André Giusti - foto: Luana Lleras
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A tediosa juventude de hoje

O caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo de hoje, traz uma pequena reportagem sobre o filme Somos tão Jovens, do cineasta Antônio Carlos da Fontoura. O jornal mostra, sem tom de crítica, que algumas passagens da vida de Renato Russo foram mudadas ou condensadas para que “coubessem” melhor na telona. Isso é normal no [...]

O caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo de hoje, traz uma pequena reportagem sobre o filme Somos tão Jovens, do cineasta Antônio Carlos da Fontoura.

O jornal mostra, sem tom de crítica, que algumas passagens da vida de Renato Russo foram mudadas ou condensadas para que “coubessem” melhor na telona. Isso é normal no cinema.

Uma delas é, a meu ver, a melhor cena do filme: quando a ainda incipiente Legião Urbana toca no interior de Minas a música Que país é este? de frente para um palanque coalhado de militares, que à época ainda davam as cartas.

Segundo a matéria, a música tocada não foi essa, e sim Música Urbana, que pode não ter uma pegada tão firme, mas tem letra de mesma contundência.

A matéria, assinada pelo jornalista Iuri de Castro Tôrres, revela que tanto a Legião quanto a Plebe Rude – que também tocou no mesmo dia – foram parar na delegacia depois do show. O fato foi omitido do filme, a meu ver um pecado sem desculpa.

A cena do show e a cara contrariada dos milicos (aqui uso a palavra pejorativamente, pois para mim denota os que não honraram a farda) resumem o que foi uma geração crescida à sombra de um contato mais ou menos próximo com a repressão e o terror, dependendo de cada caso.

Alienados existiam, naquela e em todas as gerações. No próprio círculo de amigos de Renato, ele parece ser o único inquietado com as mazelas de um país injusto, em que não se podia falar das injustiças.

Mas, olhando pros dias de hoje, me parece que 30, 35 anos atrás havia mais Renatos Russos, não pelo talento, mas pela postura indignada, e que no caso de alguma capacidade de expressão, usavam isso para, ao menos, sacudir a poeira da mesmice, ou em definição mais lírica, cumprir o papel de ser jovem no mundo.

Renato tinha 20 anos na época, mesma idade em que atualmente as pessoas, ao menos em Brasília, palco da história inicial do astro, estão trancadas em casa ou em salas de aula para passarem em concursos públicos e garantirem a comodidade de uma vida estável, pensando não apenas na própria aposentadoria, mas na dos filhos que nem vieram ainda.

Tédio com T bem grande pra você!, juventude do terceiro milênio!

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Comentário (1)

  1. Eduardo Sousa e Silva -

    Infelizmente assino em baixo de todas as letras do post. Juventude contesta. Mas onde estão os contestadores?

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