirar durante o sono, teu abraço ao clarear do dia. É ridículo um cara da minha idade perdido nesse buraco fora do planeta com meia dúzia de vira-latas manés ameaçando me jantar. Apareceu apenas um risquinho abaixo da mensagem. Talvez ela já estivesse dormindo.

Arrastei o portão da pousada. O barulho das rodas nos trilhos subiu pela noite. Longe, outro cachorro latiu. Era um portão velho, mal pintado. A entrada daquele lugar me sugeria que ali funcionava um centro de tratamento manicomial, daqueles antigos, com denúncias de tortura e maus-tratos. Não havia uma luz acesa, nem a da recepção-cozinha. Sorte que gravei a direção em que ficava meu chalé.
Penei um tanto até acertar a fechadura por causa da escuridão. Quando consegui, catei o interruptor; achei e a luz se fez no quarto, aquela luz branca, fraca, que dizem que economiza energia, mas que irrita meus olhos e me deixa de mau humor. Tirei a roupa e fui tomar banho. Na porta do box, deparei com uma das maiores baratas que vi na vida. Voltei no quarto e peguei meu sapato de trilha, aqueles de sola grossa. “Toma aqui, sua vagabunda!” e em um só golpe esmigalhei a infeliz. Deixei a bicha ali mesmo, feito uma fatia de pão prensada na chapa, com aquela gosma verde e nojenta sobrando pros lados. Era um recado para quem fosse fazer a limpeza, se é que fariam.
Pela programação, o passeio iria até domingo, então eu teria que dormir mais uma noite ali. Olhei o relógio. A essa hora eu e Cláudia tomávamos um belo vinho e devorávamos uma pizza assada pelos deuses. Comecei a sentir que eu estava em lugar errado. “Viva o agora. O passado foi bom, mas acabou. Dele, fique apenas com as boas lembranças”, e pude imaginar esse tipo de gente insuportável, súdita do diabo da felicidade tóxica, que sempre vem com frase pronta aparentando te ajudar, mas que no fundo quer pousar de superior a você.
Saí do chuveiro e, distraído, por um triz não pisei, descalço, na asquerosa da barata. Desviando da nojeira, escorreguei e o que me salvou foi me agarrar à pia, embora tenha acertado o calcanhar na quina do blindex do box. Doeu. “Noite filha da puta”, rosnei, feito os cachorros da rua. Poderia ter sido pior, refleti, eu poderia ter me estatelado nu, em cima da barata.
Finalmente pus a roupa de dormir e me deitei. Tentei ler, mas aquele inferno de luz é inimigo das atividades intelectuais. Fui ao interruptor: e a escuridão se fez completa, no quarto e lá fora.
Tive um sono agitado. Quando fechava os olhos, passavam por dentro deles cenas do fim de semana com Cláudia. Mas não era só isso. Estava preocupado com a hora de acordar e em como encontrar o grupo lá na tal caverna. Antes de apagar a luz, olhei novamente no aplicativo. Nada do que aparecia mostrava ser o mesmo local em que eu teria que encontrar com todos. Mas o que mais estava me tirando o sono era que barata é comida de escorpião, e que escorpião adora obra, entulho de obra, todo esse traste. Só faltava eu levar uma picada de um monstrinho desses e morrer por lá mesmo, envenenado, depois de um dia inteiro de convulsão. Eu seria apenas uma lembrança talvez boa, talvez má quando minha família e Cláudia me encontrassem nesse portal das almas perdidas.
Após idas e vindas do sono, acordei de uma vez às cinco e quinze da manhã. Fiquei de um lado pra outro da cama, esperando o dia clarear. Qualquer pequeno barulho eu já achava que era um escorpião. Quando a janela finalmente iluminou o quarto, me levantei e procurei notícias do grupo no celular. Estavam na estrada desde as duas da matina. Às quatro e pouco, Irene mandou mensagem com a seguinte e animadora instrução: “Olha só, pergunta pra alguém aí na pousada como se faz para chegar na trilha da caverna. Lá não tem internet e eu não consigo falar com o guia local para ele me mandar a localização”. Eu e Cláudia andamos o dia inteiro pela margem do Rio das Almas, uma trilha sombreada, sinalizada, decorada por mansas praias de água doce e gelada e milenares pedras com pontos dourados, parecendo ouro. Quanta diferença. Dizem que esse é o estímulo da vida: alternância de experiências. Eu dispensava toda a experiência das últimas horas. Olhando para baixo, vi se repetir no chão do quarto, como se fosse em uma tela, a imagem do rio e da trilha em sua margem. Eu e Cláudia nessa tela. Na vida real daquele quarto sofrível, havia somente eu, depois de uma noite mal dormida. Alguma coisa em mim, que desde quando cheguei repelia aquele lugar, começou a dizer que eu fosse embora dali.
“Eu não sei onde fica, não sou daqui, mas já ouvi falar que é bem longe e um pouco complicado de chegar”, respondeu uma mocinha, a que servia o café da manhã. Àquela hora, outros funcionários ainda não haviam chegado. Perguntei pelo dono. “É uma mulher. Mora em Goiânia. Raramente aparece”.
Mastigando um pão de queijo e virando um café preto, eu olhava o imenso terreno que já anunciava os sinais da seca. Com o sol batendo, o lugar não era feio. Mas também não era bonito. Certamente Cláudia faria a mesma observação.
Voltei pro quarto e entrei no banheiro. A barata esmigalhada me pareceu ainda mais imunda. “Irene, tô voltando pra Brasília. Não precisa me esperar. Desculpa”, escrevi, sentado no vaso.
Tirei minha roupa de trilha, que vesti quando ainda tentava acreditar que deveria permanecer ali. Vesti a mesma com que vim. Joguei o resto das roupas de qualquer jeito na bolsa e ainda olhei pela última vez o quarto onde passei menos da metade de um dia. O acerto com a pousada eu havia feito em Brasília. A outra parte da grana do passeio, se Irene pudesse devolver, beleza. “Se não puder também, foda-se” disse tranquilo, certo do que fazia, e acelerei cruzando a cidade. “É realmente horrorosa”, concordei comigo mesmo, olhando pela janela do carro, agora com a ajuda da luz do sol. Eu estivera ali apenas para tomar duas cervejas, comer um sanduíche, dois pães de queijo, matar uma barata e dar uma cagada. Lamentando minha sorte naquele velho oeste, meu pensamento não passava da memória de Pirenópolis com Cláudia. Eu tentava, mas não conseguia que fosse diferente.

Pelo retrovisor interno, vi a nuvem de poeira que se erguia na avenida principal à medida que os pneus de meu carro riscavam a pista, misto de terra e asfalto malcuidado. E assim peguei a rodovia, acelerando, ao passo que aumentava o volume de uma playlist de meus rockinhos das décadas de setenta e oitenta.
Estiquei as marchas e em pouco tempo já estava a mais de 140 por hora. Eu queria chegar a Brasília antes do meio-dia. No entanto, minha esperança começou a fraquejar logo que apareceu, a minha frente, uma fila de umas cinco carretas. Pista simples, e no sentido contrário, outra leva interminável de carros e mais umas tantas carretas. Ultrapassar seria um jogo de paciência. Foi quando surgiu no retrovisor do motorista um carro prata, com a seta esquerda piscando, indicando que estava ultrapassando. Era um chevrolet classic, um sedã dos anos dois mil. Na pista contrária, uma carreta vinha a toda e a uma distância insuficiente para ultrapassagem, só que o velho chevrolet não arredava, insistia e já estava emparelhado com meu carro. Quando se convenceu de que seria esmigalhado pelo monstro que vinha em sentido contrário, o cara me olhou com cara de quem pede piedade. Esse frêmito de contato visual, a noventa por hora, foi o suficiente para achar o sujeito muito parecido com o ex-namorado de Cláudia, um milico que lhe deu um soco na cara por causa de um resultado de eleição. Demorei a frear. O sujeito era mesmo a cara do escroto. Ele buzinou, quase pediu clemência. Se eu não o deixasse entrar, a carreta jogaria aquela lata velha para cima de mim. Pisei no freio, ele entrou entre meu carro e a jamanta da frente, quase tocando o para-choque traseiro no dianteiro do meu carro. A carreta da mão oposta passou feito uma flecha gigante, um segundo depois.
Ficamos assim, eu e o cara, esperando a chance de nos livrarmos do trânsito à frente. Na primeira oportunidade, dei seta pra esquerda, reduzi a marcha e entrei acelerando na pista contrária. Dava para ver lá na frente que vinha movimento, mas que a ultrapassagem não seria arriscada. Só que o desgraçado entrou na minha frente. Eu buzinei. Ele continuou. Acelerei, grudei na traseira dele, buzinando. Ele acelerou também. Estávamos a mais de cento e vinte, eram cinco carretas a serem vencidas à nossa direita. “O que é que esse infeliz coloca para essa velharia andar desse jeito? É gasolina da Nasa, é?”, gritei. Eu estava tão colado à traseira do carro dele, que a distância entre os dois deveria ser de um palmo. “Para, que vai dar merda!”, escutei dentro da minha cabeça. Deveria ser minha consciência ou minha sensatez. Voltei para a pista certa assim que consegui ultrapassar todas as carretas. E o desgraçado também conseguiu, andando pouco além de mim, numa velocidade incompatível com um carro daquela idade.

Logo, logo apareceu mais tráfego. Fiquei ligado. Aquela geringonça não ia se dar bem em cima de mim, ah, mas não ia mesmo. Novamente a noventa por hora, eu esperava a chance. Quando ela apareceu, pisei tudo que pude no acelerador. O infeliz resolveu fazer o mesmo, e novamente veio para cima do meu carro. Só que agora eu não arredei. Emparelhamos na contramão, o meu carro pegando uma parte do acostamento da pista contrária, cento e vinte, cento e trinta. Ao nosso lado direito, duas carretas em boa velocidade. Na pista em nossa direção, outras tantas, se aproximando. Senti um gosto gelado subir pela garganta; o coração acelerou mais do que o motor. “Se eu tiver um enfarte agora, não vão saber se eu morri do coração ou da porrada”. Ao menos morreria com uma bela trilha sonora, ao som de Girl Next Door, do Romantics, uma das pérolas da minha playlist. Admito que por um fiapo de tempo, essa ideia, a de morrer, chegou a me agradar. Eu seria uma versão de meia idade do João Roberto, o boizinho que se mata em um pega por causa de um amor não correspondido, na música Dezesseis, da Legião. Mas em um segundo, tirei isso da cabeça, até porque se não quisesse morrer eu tinha pouco tempo. Joguei a terceira e acelerei até o motor perder o ar. Passei na frente do imbecil, me livrei das carretas, joguei pra direita e respirei fundo. Ele veio para trás de mim, piscando farol alto. “Vai piscar o olho do seu cu, seu babaca”, gritei e acelerei para dar distância. Só que não demorou cinco minutos para aparecerem mais carretas, caminhões e ônibus, e logo em um trecho da estrada bem sinuoso. Aquietei atrás deles, não havia muito a fazer naquelas condições da pista. Pois o boçal, que se parecia com o ex da Cláudia, também boçal, pensava diferente, e feito um kamikaze se lançou na faixa contrária, cortando nas curvas e lançando mão até mesmo do acostamento contrário. Do cano de descarga, subia a fumaça azul de óleo queimando em motor velho. “Tomara que você morra debaixo de uma carreta, seu filho da puta. Mas que morra sozinho, sem levar ninguém junto”, e desejei com a sinceridade mais trevosa de que eu seria capaz, movida em boa parte pela semelhança física do sujeito com o escroto do ex-namorado da minha namorada, um escroque que a espancou algumas outras vezes, e que se eu não aparecesse, quem sabe Cláudia estivesse entrando na porrada até hoje.
Eu estava ao volante há duas horas, mas com aquela pauleira de estrada, equivaliam a cinco. Eram nove da manhã. Acho que conseguiria chegar em casa antes do meio-dia, mas não tão antes quanto eu planejava. Eu precisava de uma mijada e de um café.
“Você está muito antissocial. Não veio no ônibus com a gente e não quis dividir o quarto com ninguém. O que é que a humanidade te fez? E ainda por cima vai embora sem nem dizer o motivo”, era a mensagem de Irene que li depois de tomar o café”
“Minha cabeça está em outro lugar, Irene. Desculpa”, respondi já no carro, com o motor ligado e a playlist de volta.
Mais uns dez quilômetros e o trânsito foi ficando lento, até parar de vez. “E isso agora. Vou chegar em Brasília amanhã”, sacudi a cabeça contrariado. De repente surge uma ambulância dos Bombeiros indo desesperada pela contramão, no acostamento. Um carro da Polícia Rodoviária fez o mesmo. “Ih…cagada lá na frente”, deduzi o óbvio. O trânsito começou naquele anda e para, e quando andava, a velocidade não pedia nem a segunda. Só uns vinte minutos depois foi possível ver o que havia acontecido. Uma carreta gigantesca estava parada no meio da pista contrária, e um carro havia entrado com a frente toda embaixo dela. Era um chevrolet classic. Com a lentidão, demorei a alcançar o ponto do acidente. Quando passei pelo local, olhei para esquerda, para dentro do carro. O sujeito que parecia com o imbecil que Claúdia namorou tinha os olhos vidrados, de um pavor congelado, fixos no painel do veículo, certamente a última coisa que viu na vida. De sua boca e nariz escorriam grossos filetes de sangue. Alguém chegou para cobri-lo com um plástico preto. Era o mesmo cara que eu tinha visto vivo, ainda que de relance, cerca de quarenta minutos antes e que agora levava o para-choque de uma carreta no meio dos peitos. Tudo sempre pode estar por um fio, a gente não deveria esquecer, ainda mais quando provocamos. É óbvio que fiquei baqueado. “Otário tem mais é que se foder mesmo”, mas não contive a frase que disse entre dentes, que me foi crescendo, ganhando corpo de palavras e de raiva, a ponto de eu não poder segurar. No vácuo, ainda veio outra: “Tomara que esse filho da puta não tenha posto nenhum inocente no mundo pra estar em casa a essa hora esperando, sem saber que ficou órfão”. E quando o tráfego normalizou, acelerei forte, muito mais com raiva do que com pressa. Raiva do imbecil que perdeu a vida de forma tão estúpida; raiva do cara que namorou Cláudia; de Cláudia, por ter namorado o cara; raiva daquela merda de cidade onde perdi uma noite da minha vida, e raiva por Cláudia não estar me esperando em Brasília.
Dirigi desse jeito uns cinco, seis quilômetros, até que amoleci os nervos e caí num pranto convulsivo, dolorido, a ponto de não enxergar nada à minha frente e ter que encostar em um posto de gasolina. Eu ainda não tinha visto, mas no celular Irene respondera, dizendo que eu fosse atrás desse lugar onde estava a minha cabeça.

Muito bom!!
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