André Giusti - foto: Luana Lleras
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Floresta da Tijuca/RJ Foto Giustipress

Floresta da Tijuca/RJ
Foto Giustipress

- Que vida besta essa tua, hein, tartaruga? – o homem disse, e deu uma cuspidinha.

O bicho moveu a pequena cabeça fora do casco:

- Melhor que a tua, estressado pra pagar conta e criar filho.

- …

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Púlpito Cristão

Púlpito Cristão

Na calçada entre o Conjunto Nacional e o Conic, dois dos centros comerciais mais importantes de Brasília, você vê o que quer e o que não quer.

Há lá um senhor de seus 70 anos, que não tem uma das pernas, mas tem um dos assovios mais afinados que já ouvi. Não é exagero dizer que parece uma flauta. Para acompanhá-lo, ele tocava um padeiro com uma pegada de percussionista.

Divertido, sempre tinha uma piada para quem passava. Coisa leve, nada impróprio, do tipo “a vida de casado é boa… mas a de solteiro é melhor”.

Quando eu ia pro almoço, me aproximava dizendo “a vida de casado é boa…” e ele completava “…mas a de solteiro é melhor”, para soltar em seguida uma risada ainda mais engraçada.

Na volta, eu deixava uma moedinha pra ele e soltava uma outra frase do seu próprio repertório: “vamu trabalhar, se não a mulher vai embora”. E ele repetia. E ria em seguida. E voltava a assobiar e a bater com ritmo seu pandeiro.

Sumi uns tempos da rota Conic-Conjunto Nacional.

Reapareci outro dia e dei com o sinhozinho de uma perna só, assovio de flauta e pandeiro de mestre. “A vida de casado é boa…”, brinquei, mas ele não completou. Até sorriu, mas, com um livro preto na mão, me devolveu a brincadeira com uma pergunta, estranhamente austero: “vamos ouvir a palavra de Deus, irmão?”

Desconcertado, segui meu caminho. Na volta do almoço, nada de assobio nem pandeiro, muito menos piada. Apenas “vamos ouvir a palavra de Deus, irmão?”.

Nada contra suas escolhas, seus novos caminhos.

É que tantas vezes passei por ali amargurado, triste, e as brincadeiras dele, sempre de bem com a vida, não obstante a perna que lhe falta e a esmola que pedia, me deixavam um pouco melhor.

Ele pode ter se encontrado espiritualmente, mas pra mim, tornou-se uma pessoa sem graça.

Eu precisava mais de suas piadas do que da palavra de Deus.

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Giustipress

Giustipress

- Filha, por que você pintou só um pedaço das unhas ?

- Ai, pai! O nome disso é francesinha

-…hum, sei…

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Só vim pra dançar Cast

Só vim pra dançar Cast

A crítica desceu o pau, mas acho que O Vendedor de Sonhos, do diretor Jayme Bom Jardim, é um filme necessário.

Como cinema, deixa realmente a desejar. Há buracos no roteiro e saltos na história, mas que acabam relevados por causa da mensagem.

Porque, lá pelo meio do filme, você enxerga que o que vale ali é a mensagem, e não o cinema.

Na história – realmente fantasiosa, como pregam os críticos – os personagens de Dan Stulbach e César Troncoso chamam a atenção para o que nos separa de quem amamos, para o que nos mata todos os dias, nos deixando hipocritamente vivos.

É um filme que denuncia o sistema de uma forma até óbvia, mas acho que precisa ser assim mesmo, porque o sistema está alimentando em nós mazelas, que embora nítidas, nós não estamos conseguindo detectar.

Aliás, desconfio que parte do desprezo da crítica (que está inserida na mídia, é sempre bom lembrar) vem justamente dessa cutucada forte que o filme dá no sistema capitalista.

Vá ao cinema assistir a O Vendedor de Sonhos. Releve o filme, preste atenção na mensagem.

 

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andradetalis - WordPress.com

andradetalis – WordPress.com

Passando pela seção de vinhos do Carrefour Bairros, na 312 norte, em Brasília, me chama a atenção o preço do chileno chamado Travessia, um cabernet que se não é nada do outro mundo, também não nos faz passar vergonha.

Na etiqueta amarela da promoção está escrito, bem claro: R$ 25,99. Aproveito, ponho no carrinho.

Depois de passar no caixa, confiro a nota: R$ 30,99.

Tenho o trabalho de ir novamente à gôndola, e me certifico de que não enxerguei mal: R$ 25,99.

Volto ao caixa. A gerente olha a garrafa, vai lá dentro, volta, pega R$ 5 e me dá de troco, sem dizer nada, sem pedir desculpa.

Seu comportamento me sugere que aquilo é rotina, e logo imagino que de cada cinco clientes, talvez apenas dois confiram a nota e peçam a diferença. Então, já são R$ 15 a mais no faturamento da empresa às custas da (não) promoção.

Claro, claro, pode ter havido um erro técnico, uma falha operacional, nenhuma má fé.

Mas em um país em que não se pode confiar no principal tribunal de Justiça, como acreditar no supermercado?

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G1 - Globo.com

G1 – Globo.com

Já me ocupei muito de falar sobre gente que com o shopping lotado não recolhe a bandeja com o prato em que comeu. Deixa em cima da mesa mesmo, pouco se importando com quem vem atrás equilibrando outra bandeja, com o prato cheio.

Há muito não falo, mas o assunto continua aqui, entalado.

E hoje me lembrei de alguns que, se justificando, dizem que não tiram a bandeja porque assim ajudam a manter o emprego dos funcionários da limpeza, que fazem por ofício o que todos nós podemos fazer por gentileza e senso de viver em comunidade.

É que hoje reparei em algo óbvio.

Quando recolhemos a bandeja da mesa da praça de alimentação, não a devolvemos diretamente ao restaurante. Colocamos em cima daquelas lixeiras grandes, que lembram grandes armários de cozinha, que geralmente ficam junto a pilastras.

E quem as leva dali de volta aos restaurantes? Os funcionários da limpeza.

Ou seja, empregos garantidos.

E hipocrisia e falta de educação e senso coletivo definitivamente desmascarados.

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 Luiza Garonce/G1

Luiza Garonce/G1

Não sou a favor de pichação e depredação a monumentos e prédios públicos, embora não entenda muito o escândalo que se faz quando isso acontece.

Hipócrita, a sociedade não lembra que pouco ou quase nada se importou em ensinar aos jovens a importância de se preservar o que é público, de dizer que o público é de todos. Até porque, em tantos casos, ela própria acha que o público é particular, e no privado faz uso ilícito e imoral dele.

Fora isso, quando o público é uma praça, um parquinho infantil ou uma quadra de esportes abandonados e destruídos na periferia, não há clamor, muito menos indignação de contribuinte e cidadão.

Em todo o caso, se a tática é mesmo partir pra ignorância, que tal, por exemplo, se deixar de lado museus, ministérios e monumentos, e picharmos os muros, estilhaçarmos as vidraças da casa do deputado que desviou dinheiro da merenda?

Que tal virar de cabeça pra baixo o carro do senador que afanou o dinheiro do remédio de alto custo? O carro particular, e não o oficial, pago do nosso bolso. Que fique claro.

Que tal incendiarmos o jipão importado do executivo do banco que determina a cobrança extorsiva de juros e nos rouba cada vez mais com  taxas escorchantes criadas sempre a cada mês?

Por que não afundamos a lancha ou o iate – sob uma linda fogueira de óleo diesel – do diretor da companhia telefônica que manda a moça do telemarketing estar vendendo para nós 10 mega de internet, mas não nos entrega nem três?

Se a estratégia é mesmo a estupidez, acho que estamos atacando os alvos errados.

 

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http://extra.globo.com/

http://extra.globo.com/

A morte repentina é um recado dado às pressas, que a gente não consegue entender.

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Blog Televendas & Cobrança

Blog Televendas & Cobrança

Na última terça-feira, com pouco mais de um minuto de abertura do sistema para adesão ao plano de demissão voluntária e aposentadoria do Banco do Brasil, já havia quase 700 funcionários inscritos.

Segundo quem presenciou esses primeiros instantes, ao clicarem no ícone que confirmava a adesão, as pessoas gritavam de alegria. Como se grita quando o filho nasce, quando o time é campeão.

Quem está de fora, acaba enxergando nessa explosão de felicidade um momento breve que parece resumir o sentimento de toda uma vida, de 20, 30 anos dentro de uma empresa.

“Eu optei por isso para ter estabilidade, não ser mandado embora, ter um bom salário em dia, para pagar com folga minhas contas todos os meses”, muitos dizem. “Agora, me aposentando, vou ser feliz”, outros complementam.

Ao longo de décadas de trabalho, formulando estratégias para a conquista de espaço no sanguinário mercado financeiro ou finalizando relatórios com encaminhamentos inexequíveis para questões insolúveis, estariam quantos bons médicos, dentistas, arquitetos, bailarinos, músicos, atores, advogados, assistentes sociais?

Quanto poderia ter sido, e não foi. Por opção. Por escolha. E há de se pensar, numa análise de quem está de fora, por medo.

E no rastro disso, não é exagero conjecturar: quantas sessões de terapia, quantos filhos postos de lado, quantos episódios de alcoolismo, quantos casamentos desfeitos e quantos outros que se desfizeram sem acabar.

Muitos de nós, a maioria, talvez, somos prisioneiros de uma cultura patriarcal/matriarcal que vira escravidão ao longo da vida: é preciso ter, pagar, amealhar e garantir para deixar de herança aos escravinhos que poremos no mundo, que a exemplo de nós devem viver abrindo mão dessa coisa que gasta energia, toma tempo, que é tentar ser feliz.

Pelo menos até a aposentadoria.

 

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Rodrigo Gurgel

Rodrigo Gurgel

1 – Depois que você desliga o computador e entra no banho, vem à cabeça aquele parágrafo inteiro que você tentou durante uma hora e não conseguiu escrever.

2 – Quando sua namorada perguntar se você vai escrever, nunca diga que vai. Diga que vai tentar, porque escrever é um negócio tão imprevisível, que na verdade a gente nunca sabe se vai conseguir.

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