André Giusti - foto: Luana Lleras
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A voz

Justamente aquele pedaço tolo de papel, que jamais poderia sumir, foi o que você perdeu. Notas antigas de mercado, tanto número de telefone pro qual você não liga, recados que pelo tempo perderam o sentido, e aquele monte de outros papeis que já deveriam estar no lixo desde o século 18. Mas você foi perder [...]

Justamente aquele pedaço tolo de papel, que jamais poderia sumir, foi o que você perdeu.

Notas antigas de mercado, tanto número de telefone pro qual você não liga, recados que pelo tempo perderam o sentido, e aquele monte de outros papeis que já deveriam estar no lixo desde o século 18.

Mas você foi perder logo a mísera metade do guardanapo onde anotou às pressas, com letra corrida e pior do que costuma fazer, aquele endereço, o valor a ser pago, o nome de quem procurar quando chegasse onde ainda precisa ir, o assunto a ser tratado.

E o papelzinho ficou ali, rolando pela estante, quatro, cinco dias, sujeito a ser engolido pelo mistério das coisas que desaparecem dentro de casa sem explicação. Parece até que ele avisou: eu vou sumir e você vai me dar valor.

Junto, quase na borda, estava o número do celular de quem te passou todas as informações. É claro, você não tem de cabeça o número da pessoa. Aliás, na metade da manhã, já não cabe mais nada em sua cabeça.

Derrotado pela fatalidade imbecil, você olha em volta: não despejou o lixo, o detergente acabou e você nunca que compra, o vazamento da pia só aumenta. A vida besta também está te vencendo, em silêncio e cínica, como o mais perverso dos inimigos. Você pega o carro com vontade de sumiços.

Pode parecer inconcebível que um pedaço de papel idiota possa fazer tanto estrago, mas quando você se dá conta, ele o levou ao balanço da contabilidade de sua vida amorosa, profissional, financeira e qualquer outra vertente que a vida de uma pessoa possa ter. Desanimado, você puxa o extrato. Não parece haver saldo, só déficit.

À noite, na cama, lugar onde você queria ter passado todo o dia, você pede que o sono seja pesado e o amanhã seja mais leve. E realmente você acorda melhor, embora não possa garantir a si mesmo que esteja bem. O lixo e o vazamento ainda estão por ali. O papel não apareceu.

Esperando o diabo do pão pular da torradeira, você meio que ouve uma voz raspar em seus ouvidos: cara, você não é tão mau assim nem culpado de tudo.

A voz parece convencida do que diz.

Só falta agora você se convencer.
cochicoho

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Comentário (1)

  1. Luis Felipe -

    Sensacional, como de costume. Lembro que, com o avanço da tecnologia, passamos a perder também pen drives contendo horas de trabalho dedicado. Perdi a conta de quantas vezes perdi anotações importantes, em papel ou não. Foram diversas as epifanias por isso…

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