André Giusti - foto: Luana Lleras
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Desde quando se lembra, abril é sempre belíssimo. A nítidez é a marca dos dias, em que as cores respeitam rigorosamente as margens. O que ele quer dizer é que em outros meses o borrão da névoa sempre mistura os azuis de céu e mar ou esmaece o verde da grama, desbota o amarelo das margaridas. O resto do ano eram pinturas impressionistas.

Abril, não. Junto com maio, abril é fotografia em alta definição, em que as cores ocupam com exatidão o espaço que lhes pertencem em cada paisagem. Não há céu transbordando para o mar nem plantas e flores manchando o sol. Cada elemento ocupa seu quadro com a precisão de um recorte, sem vazamentos. Talvez por isso as cores lhe pareçam mais concentradas, justamente porque são impedidas de se diluírem.

Mas abril é também mês de resfriados, pneumonias nascidas de gripes mal curadas, febres à beira do delírio. É em abril que as manhãs ventam geladas e sem nuvens, e por isso traiçoeiras. Ao ver o sol cegando o mundo, apostamos no calor e ganhamos às ruas apenas com nossas frágeis camisetas de verão. Quando damos pelo casaco, já é tarde, se foi metade do caminho, o ônibus está quase no ponto de descida, a hora do expediente está quase em cima. Mas aí a garganta já arde, não deixa engolir direito; a cabeça começou a doer do nada, um frio estranho e repentino nos faz tremer. E então nos enxergamos na goela do dia desejando apenas desaparecer em nossas cobertas.

Quantas dessas cenas tem vivas na memória: a manhã  mais espetacular que um cristal lavado, e ele escondido do frio num grosso capote, queimando em febre nos braços do pai, no colo da mãe, rumo ao médico que lhe receitaria injeções e xaropes repulsivos.

Por essas combinações da vida com o calendário, abril lhe desenterra da memória sobressaltos e a ocorrência de contratempos. Não tem o máximo da certeza, ou – vá lá – não tão nítida quanto as cores do mês – mas parentes e amigos queridos morreram em abril, de quando também recorda ter perdido o emprego e passado longo tempo batendo às portas. Fora em abril que batera o carro aquela vez, reduzindo-o a sucata? Se não era, estava perto de ser. Ano passado havia sido o abscesso no dente, a extração às pressas, uma semana de molho. Coincidências que desmerecem a aquarela desses dias, ele pensa no sinal fechado, olhando no horizonte a cortina alaranjada, rastro do sol desaparecido.

E este ano, o que vai ser? Pelo menos até agora, uma hérnia com certa urgência cirúrgica.

Queria virar tinta guache e ser espalhado na natureza por um pintor amalucado, embora de agudo senso estético. Ele demora a ir quando o sinal abre, porque está escolhendo que cor gostaria de ser.

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Ontem foi dia do jornalista. Eu sei que nessa profissão é pecado mortal falarmos de algum assunto depois de todo mundo. Mas estou escrevendo sobre isso só hoje porque não me abalam em nada essas datas. O próprio dia das mães pouco me comove. Inventado pelos comerciantes, sua própria origem explica tudo: faturar, com o apelo do amor materno. É claro que ninguém saiu dando presentes para os jornalistas, mas mesmo que não tenha o caráter comercial, acho irrelevante um dia para uma categoria profissional. Em todo o caso, obrigado pelos e-mails enviados.

Não vou usar aqui o chavão dos repórteres de TV quando fazem a cobertura de dia dos médicos, professores, etc: “No dia de tal categoria, não há muito o que comemorar.”, se bem que no caso dos jornalistas não há mesmo. Em lugar disso, atenho-me a uma frase postada no tuíter.  Ela é de G.K. Chesterton, que só por ocasião da data descobri ter sido escritor inglês nascido no século 19. A frase diz que “não foi o mundo que piorou, as coberturas jornalísticas é que melhoraram muito”.

Serve para aqueles momentos em que abrimos os jornais, ligamos o rádio ou a TV e não vemos qualquer motivo para nutrir alguma esperança no planeta, na humanidade. Convenhamos, desde que a Igreja foi fundada padres abusam de coroinhas, e hoje no Brasil não se deve roubar tão mais assim do que no Império ou na Colônia. A diferença é que atualmente nós ficamos sabendo. E se somos mais bem informados, certamente o crédito é muito mais da tecnologia do que da qualificação profissional.

Instantaneamente, soube-se pelo tuíter que o Ahmadinejad fraudou as eleições no Irã (e nesse caso a tecnologia deu um drible também na censura). Nos terremotos, nas enchentes do Rio, as imagens feitas pelos celulares encheram o tempo dos telejornais.

A regra da informação hoje é a rapidez, a amplitude do espaço, a riqueza da imagem. Quanto à profundidade… bem, sinceramente, às vezes parece que o pensamento é “vamos ouvir um especialista aí qualquer e saímos achando que aprofundamos o assunto”.

*

 

Nesse dia do jornalista li várias mensagens defendendo o diploma. Também defendo, mas até hoje não vi ninguém discutir a melhoria urgente dos cursos de comunicação. Alguém me explica por que os alunos não têm aulas de direito constitucional? De português aplicado ao texto jornalístico?

Estúdios e equipamentos ultramodernos não ajudam a pensar. Essa tarefa é dos livros e dos professores.

Diploma tem que existir, mas segurando ele deve estar um profissional bem formado, com o mínimo de consciência da sociedade e de organização dessa sociedade.

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Jazz e chuva são quase a mesma coisa.

Então ouça se os pingos no parabrisa

Não parecem sax ou piano

Na noite iluminada e semideserta

Engolindo a cidade.

PS: Na cobertura de alguns sites sobre o aguaceiro no Rio, havia link para o relato dos “famosos” sobre o toró. Realmente, a imprensa se supera a cada dia no seu esforço de ser ridícula.

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O preço era recheado de zeros à direita.

E foi aí que entendeu o exagero da classificação:

Só mesmo sendo astro de róliuudi.

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Na horrenda faixa verde-limão espetada no canteiro da rua, lia-se:

Vende-se mansão cinematográfica!!!

 Deu de ombros com desprezo.

Pra que, se não era artista?  

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O poreta Alexandre Pilati conversa comigo no bate-papo literário da BandNews FM Brasília 90,5  toda segunda-feira às 16h51, com reprise terça-feira 11h31.

 

Por Alexandre Pilati.

Com a morte, em 28 de fevereiro, de José Mindlin, o bibliófilo que ocupava a cadeira número 29 da ABL, abriu-se uma das mais acirradas disputas de sucessão em toda a história da Academia. A campanha, que, na surdina, começou antes mesmo da morte de Mindlin, esquentou de vez nas últimas semanas. Segundo as regras da Academia, após a chamada “Sessão da saudade”, que ocorre na quinta-feira seguinte à morte do acadêmico, abre-se o prazo, de 30 dias, para inscrição de candidaturas. Depois disso há sessenta dias de campanha. Na atual disputa, entretanto, deu-se a largada no mesmo dia do falecimento de José Mindlin. Em declaração ao jornal Folha de São Paulo, o próprio presidente da ABL, Marcos Vinícius Vilaça, admitiu que antes do sol se pôr no dia 28/02, as máquinas de campanha à cadeira 29, cujo patrono é Martins Pena, já estavam a todo vapor, fazendo circular e-mails e telefonemas para acadêmicos.

Os passos de uma eleição para a ABL

Ao todo a ABL tem 40 membros e uma vaga se abre quando um dos acadêmicos morre. O estatuto é claro quanto às candidaturas. Podem ser candidatos: “os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito, ou, fora desses gêneros, livro de valor literário”. No prazo regulamentar, abre-se o período de inscrições de candidaturas e de campanha. É preciso, então, muito cuidado por parte dos candidatos a imortal. Segundo a acadêmica Nélida Piñon, que está há 21 anos na ABL, não é de bom tom que o candidato se exponha muito na mídia durante esse período. É preciso fazer um sólido trabalho de bastidores, no ritmo natural da casa, que é de solenidade quase absoluta. Passada a fase de campanha, faz-se a votação, que, no caso, será no dia 02 de junho. Votam, de forma secreta e por escrito, os 39 acadêmicos e vence o candidato que obtiver maioria absoluta. Caso nenhum deles alcance a maioria no primeiro turno, podem ocorrer até mais três novas votações.

Quem são os candidatos dessa eleição

Numa disputa da ABL sempre há os aclamáveis, aqueles que, se entrassem na disputa, fariam com que ela ocorresse apenas para “cumprir tabela”. No caso da disputa pela cadeira 29, esses nomes seriam o do crítico literário Antonio Candido, o do poeta Ferreira Gullar e o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Como nenhum deles parece muito interessado em se tornar imortal, a disputa se acirrou entre os candidatos inscritos. O primeiro nome é o do poeta e diplomata Geraldo Holanda Cavalcanti. Segundo se diz, ele é quem tem mais chances de ganhar a disputa, pois já se inscreveu uma vez e tem uma consistente obra literária, além de grande proximidade com diversos acadêmicos. Outro nome bem cotado é o do professor Muniz Sodré, presidente da Biblioteca Nacional. Correndo por fora, mas fazendo uma campanha persistente está o Ministro do Supremo Tribunal Eros Grau, que também é professor universitário aposentado e publicou, principalmente, obras na área jurídica. O azarão do páreo é o sambista e escritor Martinho da Vila, que tem poucas chances porque, apesar de inscrito, diz que só vai para a Academia se não precisar fazer campanha. Martinho, que tem 10 livros publicados, sente-se desconfortável em fazer a corte aos acadêmicos, mas nessa disputa, isso é fundamental.

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Quando o Marco ligou, já eram umas cinco da tarde, e ele assistia a vídeo clips no canal 9. É que na última hora apareceu uma viagem. Pra Rio das Ostras, na época em que a cidade era só praia e sossego e andava-se ao sabor do vento.

É naquele esquema, e foi logo avisando, miojo, pão com ovo e colchonete para dormir onde der.

Tô na fita? Quis saber.

Se eu tô te ligando, animal!

Quem vai? E já procurava o pai pela casa. Precisaria negociar aquilo. Abril mal comecara e suas notas já estavam daquele jeito, para ficarem ruins tinham que melhorar muito.

Marco estalou a ponta da língua entre os dentes.

Ué, quem vai? Eu, Wagão, Mário, Maurão, Serjão…os mesmos otários de sempre.

Putz, só homem!

E ainda quer que a gente leve mulherzinha pra você?

Conseguiu umas pratas com o pai. Dava para ir, voltar e fazer algumas gracinhas por lá.

Lembra dos olhos do velho quando jogou a sacola de nylon nas costas antes de bater a porta. Por trás das lentes grossas, chegara definitivamente a certeza de que o filho começava a bater asas. Dali a um mês faria 17 anos.  Impossível segurar em casa, num feriado, uma fera daquela cheia de hormônios e sede de aventura. Só restava pedir juízo e rezar para que funcionasse tudo que ensinara até ali.

Na Rodoviária, entre partidas e chegadas, procurava pelo grupo. Acima do tumulto, pairava a ânsia pela farra, e amarrada a ela, feito rabiola na pipa, uma sensação de que haveria para sempre música no ar e que a vida toda seria daquele jeito, uma vontade permanente de dançar e dar risada. É claro que depois o tempo passou mostrando a verdade, a velha chata da idade adulta desligou a música imaginária. Mas a lembrança daquela sensação, dele nunca ninguém roubou.

Você tá parecendo uma hippie grávida. Um deles observou quando se encontraram. Escarnecendo, apontava a camiseta verde e branca, estilo mesmo bicho-grilo, comprada na feira da Praça Sães Peña, tão na moda naqueles anos 80. Hoje, ao olhar fotos da época, lhe parece mesmo ridículo.

Gargalhada geral. When the moon is in the Seventh House, e um deles cantarolou a música do filme Hair.

Mandou-os para aquele lugar, eles e as mães de cada um, no linguajar próprio dos machos de 17 anos. Era a forma de dizer que se gostavam, que era muito bom estarem juntos: sacaneando e xingando uns aos outros.

Só conseguiram ônibus para depois de meia-noite, e assim mesmo para viajarem em pé. Ele sacou que dava para viajar no banheiro, sentado na privada, com janelinha e tudo.

E assim foi bem uns 70, 80 quilômetros. Quando vinha alguém apertado usar o banheiro, ele saía, depois voltava. Até que uma hora entrou um coroa. Demorou mais de 40 minutos para sair. Aí não deu mais para ficar lá dentro, teve que ir se equilibrando no corredor.

Mesmo assim, de onde estava, conseguia um pedaço de janela para ver a estrada rompendo a madrugada. A lua cheia acompanhava o ônibus e clareava vilas pobres do estado do Rio, tornava possíveis seus sonhos de garoto, deixava em aberto hipóteses improváveis, como a de encontrar naquele feriado a menina que conhecera na última festa e de quem o telefone acabou não pegando.

Lá na frente, nas primeiras poltronas, um bêbado toda hora gritava: isso é lindo Carlos Alberto! Alguém próximo, talvez tão ou mais embriagado, arrastava um trecho de bolero ou samba-canção, e o sujeito vaticinava: isso é lindo, Carlos Alberto! E quando o silêncio conseguia tempo maior que chegasse a permitir um cochilo, lá vinha: Carlos Alberto, isso é lindo!

Jamais se soube se havia mesmo um Carlos Alberto dentro do ônibus, mas durante o tempo em que a vida permitiu o convívio de todos, a beleza para eles, fosse da música, das mulheres, do dia ou da noite, possuía uma expressão que a sintetizava: isso é lindo, Carlos Alberto!

Quando chegaram, a melhor das novidades: Mário, o mais velho da tropa, espécie de gerentão sempre preocupado em dar civilidade à bagunça, esquecera a chave.

Sim, havia uma cópia na casa de um conhecido, mas quem iria bater na porta do sujeito às quatro da manhã?

Seu merda! Gritaram quase em coro, no que foram seguidos por dois ou três bêbados que se arrastavam à saída dos bares fechando. Gargalhadas tomaram o céu pleno de astros e estrelas ofuscadas pela lua iluminando também a vida.

E agora, onde a gente vai dormir? Um deles ainda perguntou quando a resposta era óbvia. Mário apontou com o nariz a areia da praia.

Olha que cama enorme!

Fizeram de travesseiros as sacolas, e de dentro delas puxaram os lençóis que no Rio as mães haviam providenciado. Ficaram assim empilhados, sete ou oito um ao lado do outro, mal protegidos do sereno. Passasse por ali o serviço social, recolheria todos para o abrigo da prefeitura.

É claro que não dormiram, no máximo dez ou quinze minutos de cochilo revezado. Quando o dia clareou, contavam piadas indecentes e disputavam quem dava o peido ou arrôto mais alto.

Saindo do mar, o sol saudava o grupo na porta de uma padaria. Caras amassadas da noite vigilante não escondiam a felicidade dos olhos quando o rapaz do balcão entregou a cada um a respectiva média com pão e manteiga. Chegou na hora em que ele e mais uns dois cantarolavam Dire Straits, ecos do Rock in Rio três meses antes. O fato é que em tudo, na música, no pão, no café, era como se houvessem mesmo entendido o recado do sol: vivam a vida, rapazes, em seus menores e mais deliciosos momentos.

Aqueles dias confirmaram seu lugar na posteridade. Dois ou três pileques de caipirinha foram curados com todos de cueca na piscina, para escândalo da classe-média do condmínio. Feito folha seca de outono, o vendaval do tempo varreu o nome da menina que conheceu no sábado numa roda de violão, mas sabe que ela – Marina ou Fabiana -  substituiu a outra, da outra festa, pois aos 17 anos as paixões duram tanto quanto um feriado.

Voltaram no domingo carregando mochilas pela rua de terra que levava à parada do ônibus, magros e abatidos com a dieta de miojo e batida de limão. A roupa de um, o cabelo de outro, nada escapava às incansáveis piadas de todos. Dá-lhe, porco! E gritavam toda hora, porque sempre havia um arrotando no fim da fila.

Pouco antes de embarcarem, um deles reparou que a lua, já minguante, nascia rosada, pois no extremo oposto o sol se despedia daqueles felizes estropiados. Dessa vez ninguém falou nada, mas é lógico que cada um pensou “Isso é lindo, Carlos Alberto!”

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A Justiça do Distrito Federal quer instalar nos presídios dispositivos eletrônicos que permitam aos presos terem acesso às informações sobre as penas que cumprem.

A idéia, já aplicada no presídio feminino, é que o preso aperte as teclas dos equipamentos, que já estão sendo chamados de totens, e fique sabendo logo quanto tempo de xilindró ele ainda tem pela frente. Vai servir também para que ele descubra se terá direito à liberdade assistida, redução da pena e outras benesses do nosso sistema penal.

O mesmo sistema penal que deixa, em milhares de casos, o preso vendo o sol nascer quadrado mais tempo do que deveria. Parece que não há controle da Justiça, nas chamadas varas de execuções penais, de quem já cumpriu a pena e pode sair da cadeia, tentar refazer a vida lutando contra preconceito da sociedade. São milhares que continuam atrás das grades, empilhados como se fossem sacos de cimento em celas com 200 e capacidade para 20. Mas agora terão à disposição os tais totens, essa palavra da moda, entre tantas outras.

Não sei, mas às vezes as coisas no Brasil me lembram o sujeito cuja sala de casa tem infiltração nas paredes descascadas, não há sofá para sentar e a única poltrona está com o forro todo rasgado.

Mas o cara pega e compra uma TV de plasma.

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O dia inteiro pensando e nenhum assunto lhe veio à cabeça. Ouviu dizer que é golpe baixo essa coisa de tornar assunto a falta de assunto. Não chega a esse extremo. O problema é que elevar a falta de tema à categoria de tema não é novo. Paulo Mendes Campos, Rubem Braga já usaram disso, e certamente sairam-se bem melhor do que ele se sairia.

Lembra que foi um dos dois, se não se engana Paulo Mendes Campos, que narrava a angústia da hora passando, o fim de tarde batendo à porta junto com o boy do jornal que passava sempre para pegar a crônica do dia seguinte (o e-mail não acabou com os boys dos jornais, mas essa função certamente eles não têm mais, a de pegar o texto na casa do cronista). E a cabeça vazia pendia no abismo criativo, os olhos morriam no papel em branco já pegando a curvatura do cilindro da máquina. Então, o cronista descia, acendia um cigarro na portaria do prédio, ganhava as ruas até o calçadão e ia saber se as ondas lhe davam conselhos, se descobria relevâncias na areia da praia.

Outro problema é que parou de fumar há alguns anos, e bem antes disso deixou o mar para trás, fez opção pela solidão do cerrado. Morre de saudades, mas não lhe parece conveniente falar disso agora, a cidade poderia ficar magoada, achando que a culpa era dela, não seria justo da parte dele.

Perpassa os olhos nos jornais, mas se sente desanimado para escândalos. Estes amadurecem tão rápido que acabam contaminando a inspiração com sua velhice precoce. Poderia contar sobre as duas horas de vida que perdeu esperando em determinada repartição para ser atendido em seu direito de contribuinte que não atrasa um dia sequer os impostos. Mas, estranhamente, hoje a mesmice das mazelas desse país não sustenta duas frases.

Está assim, ouvindo o zumbindo do vácuo das idéias, quando a noite ergue a lua cheia acima do trânsito parado. Acaba virando lenitivo para a cabeça que comanda sem perceber o vai e volta do pé esquerdo na embreagem. Mas a lua é dos poetas, e são raros os dias em que a poesia perde tempo com ele.

A noite avança. Fosse na época em que os boys iam em casa, teria realmente problemas hoje. Faz força para se lembrar, quem disse mesmo que é golpe baixo transformar em assunto a falta de assunto?

Certamente não era cronista.

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Esta semana serão ouvidos os acusados de participarem da bandalheira na política do Distrito Federal. Vão depor mais de quarenta pessoas acusadas de pagar ou receber dinheiro e escondê-lo em meias, bolsas, envelopes ou mandar comprar os panetones da desfaçatez.

Pensando na relação histórica e amorosa que no Brasil os corruptos poderosos mantêm com a impunidade, é de se espantar que os envolvidos no esquema estejam atrás das grades há mais de 45 dias. Entre eles, um ex-governador e um ex-secretário de governo. Sobre este, Wellington Moraes, pesa a seguinte particularidade. Como responsável pela área de Comunicação do Governo do Distrito Federal há mais de uma década, exercia pesada influência sobre diversos órgãos de comunicação na capital do país, fazendo prevalecer, em muitos casos, o interesse de quem estivesse sentado no principal trono da política regional. Preso no complexo da Papuda, bem longe da cela individual em que Arruda – dizem – caiu em depressão, Wellington está confinado em um presídio comum junto com outros acusados pela sangria dos cofres públicos. Há informações de que ocupam a mesma cela, que ficam olhando um para a cara do outro o dia inteiro, sem a privacidade que possuíam em seus gabinetes para as conversas cujo conteúdo a sociedade descobriu pouco tempo atrás. Privacidade nem na hora de ir ao banheiro, fazem o que têm que fazer na frente uns dos outros. Imagine isso na cabeça de quem tinha o mundo a beijar seus pés.

A situação, bem melhor do que a dos presos de outros estados do Brasil, pode ter duas interpretações. Ou ainda não sabemos da missa metade do que essa gente aprontou com o dinheiro o público – e do que talvez tenha tentado para cima de alguém graúdo da Justiça-, ou o país está mesmo revendo sua postura indecente frente à impunidade.

         E antes que eu me esqueça: A Câmara Distrital vai escolher o sujeito que governará o DF até 1º de janeiro. Entre as regras para a eleição, estava a obrigatoriedade de o candidato ter ficha limpa, mas desistiram da exigência na última hora. Vai ver que se deram conta de que assim corria o risco de nenhum deles poder se candidatar.

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