
A gente só percebe a falta que sentimos do mar quando vamos para longe dele.
Morei mais de trinta anos no Rio, e quantas vezes abri mão de ir à praia por causa de trabalho ou mesmo de preguiça de cruzar a cidade.
O meu Rio de Janeiro de nascença e criação não é o das novelas ou cartões-postais, fica longe da imagem que o consagra perante o mundo como uma cidade linda.
Então eu não desconfiava de que vivia infinitamente mais perto do mar do que anos depois viveria, por causa dessas cambalhotas que a vida dá.
Mais do que em sua ausência, só há um momento em que percebemos o quanto sentimos falta do mar.
É justamente quando nos reencontramos com a areia, a espuma branca da água e a onda quebrando em nossas costas em um mergulho que nos resgata o emocional cansado das vicissitudes da existência.
Comigo isso aconteceu recentemente, em Ipioca, no belíssimo litoral de Alagoas.
Caminhando pela praia, deparei com um rio calmo e sereno abrindo caminho na areia sob a tarde prateada pelo sol das três horas.
Altivo, seu curso chegava respeitosamente à beira da praia para construir seu humilde delta, se entregando ao mar para que formassem um único corpo aquático.
Não sou dado a delírios, mas tive a impressão de que um pouco além da arrebentação havia uma espécie de portal, por onde se entrava para um novo tempo, uma época de renovação, um portal em que anjos guardavam a entrada.
Com as águas tépidas batendo em minhas canelas e o sol viril do nordeste escorrendo em meu corpo, eu sabia que estava sendo feliz, imensamente feliz.
Feliz do jeito que se é quando se está junto ao mar.

Que delícia que é está no mar. Só de fitar as ondas e me amornar ao sol no fim de tarde já é um grande prazer.