André Giusti - foto: Luana Lleras
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Esta semana serão ouvidos os acusados de participarem da bandalheira na política do Distrito Federal. Vão depor mais de quarenta pessoas acusadas de pagar ou receber dinheiro e escondê-lo em meias, bolsas, envelopes ou mandar comprar os panetones da desfaçatez.

Pensando na relação histórica e amorosa que no Brasil os corruptos poderosos mantêm com a impunidade, é de se espantar que os envolvidos no esquema estejam atrás das grades há mais de 45 dias. Entre eles, um ex-governador e um ex-secretário de governo. Sobre este, Wellington Moraes, pesa a seguinte particularidade. Como responsável pela área de Comunicação do Governo do Distrito Federal há mais de uma década, exercia pesada influência sobre diversos órgãos de comunicação na capital do país, fazendo prevalecer, em muitos casos, o interesse de quem estivesse sentado no principal trono da política regional. Preso no complexo da Papuda, bem longe da cela individual em que Arruda – dizem – caiu em depressão, Wellington está confinado em um presídio comum junto com outros acusados pela sangria dos cofres públicos. Há informações de que ocupam a mesma cela, que ficam olhando um para a cara do outro o dia inteiro, sem a privacidade que possuíam em seus gabinetes para as conversas cujo conteúdo a sociedade descobriu pouco tempo atrás. Privacidade nem na hora de ir ao banheiro, fazem o que têm que fazer na frente uns dos outros. Imagine isso na cabeça de quem tinha o mundo a beijar seus pés.

A situação, bem melhor do que a dos presos de outros estados do Brasil, pode ter duas interpretações. Ou ainda não sabemos da missa metade do que essa gente aprontou com o dinheiro o público – e do que talvez tenha tentado para cima de alguém graúdo da Justiça-, ou o país está mesmo revendo sua postura indecente frente à impunidade.

         E antes que eu me esqueça: A Câmara Distrital vai escolher o sujeito que governará o DF até 1º de janeiro. Entre as regras para a eleição, estava a obrigatoriedade de o candidato ter ficha limpa, mas desistiram da exigência na última hora. Vai ver que se deram conta de que assim corria o risco de nenhum deles poder se candidatar.

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O texto abaixo foi ao ar no bate-papo literário, quadro que faço com o poeta Alexandre Pilati todas as 2ªs feiras às 16h51, com reprise às 3ªs às 11h31, na BandNews 90,5 FM – Brasília.

 

Por Alexandre Pilati.

 

A escrita tem regras? Escrever é um ofício? Redigir um romance depende de inspiração e talento ou de dedicação, força de vontade e trabalho duro? Essas são questões que, de uma forma ou de outra, sempre estão presentes nos meios literários e não interessam apenas aos escritores, mas também a leitores sempre sedentos por descobrir como trabalham os seus autores favoritos.

Em 2007, por exemplo, o veterano escritor americano Elmore Leonard, de 84 anos, lançou um livro que teve grande repercussão entre seus inúmeros leitores e também entre escritores de todas as partes do mundo. O livro, intitulado As Dez regras para escrever ficção de Elmore Leonard, apresenta, em um texto enxuto, o que o famoso autor de livros policiais e de faroeste imagina ser o receituário básico daquele que se propôs o ofício de escritor. O livro ainda não está disponível em português, mas já é possível verificar a grande repercussão das recomendações de Leonard na Internet.

A tônica dos comentários que circulam na web é de apoio à visão “profissionalizante” do autor do famoso romance policial Jackie Brown, que virou filme nas lentes de Quentin Tarantino. Para Leonard, conhecido e venerado tanto pela extensa obra vigorosamente realista quanto pela grande qualidade dos textos, o escritor deve ser um sujeito direcionado ao trabalho duro com as palavras e à honestidade com seus personagens e suas histórias.

 

As dez regras: uma pesquisa do jornal The Guardian

Em fevereiro desse ano, o jornal The Guardian, do Reino Unido, pediu a 10 autores contemporâneos de língua inglesa que, inspirados nas regras de Elmore Leonard, indicassem as suas próprias regras, as quais deveriam ser seguidas fielmente por quem deseja escrever ficção. E o resultado, que pode ser conferido no site do periódico britânico, foi impressionante, pois há um consenso quase absoluto em torno da atitude profissional do escritor.

Quem não se leva a sério e não leva seu trabalho com seriedade e dedicação profissionais não tem futuro, segundo a totalidade dos autores entrevistados pelo The Guardian. Basicamente os autores se concentraram em regras que envolvem, de um lado, a rotina ideal do autor e, de outro, os cuidados básicos na hora de colocar as idéias no papel.  

No que se refere à rotina, todos os autores consultados parecem estar de acordo com uma regra mencionada pelo romancista Andrew Motion, que é simples e taxativa: “Trabalhe duro”, diz Motion, encerrando a sua lista de recomendações. Na mesma linha, e dando contornos empresariais ao ofício da escrita, segue Will Self, autor de Os grandes símios, publicado no Brasil pela Editora Alfaguara. Afirma Self: “Enxergue a si mesmo como uma pequena corporação de um só empregado.” Essa lógica corporativa é reforçada pela dica de Hilary Mantel, autora de A sombra da guilhotina, publicado pela Record: “Se você está certo disso [ser escritor], então arrume um contador.” Mas é Philip Pullman quem melhor resume o tino profissional que o aspirante a ficcionista deve ter. Sua regra é uma das mais originais entre todas as listadas pelos escritores consultados: “Minha principal regra é negar-me a responder pedidos como esse, os quais me afastam do meu próprio trabalho”.

 

O escritor: um ser paciente

No que se refere a métodos e técnicas da escrita de ficção, as regras elencadas são mais variadas, mas todas giram em torno da consciência que o escritor deve ter de que o seu ofício exige, sobretudo, paciência e cuidado. Annie Proulux, que é autora do best-seller Chegadas e partidas, publicado em português pela Bertrand Brasil, diz: “Escreva lentamente, à mão e apenas sobre assuntos que interessem a você.” Já Zadie Smith, autor de O caçador de autógrafos, reforça o cuidado com a concentração: “Trabalhe em um computador que esteja desconectado da internet”. Vários autores reforçaram também a importância do aprendizado e da leitura para quem deseja se tornar um bom escritor de ficção. A dica de Michael Moorcock, autor de Eis o homem, publicado no Brasil pela editora Saída de emergência, é bastante significativa: “Eleja um autor de quem você gosta e copie os seus personagens. Depois conte com eles a sua própria histórica. Assim como as pessoas aprendem a desenhar e a pintar copiando os mestres da pintura.

No fim das contas, a pesquisa feita pelo The Guardian serve para nos convencermos de que, neste século XXI, só sobreviverão os autores que não “romantizarem a sua vocação”, como disse Zadie Smith. Segundo ele, não existe um tipo de vida ideal de um escritor. O que existe é trabalho duro. É como bem sintetiza Jeanette Winterson, autora de Arte e mentiras, da editora Record: “Seja ambicioso com o trabalho e não com a recompensa por ele”. Parece ter ficado claro que autores consagrados só chegaram lá porque se concentraram em seu trabalho e não nos louros da vitória. Em literatura séria, estes louros podem demorar muito para aparecer. 

 

 

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O escritor gaúcho radicado há décadas em Brasília, Lourenço Cazarré, está lançando o romance A misteriosa morte de Miguela de Alcazar. Trata-se de história policial em que o humor caminha passo-a-passo com o mistério, elemento essencial nas histórias do gênero.

O lançamento me fez lembrar de um e-mail que Cazarré mandou para sua lista cerca de um ano atrás. O escritor enumerou requisitos para que um escritor conseguisse não apenas a consagração da crítica, mas também espaço cativo nos cadernos literários dos grandes jornais. Lembro-me bem de pelo menos um desses requisitos: ser colunista de um grande jornal do eixo Rio – São Paulo e, claro, manter um blog.

A julgar pelo que se lê na literatura contemporânea, especialmente a de autores iniciantes, outro requisito parece indispensável: usar, muitas vezes sem comedimento, a violência como ingrediente principal do que escrevem. Lendo suplementos literários da grande imprensa, ou mesmo publicações apenas dedicadas aos livros, dá uma sensação de que quanto mais for a violência descrita com requintes, mais interessada será a recepção de alguns críticos especializados, mais ovacionado será o livro, saudado geralmente como impactante, mesmo que o efeito do impacto, neste caso, seja na verdade apenas o de um profundo mal estar do leitor.

Como agentes dessa violência, não basta aos personagens serem apenas violentos. Devem, preferencialmente, ser também doentios, compostos a pretexto de revelar os abismos da alma humana. Se acharam a frase bonita, informo que não é minha. Li alguma vez em qualquer resenha ou entrevista de algum autor.

Esses personagens, que posam de complexos psicologicamente, não agem apenas no campo da violência. A perversidade sexual, por exemplo, está também entre os temas ao quais recorrem bastantes autores. Muitos, inclusive, não disfarçam a pretensão de pensar que estão apresentando um verdadeiro tratado psicológico em seus contos e romances. São acolhidos por alguns críticos, que propagam como densas histórias que tranquilamente poderiam receber o carimbo de apelativas. E como ontem tratamos de sensacionalismo, é de se pensar se não fazem na literatura o que é feito nos jornais taxados como populares.

A literatura precisa falar de violência. Necessita abordar desvarios do ser humano, os desvios de conduta na seara da sexualidade ou em qualquer outra precisam mesmo ser tratados pelos escritores. Mas talvez seja nosso papel na sociedade propor nesses casos discussão e reflexão, e não almejar despertar o leitor pela náusea, pela repulsa.

E por falar em reflexão, O filho eterno, de Cristóvão Tezza, fica para nós, escritores, como tal. É dos livros mais contundentes de que se tem notícia nos últimos tempos, e arrebatou todos os prêmios sem, em nenhuma linha, agredir o leitor.

PS: Outra palavra da moda na imprensa: avaliar. Ninguém acha, considera, analisa mais nada. Todo mundo, segundo a imprensa, só avalia. Pois eu avalio que há se ter muita paciência.

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A semana está um prato cheio para veículos de comunicação que adotam como filosofia de trabalho um tipo de cobertura jornalística que, mais do que destacar a importância do fato como noticia, e por isso de interesse da sociedade, transforma o tratamento de certos assuntos em show.

A chamada espetacularização da notícia não é novidade na imprensa. O neologismo rebatiza de certa forma o que sempre foi chamado de sensacionalismo. A nova palavra parece ter nascido nos campos de batalha pela audiência das grandes redes. Sendo assim, espetacularização é, claro, sensacionalismo, só que agora repaginado (outro neologismo criado pela mídia) pela tecnologia televisiva. E quem assiste sabe: televisão e espetáculo se confundem a cada plim-plim.

As emissoras de televisão – principalmente elas – estavam salivando pelo julgamento do caso Nardoni. É o último round do vale-tudo pela audiência que começou na época do crime. Ali, certamente, o tratamento dado à tragédia exacerbou a dor de cada um de nós pela forma como a pequena inocente deixou este mundo. Não me esqueço – e até hoje não digeri – a imagem da boneca sendo jogada ao vivo da janela pelos peritos que participavam da reconstituição do caso. Reconstituição ao vivo! Quem não se lembra da boneca despencando em cores para todo o país? Ah, mas era uma boneca! Alegaram os jornalistas “compromissados” com a informação. Como se não víssemos, automaticamente, naquele monte de pano e trapo a própria criança assassinada. E também a sombra aterrorizante de nossos filhos.

Agora, no julgamento, não é apenas a guerra dos canais com seu massacre de “ao vivos” e repetição exaustiva de informações na maior parte do tempo em que nada de relevante acontece no tribunal. A massificação conquistou também as primeiras páginas dos jornais. A tão alardeada sobriedade dos jornalões do Rio e de São Paulo parece que está tendo que fechar os olhos e engolir em seco manchetes de primeira página do tipo Gritos de Isabella foram abafados. Não discuto a relevância da informação. Discuto a frase forte no alto da página em grandes letras de uma manchete, um ferro quente cutucando a ferida infeccionada que é esse caso em cada família brasileira.

No meio disso tudo, destaque para O Estado de S.Paulo desta quarta-feira. O jornal simplesmente não colocou nada sobre o julgamento na primeira página. É de se ter quase a certeza de que em um jornal como o Estadão a ausência do assunto não tenha sido obra do equívoco de alguém. O julgamento não estava na primeira página simplesmente porque os editores decidiram que não havia informação tão importante assim que justificasse manchete na chamada vitrine do jornal.

Nesse caso, não fizeram nada além de jornalismo sério e preocupado com a sociedade: o que deve nortear o tratamento de uma notícia é a importância, e não o sensacionalismo.

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Para Ricardo Ferreira.

 

Zedias chegou à emissora de rádio em que trabalhava pouco antes das cinco da tarde, quase uma hora depois de seu horário de entrada. O chefe não falou nada. Limitou-se a olhar para o relógio e depois para a cara do Zedias, uma, duas vezes.

O chefe tinha implicância com Zedias. Se havia motivo para advertência, não pensava em perdoar. Se não havia, ele arrumava.

Insegurança, medo de perder o lugar pro Zé.

Zedias era muito melhor jornalista do que o chefe, mas não almejava seu cargo, e também não conseguiria. Zedias não bajulava superiores, não oferecia banquete a diretores da empresa, gente importante não batizava seus filhos, não subia na vida às custas de compadre influente. Aliás, Zedias era o melhor repórter de sua geração, a última ainda forjada na velha escola da reportagem. Por isso, nutria desprezo pelo press release. Com ele, era olho no olho do entrevistado, “pegava o sujeito pela gola” e espremia o figurão até que ele perdesse a linha e soltasse qualquer coisa que virasse, enfim, notícia importante.  Bem diferente das reportagens dos colegas, todas irmanadas pela mesmice das informações das assessorias.

O telefone de Zedias não parava nem aos domingos. Eram sempre delegados, secretários de estado, gente bem informada ligando para ele. “Corre aqui, Zé, tem um negócio bom pra você”. Zedias ia atrás. No dia seguinte, pimba! Furo de reportagem, e a imprensa toda correndo para recuperar o estrago que o Zedias havia feito na concorrência. “Zé, meu camarada, me quebra um galho, me arruma o telefone do sujeito que te deu aquela informação”, e sempre tinha um ligando, se fazendo de bacana, de educado. Muitas vezes eram os colegas pernósticos, jornalistas de jornais ou emissoras de TV. Quando não careciam de favores, cansavam de menosprezar Zedias porque ele era um repórter de rádio. “Ninguém que trabalhe em rádio sabe escrever”, diziam uns. “Rádio não aprofunda os fatos”, acrescentavam outros, narizes sempre torcidos e empinados, tão humildes quando se viam em apuros.

Eu tive que resolver um problema na Caixa Econômica, explicou Zedias, sem muita paciência de expilcar. O chefe não destorcia a cara. A fila estava enorme, demorou mais do que eu pensei, continuou, mais impaciente ainda.

Pombas, Zé, assim fica difícil, e o chefe abriu os braços, sem hipótese de diálogo, não levando em conta o dia anterior em que Zé varou a madrugada por causa de mais um furo de reportagem. E além dessa, outras centenas ao longo dos mais de vinte anos de jornalismo.

Desse tempo todo de profissão, a metade trabalhara  desempenhando a função dele e as que seriam de mais dois ou três. Da metade dos anos 90 em diante, os donos dos veículos de comunicação decidiram entre eles: fazer o máximo com o mínimo. Miínimo de investimentos, mínimo de braços trabalhando, máximo de lucro nos bolsos.

A pretexto de uma renovação na mentalidade da imprensa, optaram pela contratação em massa de moças e rapazes recém-formados que empenhavam sua força de trabalho em troca da oportunidade de começar em um grande veículo. Eram saudados por aquele discurso pronto, cínico, travestido de incentivo: enxergamos em vocês uma aposta no futuro. E lá iam eles, seduzidos, sem se darem conta de que ajudariam a enriquecer os barões da comunicação pela metade do salário que deveriam ganhar.

Sem experiência não só na profissão, mas também na vida, a gurizada, não obstante o talento de muitos, deixava a desejar em muitos casos, sobrecarregando ainda mais os poucos mais experientes que sobraram, como Zedias, por exemplo.

Zé, tenta recuperar isso aqui que o menino não soube fazer. Zé, liga pra tuas fontes e pergunta isso, isso e aquilo, porque a garota que entrou ontem esqueceu de perguntar.

Mas naquela tarde, Zedias foi trabalhar apenas porque era mesmo profissional caxias, a responsabilidade acima de tudo. Saíra da agência bancária milionário, como jamais pensara em ficar. Mês antes recebera a notícia, lá do interior de Minas: tia Mirtes morreu e deixou um testamento. Quando leram a papelada, viram a bolada que ficou pro Zedias. Ninguém nem sabia que a velha era tão rica. Pois era, e ao bater ela a cassuleta, quem ficou foi o Zé, algo como se houvesse faturado umas duas megas senas acumuladas divididas por três, no máximo. Saíra da agência onde depositara a herança direto para a redação. Só foi trabalhar mesmo porque era muito correto.  

Agora, olhando a cara do chefe, pensava na grana depositada na conta e em tudo que passara até ali: no nariz torcido daquela ameba a sua frente, nos outros jornalistas que no geral se acham melhores do que realmente são, na tal da reengenharia das empresas que tirava até a última gota de sangue das pessoas.

Não há mais necessidade, Zé, dá pra viver tranquilo, montar um negócio, foi a primeira coisa que a mulher disse quando soube da herança. Insistiu naquela tarde, quando saíram do banco: Zé, pra quê ‘cê vai? Liga e diz que foi abduzido, que ‘tá falando lá de Saturno.

Gritaram seu nome lá do outro lado da redação, interrompendo seus pensamentos. Alguém levantava o telefone, era para ele. Atendeu e ficou uns dez minutos tomando notas. Quando desligou, parou junto ao chefe. Haviam prendido o banqueiro que dera o golpe em milhares de correntistas, que usurpou a economia de anos de famílias inteiras.

‘Tá na Polícia Federal, Zedias explicou, só nós temos.

O chefe queria detalhes.

Zé se impacientou, queria dar logo a notícia, mas tudo bem, explicou.

‘Tá numa cela pequena, só cama, não tem nem banheiro. Quando dá vontade, tem que pedir ao tira que fica na porta olhando ele 24 horas.

E isso é importante? O chefe perguntou, com raiva e desdém.

Experimenta ter que pedir autorização toda vez que quiser ir. E Zedias deu as costas, foi até o estúdio para dar a notícia bem a tempo, estava começando o noticiário do fim da tarde.

Já estava pronto para entrar no ar, mas pediu um minuto ao âncora que apresentava. Saiu do estúdio, voltou à redação e ligou para a esposa.

Mulher, tem certeza de que a grana da Tia Mirtes ‘tá na conta?

Ué, Zé, você não viu o gerente dizer, mostrar pra gente?

Então, vai lá no quarto e pega o comprovante, o extrato.

Pra que, homem?

Vai lá e volta.

Sem entender direito, ela foi e voltou. Do estúdio, chamavam Zedias com urgência. Ele fazia sinal que esperassem.

‘Tá aqui, Zé, na minha mão – e ela disse o valor do depósito. Estamos ricos e você aí, trabalhando até sei lá que horas.

Ele desligou. Pegou suas anotações, entrou no estúdio. Quando abriram o microfone, começou a ler a notícia, explicando cada detalhe da informação, o tamanho da cela, a largura da cama, quanto tempo o figurão ficaria no xilindró. Enquanto lia, o dinheiro da tia Mirtes ia e voltava da cabeça. E também os narizes torcidos, a mesquinhez do chefe, a usura dos patrões. No final, deu uma parada, faltara a última informação. Estamos ricos e você aí, trabalhando até sei lá que horas, insistia a voz da mulher em ecos no fundo da cabeça. Um segundo de silêncio no ar, Zedias resolvendo. O âncora pôs as palmas das mãos para o alto, gesto de quem pergunta “e aí, acabou?”. Zedias então deu tom solene à voz, e com extrema firmeza na locução falou, ao vivo, para os milhares de ouvintes sintonizados àquela hora: e o banqueiro precisa pedir licença ao guarda quando quer cagá.

Vixe, endoidou! E o âncora pode ser ouvido deixando escapar baixinho seu espanto.

 

Zedias bateu a porta do estúdio, deu as costas e passou pela redação. Risadas e queixos caídos o acompanharam até a porta de saída.

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Parou na calçada do prédio ao final de seu primeiro dia de trabalho. E não era apenas isso a novidade: a cidade também era. Chegara de manhã, arrastando mala pesada pelo saguão do aeroporto, bagagem de quem vai ficar, no mínimo, muito tempo.

Nunca havia vindo sequer de visita, não conhecia nada ali, quanto mais alguém. Fora comunicado da mudança uma semana antes, só dera tempo de se despedir de quem encontrou em casa num telefonema rápido. Puseram-no em um avião com destino ao próprio futuro.

Agora, acompanhado apenas da mala – nem conseguira ir ao hotel – procurava rumo na noite que caíra por completo, encarnava o desalento enquanto tentava descobrir se seguia para direita, esquerda, para frente ou para trás. Ou se ficava parado na calçada até que descobrisse o que estava mesmo acontecendo.

Deparou com um orelhão e quis logo ouvir alguém conhecido naquele dia de rostos e vozes estranhos. Ligou para os pais. É provisório, é temporário, ele garantia, um seis meses no máximo. Na verdade, com a voz embargada, tentava convencer a si mesmo antes de qualquer coisa.

Lembra sempre do vento frio das sete horas entrando pela camisa fina ao longo das várias voltas que deu até encontrar o hotel. E esse vento vinha perfumado de um cheiro agreste que o remetia a um lugar perdido em sua memória olfativa. Acima dele, o maior céu do mundo, e pra depois do horizonte, delgada lua crescente começava a escalar a noite.

Todos os anos, nessa época, o vento, o cheiro, a lua o levam a visitar a solidão daquele primeiro dia. Agora, no sinal fechado, sorri com certo orgulho de ter sido mais forte que o abandono. O sinal é bem junto a onde ficava o orelhão, que não existe mais. No lugar, fincaram um quiosque irregular de comida. E hoje em dia saudade, dor, desespero, alegria… é tudo pelo celular.

O sinal abre. Sabe exatamente por onde anda na cidade. Vira à esquerda e vai pegar as filhas no colégio.

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A Voz do Brasil passou um tanto distante das discussões da Conferência Nacional de Comunicação, ocorrida em dezembro. Ficou restrita a um ou outro bate-boca entre movimentos sociais e empresariado. Não virou proposta a ser votada pelo Congresso Nacional nada que mude o programa que é obrigatório nas rádios de todo o país, e que só não vai ao ar nas cidades em que as emissoras conseguiram na Justiça autorização para não transmiti-lo (São Paulo continua sendo o maior exemplo de vitória das empresas). Essas alegam que perdem uma hora de informação relevante com a transmissão de A Voz do Brasil, é horário em que todo mundo está voltando para casa e seria mais útil a transmissão da cobertura de trânsito.

Comandando departamentos de radiojornalismo há mais de dez anos, já tive que interromper coberturas de temporais e enchentes na cidade por que o relógio marcava 19h. A multa é pesada, a implicação política ainda maior para quem não entra em cadeia com a Radiobrás às sete da noite.

A esse argumento das empresas de comunicação, os movimentos sociais/sindicais contrapõem o discurso de alguns anos: A Voz do Brasil é a única maneira que comunidades distantes do país têm para se informar do que acontece em Brasília. O argumento não é inválido, mas talvez essa discussão de acabar ou não com A Voz do Brasil (ou o “Fala sozinho”, apelido que ganhou pouco depois de ter sido criada nos anos Getúlio Vargas) pudesse ser substituída por uma mais ampla, que requer na verdade mudanças mais abrangentes do que terminar um programa.

Falo do fortalecimento das rádios públicas, estas sim instrumento valioso de informação das pessoas, morem elas nas cidades grandes ou em qualquer vilarejo, rincão, aldeia esquecidos. Rádios como a Senado, Câmara, Justiça e a própria Radiobrás precisam ser referência nas informações do estado, no que o estado (e não governos e políticos) precisa comunicar, dizer aos cidadãos.

Seria ótimo que essas rádios definitivamente se tornassem redes de cobertura nacional, mas não entro na seara da questão técnica por absoluta incapacidade de discorrer sobre ela. Minha praia é o conteúdo, o material que vai ao ar ao encontro do ouvinte. E para termos conteúdo atraente, relevante e de qualidade para a população, precisamos de jornalistas que entendam a comunicação, no caso a pública, como fator de mudança de uma sociedade, como instrumento útil à rotina das pessoas, e não como arma de congraçamento ou divulgação de interesses políticos, partidários e eleitoreiros; que entendam a notícia em rádio sempre como algo que não pode esperar muito ou que não pode esperar nada.

E não só isso. Precisamos de jornalistas (juntemos aí também os radialistas) de qualidade, que saibam o que é notícia, o que é informação, o que é importante para quem ouve. E esse profissional só chegará às rádios públicas quando a ótica míope, quase cega dos concursos públicos for modificada para selecionar profissionais da imprensa (diplomados, diga-se de passagem).

Os concursos para as rádios públicas feitos nos últimos anos premiaram os concurseiros, aqueles talhados para entrar no serviço público por que aprenderam nos cursinhos a manejar as armas que matam as questões aplicadas, e que nem sempre medem o conhecimento e muito menos a experiência do candidato na área em que está sendo avaliado.

É claro que nas rádios e TVs públicas existem profissionais ótimos, com total noção de notícia, mas eles não são a regra. E por que dominam as artimanhas das provas, recém-formados muitas vezes emplacam os primeiros lugares, e o que acontece é que as rádios públicas serão feitas, em boa parte das vezes, por quem não tem experiência, por quem não viveu a dura realidade das redações dos grandes grupos, por quem nunca enfrentou os apertos da reportagem e da edição. Jornalismo (de rádio, no caso) é algo bem mais vivo do que as teorias tão apreciadas e reverenciadas pelas bancas. Fazer Jornalismo é (e rádio também), em sua essência, prática, malícia, vivência. O dia em que os concursos públicos se importarem mais em selecionar jornalistas e não concurseiros para as rádios públicas, certamente elas serão ferramentas bem mais eficientes na informação do povo, esteja onde ele estiver, do que a polêmica Voz do Brasil.

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Hoje, na coluna de Alexandre Pilati, o relançamento da obra de um dos grandes nomes da poesia brasileiro do século passado.

A coluna do Pilati você ouve ao vivo, no bate-papo que eu e ele batemos todas as segundas-feiras, às 16h51, com reprise às terças-feiras, às 11h31, na BandNews FM 90,5 Brasília.

Outra vez Mário Faustino.

 

Por Alexandre Pilati.

 

1.    O livro

A editora Companhia das Letras relançou, em edição da coleção Cia de bolso, um importante livro da poesia brasileira dos anos 50. Trata-se de O homem e sua hora, do poeta e crítico literário piauiense Mário Faustino. Originalmente lançado em 1955, este foi o único livro de Faustino publicado em vida. Nesta edição da Cia das Letras, os poemas do volume original estão unidos a textos esparsos, publicados entre 1948 e 1962, aos chamados “fragmentos poéticos”, escritos entre 1960 e 1961, e a poemas inéditos, estabelecidos e fixados a partir dos originais guardados por seu amigo e interlocutor, o crítico literário Benedito Nunes. Assim, o conjunto é bastante completo e certamente agradará ao leitor de poesia brasileira.

2.    Poeta-crítico de morte trágica

Mário Faustino viveu intensamente de poesia e para poesia durante os breves 32 anos de sua existência. Depois de ter estudado Direito no Norte, em Belém do Pará, Faustino veio para o Rio de Janeiro, onde deliciou-se com a boemia carioca e viveu intensos e proibidos amores, que se transformaram em poemas. No período de 1956 a 1958 criou e dirigiu a página “Poesia-Experiência” no Suplemento Literário do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro.

Essa página semanal provou que, além de ter sido grande poeta, Mário Faustino foi um dos grandes jornalistas literários de seu tempo, comentando, por assim dizer, “ao vivo”, as grandes transformações operadas pelo movimento da Poesia Concreta durante os anos 50. Tudo isso foi interrompido com a morte precoce do poeta-crítico num desastre de avião em 1962. No dia 27 de novembro daquele ano, de madrugada, embarcou num Boeing da Varig com destino à Cidade do México. O avião explodiu após uma escala em Lima, Capital do Peru, e os restos mortais do poeta jamais foram encontrados.

Como crítico, Faustino pode ser considerado um progressista, sempre aberto às inovações e às rupturas propostas por novas modas poéticas. Já como poeta, sua principal característica é o apego à tradição, tanto nos aspectos temáticos quanto formais, utilizando, por exemplo, com grande desenvoltura, a forma clássica do soneto. O crítico Benedito Nunes diz que a poesia de Mário Faustino baseia-se na técnica da “concórdia discorde” que consiste explicitar por meio da linguagem densa da poesia a ambigüidade e a fugacidade da vida.

3.    Um poema

O MUNDO QUE VENCI DEU-ME UM AMOR

O mundo que venci deu-me um amor,

Um troféu perigoso, este cavalo

Carregado de infantes couraçados.

O mundo que venci deu-me um amor

Alado galopando em céus irados,

Por cima de qualquer muro de credo,

Por cima de qualquer fosso de sexo.

O mundo que venci deu-me um amor

Amor feito de insulto e pranto e riso,

Amor que força as portas dos infernos,

Amor que galga o cume ao paraíso.

Amor que dorme e treme. Que desperta

E torna contra mim, e me devora

E me rumina em cantos de vitória…

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Boa parte de Brasília ficou às escuras na noite desta 5ª feira por causa de um temporal. Então, fico devendo uma postagem inédita hoje. Até  comecei a escrever uma crônica, mas sem luz não podia programá-la para entrar no blog, e aí desisti.  Quando a luz voltou, ainda restava muito a ser escrito. Preferi deixar para 2ª feira.

Entretanto, trago um poema meu, lá do início da década de 90. O título é uma homenagem a um de meus poetas favoritos. Esse poema está na seção POEMAS de meu site, embora com o nome de Hoje foi sexta-feira (não me perguntem a razão, pois não sei mais explicar). Como hoje é sexta-feira, resolvi colocá-lo aqui com o título original, pois traz o verbo no presente.

Espero que gostem. Caso conrário, reclamações devem ser encaminhadas à Companhia Energética de Brasília.

Passei o dia inteiro correndo atrás da vida
com o mundo no meu pé
e agora à noite fiquei só,
curtindo a liberdade de não ter pra onde ir.
Arrastei meus vinte e poucos anos pelos bares
e reconheci rostos de velhos desconhecidos.
Quis fugir do barulho lá fora,
me tranquei num caixa eletrônico
e tentei cortar os pulsos
com o cartão magnético.
Abandonei mais tarde a TV ligada
e, louco, cometi poemas desatentos,
com todos os cuidados
em não fumar a caneta
e escrever com o cigarro.
Depois de tudo me sentei na poltrona
feito um anônimo passageiro do oculto
lobo com medo da floresta.
Se ela não ligar até o fim da vida
talvez eu vá à casa de alguma ex-namorada
para ver se ainda pego as sobras do jantar.

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Tem feito relativo sucesso aqui em Brasília um adesivo distribuído por uma rede de restaurantes. Em vermelho-goiaba (existe mesmo essa cor?) e letras brancas estilizadas diz Gentileza gera amor e paz.  Um dia estava no restaurante e perguntei pelo adesivo. Acabara o último dos sei lá quantos lotes que haviam sido encomendados. Desde lá, quando notei pela primeira vez o adesivo, é raro o dia em que não vejo um carro em Brasília com a frase colada na lataria.

Ela é quase uma cópia da que o profeta Gentileza pichava nas pilastras dos viadutos do Rio de Janeiro nas décadas de 80 e 90. Gentileza gera gentileza, escrevia o velho cabeludo, objeto de documentário e, acredito, de certa celebração cult nos dias de hoje. Como a intenção do profeta era essa mesmo, de que sua filosofia fosse espalhada gratuitamente, e o adesivo não é cobrado, não há qualquer apropriação intelectual. Gentileza cedeu, gentilmente e para sempre, todos os seus direitos em prol da boa convivência entre os homens.

O sucesso do adesivo com a frase reflete a necessidade que as pessoas têm de harmonia nas relações, até mesmo – e talvez principalmente – com um desconhecido no meio da rua. Ótima idéia que se comece a buscar isso no trânsito de uma grande cidade, palco em que um monge tibetano pode se transformar em um neurótico de guerra. Em cidades como Brasília em que as pessoas são extremamente egoístas e individualistas quando estão ao volante, a gentileza deveria ser componente obrigatório da gasolina e do álcool.

Usar esse adesivo é ato de extrema responsabilidade. Mais importante do que querer, neste caso, é praticar. Se ninguém dá vez no cruzamento, lembre-se do adesivo, e não revide em cima do outro quando for sua hora de ser gentil. E controle seu linguajar. Já pensou se te pegam berrando um palavrão daqueles bem cabeludos logo depois de notarem o adesivo no seu carro?

Semanas depois que fui ao restaurante, acabei encontrando o adesivo pregado em minha mesa de trabalho. Até hoje não sei se foi algum colega mandando um recado de maneira sutil. Só sei que estava lá – Gentileza gera amor e paz -, e como não acredito em acaso, tratei de tirá-lo com cuidado para não rasgar e pregá-lo no meu carro.

Colá-lo no porta-malas não me transformou num gentleman de uma hora para a outra. Mas me tornou vigilante comigo mesmo. Parece que há nele uma espécie de botão automático. Toda vez que sinto vontade de jogar o carro em cima do fusquinha da senhora que vai à minha frente a 30 por hora na faixa da esquerda, é como se um dispositivo qualquer fosse acionado lá atrás, no adesivo, e aí eu tomo um beliscão na consciência e me controlo. Só por isso já posso dizer que comigo a coisa tem funcionado.

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