André Giusti - foto: Luana Lleras
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A realidade desconectada dos preços de Brasília

Em São Paulo, entre um show e outro do U2, me perdi em cafés, cantinas e mercados com pastéis e chope. Como acabei me hospedando em área nobre, esperava uma facada daquelas nas contas. Afinal, era São Paulo, templo da gastronomia, bairros da alta. Surpresa. E boa. Os preços estão iguais ou até menores do [...]

macarronada

Em São Paulo, entre um show e outro do U2, me perdi em cafés, cantinas e mercados com pastéis e chope.
Como acabei me hospedando em área nobre, esperava uma facada daquelas nas contas. Afinal, era São Paulo, templo da gastronomia, bairros da alta.

Surpresa. E boa. Os preços estão iguais ou até menores do que em Brasília. E se formos levar em conta a proporção do que é servido e fazer a relação quantidade/qualidade X preços, aí é que fica mais barato mesmo.

Voltei para Brasília com a impressão que sempre tive, fortalecida: os preços na capital do país são, na maioria dos lugares, estabelecidos de acordo com os salários irreais de uma elite do funcionalismo público, aquela mesma cujos contracheques causam escândalo quando aparecem no jornal nacional. E que se dane a maioria assalariada, com o que vem no fim do mês cada vez mais achatado.

Um café espresso bem servido (e bom, muito bom) em São Paulo me custou R$ 6, R$ 7. Aqui, já paguei, meses atrás, os mesmos R$ 6 por dois míseros dedos de café sem qualquer biscoitinho pra fazer dupla, nem água gasosa em copo de cachaça. Mas o lugarzinho é cool e aproveita que a classe média precisa posar de descolada ouvindo jazz e Cartola junto ao Parque na Asa Norte domingo de manhã.

Lá, em Sampa, encontrei um espaguete gigantesco, que entope três italianos esfomeados feito eu, por pouco mais de R$ 100. Aqui, sejamos justos, encontra-se também comida farta e por preço razoável, mas temo que, além de não serem a regra geral, esses lugares estão cada vez em menor número em relação aos que te deixam com fome por R$ 50, R$ 60. Mas fiquemos quietos, comamos calados. Afinal, são locais gourmets, bistrôs e servem cozinha de autor.

Pra encerrar, os vinhos. É claro que o dono do restaurante precisa ganhar uma margem boa em cima da garrafa. O problema é que em Brasília, em boa parte dos lugares, o povo parece querer ganhar três garrafas em uma. Lá, na Paulicéia, vinhos que conheço estavam no máximo R$ 20 mais caros.

Não fui a todos os restaurantes de São Paulo, claro, mas foi uma mostra que me surpreendeu.

É muito injusto quando, revoltadas com a corrupção, pessoas dos quatro cantos dessa pátria injuriada querem culpar Brasília pela roubalheira. Esquecem que aqui se recebe o lixo político das 27 unidades da Federação. Inclusive o nosso, que também o produzimos.

Mas esse achaque ao consumidor nos bares e restaurantes, embora não seja invenção candanga, é um traço que vem se acentuando na cidade, fazendo com que a desconexão de muitos de seus moradores em relação à realidade do país comece pela cozinha, balcão e adega.

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