André Giusti - foto: Luana Lleras
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Por Alexandre Pilati*

 

2666 é o nome do romance póstumo do escritor chileno Roberto Bolaño, que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, depois de ter sido aclamado por críticos literários de várias partes do mundo. Basta dizer que o New York Times o considerou o livro mais importante do ano, quando apareceu em inglês, logo após a morte de Bolaño, ocorrida em 2003. Com mais de mil páginas, 2666, é um romance caótico, que, na verdade, reúne cinco narrativas bem diferentes entre si e que deveriam ser lançados, segundo o testamento deixado pelo seu autor, em cinco volumes diferentes, com espaço mínimo de um ano entre cada um deles. O objetivo de Bolaño, ao fazer essa recomendação aos seus editores, era garantir o sustento dos seus filhos, que ainda eram crianças na época em que ele morreu em decorrência de problemas no fígado com apenas 50 anos de idade. Os responsáveis pela edição de 2666, Jorge Herralde e Ignacio Echevarría, argumentaram que o livro fazia sentido apenas com as histórias reunidas em um só volume, embora não haja nenhum elemento narrativo ou de estilo que ligue cada uma das partes às outras. Em nome da qualidade literária, então, o livro ganhou o mundo como um calhamaço de ritmo alucinante.

Cinco narrativas em uma

As mais de mil páginas de 2666 revelam um autor com pleno domínio da arte de contar histórias e retirar delas o máximo de expressividade capaz de deixar o leitor inquieto e absorto. A primeira história narra a saga de quatro críticos europeus em busca de Benno von Archimboldi, um escritor alemão recluso do qual não se conhecem fotos. Na segunda, há a agonia de um professor mexicano às voltas com seus problemas existenciais. O terceiro romance conta a história de um jornalista esportivo que acaba se envolvendo com crimes cometidos contra mulheres da cidade de Santa Teresa, no México. Na quarta e mais extensa das partes do livro, os crimes de Santa Teresa são narrados com a frieza e o distanciamento próprios da linguagem jornalística das páginas policiais. E finalmente, na quinta história o leitor é conduzido de volta à Segunda Guerra, tornando-se testemunha do passado misterioso de Benno von Archimboldi. De alguma forma, todas essas narrativas têm entre si uma certa ligação com as perguntas: onde está Archimboldi e quem matou as mulheres de Santa Tereza. As respostas ficam no ar, mas isso não quer dizer que o romance não deixe a sua mensagem sobre o sentido ou a falta de sentido da vida e da própria arte literária.

O maior autor latinoamaericano de sua geração

 

A crítica norteamericana Susan Sontag disse certa vez que Roberto Bolaño era “o mais influente e admirado romancista de língua espanhola da sua geração”. De fato, se não quisermos exagerar na avaliação, Bolaño é, pelo menos, um dos escritores que com mais coragem enfrentou os dilemas históricos da América Latina na segunda metade do século XX. Na sua relativamente curta carreira literária, ele deixou isso bem claro. No Brasil, o leitor encontra diversos livros de Bolaño publicados, além de 2666. E para quem não quiser enfrentar de cara as mais de mil páginas do livro final, pode começar a conhecer Bolaño por dois de seus mais lidos romances. Um deles é Os Detetives selvagens, que é uma narrativa policial em que dois poetas marginais buscam por uma poeta vanguardista misteriosamente desaparecida. O outro é Noturno do Chile, que é um denso monólogo, do qual protagonista é o padre Sebastián Lacroix, que repassa de uma forma delirante a sua vida de poeta e crítico literário.

Quem quiser conhecer um pouco mais sobre livro 2666, pode acessar www.alexandrepilati.com para encontrar alguns trechos do romance que estão disponibilizados no blog.

*Alexandre Pilati participa comigo às segundas-feiras do bate-papo literário na BandNews FM 90,5 Brasília às 16h51, com reprise na terça às 11h31.

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Quando a filha fez três anos, matriculou-a logo no curso de inglês. Uma vez um consultor de RH disse na rádio de notícias que, hoje em dia, quanto mais cedo o ser humano se preparar para o mercado, melhor. E o inglês é a chave-mestra desse proceso. Aliás, por ele, a filha teria sido alfabetizada em inglês.

Tem uma pequena empresa de informática, a Star Ship, e o nome reluz em letras vermelhas e azuis com o fundo branco do letreiro. Ele sempre starta e stopa os processos, não deixa o cliente sem feed-back.

Adora essa época de festas juninas, todo mundo vestido de cowboy, as mulheres com longas botas de camurça e saias compridas, lá nas canelas, que elas giram ao som do country. Todos os anos, na festa junina da escola da filha, ele é o xerife, já virou tradição. Melhor mesmo só o halloween, ele, a mulher e a filha se vestem de vampiro e de bruxas. Os vizinhos também, e todos saem pelo Beverly, o condomínio em que moram. O que querem mesmo é passar o halloween em Nova York. Já foram duas vezes a Miami, fizeram ótimas compras, agora querem variar. Europa? Não, aqueles museus, muita estátua, tudo muito antigo, eles não têm vontade. Amazônia , nordeste? Talvez um dia, não sabem. Ele não gosta de índio; ela, de miséria.

Patriota? Sim, ele diz que é. Não vê agora mesmo com a Copa? Comprou a camisa oficial da seleção e amarrou a bandeira no capô do carro. Faz questão de passar assim quando o vizinho argentino está no jardim, tudo para mostrar que o Brasil é um país bem melhor que o dele, que só ganhou duas vezes.

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Dizem que na Copa de 70 o pessoal que peitava a ditadura torceu contra a seleção para que o caneco não servisse à propaganda do regime da tirania. Sobre isso, há uma cena que é uma das mais hilárias do cinema nacional. O excelente Caio Blat interpreta um integrante dos movimentos de esquerda em O ano em que meus pais saíram de férias. Em dado momento do filme, ele assiste a um jogo do Brasil bancando sua ideoologia no meio de um grupo ensandecido pela seleção. Mas toda convicção política vai por água abaixo quando Pelé guarda um nas redes dos gringos, e o “comuna” vai à loucura com os bailes de bola daquele time.

Hoje em dia não há qualquer razão política para se torcer contra o Brasil numa Copa do Mundo. É grande balela dizer que o evento interfere nas eleições. Ora, nossa democracia pode não ter ainda a maturidade das européias, mas já não é nem um bebê que se deixe seduzir pela paixão de um evento que ocorre quatro meses antes. Se ainda não aprendemos a votar, certamente não é por causa da Copa do Mundo.

Confesso que a seleção não me empolga tanto mais. Fui testemunha da tragédia do Sarriá, em 82, quando a Itália nos despachou e fez daquele jogo o maracanazzo de minha geração, essa mesma nascida quando os milicos botavam pra quebrar. Doze anos depois me vinguei da mesma Itália. Tudo bem que foi nos pênaltis, mas os filhos da revolução jamais haviam visto o Brasil ser campeão do mundo. Então, me desculpem, mas a Copa do time do Parreira, que tinha o Dunga de chicote em campo pondo todo mundo pra jogar e show da dupla Bebeto-Romário, valeu demais para nós. Em 2002, consolidei minha carreira de torcedor canarinho. Não sei se me aposentei desse papel, mas me confesso satisfeito com o que já vi do nosso escrete.

Também por isso, mas muito pela seleção insossa que está na África do Sul, e mais ainda pela histeria sem qualquer senso do ridículo de alguns (ou será apenas um?) narradores da TV Brasileira, me dá uma vontade doida de torcer contra, de ver tudo se acabar ainda na primeira fase, levando um deprimente chocolate com gosto de bacalhoada à Cristiano Ronaldo.

Os gritos desprovidos de qualquer racionalidade no primeiro gol do Brasil contra o inexistente time da Tanzânia nos dão a dimensão do que nossos ouvidos precisarão aturar se o adversário for uma seleção de porte, algum de nossos adversários tradicionais.

A cada Copa, a cada campeonato de Fórmula 1, mais se acura a receita de transformar qualquer evento em megaespetáculo, qualquer time em aglomerado de astros e, mais do que tudo, qualquer um que seja mais ou menos em ser humano com poderes especiais. Foi assim com Ronaldo na Copa de 98, com Daiane dos Santos nas Olimpíadas de 2004, foi assim a vida toda com Ayrton Senna, alçado do posto de piloto excepcional à categoria de divindade, de ser humano perfeito.

É claro que na hora H não vou torcer contra, mas para que a vontade não ameace, será necessário assistir aos jogos em outro canal (Na Band, não há tantos exageros, mas sim o pecado do bairrismo), ou ainda melhor: deixar a TV sem som e ficar ouvindo o rádio (A BandNews FM promete belas transmissões e a CBN também cumpre bem o seu papel). Até porque, se a seleção voltar com o rabo entre as pernas, teremos que ouvir o discurso do eu sabia que isso iria acontecer, bem típico dos que fazem a comunicação servir sempre ao interesse da ocasião.

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Nesta quarta-feira entram em vigor as novas regras para se transportar crianças no banco de trás dos carros. Na verdade, a legislação que já existe ficará mais rigorosa. Dependendo da idade, o seu tesouro terá que ir naquela cadeirinha bojuda, acolchoada e com cinto de segurança que passa entre as perninhas dos pequenos passageiros. Os menores continuarão viajando naquela espécie de cestinha em que a criança vai com a cabeça no sentido contrário à direção do carro, e que atende pelo simpático nome de bebê-conforto. Aliás, experimente carregar aquilo pelo shopping ou pelo parque com a criança dentro. Certamente você irá rebatizar o objeto e passar a chamá-lo de papai-desconforto.

As crianças maiores serão, a partir de agora, obrigadas a estar no assento que as deixa mais altas, para que possam usar o cinto de segurança do próprio veículo. Esse assento serve especialmente para as que viajam no meio do banco traseiro, onde o cinto de apenas duas pontas não dá firmeza nem à cadeirinha acolchoada nem ao bebê-conforto. A obrigatoriedade desse assento é a grande novidade de toda essa história, e sobre ela recairá o olho atento da fiscalização e a fome insaciável do estado em punir não necessariamente para educar e preservar vidas, mas essencialmente para arrecadar com o dinheiro das infrações.

Não desmereço a necessidade de segurança dos nossos filhos, mas confesso que sempre desconfio quando, de uma hora para a outra, algum equipamento passar a ser obrigatório pela lei. Minha mente fértil de filho de um país dado a negociatas me cutuca desconfiada de que alguém mudou a lei para que a indústria do tal produto aumente as vendas. Isso, é claro, que em troca de uma boa comissão para o autor da mudança na lei, especialmente se estivermos em época de campanha política, esse monstro que se alimenta de dinheiro de origens pouco conhecidas. Sem falar que o tal do assento está em falta do mercado, não se acha em lugar nenhum. Corre a boca miúda que a indústria está segurando o estoque para vender mais caro quando a fiscalização começar para valer. Minha mente fértil, essa criatura maldosa e descrente do ser humano, me cutuca de novo: tá vendo? Eu não tô dizendo?

Mas há um aspecto maior, e esse realmente concreto, quando o assunto é alteração de lei que torna obrigatório um equipamento ou uma conduta por parte da sociedade. Se o alvo da mudança é o cidadão comum, o contribuinte frágil e acuado pelas decisões do estado, a fiscalização começa inclemente, sem discussão, sem tempo a perder com alegações ou defesa em caso de descumprimento da lei. É preto no branco: se não está andando na linha, fazendo o que o governo determina, o pau quebra, o sujeito é enquadrado e leva logo multa para regularizar a situação. Contra nós o estado é forte, atuante, duro. Mas digamos que a alteração na lei determinasse a obrigatoriedade, por exemplo, do cinto de segurança de três pontas no meio do banco traseiro, item que deveria equipar há muito tempo todos os carros brasileiros. É pouco provável que houvesse uma lei obrigando as montadoras a defender a segurança dos consumidores. E se houvesse, o prazo para a entrada em vigor seria como os fixados para acordos internacionais na área ambiental, tão longos que permitem antes a morte do planeta. E, é claro, a tal fome fiscalizadora do estado seria substituída por uma falta de apetite anoréxica.

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Quando a noite de sábado caía por completo, e a escuridão tornava-se finalmente irreversível, ele punha seus CDs de jazz ou blues e começava a arrumar toalha, pratos e talheres para o lanche. Devido à ocasião do dia, a mesa ganhava um pouco mais em variedade. No lugar do pão integral e do queijo branco dos dias úteis, havia salame ou presunto e muçarela, juntados na baguete com gergelim da padaria de sempre.

- Quando eu era pequeno, a gente chamava de bengala esse pão magro e comprido. – e ele puxava pela infância nos subúrbios do Rio, repetindo a cantilhena da história do pão. E insistia com a mulher, mais uma vez. -  Agora é essa frecura de se chamar de baguete. E ele torcia o nariz, espezinhado pelos modismos da modernidade.

Abria também o vinho italiano, o mesmo. Sacava a rolha e esperava que o cheiro viesse ao encontro das narinas. Imaginava-o tomando a sala, escapando pela janela e passando a ser mais um dos perfumes do jardim do prédio. Colocava a taça cheia entre os olhos e o lustre que pendia acima da pequena estante de livros. Talvez mais do que o sabor e o cheiro do vinho, gostava de ver atravessando a taça bem desenhada e ordinária de supermercado a luz fraca que era seu conforto e seu remanso da semana sempre difícil.

- Meu sangue tem a cor desse vinho contra a luz, italianos os dois… e ele repetia, já tendo deixado para trás o porto do estado normal, mas ainda bem distante da outra margem, a da embriaguez. Navegava já nas águas da sonolência, e invariavelmente nelas naufragava embalado por Miles Davis ou John Lee Hooker, quando não este, aquele.

Aos domingos, o costume era outro e, em igual tempo, o mesmo. A mesma pizzaria com seus bancos extensos de madeira.

- Melhor do que essa gente em casa morrendo de depressão no sofá, de frente para o programa semanal de variedades. E assim justifcava o que, divertido, reconhecia como falta de originalidade.

Mandava que descesse uma taça de vinho chileno, e sempre lamentava que os italianos só fossem servidos em garrafas.   

- Garrafa é cara em restaurante. Não pago. – e repetia o que dissera uma semana antes, na retrasada, e de tanto dizer, já se tinha a impressão de que nascera com opinião formada sobre o assunto. E sustentando, ainda por cima.

Quando a margherita chegava e seus tomates e majericão inebriavam o ar, o garçom quase nem esperava, pois já era certo o pedido.

- Outra. – e apontava a taça.

Depois que comia, e novamente no mar sonolento do vinho, pegava sorrindo a mão da mulher, e após três suaves pancadinhas, observava.

- Que marido mais sem criatividade você foi arrumar, hein?

Pedia a conta e olhando feliz a noite, a caminho do estacionamento, dava por encerrado o fim-de-semana, torcendo para que os dias passassem rápido e que logo fosse outra vez sábado.

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Por Alexandre Pilati.*

 

Foi lançado no último dia 14 de maio o mais novo livro do romancista brasileiro João Almino intitulado Cidade livre. Trata-se de uma interessante narrativa sobre os anos de fundação de Brasília que mostra a vida dos operários que construíram a capital entre 1956 e 1960.

Com este título, João Almino chega ao quinto livro da sua série de romances sobre Brasília. Os anteriores, todos muito bem recebidos e premiados, são: Samba-enredo, As cinco estações do amor, O livro das emoções e Ideias para onde passar o fim do mundo. A chegada de Cidade livre consolida o nome de João Almino, ainda que meio a contragosto, como o grande romancista de Brasília.

Uma narrativa sobre sonhos e desencantos

Cidade livre é um romance que já nasce com um respaldo crítico e acadêmico poucas vezes visto na literatura contemporânea. Dois dos maiores estudiosos da literatura brasileira em atividade apresentam, em textos críticos, o romance. O prefácio é de Benjamim Abdala Jr. e o texto de apresentação é da Prof. Walnice Nogueira Galvão.

A história oficial de criação de Brasília é contada por um narrador não oficial, em Cidade livre. Ele é um médico psiquiatra que abandona a profissão para relatar aquilo que vê. Mais tarde, essa narrativa é retomada por seu filho jornalista por meio de um blog de raros leitores. Essa talvez seja a grande inovação formal do livro, que acaba imitando o formato de um blog, incluindo até mesmo os comentários dos poucos leitores. Um desses poucos leitores que deixam recados no blog tem, inclusive, o nome João Almino.

A partir desse verdadeiro mosaico ficcional, diversas histórias vão se cruzando. No cenário do gigante canteiro de obras, os personagens do romance misturam-se a figuras históricas, como Juscelino Kubistchek e Bernardo Sayão, respectivamente idealizador e empreendedor da capital. Além desses, aparecem também visitantes ilustres de Brasília, tais como Aldous Huxley, Elizabeth Bishop e Fidel Castro. As aparições dessas personagens vão se costurando à pluralidade social da chamada farândola social que ajudou a pôr em prática o sonho de uma cidade criada a partir do nada. São candagos, empreiteiros, aproveitadores de negociatas, idealistas, políticos, místicos de seitas salvacionistas entre outros.

São eles que habitarão a “cidade livre” do título, que, como sabemos, foi o primeiro nome do atual Núcleo Bandeirante, e que estava fadada ao desaparecimento quando fossem terminadas as obras de Brasília. A cidade não desapareceu e as suas histórias permaeceram. O título do romance, assim, acaba sendo uma metáfora da mistura de sonho realizado e utopia ainda não alcançada que estava na cabeça de muita gente que veio construir a cidade na segunda metade dos anos 50.

Um autor consagrado

João Almino é um escritor consagrado. Já venceu diversos prêmios importantes com seus romances sobre Brasília, entre eles o Jabuti e o Prêmio Casa de Las Américas. Nascido em Mossoró, em 1950, Almino é escritor e diplomata. Além disso, ele tem publicado diversos textos sobre história, filosofia política, bem como ensaios literários sobre diversos autores. João Almino também é professor e deu aula na UNAM (Universidade Autônoma do México), na UnB e nas universidades de Berkeley e Stanford. Com toda essa experiência, ele se diz um apaixonado por Brasília, e toma-a como um dos seus principais objetos ficcionais. Para ele, “Brasília representa o moderno sobre o qual já se pode olhar como se fosse o passado”.

João Almino mantém uma página na internet com muitas informações sobre a sua obra e diversos textos de sua autoria. O endereço é www.joaoalmino.com.

Alexandre Pilati participa comigo na BandNews FM do bate-papo literário. Às 2ªs vai ao ar às 16h51. Nas terças, você confere às 11h31. BandNews FM 90,5 – Brasília.

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Confiram um texto do Rio Fanzine, de O Globo, sobre o filme que está sendo lançado contando a adolescência de John Lennon. Como fã dos Beatles, e tendo John como o meu preferido entre os quatro, reparto esse link com vocês.

http://oglobo.globo.com/blogs/riofanzine/#296987

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Na última segunda-feira foi comemorado o Dia Mundial sem Tabaco, ou seja, dia de combate ao fumo. Como geralmente só tomo conhecimento dessas datas lá pelo meia da manhã, não consigo escrever nada sobre elas no dia em que são comemoradas. Mas nesse caso vale tocar no assunto, mesmo que com o atraso de dois dias.

Fumei por 17 anos, larguei há pouco mais de seis. Tempos depois de pararmos, adquirimos a consciência que, dominado pelo vício, o fumante não consegue ter, a de que a vida dele ficaria bem melhor sem o cigarro. E não é apenas no aspecto físico. Deixar de fumar tira um peso da consciência. Aliviado, você assiste às (poucas) propagandas de cigarro sabendo que não está mais se matando um pouco mais a cada tragada.

Provavelmente o que desmotiva o fumante a abandonar o cigarro é o esforço que terá que fazer. Sei que há casos e casos. No meu, é claro que foi difícil. No entanto, menos do que pensei que seria, menos do que talvez o senso comum ache que seja.

Eram 16h30 de uma sexta-feira. Tomei um café preto, acendi um Marlboro e dentro de mim falei – em tom solene, até – esse é o último. Estava, ali, chegando à parte mais importante de um processo iniciado cerca de um ano antes, quando passei a “desacostumar” meu organismo com a nicotina. Acordava, tomava café, e resistia até onde podia para acender o primeiro cigarro, segundo os especialistas um dos elementos-chaves da cadeia do vício. Só fumava quando estava já babando e mordendo os dedos, tentando me pendurar no teto e de cabeça para baixo. À tarde, fazia o mesmo. Após o almoço, me “torturava” até o fim da tarde. Dessa forma, a cada dia me tornava mais forte contra o vício, conseguindo ficar mais tempo longe dele. Houve dia em que fumei apenas um cigarro, e naquela sexta-feira senti que estava forte o suficiente para dar adeus definitivamente ao vício.

No dia seguinte, não abri mão das coisas que gostava e que sempre me aproximaram do cigarro. Bebi um belo café preto encorpado de manhã e, como era um sábado, também tracei um rascante tinto chileno e uma temperada pizza calabresa. Meu raciocínio era simples. Se eu abdicasse dessas coisas durante seis, sete meses para que as tais crises de abstinência não fossem tão cruéis, quando eu voltasse a elas talvez o baque fosse mais forte e eu pudesse jogar por terra todo meu esforço. E eu estava determinado a não fazer isso.  

Os dias que se seguiram foram de duelo interno entre a razão, me provando a cada segundo longe do cigarro que a minha vida ficava melhor sem ele, e a falta do alento que na verdade o fumo traz em momentos tão frequentes quanto diversos: no carro ao sairmos da garagem, depois que acabamos de escrever, a espera em algum local de compromisso profissional.

Na luta contra o dragão do vício, descobri artifícios que me ajudaram. Mastigava cravo e bebia litros d’água quando a vontade apertava muito. Fiz da corrida uma obrigação diária, para que meu espírito se convencesse de que o ar era bem melhor para os meus pulmões do que a fumaça. Mas acima de tudo, me determinei a não reduzir meu tempo de vida ao lado de minhas filhas.

Não procurei ajuda. Não recorri a chicletes, adesivos, grupos de pessoas que querem largar. Mas tudo isso é válido e a pessoa não deve se sentir menor se precisa de ajuda para largar o cigarro. Deixar o fumo é uma grande vitória, e ela tem o mesmo se conquistada sozinha ou com auxílio.

Preciso ser sincero e dizer que mesmo anos depois, em algumas vezes, ainda lembro do cigarro. Não sinto propriamente vontade de fumar, mas lembro que em uma ocasião igual àquela eu certamente acenderia um belo mata-rato (todos são mata-ratos, não importa o preço). Mas automaticamente vem a certeza do quanto ganhei nesses anos longe do vício, o quanto me tornei mais inteiro para curtir a vida.

Tenha a consciência de que em um ex-fumante, o cigarro é um cachorro preso no fundo do quintal, um cachorro ao qual não damos comida há muito tempo, mas que apesar disso não morre. Fica lá, cada dia mais fraco e esquálido, e ainda assim às vezes ainda encontra forças para dar um latido, por mais raquítico que seja. Mas aí a gente vai lá no fundo do quintal e dá um berro “cala a boca, cachorro!”. E a vida continua a cada dia melhor.

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Os que rechaçam a idéia da intervenção federal no Distrito Federal argumentam que a vida dentro das instituições transcorre dentro da normalidade. Classificam como normalidade a eleição indireta de um governador por um parlamento local que tem pelo menos 1/3 de seus componentes denunciados por corrupção.

O governador, em que pese não haver qualquer denúncia contra ele, integrou o último governo que chafurdou na lama e é cria política do antecessor do último mandatário na capital do país. Vale lembrar que as denúncias sobre o esquema de corrupção local em Brasília, que estarreceram o país no ano passado, atingem também o “anteontem” do governo do Distrito Federal. O penúltimo governador também se vê às voltas com rumores de bandalheira, o que, inclusive, reduziu a apenas seis meses a sua passagem pelo Legislativo.

Pensando em normalidade, aproveito o protesto de um ouvinte da BandNews FM – 90,5 Brasília. Na última semana ele relatava o périplo de sua empregada a procura de atendimento para o pai na carnificina dos hospitais públicos. Esperou seis, sete, oito horas para ver a cara do médico, sendo que havia gente há quinze horas no banco da emergência.

Enquanto isso, a mesma suspeita Câmara Legislativa que elegeu o governador, aprovava a entrega de uma bolada de R$ 6 milhões que foram repassados aos empresários de ônibus. O dinheiro era uma espécie de complemento para alimentar o sistema estúpido de recarga de cartões dos estudantes das escolas públicas, que assim entram “de graça” nos coletivos. Ainda não descobriram o quão mais simples seria se o estudante, para viajar de graça, necessitasse apenas do uniforme e da caderneta escolar. Aliás, descobriram sim. Descobriram também que desse modo simples não era possível meter a mão no dinheiro público. Mesmo que não se prove, todo mundo sabe que sai das empresas de ônibus parte da lenha que queima na fogueira das campanhas políticas.

Fora isso, há alunos sem aula de informática porque a burocracia não autorizou a instalação de rede para que os computadores sejam ligados; há um metrô que sai dos trilhos, que atrasa e para no meio do caminho; operações tapa-buracos nas ruas tapando os mesmos buracos de todos os anos, e uma Polícia Militar dizendo que não pode fazer nada contra arruaceiros que gritam e escutam música alta em lojas de conveniência pelas madrugadas. Ou seja, tudo realmente dentro da normalidade.

Essa revoltante normalidade brasileira que já conta 510 anos.

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Às vezes leio algumas coisas que me dão vontade de parar de escrever, pois fico com a impressão de que tudo já foi escrito, e que nada mais resta a dizer.

Preste atenção no texto abaixo, de Eduardo Galeano, e tente entender o que estou dizendo.

“Foi batizado à beira-mar. E no batizado, ensinaram-no o que é sagrado. Recebeu um caracol pra que aprendesse a amar a água. Abriram a gaiola de um pássaro preso: para aprender a amar o ar. Deram-no uma flor de gerânio: para aprender a amar a terra. E deram também uma garrafinha tampada: não abra nunca, nunca. Para aprender a amar o mistério.” (Eduardo Galeano)

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