André Giusti - foto: Luana Lleras
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Ai de ti, Brasília!

Na coletânea Brasília – 50 anos em seis, prosa e poesia, lançada em maio e da qual faço parte ao lado de, entre outros, Nicolas Bher e de um dos Jabutis deste ano, José Rezende Jr, um de meus contos fala de um desembargador de um alto tribunal do país que humilha um simples faxineiro [...]

Na coletânea Brasília – 50 anos em seis, prosa e poesia, lançada em maio e da qual faço parte ao lado de, entre outros, Nicolas Bher e de um dos Jabutis deste ano, José Rezende Jr, um de meus contos fala de um desembargador de um alto tribunal do país que humilha um simples faxineiro que se esmera como pode para lustrar o chão da corte. O conto é uma ficção que se apóia em uma situação para lá de possível, embora os personagens, e a própria história, não tenham sido criados a partir de ninguém específico nem de determinada situação.

Mas poderia ter sido. Caso eu ainda não houvesse escrito, bem poderia buscar matéria prima na notícia publicada no blog do jornalista Ricardo Noblat (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/ ). Ele conta sobre um estagiário demitido sem qualquer motivo, e por isso mesmo de maneira absurda, pelo presidente do Superior Tribunal de Justiça, Ari Pergendler. O rapaz perdeu o estágio apenas porque estava na fila do caixa eletrônico atrás do ministro justamente no dia em que vossa excelência deve ter acordado mal do fígado, achando que a vida é mesmo uma porcaria, pois nem o mundo nem ninguém está a altura de um homem tão importante para a humanidade quanto ele.

Além da Brasília da corrupção e da bandalheira, existe uma outra cidade calada, que não aparece nos jornais, mas que é bem conhecida de quem mora aqui. É a Brasília da posição social, do status, a Brasília que te classifica de acordo com o endereço, marca e ano do carro, colégio dos filhos, que acha pequeno um salário de R$ 5 mil e barato um par de sapatos de R$ 300. É uma Brasília – que não é a cidade toda – que estranha e se incomoda com o bom dia no elevador, que não dá passagem no trânsito, onde o motorista de táxi não conversa com o passageiro e o vizinho se empenha em ignorar o da frente.

Uma das crônicas mais famosas de Rubem Braga é Ai de ti, Copacabana!, uma visão do apocalipse no bairro, com o lugar engolido por seus próprios vícios e vaidades. A partir do texto do velho Braga, é fácil viajar do litoral ao cerrado. Fechada em si mesmo, essa Brasília vai construindo mansões e comprando carrões e barcos, e sem se dar conta vai definhando milionária e entediada, procurando a cada dia ser mais arrogante do que ela própria.

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Comentários (5)

  1. Maurício -

    É por isso que eu prefiro a vida nos subúrbios de Brasília, onde as crianças ainda jogam futebol no meio das ruas, os vizinhos se conhecem e trocam gentilezas. Tem mais cara de vida.

  2. Livia -

    Não conheço Brasília, mas acho que não acontece só aí porque isto é um mal do ser humano; valorizar as pessoas pelas suas posses. Infelizmente!

  3. Emmanuel -

    Mais uma coisa: saudacoes rubro-negras!

  4. Emmanuel -

    Acompanho o seu programa com o Chorafoguense do CH e gosto bastante. O texto ta muito bom também. Mas só tenho uma coisa a dizer: não e do feitio desse Min um comportamento desse. E um juiz trabalhador (ele começa a receber os advogados as 7hs da manha), cortes, magistrado de carreira, extremamente respeitado… Fiquei espantado e aguardo a manifestação do Min Ari. Como disse, não e uma atitude que se espera desse Min (se fosse algum outro, não duvidaria nada…hehe). Parabéns pelo seu trabalho.

  5. Sócio -

    “Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.”
    E assim será!

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