André Giusti - foto: Luana Lleras
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A Conhecida

Eu a encontrava ocasionalmente ao longo dos dias de trabalho, um convívio irregular que não permitia maior aproximação. Trocávamos um cordial boa tarde e não íamos além de algumas considerações sobre a temperatura e as longas esperas nas ante-salas. Ela, a falar trivialidades, preferia o silêncio que a mantinha distante dos outros e que bem [...]

Eu a encontrava ocasionalmente ao longo dos dias de trabalho, um convívio irregular que não permitia maior aproximação. Trocávamos um cordial boa tarde e não íamos além de algumas considerações sobre a temperatura e as longas esperas nas ante-salas. Ela, a falar trivialidades, preferia o silêncio que a mantinha distante dos outros e que bem casava com a formalidade das repartições. A todos que surgiam indiferentes a nós, que aguardávamos em um sofá sempre fora de moda, espreitava com seus olhos verdes de rara cristalização. Não sei se naturalmente ou por causa do rouge, sua pele exibia um tom avermelhado junto às maçãs, o que lhe conferia destaque maior aos olhos. Eles e sua pele me remetiam a algum país do mediterrâneo. Eu pensava na Tunísia. Sem embasamento, achava que lá as mulheres deveriam ter pele e olhos assim.

            Eu estava no corredor bebendo o café velho e morno que me ofereceram quando ela saiu da ante-sala falando ao celular. Talvez por descuido, mas acho que de propósito, deixou que a porta batesse com força maior que o tolerado pela sisudez do ambiente. Percebendo que eu notara aquele contido destempero, procurou abrandar a voz para disfarçar a irritação ao telefone, o que não conseguiu até o final da conversa, quando já dizia em bom som, à outra pessoa, que estava procurando o advogado e que a coisa seria, então, resolvida daquela forma.

            Parou em frente a mim mordiscando os lábios ainda nervosa e desta vez apenas ouvia. Voltou a caminhar e dez passos depois, e agora sim, enraivecida de vez, soltou a voz, e senão aos berros, o suficiente para fazer com que na sala próxima um burocrata se desconcentrasse de seus papéis. Ela tentara entrar em acordo, pelo que alegava, mas o outro queria briga e teriam briga, certamente.

            Já no fim do corredor, girou abrindo a bolsa para guardar o celular. Veio voltando, caindo em si de que provavelmente eu ouvira toda a discussão. Levei à boca o copinho plástico querendo disfarçar que o tempo todo estive entretido com aquele café insuportável.

            Quando se aproximou, abri a porta para que entrasse. Agradeceu-me o cavalheirismo com o cenho enrugado. Tornei também à ante-sala.

            Ali, o único lugar disponível era a seu lado. Sentei-me percebendo pelas expressões gerais que ainda haveria alguns minutos de espera, talvez quase uma hora até que nos atendessem.

            Enfastiada, minha vizinha de poltrona perguntou-me onde eu havia conseguido café. Apontei-lhe uma pequena copa no canto, mas tive a consideração de avisar-lhe que o café não valia o esforço de se ir até lá. Convencida disto ficou imóvel na poltrona e suspirou aborrecida, dizendo que se pudesse iria embora, não esperaria mais, afinal tinha tanta coisa para resolver na vida e ficava ali, perdendo esse tempo todo.

            Antes que eu tentasse qualquer frase banal que consolasse seu lamento inútil, deixou escapulir o que motivava sua verdadeira inquietação. Ela estava se separando.                                                                                           

A frase soou tão direta quanto reticente e por isso permaneceu algum tempo no ar, até ser engolida pelos ruídos monótonos ao redor. Ela afundou as costas na poltrona e levou os olhos verdes a buscarem o céu que se percebia através das lâminas tortas da antiga persiana.

            Nem cheguei a dizer algo feito “que pena” ou “isso acontece com qualquer um”, pois ela insistiu no assunto, agora em seus detalhes. O casamento durou cinco felizes anos ou ao menos, como ela considerava, de normalidade conjugal. Belo dia ele chegou do nada dizendo que estava insatisfeito, que o casamento não dera a ele aquilo que procurara.

            Não parecia preocupada se eu estava interessado, muito menos escutava minhas breves observações abestalhadas. Mexia as mãos apressadamente à medida que se aprofundava na história. No anular esquerdo, a aliança ainda resistia.

            Do final do ano em diante, o marido ficou diferente. Irritava-se com besteiras, tolices tais como um botão de camisa faltando ou o bife que a empregada não fez no ponto. O que mais doía, entretanto, era evitá-la na calada da noite, quando os filhos adormecidos traziam sossego. Não, não é outra mulher, estava certa, antecipando-se sem saber à primeira hipótese que me ocorreu no silêncio de minha atenção. Olhou as unhas bem pintadas como se nelas visse com mais clareza as provas do que dizia. Já investigara. Não havia bilhetes, números diferentes no celular, valores de compras estranhas na fatura do cartão. Ele sempre estava no trabalho na hora do expediente e não chegava tarde nem inventava compromissos. O problema estava nele mesmo, ela acreditava, e finalmente tratando-me como seu interlocutor olhou para mim perguntando se eu entendia. Ainda assim não me deixou falar e emendou contando que o marido lamentava o tempo passando e a vida dele sem acontecer, trabalhando em algo de que não gostava, em um lugar de que não gostava, junto a pessoas das quais gostava menos ainda.

            Calou-se e me pôs outra vez como interlocutor-figurante. Percebi que buscava novamente o céu nas frestas da persiana e que com isso seus olhos ganhavam emoção nova. Mas não era alegria ou esperança. Era apenas desencanto.

            Descobriu também que casou com a mulher que ele não gosta, e esta sua última frase também foi morrendo aos poucos, vencida por outras conversas paralelas, toques de telefone, folhas de papel saindo da impressora.

            Procurei argumentos que quebrassem o constrangimento daquele silêncio final. Via-me na obrigação de encontrar palavras de ânimo, por mais vazias ou pueris que fossem, mas que justificassem, em parte, meu papel de ouvinte. Aquilo tudo era só uma fase ruim, o marido colocaria a cabeça no lugar e se não colocasse, pior para ele, ela era ainda muito jovem, casaria de novo, pretendentes não faltariam. Mas acabei engolindo inteiras as frases de emergência que arranjei, pois ela própria me cutucava avisando que chegara a hora de sermos atendidos. Levantamos, e acabei não sabendo o porquê do advogado, a parte da discussão da qual fui testemunha.

            Dez ou quinze dias correram sem que nos víssemos. Quando a reencontrei, achei que me cabia o direito de perguntar com mais interesse a quantas andava a sua vida. Estava tudo bem, respondeu-me com secura e procurando um pretexto próximo para logo se afastar. Levantou suas trincheiras de silêncio e manteve-se distante de todos, e – não sei se eu exagerava – preferencialmente de mim.

            As expressões gerais anunciavam que a espera não seria rápida. Fui atrás de um café velho e morno que me fizesse companhia. Ela, num canto, espreitava o ambiente com seus olhos tunisianos.

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Comentários (2)

  1. Stella Maris Rezende -

    A Conhecida é um dos mais belos textos que
    eu já Li! Um primor. Parabéns, André.

  2. Sócio -

    Ainda da anterior: As nuvens são presenças fundamentais pata quebrar a mesmice do céu.
    Talvez seja melhor engolir um café ruim do que um amargor do coração. Mas ouvir ainda é um remédio amargo para nossas dores, porém, ao final da dose, pode ser que haja um quê de olhar tunisiano.

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