André Giusti - foto: Luana Lleras
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A hipócrita paz da mídia

Um estudante foi espancado no fim-de-semana depois de ter saído de um bar, aqui em Brasília, onde assistiu às lutas do tal UFC. Ele entrava no carro quando dois mastodontes, ao que parece, resolveram descarregar no rosto do rapaz a energia represada durante a pancadaria televisiva. Os jornais tratam o assunto com aquele tom de [...]

Um estudante foi espancado no fim-de-semana depois de ter saído de um bar, aqui em Brasília, onde assistiu às lutas do tal UFC. Ele entrava no carro quando dois mastodontes, ao que parece, resolveram descarregar no rosto do rapaz a energia represada durante a pancadaria televisiva.

Os jornais tratam o assunto com aquele tom de “ Ó, que absurdo”, adotando a praxe de mostrar quão é boçal esse tipo que já de algum tempo é corriqueiro nas grandes cidades.

Compatível em tamanho com a estupidez dos agressores se torna a desfaçatez com que a mídia se isenta de qualquer responsabilidade na ocorrência de uma imbecilidade igual a essa. O jornal que se condoi da mandíbula destroçada do estudante é o mesmo que dedicou primeira página e ampla cobertura do evento em seu caderno do esportes.

TV’s entraram pela noite de sábado exibindo para todo o Brasil o cacete comendo solto na telinha. O interessante é que se mostrarão consternadas – e nem por isso deixarão de lado o sensacionalismo – caso na saída de alguma boate um ou outro ‘pitboy’ decidir reeditar o combate, de preferência contra um inocente franzino.

E a reportagem irá ao ar como se fossem distintas as emissoras que televisionaram a luta e as que levam ao público, em forma de notícia, os alcances da estupidez humana. Como se o faturamento milionário das primeiras com a violência não entrasse nos cofres das outras, que pousam de cidadãs e responsáveis.

Durante uma década, entre 2000 e 2010, a Unesco promoveu a chamada Cultura da Paz. Consistia no cultivo de valores que promovessem o entendimento entre as pessoas.

Durante dez anos a Unesco tentou fazer com que a mídia aderisse à campanha e colocasse no ar uma programação que incentivasse a harmonia no planeta.

Passou dez anos falando sozinha, talvez sem se dar conta de que há dois tipos de valores para a mídia. Um é o do discurso da plástica jornalística, que com ares de bom moço condena a violência e alardeia a paz.

O outro é o do faturamento por meio da busca da audiência a qualquer preço, que se confirma cada vez mais como o motor de toda a engrenagem.

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Comentários (5)

  1. Denise Giusti -

    Lamentável, tudo isso!

  2. giovani iemini -

    éééé… a mídia é um mercado sensacionalista, não um fórum de ética e evolução.
    o futuro do ser humano? sommmmmmbrio.
    já tínhamos pão e o circo, agora com os gladiadores, estamos romana e perfeitamente complacentes com a corrupção da república (curiosa a comparação, não?!).

  3. HUGO GIUSTI -

    Muito bem observado irmão. É lamentavel que neste século ainda esse tipo de coisa, já ultrapassada desde os anos 50, exista.
    O Brasil esta sempre na contra-mão da vanguarda.
    Muito triste.

  4. Erisângela Toniolo -

    Os meios de comunicação, são também, empresas. Do ponto de vista empresarial o que interessa são lucros, seja lá como for. Então, em que lucra-se mais: noticiar e falar do menino espancado (infelizmente algo comum) ou investir no “esporte” da moda?

  5. Cláudia Guerreiro -

    É. Há anos – se calhar desde sempre – que a televisão se tornou um instrumento de imbecilização dos que a assistem. A diferença é que há 30 ou 40 anos ela não era tão presente nas nossas vidas como hoje. E este aumento de presença é proporcional ao lixo que veicula quase que o tempo inteiro… Quanto aos jornais, há muito deixaram de fazer o que conhecemos – e estudamos – como sendo jornalismo “de verdade”.

    Para não me tornar tão pessimista ao ponto de ser desagradável aos que comigo convivem, só posso acreditar que isso seja um sinal dos tempos: que nossas meninas, quando tiverem a nossa idade, apanhem um novo modelo de vida e mundo, onde este tipo de coisa seja ultrapassada.

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