André Giusti - foto: Luana Lleras
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A vida é mais importante que a literatura

Participei recentemente de uma série de palestras em escolas públicas do Distrito Federal que compuseram a Mostra de Literatura promovida pelo agente literário Andrey Do Amaral e com patrocínio da Secretaria de Cultura. O objetivo era esse mesmo que se imagina de um evento que leva um escritor à escola: aproximá-lo dos alunos, mostrar aos estudantes que ele, [...]

Participei recentemente de uma série de palestras em escolas públicas do Distrito Federal que compuseram a Mostra de Literatura promovida pelo agente literário Andrey Do Amaral e com patrocínio da Secretaria de Cultura. O objetivo era esse mesmo que se imagina de um evento que leva um escritor à escola: aproximá-lo dos alunos, mostrar aos estudantes que ele, escritor, é alguém de carne e osso que paga condomínio e fica na fila do supermercado.

Falei muito pouco sobre literatura, menos ainda sobre meus livros e nada sobre o meu tal processo de criação (que verdade seja dita não possui mistério algum).

É muita pretensão dos escritores achar que seus livros, suas influências literárias e sua forma de criar despertarão interesse total em um público juvenil. Senti que se fosse por este caminho ao redor do meu umbigo, afastaria os alunos dos livros tanto quanto os afasta a obrigação de ler Machado de Assis aos 14 anos de idade.

Como eram jovens e mesmo adolescentes, optei por falar de sonhos, de ideais, da necessidade urgente que nossa sociedade tem – e não se toca disso – de fazer o que gosta para ganhar a vida e de aprender a ser feliz com o que se tem, abandonando de vez o “fazer apenas aquilo que dá dinheiro” ou achar que motivação para viver é sempre estar se esforçando para conseguir coisas, para conquistar posições. Procurei mostrá-los que se continuarmos sob esses ditames, morreremos doentes, como, aliás, já estamos.

Quando falei em literatura, foi, principalmente, para explicar como ela não me permite enlouquecer, como que, com ela, eu toco sua principal matéria prima: a vida. E acho que os escritores precisam pensar isso quando falam para determinados públicos: o que importa é a vida. Os livros são para descansarmos dela.

Modestamente, acho que acertei a estratégia. Me pareceu que muitos saíram das palestras pensando: pô, se esse cara fala isso, deve escrever umas coisas interessantes também. E pude medir isso pelo interesse dos alunos em meus livros após os encontros. Para remediar a falta de exemplares para todos, a curadoria da mostra fez um sorteio. Quem não ganhou, foi embora me implorando um exemplar, o que, infelizmente, não tenho como atender em todos os casos.

Resultado: é provável que em cada um das quatro ou cinco palestras que ministrei, eu tenha conquistado três ou quatro leitores, pelo menos.

E qual é mesmo o objetivo de quem escreve e publica?

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