André Giusti - foto: Luana Lleras
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Cardápio de lembranças.

Foi em Ouro Preto. Era um restaurante no porão de uma casa erguida por volta de 1750. Comeu observado pelos séculos, por um renitente espírito de conspiração que as pedras das paredes não amordaçaram direito. O tutu à mineira tornou ainda mais inclinadas as ladeiras onde o tempo é transeunte a descer e subir sem [...]

Foi em Ouro Preto. Era um restaurante no porão de uma casa erguida por volta de 1750. Comeu observado pelos séculos, por um renitente espírito de conspiração que as pedras das paredes não amordaçaram direito. O tutu à mineira tornou ainda mais inclinadas as ladeiras onde o tempo é transeunte a descer e subir sem descanso. Esperando o prato, mandou descer uma cerveja. Ela bateu no estômago vazio e misturou um pouco os olhos, mas colocou em ordem e alegrou as idéias cansadas por oito horas de estrada.

Talvez quinze anos antes, ainda na adolescência, foi um eggcheesburger comido no trailler na praça central de Rio das Ostras enquanto não vinha o ônibus de volta ao Rio, encerrando o feriado. O sanduíche, que amortecia três dias de miojo e groselha, na verdade não carregava o gosto dos ingredientes preparados na chapa de higiene discutível. Recendia era a aventura de menino, a um certo odor encantado de vida que se quer sem medos e prudências.

Nas lembranças de estradas, há também aqueles dois ovos com pão e café preto, que nem estavam no cardápio daquela tenda na beira da rodovia, onde Minas já é Goiás e vice-versa. Foram feitos de boa vontade da dona, porque nem farelo de bolo sobrara na espelunca naquela tardinha de quase natal.

Moram ainda na memória, quentes, como se acabados de chegarà mesa, uma certa pizza calabresa devorada em par com o vinho italiano, cujo nome se embriagou de esquecimento já na calçada úmida de uma rua tranquila em Botafogo, abraçada pela névoa da frente fria que chegou no fim da noite; também o pão com bife depois de um filme de Russel Crowe no cinema, e o ensopadinho de caranguejo em frente ao mar-esmeralda de João Pessoa.

Uma das últimas peças desse cardápio de lembranças fora angariada num banco de jardim em frente ao Coliseo, sob os milênios azuis do céu de Roma. Um paninni com vinho barato comprado no quiosque e servido em copo de plástico, tão perfeito como se fosse reserva especial em taça cara de jantares em palácios.

De vez em quando, folheia esse cardápio, e parece que a vida, no geral, é apenas um prato que vai esfriando melancólico no fogão, esperando que o devore alguém que chegue em casa tarde da noite.

Então, sente uma saudade esfomeada do que realmente valeu a pena.

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Comentários (5)

  1. Denise Giusti -

    Muito boa, adorei!! Sempre que vejo uma rabada com agrião e batata lembro de minha Mãe, a última que comi ela fez de presente no meu aniversário. De tanto que pedi, coitada já não aguentava cozinha lá pelos ses setenta e poucos anos. Cheguei da praia encontrei os dois lá na cozinha limpando o agrião para minha supresa, ficou na memória até hoje e se vejo o prato chega a rolar uma lágrima de saudade …

  2. Raquel Madeira -

    as comidas, os cheiros, as cores fazem parte das suas lembranças e viram crônicas. O que seria do seu blog (e dos seus leitores) sem estas deliciosas lembranças.

  3. Pedro Biondi -

    Lindo texto, André. Algumas lembranças gastronômicas marcam tão bem alguns momentos e fases… Dão uma melancoliazinha boa…

  4. André Giusti Autor do post -

    ÊÊÊÊÊÊÊ, Goiás!!!!!

    Como um por mim. abs.

  5. Carlos Oliveira -

    Puxa vida, André, inventei de ler esse texto justamente agora. A fome deu as caras tão fortemente que acho que vou comer um pão-de-queijo aqui no café do plenário da Câmara.

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