André Giusti - foto: Luana Lleras
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Cabelo em ovo, chifre em cavalo (ou sobre os leitores sensíveis)

Passei uns três dias pensando e cheguei à conclusão que, no fundo, eu já esperava chegar: o tal do leitor sensível é realmente censura. Ou melhor, é patrulhamento ideológico, que é a censura sem o poder de veto do estado. Patrulhamento ideológico, pelo que reza a história política do país, é uma expressão que surgiu [...]

Passei uns três dias pensando e cheguei à conclusão que, no fundo, eu já esperava chegar: o tal do leitor sensível é realmente censura.

Ou melhor, é patrulhamento ideológico, que é a censura sem o poder de veto do estado.

Patrulhamento ideológico, pelo que reza a história política do país, é uma expressão que surgiu nos anos sessenta. Era praticado por setores da esquerda que realmente têm dificuldade em conviver com a democracia, com a opinião diversa e, especialmente, contrária.

Embora seja e já tenha me posicionado contra atrocidades do tipo homofobia e racismo, confesso o temor de estar na mira do leitor sensível, aquele que será pago pelas editoras (e o fará também nos canais de produção de conteúdo, como as redes sociais) para identificar preconceitos raciais, de gênero, de orientação sexual – e por aí vai – nos livros.

Para Sempre Cinderela

Para Sempre Cinderela

Sou homem de classe média (bem média mesmo, quase fodida, embora melhor que a maioria no país), branco, olhos claros, meia idade, descendente de europeu. Sou o protótipo físico do racista, do homofóbico, do machista, e numa sociedade em que a aparência instiga julgamentos instantâneos, já me sinto vigiado com atenção redobrada pelo leitor sensível.

É claro que não vou me intimidar, mas temo que ao criar, por exemplo, um personagem que odeia negros ou homossexuais, a patrulha dos que muitas vezes enxergam chifre em cavalo e cabelo em ovo venha para cima de mim dizer que aquilo na verdade é meu preconceito expresso numa terceira voz disfarçada. É algo que os próprios críticos literários dizem da Emília em relação a Monteiro Lobato.

A figura do leitor sensível não ajuda em nada no combate a preconceitos. Ao contrário, pelo que vejo está é instigando a salivação dos Danilos Gentiles e Bolsonaros de plantão, que pisoteiam com escárnio o (necessário) politicamente correto, a na verdade dizerem prazerosamente: olha lá, tá vendo como é ditadora essa cambada de preto, bicha, sapatão e feminista?

Liberdade de expressão é tão importante em uma sociedade que a luta contra o preconceito passa necessariamente – e até obviamente – por ela.

Nos casos de apologia, via literatura, do racismo e seus odiosos similares discriminatórios, mais eficaz e salutar que a figura do leitor sensível será o boicote à obra, e, em última análise, a Justiça.

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