André Giusti - foto: Luana Lleras
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As filhas moravam com ele

Em época de dias dos pais, uma crônica que não é inédita, mas que fala dessa coisa de pai que ama muito as filhas… * As filhas moravam com ele * Quando abriu a porta e acendeu a luz, o apartamento de apenas 30 metros quadrados lhe pareceu maior do que uma mansão de vinte [...]

Em época de dias dos pais, uma crônica que não é inédita, mas que fala dessa coisa de pai que ama muito as filhas…
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As filhas moravam com ele
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Quando abriu a porta e acendeu a luz, o apartamento de apenas 30 metros quadrados lhe pareceu maior do que uma mansão de vinte quartos sem mobília e sem gente morando.

Naquela noite, foi dormir cedo, muito mais por solidão do que por cansaço.

Até hoje não sabe se sonhou ou se tudo não passou de imaginação disfarçada de sonho naquele limiar do sono, quando já estamos quase dormindo, mas ainda restam algumas tomadas plugadas ao mundo concreto do dia que termina.

O que sabe é que estava em uma casa bem maior que seu apartamento, uma casa térrea, que chamava a atenção pela simplicidade e pelo acabamento desleixado.

O piso era de cimento queimado e lembra-se de que duas ou três paredes estavam ainda no reboco. Não sendo antiga, também não era recém-construída. Percebia-se que estar pronta sendo inacabada era traço característico incorporado pelo tempo e por iniciativas proteladas, daquelas “tem que fazer, mas esse mês, não dá, deixa para o próximo”. Era bem clara também, de uma claridade que permeava a sala espaçosa, os três grandes quartos e a cozinha, onde cabia mesa de seis lugares, feita de madeira rústica.

Em seu dorme não dorme, sonha não sonha, não tinha certeza se a luz do dia era a da manhã ou a da tarde. Era luz, e isso era o mais importante. Ali, pelo jeito, ele pensou quase dormindo (ou sonhando?) que o luar também deveria fazer visitas e se hospedar feito primo que vem sempre.

Já o vento, este mais que se hospedava. O vento morava.

Aproveitava as grandes janelas sempre abertas, sem grades e cortinas, e circulava pelo ambiente de poucos móveis e imensos clarões entre mesa e sofá, camas e guarda-roupas. O vento entrava e saía, esperava alguns instantes, voltava. O vento parecia um cachorro de casa: do quintal para dentro, de dentro para o quintal, até que alguém o notasse e fizesse festa pela sua presença.

Quando naquele túnel irreal ainda percorria os cômodos e vislumbrava do janelão da cozinha uma varanda imensa, coberta por telhas e sem laje, ouviu vozes de meninas, meninas entre a infância e a pré-adolescência.

- Pai! ‘Cê tá em casa, pai? – Era a voz da filha mais velha, entrando esbaforida, jogando a mochila no primeiro espaço vazio.

- Pai! Tirei nove em matemática! – Avisou a do meio, vindo junto à primeira.

- Pai, cadê o Dique? – E logo surgiu a caçula, passando por ele e voltando instantes depois, seguida pelo cachorro labrador imenso e carinhoso. Ele sorriu no sonho, ou no que quer que fosse aquilo que embalava seu adormecer: havia também um cachorro, para também entrar e sair quando quisesse.

Eram suas filhas, e moravam com ele no sonho, no limiar do sono ou na imaginação meio acordada, outra metade adormecida. Não precisava pegá-las de quinze em quinze dias, pois era ele quem cuidava delas todos os dias, do que haveria para almoço e para a janta, era ele quem recolhia suas presilhas de cabelos, suas fitinhas e laços esquecidos pelos cômodos. Era ele quem as ouvia contar histórias do recreio na escola e entregarem, cada uma, segredos inocentes das irmãs sobre namoradinhos.

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Depois que almoçavam, nas tardes de sábado, iam para a varanda terminar de rir das tolas piadas que contaram à mesa. Lá pelo meio das três horas, esticado em uma encorpada cadeira também de madeira rústica, ele perdia os olhos em um horizonte baixo que havia para ser medido do alto da colina onde ficava a casa. A paisagem sumia num cochilo bom e profundo, mas reaparecia quando ele acordava com o vento mais forte derrubando mangas no fundo do quintal e anunciando chuva grossa no fim da tarde.

Espreguiçava-se em paz, com a certeza do cheiro da terra e grama molhadas. Era a mesma certeza de que mais tarde, quando já fosse noite, as nuvens descarregadas do temporal dariam lugar no céu às estrelas, e que ainda mais tarde uma lua amarela, pela metade, subiria o muro do mesmo horizonte baixo.

Terminando de esticar os braços e dar os últimos bocejos, levantava-se e ia inspecionar os quartos, onde as encontrava enfiadas nos livros, nas mensagens dos celulares e quase sempre no apronto sem fim dos cabelos.
Do corredor, perguntava alto:

- Quem vai querer pizza de noite?

- Eu!

- Eu!

- Eu!

E as vozes felizes tomavam a casa, carregadas pela expectativa do sabor.

Eram suas filhas, moravam com ele, e ele, quando chegava em casa, não encontrava solidão. Ouvia no sonho, ou no galope da imaginação, a chuva chegando, sentia o cheiro da terra molhada invadindo a sala. As janelas batendo com o vento e a copa da mangueira sacudida lá fora avisavam que ele era feliz e que aquela era uma casa simples e em paz.

Um dia, o curso normal da vida levaria as três, uma a uma, mas logo logo o recompensaria com netos e netas, e a casa, sempre inacabada, estaria cada vez mais firme em sua simplicidade e em sua paz.

As filhas moravam com ele.

E se realmente sonhara, fora o sonho mais lindo que tivera em toda a sua vida.

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