André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Brasil x Argentina. O lado babaca da rivalidade.

Um dos problemas da publicidade é que ela sempre descobre uma fórmula atraente de vender produtos usando como pano de fundo um mote qualquer que mexa, de preferência, com paixões, gostos e costumes nacionais. É assim com louras, cervejas, carros, churrasco. É assim com o futebol. O outro problema da publicidade é parecer não se [...]

Um dos problemas da publicidade é que ela sempre descobre uma fórmula atraente de vender produtos usando como pano de fundo um mote qualquer que mexa, de preferência, com paixões, gostos e costumes nacionais. É assim com louras, cervejas, carros, churrasco. É assim com o futebol.

O outro problema da publicidade é parecer não se dar conta de que o uso com validade indeterminada desses motes cansa, esgota o consumidor, perde sua essência primeira, ou seja, a graça. É como piada repetida várias vezes. Pela mesma pessoa.

Nossa rivalidade com os argentinos me parece ser um desses casos em que em todo almoço de família o cunhado conta a mesma história sobre o Lula e a Dilma. Talvez os publicitários não tenham reparado que a cutucada trivial em nossos vizinhos já não provoca as mesmas risadas de antes. Mas não estão sozinhos. Pra sorte da categoria, talvez o consumidor também não tenha notado que a piada gastou. Então, fica rindo sem muito querer rir, fica rindo porque o comercial é bem produzido, porque quando o assunto é argentino sendo sacaneado, temos que rir pois o senso comum já decidiu que é engraçado espezinhar argentino. E não fica bem dizer que uma coisa não é engraçada quando todo mundo acha – ou pensa – que é.

Enfastiado, vejo começar a descer a avalanche de comerciais sobre a copa do mundo. Das mega-produções dos anúncios dos bancos ao amadorismo dos comerciais de lojas de sapatos, há invariavelmente, em boa parte deles, um argentino objeto de deboche do brasileiro sempre malandro, bancando superioridade com suas cinco copas do mundo contra as duas dos hermanos, palavra que, aliás, a banalidade desses comerciais fez o favor de tornar insuportável.

Não tenho idéia se essa chatice tem sua versão no outro lado das Cataratas do Iguaçu, mas fico imaginando se eles resolvessem nos dar o troco alardeando o número de livrarias que existem em Buenos Aires ou a decisão de punir os generais que mandaram torturar e matar durante a ditadura deles. Levaríamos um toco de 3 X 0 só no primeiro tempo.

A propaganda cumpre seu papel de ser massiva não apenas no desgastado palco da rixa entre os dois países. Seja qual for a situação tomada como pretexto para vender alguma coisa, o objetivo claro é impedir que o sujeito respire até que se convença de que sua existência será bem melhor se tomar aquela cerveja da loura boazuda ou trocar de operadora de celular.

Mas é na época dos grandes eventos, como a copa do mundo, que a capacidade de exaurir os nervos do cidadão alcança grau máximo. Hoje, no twitter, o comediante Rafael Bastos (CQC, da Band) disse que a publicidade faz com que ele odeie os eventos antes de eles começarem. Lembrei-me das Olimpíadas de 2004, do massacre da mídia querendo nos convencer – e convencendo milhões – de que a ginasta Daiane dos Santos era uma divindade encarnada que pulava de um lado a outro ao som de Brasileirinho. Nada contra ela, mas quando seus resultados ficaram bem abaixo do que prometiam o Galvão Bueno e a Coca-cola, confesso que não senti a mínima pena. Ao contrário, sobreveio-me alívio ao pensar que a frustração me livraria de enxergar o rosto da ginasta até no ralo do banheiro.

Este ano, claro, não será diferente, mas estou preparado, aguardando tranquilo que a Visa, o Itaú, a Vivo tentem me convencer que a seleção do Dunga é a de 70 rediviva.

PS: Meu quarto livro de contos, A liberdade é amarela e conversível, está sendo sorteado na comunidade Viciado em Livros, que tem mais de 90 mil participantes no Orkut. Acesse http://goo.gl/gOCf e concorra.

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentários (5)

  1. MARCOS OLIVEIRA -

    Parabéns, André, mais uma vez pela lucidez. Tenho um amigo que visitou Buenos Aires mês passado e adorou. É uma cidade com cara européia. Um povo politizado e sem a passividade do brasileiro. Também nunca achei graça nas piadas sobre essa rivalidade com os hermanos.

  2. André Giusti Autor do post -

    Obrigado, Renata, pelo seu comentário. Estou devendo os poemas pro varal.

  3. André Giusti Autor do post -

    Obrigado, Luciana, pelo comentário elogioso.

  4. Luciana Nepomuceno -

    Cheguei aqui por causa do Zico, do Mengo, do com bola e tudo…e encontrei bem mais do que esperava. Parabéns pelo texto bem escrito, as idéias revigorantes e o humor na medida certa. Aliás, só pra constar, quem gosta mesmo de futebol, devia parar com a bobagem de rivalidade e reparar no jogo bem jogado dos argentinos…Dá gosto de ver, principalmente quando se tem que aguentar Josué no meio campo da seleção brasileira…

  5. Renata Iacovino -

    Muito oportuna sua crônica, André. Essa rivalidade fabricada não é nada saudável, além de preconceituosa. Mas o brasileiro é ignorante em muitos aspectos, infelizmente. Tem pouca capacidade reflexiva e é apolítico. Diverte-se com piadas idiotas e acho lindo publicidades abusivas e enganosas. Somos consumistas de inutilidades, consumimo-nos na futilidade.

Deixe o seu comentário!