André Giusti - foto: Luana Lleras
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A primeira vez para a Europa.

Nunca teve medo de avião. Dormia na decolagem. No pouso, invariavelmente estava agarrado a um livro do qual não desprendia os olhos nem mesmo quando as rodas golpeavam a pista. Quando o solavanco da freada ameaçava despejar os passageiros de uma só vez no saguão do aeroporto, ele ia e voltava com o tronco na [...]

Nunca teve medo de avião. Dormia na decolagem. No pouso, invariavelmente estava agarrado a um livro do qual não desprendia os olhos nem mesmo quando as rodas golpeavam a pista. Quando o solavanco da freada ameaçava despejar os passageiros de uma só vez no saguão do aeroporto, ele ia e voltava com o tronco na poltrona virando as páginas como se estivesse na rede da varanda.

Então, por que isso agora? Essa tensão disfarçada lhe apertando o peito como se fosse uma braçadeira de aço; os músculos das costas, dos braços e ombros empedrados como se carregasse um piano invisível; esse gelado da boca ao estômago de aluno em véspera de prova final, de paciente grave ante o resultado da biópsia.

É que agora atravessaria o mar, o imenso mar que tantas vezes em séculos d’antanho engoliu negros, europeus e tantos degredados. E não apenas caravelas frágeis como cascas de nozes, ele pensava com a revista do ano passado nas mãos. Na capa, o avião da companhia francesa que sem explicação desapareceu no imenso nada desse outro mundo chamado oceano.

Ora, quantos aviões caíram no Atlântico ao longo dos anos? E a razão lhe cobrava sensatez. O emocional se aquietava. É claro, é claro, a morte pode nos esperar no chuveiro, com um escorregão no sabonete. Mas na hora de dormir, quando apagava a luz do quarto e a escuridão oprimia seus olhos, era o abraço do mar que sentia, o gelado e profundo abraço do oceano em um ponto há centenas de milhas da costa da África.

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Comentário (1)

  1. Eduardo Viana -

    Além do medo, havia a impaciência de horas preso a uma cadeira apertada, aposto. Não há livro que dê jeito e não há sono que descanse. Mas a viagem foi boa?

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