André Giusti - foto: Luana Lleras
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A opressão dos comerciais em tempo de Copa do Mundo.

Tempos atrás, no tuíter, alguém escreveu que ficava enjoado dos grandes eventos antes mesmo de eles começarem. Referia-se a Olimpíadas, Copa do Mundo e outros de porte semelhante que arrastam para nossas casas a massificação impiedosa da publicidade dos produtos que bancam nas TVs a transmissão dessas competições. E o motivo do fastio era esse [...]

Tempos atrás, no tuíter, alguém escreveu que ficava enjoado dos grandes eventos antes mesmo de eles começarem. Referia-se a Olimpíadas, Copa do Mundo e outros de porte semelhante que arrastam para nossas casas a massificação impiedosa da publicidade dos produtos que bancam nas TVs a transmissão dessas competições. E o motivo do fastio era esse mesmo, a invasão da vida e do mundo irreais da propaganda, algo elevado a quinta potência quando se está às vésperas de um campoenato mundial de seleções.

Quando eu era mais jovem, as semanas que antecediam uma Copa do Mundo, por exemplo, eram de excitação plena por tudo que envolvesse a disputa, inclusive os anúncios no rádio e na TV. Hoje, também provavelmente por causa da cacetice da idade adulta, mas ainda pela possibilidade da propaganda ser mais agressiva e incisiva, antes que comecem, esses mega eventos já enchem as bacias da minha paciência.

O que me satura não é somente o excesso de anúncios com o viés da Copa – de bala juquinha a viagens à lua, se existissem – mas o conteúdo desses comerciais. Além dos cada dia mais banais e sem graça anúncios em que os argentinos são ridicularizados, há os que me fazem pensar se o país em que vivo é o mesmo da OI, do Itaú e da Visa.

Reparem como são felizes e estão sempre satisfeitas as caras que aparecem falando ao celular, abrindo uma conta ou pagando outra no restaurante. O mundo dos comerciais é um mundo de igualdade econômica, social e racial (embora neles quase não apareçam negros) e de cidades limpas que abrigam uma sociedade justa, bem resolvida no quesito oportunidades para todos.

É claro que o publicitário está fazendo o trabalho dele, não me perguntem como ele venderia celular ou cartão de crédito mostrando fiéis imagens de miséria e degradação. Mas é de se pensar – e isso é o nervo da minha saturação – quanto dessa miséria e dessa degradação não tem a ajuda dos conglomerados bancários, de telefonia e cartões de crédito que te convidam ao mundo fácil e escorregadio da ilusão. Reflitamos se a fiolosofia do lucro a todo custo, que sangra nossa carne de correntistas e clientes, é por acaso condizente com as belas imagens de gente feliz vestindo a camisa verde e amarela no intervalo da Jornal Nacional. Qual o empenho dessas empresas para tornar factível aquele país perfeito de luz e som construído pelas agências de propaganda que elas contratam?

Basta lembrar que esta semana, com a notícia da tentativa de extorsão sofrida pelo vice-presidente José Alencar, verificou-se mais uma vez que as operadoras de celular nada fazem para bloquear o sinal dos aparelhos em áreas de presídios, de onde geralmente partem as ligações. É porque nesse caso elas teriam que investir em bloqueadores, o que custa dinheiro, e o que custa dinheiro diminui o lucro, e aí o mundo delas não fica tão bacana assim como nos comerciais da Copa.

No placar, Ganância 3 X 0 Responsabilidade Social.

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Comentário (1)

  1. angela giorgio -

    Belo e tristemente verdadeiro o texto! Sinto o mesmo cansaco e entojo c/ tudo isso. Ai’, as vezes penso: Angela, vc esta’ e’ ficando velha e mais exigente. Mas, atrave’s do seu texto concluo que nao. Vc e’ um jovem e a indignacao nao tem a ver c/ a idade, mas c/ a consciencia de cidadao.
    Abs.
    Angela

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