André Giusti - foto: Luana Lleras
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Livro A MARIANO

Meu primeiro livro do ano é uma história que mistura submundo e vida familiar, amor sincero e desejo carnal.

Entre amizade, traições, falsidades e preconceitos, Antônio Mariano nos mostra como podemos querer que a vida seja de um jeito, mas nós mesmos às vezes acabamos levando-a para um outro lado quando não entendemos seus sinais.

Outras pessoas por aqui já leram e recomendam.

Eu faço o mesmo.

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A mais velha está no espelho do banheiro esfregando com força um creme no rosto.

A mais nova chega e diz: “Isso, esfrega mesmo para ver se nasce outro melhor”.

Mas, acreditem, elas sem amam.

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Naufrágio entre amigos

Neste livro de contos, lançado já há uns bons cinco anos, Eduardo Sabino se diferencia dos escritores contemporâneos em um detalhe: coloca humor em suas histórias.

Tenho lido muitos autores e autoras dez, 20 anos mais jovens do que eu, e posso dizer que há muita gente boa, mandando bem o seu recado.

Mas quase sempre é uma literatura carregada de angústia, seja pela injustiça social, pela discriminação de qualquer tipo, pela família e até pela própria vida, que às vezes parece mesmo sem sentido.

Sabino fala disso tudo e é angustiado também, mas ao contrário de seus pares de geração, usa o humor e nos arranca risos (pelo menos de mim ele conseguiu isso).

Mas não é esse humor televisivo, de Porta dos Fundos ou stand-up comedy, que escorregam com alguma frequência para o banal e o lugar comum.

É um humor cáustico, o que melhor cabe na literatura.

E mais ainda nos dias atuais.

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BIOGRAFIA PETER CRISS

Peter Criss, o primeiro baterista do KISS, não traz muita novidade acerca do poder destruidor da indústria fonográfica sobre os seres humanos que a sustentam, no caso, os músicos.

É mais uma história que conta da devastação pelas drogas, pelo álcool e todos os outros tipos de excesso que parecem advir do vazio que fama e fortuna podem trazer.

A novidade é que Peter Criss conta tudo isso de uma forma bastante pungente e com uma sinceridade rara e extremamente tocante.

Lendo sua biografia, é até difícil entender como conseguiam qualidade nos discos, ou ao menos em boa parte deles.

Porque o livro deixa claro que em uma banda de Rock você pode perfeitamente odiar seus colegas de trabalho e ter que conviver com eles com a obrigação de produzir e apresentar resultados.

Como em qualquer outra profissão.

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Correio Braziliense

Correio Braziliense

Assim como outras grandes cidades, Brasília está tomada por moradores de rua, ou gente que constrói barracos onde der, onde o Estado faz vista grossa, ou porque não fica perto da casa de gente rica, ou porque não tem interesse ou capacidade de resolver o problema.

É uma situação que não é boa para ninguém, começando por essas próprias pessoas, ultrajadas em sua dignidade na forma como moram. Aliás, na forma como não moram.

Nos últimos dias vi duas dessas pessoas com celular na mão.
Pode parecer paradoxo, mas quando levamos em conta o sistema sobre o qual esse país está sustentado, e sempre esteve, vemos que não é.

Essas pessoas podem ter um celular porque ganharam de doação de alguém que trocou de aparelho na ciranda feroz de a todo momento ter que adquirir o último modelo, ou até mesmo porque conseguiram comprar sabe-se lá em quantas vezes quando estavam trabalhando.

Muita gente que hoje está debaixo da lona ou da marquise tempos atrás tinha emprego e conseguia pagar aluguel.

Há até mesmo quem tenha casa – eu já entrevistei vários assim -, mas vive de catar lata, e onde ela mora, ou deveria estar morando, é longe e não há latas para catar; ou se há, o centro de coleta, que compra o material, não fica lá.

Fica nos grandes centros, onde ela sobrevive desse modo humilhante, porque não tem dinheiro da passagem para vir e voltar todos os dias.

O sistema permite que ela tenha um celular, mesmo que seja doado, mas não permite que ela tenha uma casa ou chance de trabalhar perto de onde mora, ou deveria morar.

Ou seja, o sistema permite que as pessoas tenham o que interessa a ele, e não o que elas precisam em primeiro lugar.
E há gente que diz que é assim mesmo, que o certo é dessa maneira.

Claro, gente com celular, casa, trabalho e um modo confortável de se deslocar todos os dias de um para o outro.

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Livro Molica

Ao contrário de Argentina, Chile e Uruguai o Estado e a sociedade brasileiros, de modo geral, não olham de frente as marcas da ditadura militar.

No lugar disso, de uns anos para cá há um trabalho espúrio de tentar abrandar suas chagas.

No Brasil, o avivamento da memória desse tempo de horror é tarefa executada principalmente pelas artes, e a literatura se destaca em manter em evidência as hashtags Para que Nunca Esqueçamos Para que Jamais se Repita.

Elefantes sobre o Céu de Piedade, novo livro de Fernando Molica, arregaça as mangas e faz esse trabalho, mostrando um ângulo de visão diferente sobre a brutalidade daqueles tempos.

Revela também que não apenas quem se envolveu na luta armada, promoveu reuniões, participou de passeatas ou lia e guardava livros “suspeitos” sofreu as consequências de 20 estúpidos anos da vida nacional.

Como toda forma de expressão que é veículo para que não se esqueça da barbárie, o livro de Molica é importante, principalmente nesses tempos em que o passado vive de ameaçar o presente e assuntar o futuro.

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Degeneração, novo livro de Fernando Bonassi, é para aqueles que não olham o Brasil com complacência.

O romance se passa nos dias que antecedem o segundo turno da eleição de 2018, e só isso garantiria uma atmosfera pesada e sombria ao livro, mas a trama transcorre, basicamente, entre a recepção e o necrotério de um hospital decadente, cenário perfeito para o pesadelo que a maioria optou começar a viver naquele domingo de outubro.

No diálogo de um filho com o pai morto, o autor usa as mazelas de família para destrinchar a miséria moral da classe média brasileira descendente de imigrantes europeus.

Uma classe média (bem média mesmo) que enche a boca, bate no peito e se arvora de um sobrenome italiano, por exemplo, como se este fosse a marca de uma dinastia e não apenas um Silva importado, cujos patriarcas vieram parar nos trópicos por causa da fome e da miséria.

O título – Degeneração – é até condescendente, pois só se degenera o que algum dia foi bom, e o Brasil exposto nas 287 páginas do livro de Fernando Bonassi é um Brasil atrofiado entre a burocracia, a corrupção, o racismo e preconceitos gerais e a violência do estado policial, eleitor do pesadelo iniciado em 2018.

Se todo esse post tivesse que ser apenas uma frase, certamente bastaria escrever que Degeneração é um livro sobre a merda que esse país é e sobre a merda que esse país sempre foi.

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Alvorada

O Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República, é em minha opinião o mais belo palácio da capital do país.

Gosto da harmonia entre o concreto e o vidro, emoldurada pela paz do extenso gramado na entrada.

Em quase 24 anos de Brasília, é parada obrigatória para meus parentes ou amigos que vêm de fora me visitar.

Em frente a ele, há um estreito laguinho que faz as vezes de fonte da sorte.

Nele, os turistas jogam moedas, enquanto pedem calados a realização de alguns desejos.

Há várias moedas ali de parentes e amigos meus (e minhas, claro).

Isso é uma tradição no turismo de Brasília.

Neste fim de semana, fui até lá com mais uma leva de parentes.

Quer dizer, tentei ir.

Nas duas pistas de acesso, barreiras nos impedem a aproximação, e a contemplação da obra do arquieto-mor tem que ser feita de dentro do carro, o que oferece apenas uma visão torta e parcial, quase nada diante da beleza do prédio.

Portanto, nada da paz do traçado, das curvas em concreto, dos vidros esverdeados, do extenso gramado; nada da tradição das moedinhas arremessadas junto com os desejos.

Em quase 24 anos de Brasília, nunca vi o acesso ao Alvorada impedido.

Mas certamente isso está acontecendo por que o povo ama e quer muito bem o cara que atualmente tá lá dentro morando.

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adolescente

- Filha, fica aqui comigo…
- Peraí, pai, tô indo.
“peraí, tô indo…”
(e nunca vem).

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Lendo

Tenho lido muitos autores contemporâneos para saber como os caras do meu tempo e que fazem a mesma coisa que eu faço estão digerindo essa sociedade aparentemente absurda.

A pretexto de dica, uma palhinha sobre quatro livros que li recentemente.

Começo com Quem Vai Ficar com Morrissey?, de Leandro Leal.

Se você gosta de Rock, a chance de o livro te pegar é grande; se não gosta, também é.

A idolatria do personagem principal pelo ex-vocalista do The Smiths, uma das mais lendárias bandas do Rock, é pano de fundo (e um relevante pano de fundo) de uma história de amor pungente, cortante, que corre paralela a uma interessante discussão sobre o que é fracasso e o que é sucesso.

Me parece que esse foi o primeiro livro de Leandro Leal, e nota-se por causa de alguns parágrafos que poderiam ter metade do tamanho e algumas frases que deveriam ter umas dez palavras a menos.

Mas isso não compromete a estreia do Leandro (há outros autores também contemporâneos, alguns premiados e badalados pela crítica, que a meu ver pecam pelo mesmo motivo – a demasia – e que afugentaram meu interesse de leitor. Não foi o caso de Quem Vai Ficar com Morrissey?).

Acho também que o livro poderia se chamar Quem Vai Ficar com Bono, mas isso é implicância de fã e não de leitor (rs de risos no final desta frase).
Morrisey

Cheguei ao Leandro Leal por intermédio de uma resenha escrita pelo Mário Baggio, autor de Verás que Tudo é Mentira, outro contemporâneo que merece meu pitaco.

Conheci o Baggio lendo Espantos para Uso Diário, uma coletânea de contos, o que me motivou a abrir este segundo volume, do mesmo gênero.

Em Verás que Tudo é Mentira, Baggio repete a fórmula que me fisgou no primeiro livro, a de contar com uma elegância cínica, um requinte irônico, um deboche perverso as misérias e tragédias humanas, mostrando-as de certa forma como corriqueiras, mas sem nunca as denunciar como inaceitáveis.
Verás-que-tudo-é-mentira

Outra voz literária desses conturbados tempos a que dou destaque é Carlos Edu Bernardes, cuja poesia me encantou dois anos atrás e que agora me conquista como leitor pela prosa.

Falo de seu livro Minhas Mulheres, Essas Ventanias, uma edição independente de pequenos contos, muitos resvalando na prosa poética, todos falando sobre mulheres e com nomes de mulheres.

São narrativas curtas que oscilam entre o quotidiano e o fantástico, entre o plausível e o absurdo, com as mulheres geralmente causando um estrago na vida do narrador.

Carlos Edu Bernardes usa, então, sua latejante veia poética para amarrar as tramas, especialmente os finais, de um modo que faz com que o leitor emende uma na outra, quase sem descanso.
Minhas mulheres

Encerro essa seleção de palpites (lembrando que isso não é uma resenha e muito menos uma crítica. É só sugestão de leitura mesmo) falando de Grande Mar Oceano, do Leonardo Almeida Filho.

Que livro bom, gente! Que livro bom! E acho que desse jeito assim, simplório, eu resumiria o que é esse trabalho do Leonardo, mas vou dizer mais um pouco.

Ele consegue construir com extrema habilidade (e sendo sintético, escrevendo nada além do necessário) uma narrativa que na verdade são quatro, quatro que se desaguam uma na outra, embora se passem em épocas diferentes e, no caso de duas, bem distantes.

O livro é um passeio delicioso pelo Brasil Colonial, Estado Novo/Anos JK e Ditadura Militar.

Sinceramente, não sei por que não faturou algum desses prêmios importantes, talvez não tenha sido inscrito, só pode.

Quando se termina de ler Grande Mar Oceano, a primeira coisa que se pensa é “Poxa, que pena que acabou”, e acho que essa frase é a melhor resenha que se faz de um livro.
Grande Mar Oceano

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