André Giusti - foto: Luana Lleras
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A fita K7 como carta de amor

No filme Alta Fidelidade, John Cusack interpreta o dono de uma loja de discos que grava fitas K7 para dar de presente à namorada. Para quem nasceu dos anos 90 para cá, gravar uma fita K7 deve significar o mesmo que andar de carruagem, ou seja, algo que se fazia em um pretérito indeterminado. Mas [...]

No filme Alta Fidelidade, John Cusack interpreta o dono de uma loja de discos que grava fitas K7 para dar de presente à namorada.

Para quem nasceu dos anos 90 para cá, gravar uma fita K7 deve significar o mesmo que andar de carruagem, ou seja, algo que se fazia em um pretérito indeterminado.

Mas era uma das formas preferidas de toda uma geração de homens se declarar às mulheres.

Salvo uma ou outra rosa roubada do jardim, não me lembro de ter dado flores a alguma namorada. Em compensação, perdi a conta de quantas fitas gravei para declarar amores eternos e paixões desvairadas. Era como se as músicas explicassem, não apenas com as letras, mas também com as melodias, aquilo para o qual eu não descobria as palavras corretas.

Era um exercício de amor por meio da paciência. Só os mais velhos saberão dizer a frustação que era a fita acabar apenas 10, 15 segundos antes do disco, e a música ser interrompida bruscamente, da mesma maneira que se apaga um abajur. Algumas aparelhagens possuíam um dispositivo que nos permitia abaixar devagarinho o volume do som, que dessa forma desaparecia aos poucos, evitando o corte repentino. Mas não era o caso do meu 3 em 1. Então, toca de gravar tudo de novo.

O trabalho era maior quando nossa coletânea romântico/particular precisava ter uma música de cada disco ou CD. Era um infindável “para e continua a gravação, põe e tira o disco”, que só se justificava mesmo como loucura que se faz por amor.

A fita K7 sobreviveu algum tempo ao CD, mas seu ocaso foi impiedoso a partir da chegada dos aparelhos que tocavam nos automóveis os disquinhos de leitura digital. O mp3 veio com a pá de cal e sepultou de vez a gloriosa trajetória das Basf’s e TDk’s.

K7

Essa que aparece na foto encontrei alguns dias atrás em uma caixa de bagulhos no fundo do quarto de mesma finalidade. Está intacta e com a embalagem fechada, ou seja, mantem-se virgem, como se dizia das tias solteironas em um tempo anterior às próprias fitas K7. Não há como saber de quando é. Quem sabe se alguma paixão que tenha varrido meu coração à época acabou antes de a fita cumprir sua tarefa.

Hoje em dia manda-se pelo smartphone um link do youtube para namorada via wathsApp. Leva-se 30 segundos para se fazer o que há 20 anos varava a noite e entrava pela madrugada. Entre tantas vantagens, fica-se sabendo muito mais rápido se nosso gesto foi recebido com amor ou com desprezo.

 

Ps: Sugiro ouvir isto depois da leitura: http://www.youtube.com/watch?v=6F3k0R-zYQA

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Comentário (1)

  1. Christian -

    mas não é a mesma coisa, nunca mesmo. Porque é algo que a pessoa faz quase sem pensar, manda um link e pronto. Não tem o mesmo capricho, não tem o mesmo sentimento. A pessoa que recebe, não recebe com a mesma emoção também, porque quem mandou pra ela, não varou noites pra fazer o playlist, não vai dar tanto valor.
    Bons tempos…

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