André Giusti - foto: Luana Lleras
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As eternas promessas

O que acho engraçado nas seleções africanas é que elas são uma espécie de coletivo daquele velho termo do futebol, a eterna promessa. Mundo afora, milhares de jogadores – e isso acontece muito também na fórmula 1 – despontam como futuros craques, mas algum tempo depois começam a perder fôlego do mesmo jeito do corredor [...]

O que acho engraçado nas seleções africanas é que elas são uma espécie de coletivo daquele velho termo do futebol, a eterna promessa. Mundo afora, milhares de jogadores – e isso acontece muito também na fórmula 1 – despontam como futuros craques, mas algum tempo depois começam a perder fôlego do mesmo jeito do corredor que na maratona arranca na frente, e muitas vezes sequer cruza a linha de chegada. E então, ao cabo de alguns anos, vamos nos perguntar por onde anda aquele menino que encantou torcidas durante um campeonato inteiro, mas do qual não se ouve mais nada há anos. Quantas vezes o reencontramos em times pequenos, aguardando apenas o próprio convencimento de que é hora de parar, e de que ele não foi nem metade daquilo que disseram que seria. Há casos em que até alcançam maior projeção, mas também não conseguem ultrapassar a fronteira do mundo mediano em que habita a maioria. Diego, que surgiu no Santos com Robinho, é o exemplo que me salta da lembrança.

Na Copa de 90, quando Camarões encantou o mundo, os mais apressados já bradavam que estava na África a beleza perdida pelo futebol brasileiro, por exemplo. Nos anos seguintes, o espetáculo coube à Nigéria.  Esse ano, as duas seleções já deram adeus à Copa. A África do Sul, dona da casa, por enquanto fez ainda menos do que o pouco que se esperava dela, e a Costa do Marfin não deve arrancar a vaga de Portugal. Restam Gana, talvez a única possibilidade real dos africanos sobreviverem na Copa, e quem sabe Argélia, cujo maior mérito foi resistir ao burocrático futebol inglês.

A cada quatro anos, todos nós que gostamos do jogo bonito alimentamos nossas expectativas em relação às seleções africanas, mas o baile delas sempre acaba antes da meia-noite. É quando dois pontos me parecem claros. O primeiro é que o futebol na África não evoluiu, parece um livro ótimo, mas que ficou somente no primeiro capítulo, pois o autor sumiu e não escreveu o resto.

O segundo ponto é que, pelo comportamento em campo, os jogadores se acham melhores do que realmente são. Quem sabe eu esteja querendo dar uma de psicólogo de butiquim, mas talvez aquela pancadaria da Costa do Marfin ontem para cima da seleção brasileira seja o retrato do descontrole de quem descobre que o que pode na vida real, é bem menos do que imaginava no mundo dos sonhos. E especialmente ontem, com a bela partida que o Brasil finalmente jogou, é como o aprendiz arrogante que se dá conta de que está ainda bem abaixo do talento do mestre.

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