André Giusti - foto: Luana Lleras
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Parou na calçada do prédio ao final de seu primeiro dia de trabalho. E não era apenas isso a novidade: a cidade também era. Chegara de manhã, arrastando mala pesada pelo saguão do aeroporto, bagagem de quem vai ficar, no mínimo, muito tempo.

Nunca havia vindo sequer de visita, não conhecia nada ali, quanto mais alguém. Fora comunicado da mudança uma semana antes, só dera tempo de se despedir de quem encontrou em casa num telefonema rápido. Puseram-no em um avião com destino ao próprio futuro.

Agora, acompanhado apenas da mala – nem conseguira ir ao hotel – procurava rumo na noite que caíra por completo, encarnava o desalento enquanto tentava descobrir se seguia para direita, esquerda, para frente ou para trás. Ou se ficava parado na calçada até que descobrisse o que estava mesmo acontecendo.

Deparou com um orelhão e quis logo ouvir alguém conhecido naquele dia de rostos e vozes estranhos. Ligou para os pais. É provisório, é temporário, ele garantia, um seis meses no máximo. Na verdade, com a voz embargada, tentava convencer a si mesmo antes de qualquer coisa.

Lembra sempre do vento frio das sete horas entrando pela camisa fina ao longo das várias voltas que deu até encontrar o hotel. E esse vento vinha perfumado de um cheiro agreste que o remetia a um lugar perdido em sua memória olfativa. Acima dele, o maior céu do mundo, e pra depois do horizonte, delgada lua crescente começava a escalar a noite.

Todos os anos, nessa época, o vento, o cheiro, a lua o levam a visitar a solidão daquele primeiro dia. Agora, no sinal fechado, sorri com certo orgulho de ter sido mais forte que o abandono. O sinal é bem junto a onde ficava o orelhão, que não existe mais. No lugar, fincaram um quiosque irregular de comida. E hoje em dia saudade, dor, desespero, alegria… é tudo pelo celular.

O sinal abre. Sabe exatamente por onde anda na cidade. Vira à esquerda e vai pegar as filhas no colégio.

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A Voz do Brasil passou um tanto distante das discussões da Conferência Nacional de Comunicação, ocorrida em dezembro. Ficou restrita a um ou outro bate-boca entre movimentos sociais e empresariado. Não virou proposta a ser votada pelo Congresso Nacional nada que mude o programa que é obrigatório nas rádios de todo o país, e que só não vai ao ar nas cidades em que as emissoras conseguiram na Justiça autorização para não transmiti-lo (São Paulo continua sendo o maior exemplo de vitória das empresas). Essas alegam que perdem uma hora de informação relevante com a transmissão de A Voz do Brasil, é horário em que todo mundo está voltando para casa e seria mais útil a transmissão da cobertura de trânsito.

Comandando departamentos de radiojornalismo há mais de dez anos, já tive que interromper coberturas de temporais e enchentes na cidade por que o relógio marcava 19h. A multa é pesada, a implicação política ainda maior para quem não entra em cadeia com a Radiobrás às sete da noite.

A esse argumento das empresas de comunicação, os movimentos sociais/sindicais contrapõem o discurso de alguns anos: A Voz do Brasil é a única maneira que comunidades distantes do país têm para se informar do que acontece em Brasília. O argumento não é inválido, mas talvez essa discussão de acabar ou não com A Voz do Brasil (ou o “Fala sozinho”, apelido que ganhou pouco depois de ter sido criada nos anos Getúlio Vargas) pudesse ser substituída por uma mais ampla, que requer na verdade mudanças mais abrangentes do que terminar um programa.

Falo do fortalecimento das rádios públicas, estas sim instrumento valioso de informação das pessoas, morem elas nas cidades grandes ou em qualquer vilarejo, rincão, aldeia esquecidos. Rádios como a Senado, Câmara, Justiça e a própria Radiobrás precisam ser referência nas informações do estado, no que o estado (e não governos e políticos) precisa comunicar, dizer aos cidadãos.

Seria ótimo que essas rádios definitivamente se tornassem redes de cobertura nacional, mas não entro na seara da questão técnica por absoluta incapacidade de discorrer sobre ela. Minha praia é o conteúdo, o material que vai ao ar ao encontro do ouvinte. E para termos conteúdo atraente, relevante e de qualidade para a população, precisamos de jornalistas que entendam a comunicação, no caso a pública, como fator de mudança de uma sociedade, como instrumento útil à rotina das pessoas, e não como arma de congraçamento ou divulgação de interesses políticos, partidários e eleitoreiros; que entendam a notícia em rádio sempre como algo que não pode esperar muito ou que não pode esperar nada.

E não só isso. Precisamos de jornalistas (juntemos aí também os radialistas) de qualidade, que saibam o que é notícia, o que é informação, o que é importante para quem ouve. E esse profissional só chegará às rádios públicas quando a ótica míope, quase cega dos concursos públicos for modificada para selecionar profissionais da imprensa (diplomados, diga-se de passagem).

Os concursos para as rádios públicas feitos nos últimos anos premiaram os concurseiros, aqueles talhados para entrar no serviço público por que aprenderam nos cursinhos a manejar as armas que matam as questões aplicadas, e que nem sempre medem o conhecimento e muito menos a experiência do candidato na área em que está sendo avaliado.

É claro que nas rádios e TVs públicas existem profissionais ótimos, com total noção de notícia, mas eles não são a regra. E por que dominam as artimanhas das provas, recém-formados muitas vezes emplacam os primeiros lugares, e o que acontece é que as rádios públicas serão feitas, em boa parte das vezes, por quem não tem experiência, por quem não viveu a dura realidade das redações dos grandes grupos, por quem nunca enfrentou os apertos da reportagem e da edição. Jornalismo (de rádio, no caso) é algo bem mais vivo do que as teorias tão apreciadas e reverenciadas pelas bancas. Fazer Jornalismo é (e rádio também), em sua essência, prática, malícia, vivência. O dia em que os concursos públicos se importarem mais em selecionar jornalistas e não concurseiros para as rádios públicas, certamente elas serão ferramentas bem mais eficientes na informação do povo, esteja onde ele estiver, do que a polêmica Voz do Brasil.

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Hoje, na coluna de Alexandre Pilati, o relançamento da obra de um dos grandes nomes da poesia brasileiro do século passado.

A coluna do Pilati você ouve ao vivo, no bate-papo que eu e ele batemos todas as segundas-feiras, às 16h51, com reprise às terças-feiras, às 11h31, na BandNews FM 90,5 Brasília.

Outra vez Mário Faustino.

 

Por Alexandre Pilati.

 

1.    O livro

A editora Companhia das Letras relançou, em edição da coleção Cia de bolso, um importante livro da poesia brasileira dos anos 50. Trata-se de O homem e sua hora, do poeta e crítico literário piauiense Mário Faustino. Originalmente lançado em 1955, este foi o único livro de Faustino publicado em vida. Nesta edição da Cia das Letras, os poemas do volume original estão unidos a textos esparsos, publicados entre 1948 e 1962, aos chamados “fragmentos poéticos”, escritos entre 1960 e 1961, e a poemas inéditos, estabelecidos e fixados a partir dos originais guardados por seu amigo e interlocutor, o crítico literário Benedito Nunes. Assim, o conjunto é bastante completo e certamente agradará ao leitor de poesia brasileira.

2.    Poeta-crítico de morte trágica

Mário Faustino viveu intensamente de poesia e para poesia durante os breves 32 anos de sua existência. Depois de ter estudado Direito no Norte, em Belém do Pará, Faustino veio para o Rio de Janeiro, onde deliciou-se com a boemia carioca e viveu intensos e proibidos amores, que se transformaram em poemas. No período de 1956 a 1958 criou e dirigiu a página “Poesia-Experiência” no Suplemento Literário do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro.

Essa página semanal provou que, além de ter sido grande poeta, Mário Faustino foi um dos grandes jornalistas literários de seu tempo, comentando, por assim dizer, “ao vivo”, as grandes transformações operadas pelo movimento da Poesia Concreta durante os anos 50. Tudo isso foi interrompido com a morte precoce do poeta-crítico num desastre de avião em 1962. No dia 27 de novembro daquele ano, de madrugada, embarcou num Boeing da Varig com destino à Cidade do México. O avião explodiu após uma escala em Lima, Capital do Peru, e os restos mortais do poeta jamais foram encontrados.

Como crítico, Faustino pode ser considerado um progressista, sempre aberto às inovações e às rupturas propostas por novas modas poéticas. Já como poeta, sua principal característica é o apego à tradição, tanto nos aspectos temáticos quanto formais, utilizando, por exemplo, com grande desenvoltura, a forma clássica do soneto. O crítico Benedito Nunes diz que a poesia de Mário Faustino baseia-se na técnica da “concórdia discorde” que consiste explicitar por meio da linguagem densa da poesia a ambigüidade e a fugacidade da vida.

3.    Um poema

O MUNDO QUE VENCI DEU-ME UM AMOR

O mundo que venci deu-me um amor,

Um troféu perigoso, este cavalo

Carregado de infantes couraçados.

O mundo que venci deu-me um amor

Alado galopando em céus irados,

Por cima de qualquer muro de credo,

Por cima de qualquer fosso de sexo.

O mundo que venci deu-me um amor

Amor feito de insulto e pranto e riso,

Amor que força as portas dos infernos,

Amor que galga o cume ao paraíso.

Amor que dorme e treme. Que desperta

E torna contra mim, e me devora

E me rumina em cantos de vitória…

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Boa parte de Brasília ficou às escuras na noite desta 5ª feira por causa de um temporal. Então, fico devendo uma postagem inédita hoje. Até  comecei a escrever uma crônica, mas sem luz não podia programá-la para entrar no blog, e aí desisti.  Quando a luz voltou, ainda restava muito a ser escrito. Preferi deixar para 2ª feira.

Entretanto, trago um poema meu, lá do início da década de 90. O título é uma homenagem a um de meus poetas favoritos. Esse poema está na seção POEMAS de meu site, embora com o nome de Hoje foi sexta-feira (não me perguntem a razão, pois não sei mais explicar). Como hoje é sexta-feira, resolvi colocá-lo aqui com o título original, pois traz o verbo no presente.

Espero que gostem. Caso conrário, reclamações devem ser encaminhadas à Companhia Energética de Brasília.

Passei o dia inteiro correndo atrás da vida
com o mundo no meu pé
e agora à noite fiquei só,
curtindo a liberdade de não ter pra onde ir.
Arrastei meus vinte e poucos anos pelos bares
e reconheci rostos de velhos desconhecidos.
Quis fugir do barulho lá fora,
me tranquei num caixa eletrônico
e tentei cortar os pulsos
com o cartão magnético.
Abandonei mais tarde a TV ligada
e, louco, cometi poemas desatentos,
com todos os cuidados
em não fumar a caneta
e escrever com o cigarro.
Depois de tudo me sentei na poltrona
feito um anônimo passageiro do oculto
lobo com medo da floresta.
Se ela não ligar até o fim da vida
talvez eu vá à casa de alguma ex-namorada
para ver se ainda pego as sobras do jantar.

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Tem feito relativo sucesso aqui em Brasília um adesivo distribuído por uma rede de restaurantes. Em vermelho-goiaba (existe mesmo essa cor?) e letras brancas estilizadas diz Gentileza gera amor e paz.  Um dia estava no restaurante e perguntei pelo adesivo. Acabara o último dos sei lá quantos lotes que haviam sido encomendados. Desde lá, quando notei pela primeira vez o adesivo, é raro o dia em que não vejo um carro em Brasília com a frase colada na lataria.

Ela é quase uma cópia da que o profeta Gentileza pichava nas pilastras dos viadutos do Rio de Janeiro nas décadas de 80 e 90. Gentileza gera gentileza, escrevia o velho cabeludo, objeto de documentário e, acredito, de certa celebração cult nos dias de hoje. Como a intenção do profeta era essa mesmo, de que sua filosofia fosse espalhada gratuitamente, e o adesivo não é cobrado, não há qualquer apropriação intelectual. Gentileza cedeu, gentilmente e para sempre, todos os seus direitos em prol da boa convivência entre os homens.

O sucesso do adesivo com a frase reflete a necessidade que as pessoas têm de harmonia nas relações, até mesmo – e talvez principalmente – com um desconhecido no meio da rua. Ótima idéia que se comece a buscar isso no trânsito de uma grande cidade, palco em que um monge tibetano pode se transformar em um neurótico de guerra. Em cidades como Brasília em que as pessoas são extremamente egoístas e individualistas quando estão ao volante, a gentileza deveria ser componente obrigatório da gasolina e do álcool.

Usar esse adesivo é ato de extrema responsabilidade. Mais importante do que querer, neste caso, é praticar. Se ninguém dá vez no cruzamento, lembre-se do adesivo, e não revide em cima do outro quando for sua hora de ser gentil. E controle seu linguajar. Já pensou se te pegam berrando um palavrão daqueles bem cabeludos logo depois de notarem o adesivo no seu carro?

Semanas depois que fui ao restaurante, acabei encontrando o adesivo pregado em minha mesa de trabalho. Até hoje não sei se foi algum colega mandando um recado de maneira sutil. Só sei que estava lá – Gentileza gera amor e paz -, e como não acredito em acaso, tratei de tirá-lo com cuidado para não rasgar e pregá-lo no meu carro.

Colá-lo no porta-malas não me transformou num gentleman de uma hora para a outra. Mas me tornou vigilante comigo mesmo. Parece que há nele uma espécie de botão automático. Toda vez que sinto vontade de jogar o carro em cima do fusquinha da senhora que vai à minha frente a 30 por hora na faixa da esquerda, é como se um dispositivo qualquer fosse acionado lá atrás, no adesivo, e aí eu tomo um beliscão na consciência e me controlo. Só por isso já posso dizer que comigo a coisa tem funcionado.

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Cerca de 150 mil pessoas enfrentam, há dois dias, uma verdadeira odisséia para ir de casa ao trabalho e retornar no final da tarde no Distrito Federal. É que os metroviários estão em greve, pedindo um aumento nos salários de nada menos do que 120%, algo que me parece jamais conquistado por nenhuma categoria de empregados em toda a história do sindicalismo, quiçá no mundo inteiro.

Sem metrô, a multidão que viaja espremida nos trens precisa ir e voltar mais espremida ainda, se apertando para caber nos ônibus das viações “Latas de Sardinha S/A” que operam o transporte público na capital do país. Nesses ônibus, viaja todos os dias uma outra multidão, entalada em verdadeiras carroças com defeitos nos freios e pneus carecas.

Os metroviários não pensaram nisso, nem no pagamento descontado por causa do atraso do trabalhador que eles transportam todos os dias, muito menos nas duas ou três horas a mais que este mesmo trabalhador levou para chegar em casa depois de uma jornada de trabalho exaustiva. Não pensaram, como nunca foram pensadas, as consequências de uma greve em serviços considerados essenciais. Decide-se cruzar os braços para pedir aumento e pronto: que se vire da melhor maneira possível a população para ir e vir de manhã bem cedo ou altas horas da noite.

Quando voltarem da greve, todos estarão perdoados pela mãezona estado, que não demite, que não corta ponto, bem diferente da madrasta iniciativa privada.

Não sei se a greve é mesmo o único instrumento de pressão. Legítimo é, e certamente é o mais cômodo. Que tal manterem o metrô funcionando e formarem uma comissão de 100 ou 200 para acamparem na porta do governador, encherem o saco com buzinas e tambores até que ele se digne a recebê-los? Provavelmente chegando na hora ao trabalho e em casa, a população não apenas apóie os trabalhadores como ainda ache que o aumento deve ser maior.

Ontem os alunos das escolas públicas do DF não tiveram aulas. O Sindicato dos professores resolveu que ninguém deveria dar aula porque a Câmara Legislativa iria votar o aumento de dez por cento para o magistério e (sabe como é, né?) havia a necessidade de mobilização para que os deputados aprovassem o reajuste. Como se deputado precisasse ser acossado para aprovar aumento de servidor público em ano de eleição.

Quem ouve “mobilizar a categoria para pressionar deputados” imagina uma verdadeira romaria de professores à Câmara Legislativa para a sessão que começou às 15h e que impediu as aulas já no turno da manhã. À tal da mobilização, compareceram cerca de 300 professores, fatia magra perto dos mais de 20 mil que dão aulas na rede pública do DF. Tivessem formado uma comissão com um número até maior para conseguirem o que é justo, e mantido o restante em salas dando aulas, certamente os professores receberiam apoio da mãe que precisa que o filho vá à escola porque não tem com quem deixá-lo na hora do trabalho, e a gratidão daquela que manda a criança ao colégio principalmente para comer.

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O apresentador Pedro Bial em entrevista à Rolling Stone brasileira desdenha da credibilidade. Acha que quem a quer são os pastores, os padres e sacramento: não quero que acreditem em mim. Encerra a afirmação dizendo que “os jornalistas em geral sem levam muito a sério”.

Não precisa ser formado em jornalismo para ao menos supor que a credibilidade é o elemento principal do trabalho de um jornalista. Se não somos acreditados no que escrevemos e dizemos, qual sentido de acordar todos os dias, chegar em casa altas horas, atravessar fins-de-semana e feriados longe da família fazendo o que escolhemos fazer, ou seja, notícia?  

Um jornalista que abre mão da credibilidade é como o médico que se lixa para a precisão na hora da cirurgia, como o engenheiro que abdica da exatidão do cálculo. Pouco caso com a credibilidade é porta aberta para a informação imprecisa, amiga íntima da mentira, frequentadoras da mesma roda de calúnia, injúria e difamação.

A declaração do apresentador daquele programa que me eximo de dizer o nome parece própria de quem saturou do que faz há anos, de quem ataca a principal qualidade de algo que não quer mais. Tudo bem, Bial tem esse direito, mas poderia deixar isso claro: não acreditem mais em mim, pois não quero mais ser jornalista. Os telespectadores estariam liberados definitivamente de vê-lo como agente de informação confiável. Os estudantes, por sua vez, de tê-lo como modelo.

De minha parte acho que posso pegar o exemplar de Revolução ao vivo, que Pedro Bial escreveu nos anos 80/90 com a também jornalista René Castelo Branco sobre a queda do Leste Europeu, e jogar fora a parte dele.

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Na última quinta-feira, dia 11, a jornalista Daiane Garcez enviou-me carta mostrando indignação com as palavras da primeira-dama do Distrito Federal.

Após a saída da visita diária ao marido preso há mais de um mês, Flávia Arruda fez o que para ela foi um desabafo. Para o eleitor, contribuinte e cidadão foi a prova de que as autoridades têm no papel de vítima uma espécie de disfarce a ser usado em caso de emergência. Ou seja, pego com a boca na botija, a autoridade abre o armário, pega o disfarce e aparece com ele querendo comover a sociedade, de olho no perdão da memória curta do brasileiro, especialmente se for o perdão eleitoral.

Daiane Garcez pediu que eu transformasse sua carta em texto para esse blog. Achei melhor publicá-la na íntegra. Primeiro porque o texto está excelente. Segundo porque não há nada na carta que eu pudesse acrescentar, nem mesmo um centímetro de indignação.

A carta segue reportagem do Correio Braziliense, que deu origem ao desabafo de minha colega de profissão.

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Ex-primeira-dama fala pela primeira vez após a prisão do marido

Débora Álvares
Noelle Oliveira
09/03/2010 20:25
A ex-primeira-dama do Distrito Federal falou, na tarde desta terça-feira (9/3), pela primeira vez após a prisão de seu marido, há quase um mês. Flávia Arruda se mostrou preocupada com o estado de saúde do governador afastado e preso, José Roberto Arruda (sem partido).
Segundo ela, Arruda tem dificuldades para andar e, hoje, não quis comer – a esposa do governador chegou à PF por volta de 12h40, com o almoço dele. Flávia destacou, ainda, que o exame doppler realizado nesta segunda-feira (8/3), não apontou placas na safena, mas acusou um edema. De acordo com a ex-primeira-dama, além do inchaço nas pernas, Arruda tem apresentado grandes oscilações de pressão. A Polícia Federal ainda não confirmou as informações passadas por Flávia.

A esposa do governador afastado acredita, ainda, que a piora do estado de saúde de Arruda seja consequencia da suspensão, após a prisão dele, das sessões de fisioterapia. Segundo Flávia, o marido era submetido aos exercícios desde a cirurgia no tendão do pé direito que pela qual passou em 9 de novembro do ano passado.

Flávia Arruda destacou que a rotina da família, com a detenção do marido, está muito complicada. Ela ressaltou, ainda, que a filha sente muita falta do pai. “Eu estou péssima, doente. Quem mais está se prejudicando com toda essa situação não é a população de Brasília, mas sim o próprio Arruda e nós, sua família”.

A ex-primeira-dama afirmou que não queria comentar a respeito das imagens de Arruda recebendo o dinheiro das mãos do ex-secretário de governo Durval barbosa na operação Caixa de Pandora. No entanto ressaltou que não se surpreendia com o fato. “Não me surpreende porque eu sei que todo mundo recebe. E sei que a política no Brasil é assim, as pessoas precisam receber dinheiro para a campanha”, disse. Flávia destacou que todo o dinheiro recebido por Arruda foi declarado.
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Pois bem, sem dúvida alguma a família deve estar sofrendo. Qual a família não sofre ao ver um ente querido preso, por pior ato que ele tenha cometido. Isso é natural, e vemos todos os dias, nos noticiários, familiares (de homicidas, ladrões, estelionatários …) chorando e reafirmando com todas as forças que são vítimas de injustiça. Ora, isso é perfeitamente aceitável e entendível. Deus que me livre, mas não sei se eu teria forças para agir de outra forma.
 

O que não é aceitável é que uma primeira dama diga: “Quem mais está se prejudicando com toda essa situação não é a população de Brasília, mas sim o próprio Arruda e nós, sua família”.  Entendo que a primeira dama, que passou quase um mês calada, perdeu a chance de permanecer calada por mais tempo.Talvez ela tenha dito isso porque não conhece a realidade da saúde pública no Distrito Federal. Há quanto tempo a população está prejudicada pela falta de responsabilidade do governo em aplicar menos do que deveria, ou até mesmo desviar o dinheiro que deveria ser utilizado neste setor? A senhora Flávia Arruda pode até ser a primeira dama, mas talvez seja a última a saber que todos os dias a população – e neste caso digo os mais pobres – chora por não encontrar médicos suficientes para atendimento, por não encontrar remédios – em muitos casos caríssimos, que custam fortunas diante da renda familiar – chora por não conseguir marcar uma cirurgia, e precisa esperar por meses e até anos uma decisão da Justiça para ter direito ao que está garantido como direito em lei. E mais, é lamentável que esta declaração seja de uma senhora que presida o Instituto Fraterna e se diz totalmente empenhada no trabalho social.
 

A primeira dama também afirma que não se surpreendeu com as imagens, porque isso é natural, porque todo mundo recebe. Entendo, que nesta situação, em particular, justificar um erro com outros erros não é o mais adequado. Talvez, mais uma vez, ela seja a última a saber que o governador José Roberto Arruda foi eleito pela maioria não porque entre os errados ele é o menos errado, mas porque os eleitores depositaram nele a confiança de que estaria à margem da ilegalidade e saberia gerir a cidade com honestidade. Até mesmo porque, há alguns anos, José Roberto Arruda pediu perdão e mais uma chance para provar que é um homem correto.
 

Não se trata aqui de inocentar ou condenar o governador: isso cabe à Justiça. O que incomoda é saber que a primeira dama despreza o impacto desse “esquema” no dia-a-dia da população. Causa impacto também em outras cidades, em outros países, e até no Judiciário brasileiro – que já deve ter recebido de tudo. É só lembrar da declaração do “ministro-poeta” do STF, Carlos Ayres Brito, durante o julgamento do habeas corpus de Arruda: “Dói em cada um de nós, dói na alma, no coração ver um governador sair de um Palácio para a cadeia, mas há quem chegue às maiores alturas para cometer as maiores baixezas.”
 

Com isso, concluo: a primeira dama, que passou um mês em silêncio, deveria ter permanecido assim até o fim das investigações.

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Tradução é das tarefas mais árduas da literatura. Imagine, então, se o trabalho é passar um livro do árabe para o português. Eu e o poeta Alexandre Pilati tratamos do assunto no bate-papo literário da rádio BandNews 90,5 FM, Brasília a partir do trabalho de Mamede Mustafá Jarouche. A nossa conversa vai ao ar às 2ªs feiras às 16h51 e às 3ªs às 11h31. Todos estão convidados a ouvir. Agora, confira o texto de Alexandre Pilati.

Um pouco da literatura árabe em português.

Por Alexandre Pilati.

Com o recente lançamento do livro O leão e o chacal mergulhador, pela editora Globo, o nome do paulista Mamede Mustafá Jarouche, vai se consolidando a principal referência da tradução de literatura árabe do país. Graças a ele, diversos textos da tradição narrativa do mundo árabe estão disponíveis ao leitor brasileiro e com uma qualidade impressionante. Jarouche nasceu em Osasco, São Paulo, em 1963. Diplomou-se bacharel em Letras, Português e Árabe pela Universidade de São Paulo. Além disso, estudou o árabe, que era o idioma de seu uso doméstico, também na Arábia Saudita, no Iraque e no Egito.

Quando começou a ensinar árabe na USP, em 1992, Jarouche iniciou sua prática de tradução literária que já lhe garantiu vários prêmios como o Jabuti de Melhor Tradução, o de Melhor Tradução do Ano da Associação Paulista dos Críticos de Arte, e o Prêmio Paulo Rónai de Tradução todos pela obra As mil e uma noites.

Todos os seus trabalhos têm em comum o fato de serem traduções de narrativas anônimas recolhidas na tradição oral árabe, que é riquíssima na fluência do enredo. Essa fluência é garantida na tradução pelo grande conhecimento da língua por parte de Jarouche, que faz com que cada texto seja uma saborosa experiência de leitura.

As obras

O leão e o chacal Mergulhador (2010) é um texto recolhido junto à tradição oral da literatura árabe. Ele se configura, assim, numa mescla de tratado político, livro de etiqueta da corte, crítica de costumes e fábulas que buscam traduzir um ensinamento, mais ou menos como as famosas fábulas de Esopo que se tornaram tradicionais no ocidente.

Encadeando e desencadeando ensinamentos, sentenças, máximas, provérbios e pequenos contos, uma narrativa vai sendo costurada, como se cada parte dela fosse a figura de uma tapeçaria oriental.

Os contos das mil e uma noites (V.1 2005; V.2 2006; V.3 2007) foram traduzidos a partir dos três volumes do manuscrito árabe da Biblioteca Nacional de Paris, a fonte mais valiosa para a edição do livro. Além disso, o tradutor comparou esses manuscritos com quatro das principais edições árabes do livro e utilizou ainda quatro manuscritos do chamado “ramo egípcio antigo”. A publicação do Livro das mil e uma noites está projetada em cinco volumes e já tem 3 desses volumes disponíveis nas livrarias, todos pela editora Globo. A edição apresenta centenas de notas sobre aspectos lingüísticos ou que explicam o cotejo entre manuscritos e edições árabes, além de anexos valiosos, com traduções de passagens do livro que possuem mais de uma redação, e que servem de elementos de comparação para o leitor interessado na história da constituição do próprio ‘Livro das mil e uma noites’.

Todo esse esforço torna o trabalho de Jarouche uma referência obrigatória daqui em diante para os admiradores e estudiosos da literatura árabe, no Brasil e no exterior.

Histórias para ler sem pressa (2008) é um apanhado de 30 contos curtos, a maioria de uma página, que datam de um período que vai dos séculos IX ao XVIII. Os títulos das pequenas narrativas, que são ilustradas pelo artista plástico Andrés Sandoval, dão bem a idéia de seu saboroso conteúdo, reflexo de um mundo ao mesmo tempo mercantil-agrário, patriarcal e mágico, em que a tradição domina. Veja alguns deles: “O poeta e o vendedor de melancias”, “O peregrino, o colar e o perfumista”, “Um pão por mil moedas de ouro”, “O mercador desonesto” e “Um orador esquecido”. 

 

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Terminei de ler por esses dias O anjo pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues, do Ruy Castro. O livro é de 1992 e me pergunto por que abdiquei todos esses anos da leitura sobre a vida de nosso maior dramaturgo. Se me fosse dado o dever de formar uma lista do tipo livros que deveria ter lido há mais tempo, O anjo pornográfico puxaria a fila.

É daqueles livros que nos faz perder a hora de dormir, e que durante o dia torcemos para que chegue logo a noite, o momento  de irmos para a cama e, com a cabeça no travesseiro, devorarmos suas páginas.

Confesso que Nelson Rodrigues não era figura que me despertasse o maior dos interesses. Até que, recentemente, procurando algo que preenchesse o tédio de uma viagem de avião, deparei em uma livraria de aeroporto com o tijolaço do Ruy Castro.

A exemplo de outras biografias, dá para pescar um pouco da história do país a partir da vida do biografado e a história do segmento que representou – no caso de Nelson a imprensa e o teatro – e a relação desse segmento com a sociedade da época.

É característica lógica das biografias ensinarem um pouco de história a partir da vida de uma pessoa. Fernando Moraes dá aula de história da imprensa contando a vida de Assis Chateubriand em Chatô – o rei do Brasil. Ruy pincela um pouco dessa história ao escrever sobre a vida de Nelson, e vai bem além quando fala do teatro, o que ocupa uns 40 por cento do livro. E essa fatia da obra é quase toda preenchida com o que realmente importa nas peças de Nelson Rodrigues: a relação delas com a sociedade da época, desnudada no palco pelos seus personagens, escandalizada com suas próprias mazelas morais, renegadas com pose de santa.

Mas o que toca em O anjo pornográfico é a ligação de Nelson Rodrigues com a tragédia. A morte não era presença à toa em suas peças e crônicas. Poucas vezes li sobre um autor que houvesse tido contato tão próximo com ela, pontuando não apenas a vida da família com abusiva frequência (dói ler como morreu o irmão mais novo de Nelson), mas a dele próprio por causa da saúde sempre precária.

No todo, apenas um porém. O livro que fala sobre a vida de alguém que tanto versou sobre o pecado, comete um. A relação de Nelson Rodrigues com o futebol é muito pouco explorada. Simplesmente não há menção à frase “estava escrito há 5 mil anos” , épica na crônica esportiva brasileira.

Mas isso não desmerece a abordagem sobre a vida de Nelson Rodrigues, ainda mais com o texto do Ruy Castro. Se não leu, leia. Não espere viajar de avião.

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