André Giusti - foto: Luana Lleras
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Ainda sobre Ernesto Silva.

Parece emblemático que Ernesto Silva tenha ido embora justamente no momento mais delicado da história de Brasília, quando a podridão exposta ao resto do país quase dá de ombros, certa de que não haverá golpe algum de justiça capaz de abalá-la. Aos que nada conhecem da história desse pediatra, foi um dos homens mais importantes [...]

Parece emblemático que Ernesto Silva tenha ido embora justamente no momento mais delicado da história de Brasília, quando a podridão exposta ao resto do país quase dá de ombros, certa de que não haverá golpe algum de justiça capaz de abalá-la.

Aos que nada conhecem da história desse pediatra, foi um dos homens mais importantes da construção da nova capital. Veio aqui ainda no governo Vargas demarcar os limites da cidade, época em que os tatus e as onças mandavam no terreiro. Construída a capital, resolveu fazer dela a sua casa. Foi o único dos nomes conhecidos da odisséia Brasília que decidiu morar na cidade que ajudou a levantar. Terminou sua missão pouco antes que a grande filha em forma de avião completasse 50 anos.

Mais importante do que o passado de Ernesto Silva em Brasília, era o presente de Ernesto Silva em Brasília. Defendia a cidade como patrimônio histórico, mas na verdade seu combate era pela qualidade de vida, o maior patrimônio que o morador de qualquer cidade pode almejar conseguir. Insurgindo-se contra o andar a mais nos prédios do Plano Piloto, defendendo a área pública da ocupação sem ordem ou os gramados e as árvores do apetite dos carros, era uma pedra no sapato daqueles que querem susbstituir a liberdade dos grandes espaços pela opressão dos arranha-céus e pela neurose dos congestionamentos.

Ernesto Silva era um dos últimos intérpretes de uma Brasília que se quis humana, que nunca se imaginou recebendo o lixo político do resto do país nem servindo de retiro a uma elite funcional parasitária, engordada por vantagens e gratificações –  muitas vezes imorais – ou propinas e comissões – sempre ilegais. Uma elite, não apenas de funcionários públicos, mas de outros ramos da economia, que em parceria com a classe média e com o chamado povão, é cúmplice por omissão ou por proveito de um governo local alcaponiano, de um parlamento distrital inútil e apodrecido e de uma justiça vaidosa, preguiçosa e complacente.

A morte de Ernesto Silva nos deixa a sensação inesgotável da orfandade, e leva com ela uma Brasília que talvez sequer tenha existido de fato, e que certamente nós que ficamos não conseguiremos recuperar.

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Comentários (2)

  1. André Giusti Autor do post -

    Por isso que até hoje moro no Grajaú, mesmo estando em Brasília

  2. Sócio -

    Os homens constróem cidades. E nelas ficam suas marcas. É belo olhar meu jardim no prédio, aqui no Cachambi, e enxergar meu Capitão ( Helinho – síndico do Pequod ). Chego em Duas Barras (RJ) e esbarro em D. Pedro II folhando o jornal na praça. José Saramago disse que no fundo habitamos não uma cidade, mas uma memória. Ernesto Silva devia cuidar do seu jardim. Um jardim com forma de avião. Que ele com ternura cuidou al longo de sua vida. Como dizia Jorges Luis Borges, no Elogio da Sombra:
    “Um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos, de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que este paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto.” Se Brasília é bela deve aos que a amaram e amam amigo contista.

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