André Giusti - foto: Luana Lleras
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Carro preto.

Desde que se entendia por gente, isso ainda na época dos velhos opalões, Zedias via cruzarem a cidade aqueles carrões pretos, com placas especiais feitas de chumbo e letras e números dourados, alguns com o brasão da República. Nelas, sempre vinha escrito que figurão viajava naquele carro, ministro de não sei o quê, presidente de [...]

Desde que se entendia por gente, isso ainda na época dos velhos opalões, Zedias via cruzarem a cidade aqueles carrões pretos, com placas especiais feitas de chumbo e letras e números dourados, alguns com o brasão da República. Nelas, sempre vinha escrito que figurão viajava naquele carro, ministro de não sei o quê, presidente de não sei onde, desembargador do tribunal X, que ninguém sabia onde ficava e muito menos para que servia. Era preciso que ficasse claro quem viajava naquele carro, para que nenhum brasileiro mirrado, verminoso e morto de fome se metesse a besta.

O problema é que Zedias nunca engoliu muito bem essa história de carro oficial. O pai, escriturário até as migalhas da aposentadoria, se espremia no ônibus, no trem e lá ia ganhar a vida, e foi assim a vida toda.

Mas o pai não é ministro, Zé, não é autoridade, um irmão tentava que Zedias aceitasse os fatos com a correta resignação que cabe ao contribuinte assalariado.

Por isso mesmo, ué! Se é autoridade, tem dinheiro pra comprar automóvel, e Zedias não se curvava.

Ele mesmo ia para cima e para baixo na base no vale-transporte. Carro só foi ter aos trinta anos, já casado, um Fiat 147, que não se fabricava mais há muitos anos.

Diziam que em Paris o prefeito ia trabalhar de metrô, então por que aqui flanava-se a bordo de modelos impecáveis, com motorista à disposição, ar-condicionado ligado e os vidros levantados que é para não sentir o cheiro e o bafo quente do país que paga aquilo tudo?

E nada dos carros mais baratos, nacionais feitos para a classe-média bem média. Parece que só presta se forem daqueles em que o interior é mais luxuoso que a sala da casa de Zedias, uns que, contam, não são nem feitos no Brasil, vêm de encomenda lá de fora.

Tirando do bolso da gente é fácil ter luxo, né? Rir com dente é mole, quero ver é rir sem dente. E lá ia Zedias praguejando contra qualquer engravatado que passasse escondido em carro preto.

Até que calhou de Zedias estar parado no sinal e ao lado encostar um estalando de novo, a lataria brilhando tanto que servia de espelho. O preço daquilo talvez fosse o de muito apartamento por aí. Na traseira, a placa informava a utilidade do figurão na Terra: ministro tal da turma tal do tribunal superior de sabe-se lá o que faz de bom pelo povo. Calhou também da gasolina ter aumentado de preço pela terceira vez em duas semanas, e de naquela manhã Zedias ter recebido em casa a facada do IPVA.

Olhando aquela suntuosidade motorizada, Zedias ficou resolvendo enquanto o sinal estava vermelho: falo ou não falo? E como o verde demorasse, buzinou uma duas três vezes, até que o motorista abaixou o vidro.

- Que é, cara?

- Chama a autoridade aí detrás.

- Chamar pra quê?

- Manda o figurão abaixar o vidro, pô, não sou bandido não.

O vidro fumê da porta traseira veio, então, descendo lentamente. Lá dentro apareceu uma cara gorda e vermelha, uma papada banhuda entalada no colarinho, um nariz torcido de quem passou numa fossa aberta.

Com uma espécie de ironia raivosa, Zedias mandou a estribeira às favas.

- ‘Tá gostando do carrão, ministro? O senhor deveria me agradecer, porque fui eu que paguei pro senhor, saiu do meu bolso.

Antes que o vidro levantasse todo, o sinal abriu e o motorista arrancou.

- Pros quintos dos infernos vocês! – e Zedias saiu bem atrás.

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Comentários (7)

  1. André Giusti Autor do post -

    Esqueci de dizer. É que o Zedias melhorou um pouquinho de vida e tá pagando um Mille 2001 em 36 vezes.kkkkk.

  2. giovani iemini -

    soube de gente que adorava cheirar cocaína no painel dos opalões do senado. é podreira pra todo lado.

    mas… uma pergunta: se o fiat tava fora de fabriacação, um 147, o IPVA já não seria mais cobrado, a validade é 15 anos desde o lançamento.
    sei disso pois minha moto tem 22 anos. hahaha.

  3. André Giusti Autor do post -

    O Zedias fala mesmo, ele é meio doido, como deveríamos ser. abs.

  4. Carlos Oliveira -

    André, que crônica legal. Pude me divertir com a história e me indignar com o quanto os servos da nação, pagos com o nosso sofrido dinheirinho, são egoístas. Será que eles conhecem a realidade do Brasil, quantos Zedias estão por aí lutando pela vida e, por causa dos problemas do dia-a-dia, acabam se resignando mesmo.
    Abraço,
    Carlos Oliveira

  5. André Giusti Autor do post -

    Wilson Pereira, um dos meus poetas preferidos. Que bom tê-lo no blog. Um grande abraço.

  6. Roberta Paz -

    Ontem mesmo, seguia eu no meu humilde 1.0 das quatrocentos para a W3 Sul. Eis que na tesourinha da 110 sul um desses carrões simplesmente se atravessou na minha frente, me obrigando a frear bruscamente para evitar o choque. Respirei fundo e num esforço extra-humano consegui não buzinar. A placa dizia: SENADORA DA REPÚBLICA. Pensei comigo: ah bom! Está explicado …

  7. Wilson Pereira -

    òtima crônica! O Brasil deveria ter mais Zédias, para protestar contra os privilégios sem sentido dessas autoridades sangue-sugas, que vivem usufluindo do dinheiro público, quando poderiam pagar com seus polpudos salários o próprio transporte, a própria moradia e outras coisas mais que surrupiam dos cofres públicos.
    Parabéns, André pelo texto.
    Wilson Pereira

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