Recomendação de Leitura Por Mário Baggio*


Já comentei mais de um livro de André Giusti (de prosa e poesia) e sobre todos eles fiz a seguinte anotação: é admirável a ternura com que o autor aborda seus personagens, como maneja com carinho seus comportamentos e ações, sem entretanto esconder ou perdoar seus defeitos, fraquezas e vacilos. É algo como fazia o cineasta francês François Truffaut. Se André Giusti fosse cineasta, seria um Truffaut.
Não é diferente em “Só vale a pena se houver encanto”, sua primeira prosa longa. Aliás, que título bonito, que escolha acertada, quanto lirismo há nessa frase!
O romance de Giusti busca dar forma literária a uma experiência geracional específica: a daquelas pessoas que foram jovens nos anos 70/80, viveram a ditadura e a psicodelia daqueles anos, celebraram a abertura política e hoje enfrentam a maturidade sob o signo da frustração, da instabilidade profissional e da revisão de expectativas; mesmo assim, nunca abriram mão do senso ético e da retidão moral, a despeito das consequências que uma atitude assim poderia trazer. Mesmo com toda dificuldade, viver, trabalhar, amar são coisas que só valem a pena se houver encanto.
O livro acompanha Alessandro Romani de 2002 a 2016, jornalista e aspirante a escritor, morador de Brasília, cuja trajetória é marcada por demissões sucessivas do trabalho, o nascimento das três filhas, o desgaste conjugal e uma persistente sensação de inadequação diante das engrenagens do mercado profissional e da vida adulta. Trata-se de um protagonista típico de uma geração que acreditou que iria mudar o mundo, mas que, ao atingir os 50 ou 60 anos, percebe um saldo não muito equilibrado de conquistas e perdas (mais perdas do que conquistas). O período em que o romance acontece é singular (grandes transformações políticas e sociais com a eleição de Lula para dois mandatos, o golpe contra a presidenta Dilma, a ascensão da extrema-direita). Escrito em primeira pessoa, o romance reforça o tom confessional, e isso é muito eficiente para aproximar texto e leitor. Auto ficção? Intuo que sim.
Romani é jornalista e seu ambiente profissional é descrito sem meias-tintas: nada de glamour, reconhecimento e remuneração justa, antes competição acirrada e a quase ausência total de ética. O que importa é o lucro e o desempenho. É evidente que essa situação crítica trará reflexos na esfera íntima do protagonista, como o fim do casamento, as necessidades das filhas em idade de crescimento e os boletos que não param de chegar. No trabalho, a luta constante para manter aceso o encanto e resistir aos conchavos, falcatruas e puxadas de tapete. Familiar, não?
Em síntese, “Só vale a pena se houver encanto” é um romance representativo de uma geração que envelheceu sem ter plenamente resolvido ou cumprido suas promessas de juventude. O protagonista representa o sentimento inexorável de esgotamento, mas também a persistência — ainda que frágil — de uma aposta na direção da felicidade. É nesse equilíbrio que reside a força do ótimo livro de André Giusti.

*Escritor e crítico. Autor, entre outros, de Vozes para tímpanos mortos (contos, Litteralux, 2025)

A geração que pegou a liberdade no colo

Minha geração, nascida nos anos sessenta, não foi revolucionária como a anterior, que entrou para a história formando guerrilha e queimando sutiãs, entre outras frentes abertas.

A década de oitenta, anos de nossa florescência para a vida, foi também um tempo de mudanças e transformações.

Ao contrário dos jovens de vinte anos antes, que assistiram aos Beatles e aos Stones,  não sei se promovemos alguma mudança.

Pelo o que me lembro, elas já estavam prontas quando nos dávamos conta (é bom lembrar que à época a informação não possuía a velocidade da luz).

Mas de uma coisa não tenho dúvidas: assistimos a todas as mudanças que estavam ali, dando sopa ao nosso alcance.

Penso que ao menos isso, senão o convívio com gente mais velha, fez com que respirássemos com força os ares da liberdade, da mudança de costumes, do rompimento de amarras, da promoção das igualdades e ouvíssemos, a todo o momento, alguém gritando “abaixo isso, abaixo aquilo”, com a gente tantas vezes repetindo ou, no mínimo, escutando com simpatia.

Nós não lutamos por liberdade, mas a pegamos no colo e a tratamos com carinho, respeito e reverência.

Isso no plano político, social e pessoal.

Meus amigos começaram a se casar nos anos noventa.

Nenhum deles, absolutamente nenhum, disse que a esposa deveria ficar em casa e se submeter aos comandos daquele que o nervo reacionário da sociedade nomeia cabeça do casal.

Eu, por minha vez, pai tardio já no século vinte e um, criei três filhas repetindo a ladainha em seus ouvidos: “Eu não estou criando vocês para dependerem de homem nenhum. Quero vocês com dinheiro no bolso para viverem com independência”.

Eis que recentemente as três me falam de uma pesquisa indicando que um terço dos entrevistados, todos nascidos entre 1997 e 2012, dizem, com a maior naturalidade, que a mulher tem que ser submissa ao homem.

Espantado, penso, sem dizer, que “esse é o tipo de coisa que não combina com juventude“, e em seguida uma delas entrega, com sinceridade: “a sua geração é bem mais progressista que a nossa, pai“.

Nunca senti esse orgulho todo da minha geração, mas, endossado pelo comentário da minha filha, consolido uma observação construída nesses últimos anos de autoritarismo e moralismo ressuscitados: lá, nos anos oitenta, não mudamos nada, mas, aos menos, soubemos preservar o que foi construído por quem veio antes.

Acho que os filhos da revolução terão sim um lugarzinho na história.

Os anjos que cuidam dele


Um sujeito desce uma alameda rumo à avenida principal, onde está o ponto de ônibus.

Dois anjos o observam; são eles que tomam, ou tentam tomar, conta do sujeito.

Ele, então, vê encostar o ônibus que o deixa direto no trabalho, sem que precise pegar um para descer um tempo depois e embarcar em outro, na famosa baldeação.

Mas ele ainda está a uns 50 metros do ponto; começa a correr desabaladamente.

“Será que hoje ele consegue?”, um anjo pergunta ao outro, que responde “Ele tá bem treinado”.

“Alô, piloto! Espera!”, o sujeito berra para o motorista, que já engatou a primeira marcha.

Por sorte, o motorista é daqueles que gostam de passageiro de ônibus, e espera para que o sujeito suba pela porta da frente esbaforido, mas com o ar triunfante de quem venceu o desafio de algum programa de televisão imbecil.

Para ele, pegar essa linha sempre tem gosto de final de campeonato; os ônibus demoram demais.

Chegar no ponto e conseguir pegar um é sempre um sorteio das bolinhas.

Ele acha que tem contra si uma conspiração da natureza, pois perdeu a conta das vezes em que faltando vinte metros para o ponto, o maldito arrancou, deixando-o no vácuo, fora as outras em que, cansado de esperar, resolveu entrar no primeiro ônibus da baldeação e, quando olhou pela janela, o que ele vê ultrapassando? O maldito que facilitaria sua vida com uma única viagem.

“Conspiração da natureza é um pouco demais, não acha?”, um anjo quer saber do outro.

“Claro. Veja lá se com tanto recurso, a natureza vai se dar ao trabalho de conspirar contra um único mortal usando um ônibus…é coisa de ser humano mesmo”.

O primeiro anjo muda de assunto.

“Ele me parece mais de boa ultimamente. É impressão minha?”

“Não é não. Tá mais contentinho mesmo. Hoje saiu de casa cantando Beto Guedes – ‘Canta! Leva a tua vida em harmonia'” 

“Alguém ainda canta Beto Guedes?”

“Tem um outro coroa de quem eu tomo conta que também canta”.

“Acho que aquele dia em que ele chutou a porta do banheiro foi o limite”

“Ele chutou a porta do banheiro? Por quê?”

“E eu sei ? Me distraí olhando pro lado e tomei um baita susto com a porta quase se arrebentando na parede. Anjo não pode nem olhar pro lado”.

“Ele parou de reclamar do self-service onde almoça. Todo dia, ao meio-dia, eu ficava estressado porque sabia que ele ia alugar meus ouvidos dizendo que o rango era muito ruim”

“E é muito ruim?”

“Não. Exagero dele. É só ruim. Muito não”.

“Como é que você sabe? A gente é anjo, anjo não come”

“Se eu precisasse comer para saber, eu seria humano, né? E não anjo…”

“Mas ele parou de reclamar da boia?”

“Parou. Uma noite esperei ele pegar no sono e cheguei no ouvido dele: Camarada, é o seguinte: eu tô se saco cheio de te ouvir reclamar sem razão da comida lá da espelunca. Te liga:  tomo conta de gente que não tem uma colher de arroz para comer e que ia achar aquilo ali um cardápio cinco estrelas. No dia seguinte ele foi lá e mandou ver, fez um pratão de peão de obra que eu me assustei: vai ter uma congestão e vai me dar trabalho”.

“Eu também paguei um sapo pra ele outro dia. Ele tava no banho, de olho fechado, e eu disse ‘olha aqui, bróder, tu é um cara legal, mas vacila. Então vou te mandar a real. Se chutar de novo porta do banheiro, da cozinha ou seja lá de onde, eu vou deixar você quebrar os dedos do pé, e nem vou pra emergência do hospital contigo, tá ligado?”

“É por isso que ele tá amaciando, pegando leve. Tem uns quinze dias que acorda todo alegrinho, né? Você tá acompanhando…”

“Pois é, acorda sem ranhetar,  dá uma mijada, vai abrir a janela e fica um tempo olhando o céu. Depois cuida da gatinha e vai  fazer café. No fim, faz uma oração pedido lá um monte de coisa…”

“E a gente que se vire pra anotar”.

“Eu nem anoto mais. Já decorei…”

“Mas a vibe dele tá melhor, tá mais leve, dá bom dia sorrindo”

“É, tá mais fácil pra trabalhar”

“Por isso que conseguiu pegar o ônibus hoje”

“Precisa aprender que quando se vibra no bem, a natureza ajuda, o bem volta”

“Ele sabe disso, não precisa aprender”

“Sabe, mas nem sempre aplica, né?”

“É ser humano, né? Você quer o quê?”

A ressureição do soneto da adolescência


Cerca de sete anos atrás, fui procurado pela cantora Emmy Matias.

Chegou a mim por intermédio de um amigo em comum.

Por algum motivo, meu nome surgiu em uma conversa entre os dois e imediatamente ela o ligou a um poema que havia lido vinte e tantos anos antes.

Ela gostou tanto do que leu, que decorou ao menos um pequeno trecho.

Já em contato comigo, pelo Messenger, escreveu a parte que trazia na memória.

Olhei, olhei e simplesmente não me vinha o todo ao qual pertencia aquele pedaço.

De repente, um estalo e vou até a mais recôndita das prateleiras do meu apartamento.

De lá, tiro uma coletânea de poesia lançada em 1985, por uma editora de ocasião, no Rio.

O poema estava nela. Era um soneto que escrevi um ano antes, quando tinha dezesseis anos, para uma namorada que receio nem viva esteja mais.

Fiquei por instantes olhando e confesso que custei um tanto a reconhecer como meu o que eu via impresso na página amarelada em que assino André Luis Giusti (hoje, às vezes esqueço até que tenho Luis no nome) e em que consta uma biografia (o que pode haver em uma biografia de alguém de dezesseis anos?)

Provavelmente é um dos últimos, se não o último, soneto que escrevi na vida.

Ainda naquele ano, torturado pelo vestibular e à mercê do vendaval que foi a década de oitenta, rompi com essa estrutura clássica e acadêmica para adotar em minha poesia a linguagem da música pop e do rock e me deixar influenciar por gente como Chacal, Leminski, Cacaso e os letristas de minha geração.

Pois bem. O danado do soneto veio do fundo do tempo, renasceu do meu próprio esquecimento e virou, com a ponte da Emmy Matias, essa bela canção do cantor e compositor João Energia, que você confere em minha conta no Instagram.

 

 

A era do que se quer entender para falar o que se quer

Semana passada escrevi sobre uma conhecida (que não é de direita) que não concorda com a eleição da Erika Hilton para a Comissão de Mulheres da Câmara dos Deputados.

A posição dela não foi o que me chamou a atenção e o que me levou a escrever.

Imediatamente pensei nas mulheres de esquerda que também não concordaram, mas que ficaram caladas temendo o cancelamento, pois a patrulha e a censura rolam geral na esquerda tanto quanto na direita.

Porque ser de esquerda e apoiar a eleição da deputada não é difícil

Bem mais complicado é ser de esquerda e não apoiar,  mas achar que é melhor não falar nada e deixar quieto para não chamar confusão para si.

Foi o que escrevi. 

A maioria comentou rebatendo como se eu houvesse escrito que não concordava com a eleição da Erika Hilton. Não sou mulher, não acho que tenha que me meter nisso, deixei bem claro.

Saí com uma conclusão que já tempos vinha amadurecendo: nesses tempos de polêmica cada vez mais inflada, identitarismo de faca nos dentes,  polarização cada  vez mais acirrada e país permanentemente dividido, as pessoas entendem o que querem entender quando leem algo, tudo para falarem o que querem falar, e não sobre o que foi perguntado.

 

O quase amigo adversário político


Estávamos nos primeiros dias de 1988.
Começava a se formar no país a expectativa eleitoral, devido à eleição para Presidente prometida pela Constituição que viraria realidade dali a alguns meses, em outubro.
Eu me colocava: Lula ou Brizola, ainda não sabia ao certo.
Ele achava que Maluf não seria o candidato da direita, não o principal, já que não tinha força fora de São Paulo. Ele não se posicionava.
Achar isso do velho Salim não era se posicionar, de acordo com o meu entendimento de então.
“Vão inventar alguém até lá”, arrisquei sem a mínima perspectiva de que acertaria, e inventaram realmente alguém.
Tínhamos alguma esperança de ver nascer um país melhor até o fim daquela década.
Na verdade, nossas principais discussões eram Beatles ou Stones? Barão ou Legião? , mas havia espaço para a política, debatida sem ameaça de carnificina.
Havíamos nos conhecido poucos meses antes.
Se não chegamos a nos tornar amigos, com o peso que essa palavra precisa ter, fomos bons companheiros, navegando em mesas de bares baratos, filhotes da ditadura naqueles libertinos anos 80, achando que os anos sessenta é que foram dignos de serem vividos.
As distâncias geográficas acabaram nos afastando nos noventa, problema resolvido pelas redes sociais, especialmente o feici búqui.
Era o final da década de dois mil e ele me reaparece como dono de livraria em Cabo Frio.
Eu acabara de lançar um de meus livros, A Liberdade é Amarela e Conversível.
Ele propôs uma noite de autógrafos.
Eu tinha mesmo uns dias de férias para tirar e embarquei rumo ao litoral norte do meu estado.
A noite de autógrafos foi um fracasso.
Não vendi livro nem para pagar uma coxinha no aeroporto.
Acho que só fui ao Rio para descobrir que meu antigo camarada era tucano, tucanaço, numa época em que o PSDB era partido e o Vasco era time.
Mais de vinte anos depois daquelas nossas mornas e insossas conversas sobre política, ele deu umas espinafradas no então governo Lula, o segundo, mas não houve avanço de conflito.
É bom lembrar que não se sentia no tucanato ranço de nazismo, e até por isso eu aceitava conversar com quem votou no Fernando Henrique.
O problema dos tucanos é que queriam vender o país todo pro capital estrangeiro.  Só isso.
Estávamos numa mesa de bar, na beira da praia, em Cabo Frio.
Ele chicoteando o Lula, e eu, defendendo.
Mas sem ofensa, sem estupidez, algo impensável de 2018 para cá, nesses tempos de inteligência artificial e estupidez natural.

Rompemos em 2015, ano em que começou a engenharia do golpe que derrubou Dilma Rousseff, conflito que ficou acima de uma relativa amizade entre nós e nos colocou definitivamente em pontos antagônicos.

“Fala ai André. Para evitar que a gente se estresse por causa de opiniões divergentes vou parar de te seguir, ok? Estarei por aqui se quiser falar comigo. Grande abraço. 

Bem, eu não estou estressado com você, tanto é que nunca deletei algum comentário seu. Se não curto é porque não concordo. Politicamente, estamos em campos opostos, mas isso é da vida, e com educação e respeito à opinião do outro, leva-se na boa, penso eu. Mas fique à vontade. Grande abraço.”

“Também não me estresso com você, e quero evitar que isso aconteça

“Perfeito, mas nada do que escrevo é dirigido a você ou a qualquer outra pessoa que, com todo direito, não concorde comigo. Quando falo de política, meu alvo é a conjuntura. Mas, grande abraço!”

Foi a última vez que nos falamos.
A conversa demonstra que havia civilidade entre opositores, mas que ela não impedia o rompimento de relações que durante anos tangeram a linha da amizade.
Me recordo que me senti meio vazio aquele dia, uma daquelas vezes em que se procura sentido, propósito.
Hoje soube que ele morreu anteontem.
Apenas três meses mais velho do que eu.
Passou mal, sentou-se e morreu, mais rápido do que votar na urna eletrônica.
Torço que não tenha sentido dor ou algo semelhante.
Morreu rompido comigo, por divergências ideológicas, e isso faz com que a morte deixe um vazio ainda maior e mais sem sentido.

Pequena conversa com Deus*

– Qual é a dele? – perguntou.

– Sei lá, vive de boa…

– Como assim de boa?

– Sei lá, não faz fofoca, não é traíra, não diz uma coisa e faz outra pelas costas…

– Sei…

– Outro dia pagou um lanche pro engraxate que não tinha conseguido escovar um sapato. Comprou também remédio pra tia sem perna que fica na esquina pedindo…

– Sei…

– Ele não contou não. Eu que vi e tô te dizendo. Ele é de boa, só diz que você não existe, que não fez nada disso aí que dizem de você…

Deus pensa. Aí fala.

– Olha só, tenho que resolver o caso de um padre que abusava das crianças atrás da igreja. Tem também o pastor que tomou a aposentadoria da velhinha cega, e o presidente de um centro espírita que fala em caridade, mas não lava nem a louça pra mulher…

– Sei. E aí?

– Deixa o cara pra lá, tô preocupado se ele acredita em mim não. Tenho mais o que fazer, tá ligado?

– Podicrê. Valeu, Deus!

– Valeu. E se liga você também, fica esperto.

– Boto fé…

*Publicado originalmente em 10/02/2017 

Maceió e o gordinho esganado


Por onde passo, praticamente não vejo árvores.  Ela me explica que havia muitas, e então reparo em canteiros vazios, alguns abrigando a raiz morta, ainda em exposição. “Os moradores cortaram, ou pediram para cortar. Não gostam que ninguém aproveite a sombra e estacione o carro na calçada da casa deles”, ela me explica.

Esse pensamento estúpido, tacanha, mesquinho não é um regionalismo. Em Brasília, já ouvi gente dizer que derrubou uma mangueira porque “aquela praga só sabe jogar folha morta no chão pra gente varrer“. É um mundo difícil, um país difícil, em que, em tempos de aquecimento global, há quem prefira virar torresmo debaixo desse sol inclemente a varrer folhas ou procurar vaga para estacionar.

“Quando chegamos aqui, em 1987, era tudo assim”, e, apontando, ela mostra uma belíssima casa na beira da praia, que sustenta uma arquitetura moderna ainda hoje; de traços arrojados que, mesmo para quem está na calçada, deixam nítido que privilegiam a claridade e a ventilação, naturalmente vindas da praia.

As casas que, penso eu, outrora deveriam dar à cidade a justa e adequada imagem de balneário dos sonhos, foram dizimadas – ela me explica -, para que em seus imensos terrenos se erguessem monstros de dez, quinze andares, revestidos pelo mau gosto do granito e do vidro fumê, consagrando o ar condicionado e a iluminação artificial como modo de vida e jeito de estar em casa. Ela me descreve como as casas foram desparecendo, “às vezes quatro, cinco de uma só vez”, e então eu imagino um moleque gordo, mal educado e esganado dando cabo, em dez minutos, de um imenso pacote de biscoitos recheados de gordura trans. Seu nome é construção civil, filho da ganância e do lucro, afilhado da corrupção do Estado.

Andamos calados, procurando marquises que nos socorram na ausência das árvores.  “Eu imaginava que a cidade fosse totalmente diferente”, confesso sem graça, sem querer me estender e acrescentar que a sinto opressiva. Que contrassenso: opressão e beira-mar. Ela sorri, como se não esperasse que eu dissesse nada muito diferente. “A minha médica mora aqui”, e ela aponta outra casa, antiga, bonita, elegante. Casa boa. Me vêm à cabeça um grupo de jovens, colegas de universidade, ali, naquele jardim, quarenta e tantos anos atrás, num fim de tarde numa roda de violão. “Não passa uma semana sem vir alguém de construtora bater aqui perguntando se ela quer vender. Ela diz que só sai daqui morta. Devem vir para conferir se ela ainda está viva”, e brinca. É uma situação em que só cabem conformação bem humorada ou fuga, pois não há mais como reverter nada. “A cidade que você imaginou existiu sim, era assim”, e ela aponta novamente a casa da médica, “só que você chegou com mais de quarenta e cinco anos de atraso.” Eu sorrio, nostálgico, não pelo lugar, que não é meu, nunca foi. Sorrio nostálgico por um modo de vida humanizado que deixou de ser, aqui, lá, acolá. Sorrio nostálgico pelos violões e pelos jovens mudos, sem canções. E em seguida rio sarcástico: Alguém tocará violão na portaria desses prédios que lembram mausoléus ao se pretenderem modernos, mas que na verdade parecem mais os monstros daquele desenho dos anos oitenta, o Transformers?

O efeito disso, desses monstros luxuosos, não está apenas no alto, na projeção artificial de sombras e no bloqueio do vento, como aconteceu em Copacabana, nos anos 1950, mas também embaixo, nas ruas estreitas onde a alta classe média gosta de se impor em suas SUVs trogloditas, suas camionetes gigantescas e seus Jipes de guerra, perfeitos para os filmes americanoides rodados em cidades de imensas avenidas, como Los Angeles. Aqui são ruas em que havia dez casas em cada quarteirão, portanto, dez famílias saindo de manhã e voltando à noite. Agora, são quarenta famílias em cada uma das dez ou quinze gaiolas de fumê e granito ao longo das ruas magrelas. Não pode dar certo. É engarrafamento e stress que as agências de viagem precisam se esforçar muito para jogar debaixo do tapete.

“É o progresso!”, e de súbito me lembro de um mero conhecido, exultante, saudando o erguimento de um desses monstrengos alguns anos atrás em outra capital, cerca de três horas daqui, outra joia da coroa que é esse litoral. Os monstros de concreto, granito e fumê ganharam os céus, as casas foram dizimadas e as ruas viraram simples canaletas entupidas de aço e borracha porque entende-se como progresso essas edificações excludentes não apenas do ser humano, já que no mínimo oitenta por cento da população só entra nesses edifícios a trabalho, mas também do meio ambiente, do saneamento básico que sustente tanto impacto, da água de qualidade que chegue a todas as torneiras e do urbanismo como instrumento de fazer a cidade para todos, seja na beira do mar, seja no subúrbio ou na periferia.

E enquanto uns comemoram seu ideal de progresso, e eu, utópico, penso nas cidades que existiram e nas que jamais existirão nesse país errado, o gordinho mal educado e esganado já abriu mais um pacote de biscoito recheado. 

A Literatura nada cansada de Alexandre Brandão

Ao dar com o título do mais recente livro de Alexandre Brandão, não resisto à piada: é uma obra cuja leitura não cansa.

Passada a cretinice, digo que sempre que vou começar um livro do Brandão, o faço com a muita tranquilidade da certeza de que vou gostar.

Seu trabalho é de uma qualidade constante nos estilos em que transita: poesia, novela e conto. Seu mais novo  lançamento não sai dessa curva, mas em vários momentos consegue surpreender (ainda): “Putz, tá melhor do que no último livro.
Elenco três contos como exemplo do que disse acima : Lipe e o Bibelô (fantástico, um final belíssimo); Chorão, em que Alexandre Brandão ensina aos escritores novos (e aos mais velhos também) como transformar melancolia em literatura; e finalmente Ao Longo da Noite, a estranha história de um pai que leva o filho para a selva noturna dos prazeres e vícios, um conto que se destaca principalmente pela originalidade da história.

Ao terminar a leitura desse novo trabalho de Alexandre Brandão, a gente fica pensando que os verbos, sei lá por qual motivo, podem até estar cansados, mas o autor anda bem animado e bem disposto, sim, senhor.

Põe na conta do homem branco e hetero


No filme Livros Restantes, estrelado por Denise Fraga, há cinco homens.

O primeiro é um sujeito alegre, carinhoso, divertido e, de certa forma, puro.

É um negro.

Os outros quatro são brancos e de meia idade.

O primeiro desses é um cara amoroso, sensível, cuidadoso, ético, de bons valores e princípios.

Ele é gay.

Dos outros três, um é pedófilo; outro, um ex-namorado da personagem de Denise, é um machista, estúpido e insensível e que, mesmo sendo casado e anos depois, insiste em transar com ela.

Por fim, o último é um cara confuso, cheio de preconceitos, e de acordo com a própria personagem principal, não aceita opiniões contrárias. É o ex-marido dela, provavelmente o único responsável pelo fim do casamento, embora isso não seja dito claramente no filme.

Repare que dos homens brancos somente o gay é quem vale alguma coisa. Todos os outros brancos são heterossexuais. E não prestam.

No filme, eles receberam o lixo da humanidade, algo que, se você reparar, vem se repetindo nos últimos anos, não apenas no cinema, mas na literatura, na publicidade sobre direitos das mulheres, gays e negros.

Defendo com veemência a luta das minorias, a briga pelas causas identitárias, mas estou ficando cansado do uso repetitivo desse rótulo: branco e hetero = machista, homofóbico e racista.

Acho que querem me obrigar a me ver como um escroque preconceituoso.

Voto no Lula desde 1989, sou de esquerda, a favor do casamento gay, da adoção de crianças por esses casais; para mim,  mulheres têm que ganhar igual ou mais do que os homens se a função exigir; o racismo é abominável e a reforma agrária é fundamental.

Querem mais ou está bom?

Não sou aquilo que está na tela e, creio, a maioria dos homens brancos e heteros também não é, e não acho legal (aliás, começo a achar discriminatório) colocarem apenas na nossa conta o prejuízo por esse mundo preconceituoso em que vivemos.

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