André Giusti - foto: Luana Lleras
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A infelicidade de quem não dá a descarga

De uns tempos para cá, comecei a tentar entender pessoas que usam o banheiro de onde trabalham e não dão a descarga, especialmente naquela situação que todos podem imaginar. A primeira hipótese que me ocorre é que são extremamente infelizes no local onde ganham o pão de cada dia. Odeiam tudo ali – o salário, [...]

G1 - Globo.com

G1 – Globo.com

De uns tempos para cá, comecei a tentar entender pessoas que usam o banheiro de onde trabalham e não dão a descarga, especialmente naquela situação que todos podem imaginar.

A primeira hipótese que me ocorre é que são extremamente infelizes no local onde ganham o pão de cada dia. Odeiam tudo ali – o salário, o serviço, o chefe, as pessoas – e quando vão ao banheiro devem imaginar a privada como a sala, a seção ou o departamento, e que lá dentro estão os chefes e os colegas. Penso que devem mesmo imaginar, naquele exato instante, que são imensos gigantes sentados sobre o prédio.

Essa infelicidade talvez venha desde a formação profissional, dos anos de faculdade. Quem sabe o autor do quadro repugnante com o qual você depara no banheiro queria ser médico, ator, arqueólogo. Não conseguiu ser por alguma razão e pá: “o mundo que veja projetado nessa privada o que eu acho da minha vida”.

Casamento infeliz, pais e sogros insuportáveis, filhos com problemas, dívidas impagáveis do cartão.

Todas essas possibilidades me vêm à cabeça quando vou usar o banheiro e vejo que não há condição.

Sentido-me mais afortunado que os funcionários da limpeza que terão que dar um jeito naquilo, procuro achar que a pessoa que usa o banheiro e não dá a descarga é alguém infeliz sem coragem para mudar a própria vida e correr atrás da felicidade.

Medroso, acomodado, agride o mundo de forma escatológica extravasando suas frustrações.

Não pensa que há saídas mais higiênicas de trabalhar nossos complexos.

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