André Giusti - foto: Luana Lleras
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A festa desmerecida.

Anunciaram meses a fio que a festa pelos 50 anos de Brasília seria um desfile de astros. Disseram que com Paul MaCartney estava tudo acertado, que só faltavam alguns detalhes. E que ao lado dele estaria Roberto Carlos cantando uma canção com o ex-Beatle. U2 e Madonna, figurinha fácil por aqui nos últimos tempos, também [...]

Anunciaram meses a fio que a festa pelos 50 anos de Brasília seria um desfile de astros. Disseram que com Paul MaCartney estava tudo acertado, que só faltavam alguns detalhes. E que ao lado dele estaria Roberto Carlos cantando uma canção com o ex-Beatle. U2 e Madonna, figurinha fácil por aqui nos últimos tempos, também estavam cotados para sacudir os esqueletos dos moradores da capital do país.

Paul MaCartney, dizem, pediu alto, e não haveria dinheiro escondido nas meias que pagasse o cachê. Roberto Carlos saiu de fininho. Mandou dizer que tinha shows na agenda. A essa altura da vida é muito tarde para sujar seus belos blazers com migalhas de panetones suspeitos.

Quando a bandalheira veio à tona, acho que nem tiveram mais cara de procurar gente lá fora para animar o cinquentenário da cidade. Tiveram que correr por aqui mesmo e resolveram a parada com os mesmos de sempre. Cláudia Leite, Ivete Sangalo e uma ou outra dupla sertaneja que todo fim-de-semana estão por aqui foram convocadas às pressas para que houvesse ao menos alguém fazendo barulho no palco a ser armado na Esplanada dos Ministérios.

A programação para festa dos 50 anos de Brasília se anuncia deprimente, mas é o retrato da lama em que a ladroagem mais repugnante e descarada enfiou a cidade e, de quebra, a reputação dos moradores, honestos em sua quase totalidade.

Possivelmente quando você estiver lendo esse texto, o chefe da quadrilha já tenha deixado a prisão por causa do entendimento de algum notabilíssimo e empavonado ministro de tribunal superior.

É bem possível também que em abril, quando Brasília sopra as velhinhas, o Distrito Federal esteja sendo governado por um interventor nomeado. O  fato é inédito entre as unidades da Federação, pelo menos nos tempos mais recentes e, mais ainda, por causa de gatunagem explícita. Um presente que JK jamais pensou que a cidade que construiu ganharia quando soprasse 50 velinhas.

Óbvio que no caso de uma intervenção federal, quem estiver com essa batata quente na mão terá milhões de outros abacaxis para descascar, e os 50 anos de Brasília não deverão estar na pauta do dia. Talvez nem música baiana nem dupla que chora os chifres que a mulher botou dê para trazer, o que convenhamos não seria má idéia.  

Mas já que estragaram mesmo a festa toda, se a capital não poderá festejar seu meio século de fundação do jeito que merece, que ao menos passe seu aniversário livre de quem a saqueou os cofres. Vendo por esse lado, dá até para comemorar. Desde que não seja, é claro, com axé e música sertaneja.

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Comentários (2)

  1. Daniel Cancelier -

    Muito bom o texto André! Exatamente o que queríamos falar!

  2. jovino -

    Cooretíssimo André. Assino embaixo do que você escreveu. Abs. Jovino

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