André Giusti - foto: Luana Lleras
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Brasília rural

Há uma ‘ruralidade’ em Brasília antecedente à construção da capital e que ainda não se dobrou aos esforços bem sucedidos de mandar às favas a ideia inicial de cidade humanizada, onde os grandes espaços, as árvores e os gramados poderiam conviver em paz com o ser humano. Chegue à janela no fim da noite e [...]

Há uma ‘ruralidade’ em Brasília antecedente à construção da capital e que ainda não se dobrou aos esforços bem sucedidos de mandar às favas a ideia inicial de cidade humanizada, onde os grandes espaços, as árvores e os gramados poderiam conviver em paz com o ser humano.

Chegue à janela no fim da noite e fique em silêncio. Dependendo da quadra, em pleno Plano Piloto você ouvirá grilos cantando harmonicamente em sintonia com as estrelas, conforme escreveu certa vez o mais poeta dos poetas brasileiros, Mário Quintana.

Pela janela entrará, também em outras horas do dia, o cheiro agreste da natureza lavada pela chuva desta época, ou mesmo ressequida pelos castigos que o clima nos aplica em agosto e setembro. Aceitem isso, brasilienses: o cheiro é agreste porque estamos no interior, no meio do Brasil, no mais autêntico e genuíno sertão goiano, embora rechacem o fato algumas cabeças idiotizadas por Miami e Cancun.

Situações corriqueiras comprovam e revelam o espírito de fazenda que habita oculto – mas latente em certas horas – as primeiras superquadras, verdadeiros parques onde burocratas cansados da lentidão do estado criam filhos e observam a vida dar seu expediente.

Falo de uma dessas que me fez seu personagem por esses dias. Esvaziando a sacola com doações para a biblioteca pública, ouvi a chegada da chuva grossa esposada pelo vento forte. Quase imediatamente, ouço seis ou sete pancadas secas no telhado da pequena sala. São as mangas, explica o atendente, embora meus treze anos de Brasília dispensassem a explicação.

Agradeço o atendimento e mal saio à rua já estou molhado, pois, é claro, esqueci o guarda-chuva em algum canto do mundo. Já nos primeiros passos, desisto de atravessar depressa o gramado. Não porque a camiseta já estivesse ensopada, mas porque contrastando com a relva, espalhavam-se no verde mangas amarelas, maduras, convidativas.

Sem pedir licença à natureza, chafurdo o velho tênis nas poças que se formam nos desníveis do gramado. Em poucos golpes, recolho o quanto posso do que o vento conseguiu derrubar. A sacola que chegara abarrotada de livros, sai dali transbordando mangas, e eu, homem que trago a palidez cinza da urbanidade, volto pra casa molhado, feliz, tomando emprestado a paz que imagino sentir as gentes do sertão.

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Comentários (4)

  1. Raquel -

    Este esta otimo p ser lido nos eventos literarios dos escritoires de Brasilia. Lindo. Parabens!

  2. Raquel -

    Este esta otimo p ser lido nos events literarios dos escritoires de Brasilia. Lindo. Parabens!

  3. Henrique -

    Ah, querido sócio. Esses presentes que a natureza nos oferece, assim, de ventania e chuva. Muitos se cobrem e protegem da água boa de um temporal de verão. Quando chove, de cachorro beber água em pé, digo ao meu filho: “Vai lavar esta alma!” Pois só as águas da chuva podem lavar certas tristezas.

  4. HUGO GIUSTI -

    Que bom poder participar e interagir com a natureza, principalmente na chuva, com seu perfume e sutilezas, coisas simples e explendorosas. Aproveita mesmo André, que bom…

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