André Giusti - foto: Luana Lleras
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A Voz do Brasil e o fortalecimento das rádios públicas.

A Voz do Brasil passou um tanto distante das discussões da Conferência Nacional de Comunicação, ocorrida em dezembro. Ficou restrita a um ou outro bate-boca entre movimentos sociais e empresariado. Não virou proposta a ser votada pelo Congresso Nacional nada que mude o programa que é obrigatório nas rádios de todo o país, e que [...]

A Voz do Brasil passou um tanto distante das discussões da Conferência Nacional de Comunicação, ocorrida em dezembro. Ficou restrita a um ou outro bate-boca entre movimentos sociais e empresariado. Não virou proposta a ser votada pelo Congresso Nacional nada que mude o programa que é obrigatório nas rádios de todo o país, e que só não vai ao ar nas cidades em que as emissoras conseguiram na Justiça autorização para não transmiti-lo (São Paulo continua sendo o maior exemplo de vitória das empresas). Essas alegam que perdem uma hora de informação relevante com a transmissão de A Voz do Brasil, é horário em que todo mundo está voltando para casa e seria mais útil a transmissão da cobertura de trânsito.

Comandando departamentos de radiojornalismo há mais de dez anos, já tive que interromper coberturas de temporais e enchentes na cidade por que o relógio marcava 19h. A multa é pesada, a implicação política ainda maior para quem não entra em cadeia com a Radiobrás às sete da noite.

A esse argumento das empresas de comunicação, os movimentos sociais/sindicais contrapõem o discurso de alguns anos: A Voz do Brasil é a única maneira que comunidades distantes do país têm para se informar do que acontece em Brasília. O argumento não é inválido, mas talvez essa discussão de acabar ou não com A Voz do Brasil (ou o “Fala sozinho”, apelido que ganhou pouco depois de ter sido criada nos anos Getúlio Vargas) pudesse ser substituída por uma mais ampla, que requer na verdade mudanças mais abrangentes do que terminar um programa.

Falo do fortalecimento das rádios públicas, estas sim instrumento valioso de informação das pessoas, morem elas nas cidades grandes ou em qualquer vilarejo, rincão, aldeia esquecidos. Rádios como a Senado, Câmara, Justiça e a própria Radiobrás precisam ser referência nas informações do estado, no que o estado (e não governos e políticos) precisa comunicar, dizer aos cidadãos.

Seria ótimo que essas rádios definitivamente se tornassem redes de cobertura nacional, mas não entro na seara da questão técnica por absoluta incapacidade de discorrer sobre ela. Minha praia é o conteúdo, o material que vai ao ar ao encontro do ouvinte. E para termos conteúdo atraente, relevante e de qualidade para a população, precisamos de jornalistas que entendam a comunicação, no caso a pública, como fator de mudança de uma sociedade, como instrumento útil à rotina das pessoas, e não como arma de congraçamento ou divulgação de interesses políticos, partidários e eleitoreiros; que entendam a notícia em rádio sempre como algo que não pode esperar muito ou que não pode esperar nada.

E não só isso. Precisamos de jornalistas (juntemos aí também os radialistas) de qualidade, que saibam o que é notícia, o que é informação, o que é importante para quem ouve. E esse profissional só chegará às rádios públicas quando a ótica míope, quase cega dos concursos públicos for modificada para selecionar profissionais da imprensa (diplomados, diga-se de passagem).

Os concursos para as rádios públicas feitos nos últimos anos premiaram os concurseiros, aqueles talhados para entrar no serviço público por que aprenderam nos cursinhos a manejar as armas que matam as questões aplicadas, e que nem sempre medem o conhecimento e muito menos a experiência do candidato na área em que está sendo avaliado.

É claro que nas rádios e TVs públicas existem profissionais ótimos, com total noção de notícia, mas eles não são a regra. E por que dominam as artimanhas das provas, recém-formados muitas vezes emplacam os primeiros lugares, e o que acontece é que as rádios públicas serão feitas, em boa parte das vezes, por quem não tem experiência, por quem não viveu a dura realidade das redações dos grandes grupos, por quem nunca enfrentou os apertos da reportagem e da edição. Jornalismo (de rádio, no caso) é algo bem mais vivo do que as teorias tão apreciadas e reverenciadas pelas bancas. Fazer Jornalismo é (e rádio também), em sua essência, prática, malícia, vivência. O dia em que os concursos públicos se importarem mais em selecionar jornalistas e não concurseiros para as rádios públicas, certamente elas serão ferramentas bem mais eficientes na informação do povo, esteja onde ele estiver, do que a polêmica Voz do Brasil.

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Comentários (5)

  1. André Giusti Autor do post -

    Que bom, Ana. Fico feliz. Sucesso.

  2. ana -

    esse texto foi muito bom para minha pesquisa sobre a era Vargas

  3. Virgínia Bellanti -

    Gosto muito de viajar à noite. Muitas vezes, na estrada e absolutamente sozinha, escuto a Voz do Brasil (não temos nas nossas felinas CD player, né? Então… só rádio mesmo!)
    Além do apelido de “Fala sozinho”, já ouvi “a hora do clic” – em Brasília, 19 horas e, em seguida, clic, desligando o rádio.
    Abraços,
    Virgínia

  4. MARCOS OLIVEIRA -

    Não defendo o fim da Voz do Brasil. Acho que a exibição deveria ser facultativa. Certamente, muitas rádios do interior retransmitiriam o programa. Agora, nas grandes cidades, a Voz do Brasil definitivamente é uma inutilidade, um entulho autoritário. E as rádios públicas precisam mesmo ser revitalizadas com profissionais experientes e competentes.

  5. Sócio -

    Creio que o Brasil precise de uma Rádio Voz do Brasil. Em uma entrevista ao Roberto D´Ávila, o maravilhoso Domenico de Masi ( Ócio Criativo) falou da excelente rádio estatal italiana. Uma rádio de notícias, músicas, leitura de livros(!). Aliás já que ensaiamos um crescimento mundial poderíamos ter: A Voz Americana.
    Boa a preocupação aos concurseiros. Fico imaginando a geração de “profissionais” que virão por aí.

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