André Giusti - foto: Luana Lleras
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A semana em que voltei a ter 12 anos.

Semana passada, depois que o Flamengo assumiu a ponta da tabela e ficou a uma vitória do título, fui dormir eufórico, em paz com a vida. Mas já na segunda-feira acordei com um nó no peito, não obstante a alegria. Uma angústia abraçava minh’alma, fazia peso em meus pés como se para andar eu precisasse [...]

Semana passada, depois que o Flamengo assumiu a ponta da tabela e ficou a uma vitória do título, fui dormir eufórico, em paz com a vida. Mas já na segunda-feira acordei com um nó no peito, não obstante a alegria. Uma angústia abraçava minh’alma, fazia peso em meus pés como se para andar eu precisasse remôve-los, a cada passo, de uma espessa camada de lodo.

E se o Flamengo decepcionasse? E se toda a euforia da vitória contra o Corinthians, a liderança conquistada graças também ao tropeço do São Paulo fossem consumidas feito chama de vela em vendaval por causa de um branco no time, de uma apatia generalizada, de uma derrota para a própria ansiedade do plantel? Em um já distante junho de 1980 também arrastei essa angústia por  cerca de uma semana, período que separou a vitória por 1X0 do Atlético Mineiro – primeira partida da final daquele ano – dos épicos 3X2 no Maracanã, quando o Nunes enlouqueceu metade do país ao 37 do segundo tempo.

Ia e voltava do colégio equacionando em minha cabeça de vento de pré-adolescente todos os resultados que dariam ao Flamengo o primeiro título nacional do clube. E aquela angústia me apertava o peito, me roubava a atenção que eu deveria ter às aulas, me tolia o apetite, dilacerava meu sono em noites em claro. Meu Deus, e o medo da decepção? Naquele ano me convenci que torcedor torce e se agarra a isso por que tem medo da decepção, pavor de acordar no dia seguinte à perda de um campeonato e não ter a euforia do título como combustível para enfrentar uma segunda-feira.

Hoje, 29 anos depois, estou plenamente convicto disso. Na última semana, não comi bem, dormi pior ainda, vaguei irritadiço pelo  trabalho, pela casa, apavorado com a possibilidade do Flamengo perder o título dentro de casa, e eu ter que arrastar minha dor, minha decepção pela segunda-feira, pela semana adentro, pela vida afora. Exatamente igual a 1980, com a diferença de que lá tratava-se de um menino de 12 anos. Agora, o soberano no reinado turvo da angústia era um homem de 41, pai de família, chefe de seção e uma penca de responsabilidades bem mais sérias do que o Flamengo.

Cheguei às raias do ridículo de pensar em refazer roteiros, usar roupas, comer isso ou aquilo outro que tenha feito, usado ou comido na semana que antecedeu o jogo contra o Corinthians, quando assumimos a ponta da tabela. Se alguém cruzava meu caminho com a camiseta do São Paulo, do Palmeiras ou do Internacional, eu cuidava em virar os olhos, certo de que se tratava de presságio, de aviso para que eu preparasse meu espírito para a desilusão. Quando o Grêmio, que diziam que iria entregar o jogo, fez 1X0 pensei em minha inquietação dos últimos dias como amiga que passou a semana toda me preparando para o pior.

E mesmo após o gol da virada, o diabo da angústia permaneceu ali no canto da sala, encostada na parede, resistindo em teimar que eu passaria a segunda-feira arrastando o desengano cruel de viver. Quando o jogo acabou, pus a miserável a ponta-pés para fora de casa, e fui para a janela libertar aquela coração encurralado, aos berros, chorando, exatamente como em 1980.

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Comentários (3)

  1. berna -

    foi lindo gritar “viva mengão campeão” na varanda, a cidade de são paulo emudecida até lá adiante, até seu horizonte cinzento. meus gritos rebimbavam nos prédios ao redor e voltavam pra mim como bumerangues rubro-negros. quando parei de gritar, cansado, pude ouvir o canto dos passarinhos na cidade emudecida.

  2. Geraldo Lima -

    Belo blog, André. Parabéns!

  3. giovani iemini -

    hehehe, vcs, flameguistas, são muito chatos!
    pena que sua decepção não veio.

    e ainda são penta. nem vem!

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