André Giusti - foto: Luana Lleras
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A ressureição de um soneto

Meus primeiros poemas são cópia descarada dos poetas românticos. Aos 15, 16 anos eu escrevia sonetos, imaginem, formato poético em extinção, creio eu. Ouvia Rock o dia inteiro e à noite, na calada do quarto, rabiscava rimas e tentava as tais métricas, na busca do verso perfeito, o que, claro, jamais alcancei. Achava legal morrer [...]

A Nova Poesia Brasileira (Crisális Editora, Rio de Janeiro, 1985)

A Nova Poesia Brasileira (Crisális Editora, Rio de Janeiro, 1985)

Meus primeiros poemas são cópia descarada dos poetas românticos.

Aos 15, 16 anos eu escrevia sonetos, imaginem, formato poético em extinção, creio eu.

Ouvia Rock o dia inteiro e à noite, na calada do quarto, rabiscava rimas e tentava as tais métricas, na busca do verso perfeito, o que, claro, jamais alcancei.

Achava legal morrer tísico, aos 21 anos, feito Álvarez de Azevedo, meu poeta preferido entre os românticos, embora de verdade nunca tenha querido isso para mim.

Outro dia, um desse sonetos reapareceu do fundo bem fundo do tempo.

Escrevi para uma de minhas primeiras namoradas, e dela realmente devo dizer que nem sei mais se anda por esse mundo. Espero que sim, e que esteja bem.

O soneto reapareceu em uma mensagem via inbox.

Amiga de amigo meu que não vejo há anos me perguntou se eu era autor de tais e tais e tais versos, e digitou alguns trechos.

Ela disse que o leu em algum lugar, em algum momento perdido no passado.

Guardou-o apenas na memória, juntamente com a lembrança duvidosa do nome do autor.

Confesso que, de cara, não reconheci o que escrevi 35 anos atrás, o mesmo que aconteceria certamente caso topasse com quem me inspirou na adolescência distante, quando ainda assinava André Luis (hoje, na maioria das vezes, esqueço que me chamo André Luis).

A página na foto é de uma daquelas coletâneas de “novos autores brasileiros”, que existem até hoje, e que se bobear já existiam até mesmo na época do romantismo como estilo literário.

Era o velho sistema de pagar pra participar, e a gente quando é novo tem a ilusão de que nosso poema foi selecionado porque ele é realmente muito bom como a gente imagina. Ou queria que ele fosse.

A dona da editora era Cristina Oiticica, mulher de ninguém menos do que Paulo Coelho (nem sei se ainda é, não tenho curiosidade).

O soneto é bem rimadinho até, mas derrapa feio nas curvas da pieguice.

De quebra, reparem bem, assassina a pontuação com vírgulas postas nos lugares mais proibidos pela gramática.

Meu álibi é que eu tinha 16 anos quando escrevi, era dado a exageros sentimentais, mas não ao estudo da língua.

Segundo a Emmy Matias, que o ressuscitou, o soneto vai virar música.

E isso é o suficiente para que me envaideça outra vez (a 1ª foi a ilusória premiação de participar da coletânea, lembram?), 35 anos depois, meu sonetinho apaixonado e fora de moda.

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