André Giusti - foto: Luana Lleras
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A colega de trabalho, bela morena de olhos acesos, riu e contou alto o que estava lendo na internet.

- Ih, gente, olha só: ministro da Saúde recomenda sexo contra a hipertensão.

Ele, cujos sonhos secretos eram por ela habitados, foi mais rápido que uma piscada.

- Quer combater a pressão alta comigo?

Quem estava junto garante que foi milagre o grampeador não tê-lo partido a testa.

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Nos últimos três dias, devorei as quase quatrocentas páginas do livro 1808, do jornalista Laurentino Gomes. Foram dez anos de uma pesquisa que culminou em um livro que me pareceu detalhamento completo da vinda e da permanência da Família Real no Brasil.

À época em que se comemorava os duzentos anos da saga de D. João VI, sua família e alguns milhares de parasitas nas longínquas terras da colônia, eu lia Império a Deriva, do australiano Patrick Wicklen, que igualmente conta a fuga espetacular da nobreza lusitana para esses mares do sul. O livro de Wicklen é também muito interessante, mas fica bem atrás do de Laurentino. A impressão que tive é que o brasileiro pesquisou mais e, dono de farto material, caprichou deliciosamente nas minúcias.

Laurentino Gomes explica os treze anos em que a corte esteve por aqui, através de personagens centrais – como Napoleão, D.João e Carlota Joaquina -  e de fatos daquele período em que o Brasil deu a grande reviravolta de sua história.

Queiram ou não, um desses fatos é chaga que permanece sangrando na carne social do nosso país. Ao ler o capítulo que Laurentino Gomes dedicou à escravidão, qualquer um que possua o mínimo de respeito pelo semelhante vai se horrorizar e se perguntar como se pôde fazer aquilo tudo com os negros.

A descrição dos martírios impacta mesmo que a escravidão não seja novidade, mesmo que todos nós já tenhamos, ao longo da vida, lido sobre as atrocidades cometidas nos navios negreiros, nas senzalas, cidades e troncos.

Após ler o capítulo, é quase que obrigatória uma pausa para refletir sobre a dívida (moral, econômica, social, etc) altíssima que a sociedade brasileira tem com os negros, e que o mundo branco e desenvolvido contraiu junto à África. No meio dessa pausa, não há como não se perguntar porque no país em quase nada se mexe para quitar esse débito de barbárie. Ao contrário, até. Em vez de procurar se redimir dos mais de trezentos anos em que tratou seres humanos pior do que animais, a sociedade branca, bem formada e industrializada prefere se insurgir contra tímidas e poucas tentativas de Justiça social (Sim, claro, o sistema de quotas deveria ter a ótica social e não racial, mas por isso, então, vamos acabar com ele e deixar  problema para lá, como fazemos desde a Abolição?).

Em 1808, Laurentino Gomes diz que além dos dez milhões de negros trazidos para as Américas, outros dez milhões morreram nos navios, já que o transporte condizia com a situação de escravos. Foram, então, vinte milhões de seres humanos mortos ou submetidos a toda espécie de brutalidade.

No Holocausto, morreram seis milhões de judeus. A indústria cinematográfica ganhou mundos de dinheiro contando nas telas a história deste que também foi um genocídio. Muito por causa disso – e com toda razão – a humanidade até hoje fica de cabelos em pé ao ouvir falar das atrocidades das tropas de Hittler. De maneira contínua, os judeus permanecem lembrando ao mundo o que sofreram.

Por sua vez, os horrores da escravidão jamais mereceram tratamento nas telas, ou mesmo tanta divulgação em outras formas de expressão artítistica.

Seria diferente se negros fossem diretores de bancos importantes?

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Aos 50 anos Brasília ganha um livro que a coloca frente a frente com suas origens

Por Alexandre Pilati.

 

Aproveitando as comemorações dos 50 anos de Brasília, foi lançado o quarto volume da Coleção Brasilienses. Desde 2004, a coleção tem apresentado à cidade o perfil de nomes expressivos da cultura da Capital Federal. O primeiro volume, intitulado Eu engoli Brasília, de autoria de Carlos Marcelo Carvalho, mostrou a obra e a vida do poeta Nicholas Behr. O segundo volume, lançado em 2006, com texto do jornalista Sérgio de Sá, conta a história de um dos principais nomes da música de raiz brasileira, o violeiro Roberto Corrêa. No terceiro volume, de 2008, foi a vez do fotógrafo e arquiteto carioca Luis Humberto, radicado em Brasília desde 1961. Todas essas personalidades estão entre as mais atuantes no meio cultural de Brasília e já fazem parte de nosso patrimônio histórico e artístico.

No quarto volume: o nosso “quarteto fantástico”

Os Criadores tem textos de Carlos Marcelo, Graça Ramos, Ligia Cademartori e Sérgio de Sá. Os autores escrevem sobre quatro importantes personagens da história de Brasília: Athos Bulcão, Burle Marx, Lucio Costa e Oscar Niemeyer. O livro conta ainda com um poético ensaio fotográfico de Ricardo Labastier e prefácio do cineasta Vladimir Carvalho. Diferentemente dos outros volumes da série, este número da coleção Brasilienses contempla personalidades que não estão mais vivas. A professora Lígia Cademartori se debruça sobre a obra do artista plástico Athos Bulcão e afirma que ela mostra o que há de mais exposto e mais secreto em Brasília. Segundo ela, a obra de Athos é como um espírito de Brasília, “está em toda parte e pode não ser vista” se o passante estiver desatento. Já Graça Ramos, que assina o texto sobre Burle Marx, acentua a preocupação do paisagista em equilibrar com o verde a aridez da capital planejada. Ela analisa o método de criação de Burle Marx e também a importância da presença dos seus jardins na cidade. O jornalista Sérgio de Sá, em seu texto sobre o arquiteto Oscar Niemeyer, aprofunda-se na complexidade do perfil do criador dos principais monumentos de Brasília, procurando mostrar as contradições do seu trabalho. Assim, o texto cria um efeito de distanciamento que não revela nem rejeição absoluta nem louvação irracional ao trabalho do arquiteto. Por fim, o jornalista Carlos Marcelo, no texto sobre Lucio Costa, mostra como as lembranças e vivências íntimas do urbanista acabaram se transformando em elementos fundamentais da ideologia urbana do Plano Piloto.

Declaração de amor e saudade

Este volume da Coleção Brasilienses, portanto, nem bem é lançado e já entra para a história das letras da capital. A partir dos perfis humanos de seus criadores, vai formando para o leitor uma Brasília de carne e osso, pensada por gente de verdade, mas que se transformou em uma cidade monumental, sob a marca do concreto. Não deixa de ser uma declaração de amor aos criadores de uma cidade que é tão desacreditada Brasil a fora, tomada como capital da corrupção e dos privilégios. É também um retrato da saudade de uma Brasília que, antes de ser real, era ainda um belo sonho na mente de seus criadores pioneiros.

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Verbos têm velocidade. Foi a conclusão a que chegou depois que fizeram três furos em sua barriga para que tubos com câmeras remendassem sei lá o quê nas fibras musculares. Arregalando os olhos para que não se fechassem ao peso dormente da inutilidade, foi além, fixando o canto do rodapé, onde as paredes da sala se encontram. Recuperar é verbo dos mais lentos, arrastado feito quem comeu feijoada e sobe ao sol ladeira de Ouro Preto. É carro modelo popular com cinco passageiros subindo a serra.

Amar é verbo rápido, ama-se muitas vezes a partir do primeiro olhar. Curto ou longo, dependendo se acaba depois do carnaval ou vai pela vida inteira. Matar é veloz se for por desatino, vagaroso por crueldade. Pensar também, é um gato desvairado pela noite fugindo do perigo, ou um paquiderme que transpõe metros em horas quando é sobre a vida para se tomar decisão.

Recuperar, entretanto, é moeda de apenas uma face, feudo instranferível da indolência. Quanto se leva para recuperar a fortuna perdida no jogo? A casa levada pela enchente? A confiança de quem decepcionamos? Ora, que filosofias baratas não sugerem a falta do que fazer! Ele só quer poder andar um pouco mais, uns passos a mais que sejam além do itinerário quarto-banheiro-sala-corredor, galgar uma vez que seja o mundo inantingível da esquina, o formidável universo da banca de jornal.

Mas recuperar é verbo que exige o dobro do limite que deram a sua paciência. E na quinquagésima vez em que hoje se deita na cama sempre morna de seu corpo, lembra que precisa pensar e decidir sobre a vida, mas que decidir também é, dependendo da situação, outro que a gente chama chama e não vem.

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Desde quando soube que a cirurgia era inevitável, a morte deixou de ser uma hipótese tão afastada assim. Em verdade, vivendo em cidade grande, ela não deveria ser para ele nenhum absurdo. Nós, cupins da madeira das grandes metrópoles, escorregamos todos os dias entre ônibus que avançam sinais e mentes povoadas pelos inventos de uma nova modalidade de sequestro ou assalto. Fora isso, há o indigesto bolo da vida diária, que se desce pela garganta não passa do estômago, de onde fica irradiando científicas possibilidades de câncer, derrame, enfarte.

Não era o maior dos otimistas, mas levava os trancos com um certo olhar erguido, achando sempre que no fim superaria. Viver até bem velho era uma “certa certeza” que o acompanhava do nada, já que essas cismas não têm maneira de serem comprovadas.

Mas justo agora, posta pela primeira vez à prova, a tal da intuição já titubeava. A morte, que raramente passeava em seus pensamentos, tornou-se lembrança diária, mesmo que discreta espectadora que senta-se na última fileira da platéia, mas que comparece a todas sessões e assiste até o final ao espetáculo. 

Ora, é um cirurgia simples, de risco bem reduzido, e discutia com a própria consciência, esta tentando animá-lo, sem entender aquele medo de que a canoa virasse logo na primeira sacudida do rio.

O problema é esse risco bem reduzido, ele devolvia em diálogo calado com a cabeça, é sempre dele que podem surgir as mais terríveis  e devastadoras possibilidades. Não vê a porta aberta apenas com uma fresta? É só um mínimo espaço, por onde mal passa o vento. Mas como ela não está trancada, se ventar mais forte a porta escancara, e nos invade a casa não apenas a ventania, mas o que tiver que entrar de males e demônios.

E de mais a mais, pode o procedimento ser tão tolo e menos dolorido que unha encravada, mas há a tal da anestesia geral, a única possível no caso. Tomar uma agulhada que lhe paralise os nervos, sempre lhe pareceu como saltar em um poço que não se vê o fundo. Por mais que digam é raso, você mergulhará e sairá do outro lado, bem ali, ó, ele temia ficar pela metade, agarrado por uma vegetação desconhecida no fundo lodoso, engolhido por um bicho estranho do qual até então só se falava em lenda. Ou então, vencer a travessia, mas surgir do outro lado inválido, sem consiência de si mesmo, entortado numa cama para todo o sempre porque descobriram tarde demais que ele era alérgico a sei lá que substância contida naquela maldita agulha.

Ô, homem sem fé! E a razão reagia, cutucava a esperança para que a ajudasse a combater a fantasia da aflição. Trazia exemplos de gente conhecida – o jogador de futebol que operou e continuou a carreira – e de pessoas próximas – o fulano do escritório contou que nem bem sentiu a picada e já estava dormindo feito bebê, acordou inteiro, sem lembrar de nada -.

Claro, claro, o normal na vida é justamente o normal. Os entreveros, os delizes, só de vez em quando, para quebrarem a rotina. O corriqueiro é o avião levantar voo e pousar. Cair é uma vez ou outra. Claro, claro, ele concordava consigo mesmo quando o enfermeiro veio buscá-lo em uma cadeira de rodas para levá-lo até o centro cirúrgico.

Dormir feito um bebê, morrer bem velho, voltou a acreditar.

Mas por via das dúvidas, deu um último olhar para tudo.

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Dona vizinha me para e conta

De quando chegou aqui em 1980,

Dos filhos formados, que cresceram

Brincando na portaria.

As sombras verticais da tarde

Também seguirão minhas filhas até o infinito, eu comento,

E dona vizinha ainda me conta que os dela

Nunca deixaram de correr na portaria da memória,

Que até hoje brincam na portaria da lembrança.

(Dona vizinha tem nos olhos uma saudade

Que vai do primeiro  ao último dos pilotis do bloco.)

Eu gosto da dona-de-casa

Que passa com hora marcada

Para fazer a unha,

Da estudante que some no arvoredo

A caminho da universidade,

De quem veio do Maranhão

Do Piauí

E nunca mais voltou.

Há sempre lua alta que a madrugada derrama

Nos azulejos da cozinha

Quando bebo água no meio da noite.

Há sempre uns pingos da última chuva

pesando nas folhas,

virando breves cristais de sol

nas manhãs afobadas da minha pressa.

Há sempre o vento dando no alto das árvores

E o barulho das árvores conta de um tempo que não volta

Mas que também não vai embora.

(Por falar em tempo, dona vizinha,

Vamos conversando no caminho

Senão perderemos

o baile de inauguração da cidade)

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Por esses dias leio Chegou o governador, romance de Bernardo Élis, um dos grandes nomes da literatura feita em Goiás no século passado. Encontrei um único exemplar espremido em uma estante de um desses supermercados de livros. A edição é de 1987, da lendária José Olympio Editora.

Com texto rebuscado e permeado de citações históricas acerca da da vida na capitania no período setecentista da colônia, Élis conta os dias de D. Francisco de Assis Mascarenhas ao assumir o governo de Goyáz cinco anos antes da chegada da corte portuguesa ao Brasil.

A história se passa em Vila Boa de Santana de Goiás, hoje apenas Goiás e chamada no estado e também em Brasília de Goiás Velho, alcunha rechaçada pelos moradores da cidade. Capital do estado até os anos 1930, Goiás é hoje conhecida como a terra de Cora Coralina (a cidade foi tema de post no blog em janeiro deste ano. Confira.).

O livro retrata o drama de uma capitania empobrecida e despovoada por causa da decadência da mineração. Só que em primeiro plano, estão os encontros de alcova de um jovem e fogoso governante recém chegado e Portugal.

Mas um livro é mesmo grandioso não pelo que traz como principal, mas sim pelo que apresenta de periférico ao leitor. Ao descrever  encontros amorosos do mandatário, Bernardo Élis é precioso ao detalhar, por exemplo, o brilho do fogo das tochas nos corredores das quase madrugadas furtivas do Palácio do Governo. Mais além, nas ruas, morre, nas palavras do autor, o canto dos negros em catiras e lundus. De volta aos corredores, a cumplicidade de um ou dois criados protege a luxúria de D. Francisco.

O leitor, então, adormece com essas imagens na cabeça, e isso depois de elas muito resistirem à chegada do sono. Tanto é que, de pé no meio da madrugada para um gole d’água, nos parece que é luz de fogo o brilho laranja que a luminária moderna da rua despeja na sala, e que do fundo do corredor nos assunta um negro com seu silêncio de duzentos anos.

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O blog vai dar um tempo de alguns dias, mas serão apenas alguns dias. O blogueiro vai resolver um pequeno problema de saúde, mas espera voltar à ativa logo. Fiquem com mais um texto do poeta Alexandre Pilati, que toda às segundas, às 16h51, faz comigo o bate-papo literário na BandNews FM 90,5 – Brasília, com reprise na terça, às 11h31. Neste mês de abril, em destaque a literatura que se faz em Brasília, por ocasião dos 50 anos de fundação da capital. Até breve.

Quem é o ficcionista do Distrito Federal?

Por Alexandre Pilati.

O autor de contos e crônicas do distrito federal tem o seguinte perfil consolidado: É homem, mineiro, professor, tem mais de 54 anos e apenas raramente usa Brasília como ambiente de suas narrativas.

Este perfil é o resultado de uma das últimas pesquisas detalhadas feitas sobre autores da Capital Federal. O autor da pesquisa é Luis Carlos Guimarães da Costa e o resultado dela é um dos capítulos da História da Literatura Brasiliense publicada pela editora Thesaurus, em 2005, por ocasião dos 45 anos de Brasília. Cinco anos depois, o panorama e o perfil talvez tenham mudado um pouco, mas não de forma significativa ao ponto de tirar a nossa curiosidade dos dados recolhidos por Luis Carlos.

Como se chegou ao perfil do autor de prosa literária em Brasília?

A pesquisa ateve-se basicamente às 15 antologias de contos/crônicas mais significativas publicadas na capital entre 1965 e 2004. A primeira antologia de contos de Brasília, intitulada Contistas de Brasília, foi publicada em 1965, por Almeida Fischer, também fundador da ANE-Associação Nacional de Escritores. A última dessas antologias que serviram de base para a pesquisa foi a organizada por Ronaldo Cagiano em 2004, intitulada Antologia do conto brasiliense. Na análise que fez dessas antologias, Luis Carlos levantou, acerca dos 229 autores participantes, dados sobre a idade, o sexo, o local de origem, a profissão e as temáticas dos autores de contos e crônicas do DF. Os resultados nos levam a um perfil literário bastante conservador, aquele que foi mostrado acima.

Raio X dos contistas/cronistas do DF

Dos 229 autores, apenas 3 são de Brasília, 4 são estrangeiros e 222 são brasileiros de diversas partes do país. Isso mostra que, pelo menos até 5 anos atrás, Brasília tinha como principais destaques, na prosa, autores vindos de fora. E é gente de peso como, por exemplo Lourenço Cazarré e Stella Maris Rezende. Isso mostra a etapa literária em que nos encontramos, que é de elaboração de uma literatura brasiliense a partir, predominantemente, de referências externas às da capital. Ainda com relação à ligação com a cidade, 161 escritores têm mais de 20 anos de permanência em Brasília, ou seja, estão organicamente integrados ao modo de vida da cidade, embora não tenham nascido aqui. A cidade, assim, ao longo das antologias, vai aparecendo mais vezes como temática ostensiva. Na primeira antologia, apenas dois contos tratavam da Capital. Já na de 2004, 10 contos usaram explicitamente a capital ambiente.

Com relação à região de origem desses autores, os dados são bastante interessantes: 26% dos autores são mineiros, 15% cariocas, 8% goianos, 6% cearenses, seguidos de paulistas e gaúchos, com menos de 5% cada.

Há também um outro dado interessante: os prosadores são, em sua maioria, homens. São 168 homens e 61 mulheres (27% por cento do total). Talvez essa seja uma tendência majoritária da segunda metade do século XX, que tem, aos poucos, pelo menos nos grandes centros, se modificado, tendendo ao equilíbrio entre os sexos.

Com relação à faixa etária, a maioria dos autores possui mais de 54 anos, cerca de 84% por cento. O que mostra que as antologias optaram por publicar autores mais experientes, em detrimento dos jovens.

Já no que se refere às profissões dos escritores do DF, há uma predominância de professores, 46%; 27% são jornalistas e 25% funcionários públicos. Ou seja, de uma forma ou de outra, todos estão ligados à escrita e à leitura também em suas ocupações “da vida real”.

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Para Raquel, que imaginou essa história.

 

Parou na fila do caixa atrás de uma dona com dois carrinhos cheios.

Ele carregava apenas um pacote de biscoito.

A mulher falou moço, pode passar na frente.

Agradeceu, não precisa.

Não tinha mesmo motivo para chegar logo em casa.

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Um livro precisa ter volúpia, isso no sentido de pegar o leitor pela gola e deixá-lo dependente de sua história. Acredito nos livros que nos roubam horas de sono, aqueles que nos fazem dormir bem depois do que o juízo recomenda, que nos transformam em felizes irresponsáveis perante o crivo da rotina.

Bom é o livro que sabe fazer a mágica do avesso. Arrasta-nos para seu universo, e nos torna seu habitante em tempo praticamente integral. Se estamos no elevador, no trânsito ou no escritório, na verdade, não estamos, pois acaba que não saímos da página que interrompemos antes que fôssemos até o raiar do dia. É como se ao invés de pausa para a leitura, esta fosse dada para que cumpríssemos os afazeres. Como se o irreal fosse a vida real. Coisa doida, coisa de livros. Os bons, diga-se.

Não acredito nos livros que não nos acompanham no metrô nem nos consultórios, que não tornam rápidas as filas dos bancos. Livros precisam nos fazer apressar o passo na volta para a casa, como fazem os namorados novos na saída do trabalho, da escola.

Existem livros pesados, não no sentido físico do número de páginas, ou no literário, a respeito do enredo. São pesados porque se arrastam em torno de um ponto a que sempre retornam sem novidades, como uma criança pequena que foge mas, sem saber caminhos além da esquina, volta para a casa. E no dia seguinte foge e volta de novo.

E muitas vezes insistimos na leitura e damos a cada dia uma nova chance, como se mantivéssemos uma esperança caridosa de que uma reviravolta possa regenerar o que está condenado.

Mas chega a um ponto em que não dá mais, o autor não nos levou a lugar nenhum. E aí o livro fica jogado no canto da estante menos importante da casa, ainda com o marcador na página em que paramos, indicando o ponto da nossa desistência.

Um dia tomará o caminho da doação em uma daquelas arrumações que o passar do tempo e o acúmulo das coisas exige. Vai junto com as roupas desbotadas e o par de sapatos ainda novo, mas que nos convecemos que estava apertado na segunda vez que usamos. E ao olharmos um ao lado do outro, nos passa pela cabeça que leitura não pode ser mesmo sapato apertado, e sim pé descalço na areia molhada da praia.

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