André Giusti - foto: Luana Lleras
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A inversão dos limites do direito.

Tarde de um meio de semana na Esplanada Ministérios, em Brasília. Em frente ao Congresso Nacional, uma categoria profissional faz manifestação reinvindicando jornada de trabalho menor ( e quem não quer trabalhar menos, não é verdade?). Para chamar a atenção dos deputados e senadores, nada de discursos, palavras de ordem, coros ensaiados, líderes insuflando a [...]

Tarde de um meio de semana na Esplanada Ministérios, em Brasília. Em frente ao Congresso Nacional, uma categoria profissional faz manifestação reinvindicando jornada de trabalho menor ( e quem não quer trabalhar menos, não é verdade?).

Para chamar a atenção dos deputados e senadores, nada de discursos, palavras de ordem, coros ensaiados, líderes insuflando a massa de cima de um carro de som, aquilo que ainda se tem como ideia de um protesto.

Há o carro de som sim, mas torturando a audição humana com todo esse lixo que há quase vinte anos apodrece na calçada musical do pais, tais como axé e a tal dita música sertaneja.

Um cego que passasse por ali desavisado pensaria em carnaval fora de época, jamais que centenas de trabalhadores estivessem exigindo seus direitos exercendo outro direito: o de manifestação, para o qual, aliás, o brasileiro tem um talento imenso, desde que seja para lutar pelas causas que orbitem em torno de seu próprio umbigo, e nunca em favor do coletivo, da sociedade.

O meu direito termina onde começa o do outro. Não era assim o certo? Parece que não apenas deixou de ser, como caminha na direção do conceito diametralmente oposto, ou seja, o meu direito termina onde eu quiser, seja em um protesto por melhores salários que dê um nó no trânsito de uma cidade na hora do rush, seja em um baile de fim de semana que deixa às claras a madrugada da vizinhança, pois o clube jamais pensou em gastar um centavo sequer com tratamento acústico.

O som reverbera nas paredes dos prédios e ganha o céu azul da tarde de Brasília. Em um dos ministérios, a recepcionista diz que o barulho começou as oito da manhã (já são quatro da tarde e nada de o som abaixar). As pessoas com quem me reúno contam que ninguém conseguiu trabalhar direito. Falta concentração, os vidros tremem, você não escuta o que o colega da mesa ao lado tenta falar.

Passo duas horas no prédio sem ouvir uma palavra de ordem sequer. Somente o insuportável cardápio musical que assola o Brasil desde os anos 90.

Quando desço, eles ainda estão lá. O céu do cerrado, o chão vermelho de Brasília tremem. Tentam me entregar um panfleto com as reinvidicações. Não aceito. Mesmo que sejam justas, nenhum deles ali merece conseguir.

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Comentários (2)

  1. krieger -

    Antigamente pensáva-se em ganhar a opinião pública com “bandeiras” ostentadas sob a égide da justiça social. Elas carregavam sentimentos compartilháveis.
    Quando o poder público legitima uma passeata deste porte ( diga-se de passagem, muito pouco representada pela classe que sofre mesmo com baixos salários, um número reduzidíssimo de professores) priorizando uma mínima parte da sociedade em detrimento à grande massa de cidadãos, em seus postos de trabalho e no trânsito, tornam-se ao meu ver, os principais responsáveis pela inversão de valores.
    Ora , como pode a polícia, dar cobertura e apoio a tal ação? Parar 6 faixas de rolamento em uma das principais pistas da cidade na hora de maior fluxo de veículos? Será que os agentes responsáveis do movimento, ignoram os “direitos” da população, confundindo o que é o estratagema da democracia? Mesmo tendo razão em suas reivindicações, perdem completamente o meu apoio, admiração e respeito. Toda a vez que uma classe qualquer quiser reivindicar seus direitos passando por cima dos direitos dos outros, como disse o autor do texto, André, estará invertendo os valores democráticos que eu um dia acreditei lutar, neste mesmo asfalto.

    Krieger.

  2. Henrique -

    Há uma gratuidade nos gestos das pessoas. É fruto de uma falta. Algo que nossa geração não conseguiu passar com clareza, ou mesmo, não passou. Isto provocou, como falta, uma “desnoção” das coisas. Um senso inexistente. Como o que despreza o fone de ouvido, ou que arrebenta nossos tímpanos com o som do carro conscientemente. A falta da delicadeza. Que talvez tenhamos esquecido de mencionar em algum ponto dos últimos anos.

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