André Giusti - foto: Luana Lleras
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Para Raquel, que imaginou essa história.

 

Parou na fila do caixa atrás de uma dona com dois carrinhos cheios.

Ele carregava apenas um pacote de biscoito.

A mulher falou moço, pode passar na frente.

Agradeceu, não precisa.

Não tinha mesmo motivo para chegar logo em casa.

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Um livro precisa ter volúpia, isso no sentido de pegar o leitor pela gola e deixá-lo dependente de sua história. Acredito nos livros que nos roubam horas de sono, aqueles que nos fazem dormir bem depois do que o juízo recomenda, que nos transformam em felizes irresponsáveis perante o crivo da rotina.

Bom é o livro que sabe fazer a mágica do avesso. Arrasta-nos para seu universo, e nos torna seu habitante em tempo praticamente integral. Se estamos no elevador, no trânsito ou no escritório, na verdade, não estamos, pois acaba que não saímos da página que interrompemos antes que fôssemos até o raiar do dia. É como se ao invés de pausa para a leitura, esta fosse dada para que cumpríssemos os afazeres. Como se o irreal fosse a vida real. Coisa doida, coisa de livros. Os bons, diga-se.

Não acredito nos livros que não nos acompanham no metrô nem nos consultórios, que não tornam rápidas as filas dos bancos. Livros precisam nos fazer apressar o passo na volta para a casa, como fazem os namorados novos na saída do trabalho, da escola.

Existem livros pesados, não no sentido físico do número de páginas, ou no literário, a respeito do enredo. São pesados porque se arrastam em torno de um ponto a que sempre retornam sem novidades, como uma criança pequena que foge mas, sem saber caminhos além da esquina, volta para a casa. E no dia seguinte foge e volta de novo.

E muitas vezes insistimos na leitura e damos a cada dia uma nova chance, como se mantivéssemos uma esperança caridosa de que uma reviravolta possa regenerar o que está condenado.

Mas chega a um ponto em que não dá mais, o autor não nos levou a lugar nenhum. E aí o livro fica jogado no canto da estante menos importante da casa, ainda com o marcador na página em que paramos, indicando o ponto da nossa desistência.

Um dia tomará o caminho da doação em uma daquelas arrumações que o passar do tempo e o acúmulo das coisas exige. Vai junto com as roupas desbotadas e o par de sapatos ainda novo, mas que nos convecemos que estava apertado na segunda vez que usamos. E ao olharmos um ao lado do outro, nos passa pela cabeça que leitura não pode ser mesmo sapato apertado, e sim pé descalço na areia molhada da praia.

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Quando ela entrou na cozinha, ele estava na janela que dava para os fundos do prédio. Não eram ainda 7h30. Mesmo aos domingos ele não acordava tarde.

Ela deu bom dia e também foi ver a paisagem. Um sol límpido e fresco reproduzia em sombra as linhas retas do prédio no chão da área que servia de estacionamento. Pouco mais além, a grama lavada da noite respirava. Junto, passava um ou outro caminhante mais disposto a exercícios àquela hora.

Somente depois de verificar todos esses detalhes reparou que ele estava chorando, só que mais silencioso que a própria manhã.

O que foi? Espantada, quis saber, embora não tenha ficado aflita. Ele não estava nervoso, chorava em paz e tranquilo um choro sentido com timbre de ausência. E se ela notasse bem, veria que as lágrimas escreviam saudade em seu rosto, mas aquela saudade cujo objeto se esconde além de nossos olhos.

Acordei lembrando deles, explicou o motivo e esfregou as mãos no rosto, dando sumiço em um filete transparente e cristalino que escorria engrossado da alma dolorida.

Ela deixou que a mão caísse pelos cabelos dele, ainda amassados do travesseiro. Consolo sem palavras dizendo tanto.

Já há algum tempo ele não chorava, mas é que a semana fora um exercício contra o desespero e a desistência das pequenas batalhas, e a que começava não anunciava bonanza. Ele, sempre tão a mercê da solidão da cidade, não encontrava amparo maduro que o ajudasse a pensar e resolver.

Ela ainda não conhecia a dor inexorável da única certeza da vida. Sentia a angústia inerente ao assunto a partir dos relatos dele.

Tem dias que chego e vem um impulso mecânico de ligar para eles, contar sobre o dia. Parece braço, perna que a gente amputa, mas que continua sentindo, como se estivesse lá, ele disse certa vez.

Secou as lágrimas com a camiseta do pijama mesmo.

De vez em quando dá isso, mesmo anos depois. Aí a gente chora um pouco, dá uma desabafada e olha pro céu como se procurasse pássaros.

E ergueu os olhos aguados.

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Quando encostei

no balcão

ela olhou.

Era tão linda

que o bobo aqui

extasiado

engasgou

com a coca-cola.

Ela então sorriu

com uns olhos azuis

de abril

e o resto do dia

virou um grande

pedaço de pavê.

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- Papai, Deus é doido mesmo, viu?

Pego de surpresa, assim do nada por aquele conceito inédito da divina providência, o pai parou de mastigar e ficou olhando-a. A metade da folha de alface para fora da boca pedia explicação à pequena.

Não se fez de desintendida, se o que queria realmente era mostrar o que pensava. Para isso, exibiu os dentes alinhados em um riso aprontado. Em lugar dos dois de cima, apenas a gengiva vazia, o vão por onde também se despedia a primeira infância da menina.

Desfez o riso, mudou para uma cara solene. Afinal, era o que merecia opinião tão polêmica.

- Ora, para que tirar os nossos dentes e colocar outros no lugar? Por que não faz a gente logo com os dentes que vão ficar para sempre?     

O pai, que de dentes só entendia de escovar, e mesmo assim com ressalvas, baixou os olhos até o prato. Sumiu na boca a outra metade da alface. Calou-se frente à lógica daquela fervilhante cabecinha de seis anos.

Pratos e talheres tocavam-se alegres, disputavam o volume com as conversas no domingo ensolarado da cantina.

Ela deu uma volta na mesa, cutucou uma das irmãs, fez uma bola com miolo de pão. Quando chegou-se de novo, o pai já estava esperando o café. Pôs o dedinho no relógio dele.

- Pai, pra que é esse ponteiro fininho?

Agradeceu com o gesto ao garçom a xícara e olhou o que a mãozinha apontava.

- Ele marca os segundos.

Mas era muito pouco para tanta curiosidade sobre tudo. Na escola, só fora até as horas e os minutos.

- Os segundos são maiores que os minutos?

- Não, são menores.

- E o que é maior dos que os minutos?

- As horas, ora!

- E o que é maior do que as horas?

E como já conhecesse os encadeamentos da filha, foi logo emendando.

- Os dias são maiores do que as horas; as semanas são maiores do que os dias; os meses são maiores do que as semanas; os anos são maiores do que os meses e os séculos são maiores do que os anos.

Mas ela não estava satisfeita.

- E o que é maior do que os séculos?     

O pai, num último fôlego:

- Os milênios.

Calou-se. Desses, ainda não ouvira falar. Mas pensou bem, e arriscou.

- E tem maior que os milênios?

O pai, já meio orgulhoso daquela persistência, disse que havia.

- O quê é? E ela arregalou imensos olhos que aguardavam revelação.

- O meu amor por você!

Ela, então, mostrou sua janelinha no riso espontâneo, de onde vinha toda a luz da tarde.

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Durante o mês de abril, eu e o poeta Alexandre Pilati falamos sobre literatura de ou feita em Brasília. É a forma de homenagearmos os 50 anos de fundação da capital do país, no próximo dia 21. Eu e Pilati conversamos sobre literatura toda 2ª feira às 17h51 na BandNews FM 90,5, com reprise às 3ªs feiras às 11h31.

Literatura brasiliense?

Por Alexandre Pilati.

Brasília faz 50 anos. A data torna oportuna a pergunta sobre se existe ou não uma literatura brasiliense, com características próprias, independente da literatura que se faz em outras partes dos Brasil. Na verdade, o desenvolvimento da literatura em Brasília não ocorre de modo muito diferente de outras literaturas locais ou regionais do país. É claro que há algumas características peculiares, mas, no geral, a formação de uma literatura depende de fatores mais ou menos regulares, tais como a reunião de um conjunto de escritores que esteja consciente do seu papel dentro da sociedade, a formação de um público leitor com que esse escritor dialogue e uma tradição de obras literárias que se tornem referência às novas gerações. Nesses 50 anos, Brasília conseguiu, com algum sucesso, o relacionamento orgânico dessas três variáveis.

 

Um pouco de História

Uma das provas de que a literatura brasiliense já é um todo orgânico e de que ele “anda sozinho”, por assim dizer, é a sua história recheada de eventos importantes. Primeiramente, impressiona o volume de textos de Brasília e sobre Brasília publicados nesses 50 anos. Talvez nenhuma outra organização urbana com características semelhantes às da capital do país tenha tantos textos publicados em tão pouco tempo e também tantos autores desejosos de serem reconhecidos como brasilienses. Já no início da década de 60, em 1962, por exemplo, o poeta Joanyr de Oliveira organizou a primeira antologia de poesia do DF, denominada poetas de Brasília. Em 1963, aparece a primeira narrativa ficcional ambientada em Brasília; trata-se de uma novela intitulada Luana, de autoria de Garcia Paiva.

Mas uma literatura não é feita só de obras e, cientes disso, os autores começaram desde cedo a se organizar em agremiações e movimentos. Uma das mais importantes dessas instituições criadas no DF é a ANE – Associação Nacional de Escritores, criada em 21 de abril de 1963 pelo escritor Almeida Fischer. Desde essa data reúnem-se ali autores para divulgar suas obras e discutir textos. Com respeito aos movimentos, talvez os mais significativos para a tradição de uma literatura com a cara de Brasília sejam aqueles que apareceram em torno da poesia marginal. Em 1977, Chico Alvim e Carlos Saldanha organizam a antologia Águas Emendadas, reunindo 13 poetas de Brasília. Até 1981, surgem, também, alguns grupos importantes de difusão da poesia marginal, tais como aqueles que integram a série POrrETAS, organizada por Climério Ferreira. Há ainda o grupo da Galeria Cabeças, que publica a revista “Grande Circular” além de realizar diversas atividades de divulgação da poesia e de outras artes. Desses grupos saiu aquele que é talvez o nome mais emblemático da literatura de Brasília: Nicholas Behr.

 

O traço peculiar

Embora, como se viu, tenhamos já uma longa tradição de publicação e organização de escritores, a literatura de Brasília ainda não definiu um traço eminentemente regionalista, como, por exemplo, acontece na literatura nordestina ou gaúcha. A verdade é que a nossa opção literária, em termos de tema e de estilo, atende à vocação de Brasília para o cosmopolitismo, como acontece com grandes cidades da linhagem de Rio de Janeiro e São Paulo. Nesse sentido, mesmo que a literatura fale de Brasília é comum vermos textos em que o autor se esforça por transcender a região, tentando captar alguma coisa mais profunda da própria experiência da metrópole moderna. O amadurecimento de uma tradição local dependerá, também, de que os escritores locais inspirem-se não apenas nos escritores de fora, mas também naqueles que são fortemente ligados à literatura brasiliense. Nos outros encontros desse mês trataremos de alguns nomes importantes cultura literária de Brasília. 

 

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Desde quando se lembra, abril é sempre belíssimo. A nítidez é a marca dos dias, em que as cores respeitam rigorosamente as margens. O que ele quer dizer é que em outros meses o borrão da névoa sempre mistura os azuis de céu e mar ou esmaece o verde da grama, desbota o amarelo das margaridas. O resto do ano eram pinturas impressionistas.

Abril, não. Junto com maio, abril é fotografia em alta definição, em que as cores ocupam com exatidão o espaço que lhes pertencem em cada paisagem. Não há céu transbordando para o mar nem plantas e flores manchando o sol. Cada elemento ocupa seu quadro com a precisão de um recorte, sem vazamentos. Talvez por isso as cores lhe pareçam mais concentradas, justamente porque são impedidas de se diluírem.

Mas abril é também mês de resfriados, pneumonias nascidas de gripes mal curadas, febres à beira do delírio. É em abril que as manhãs ventam geladas e sem nuvens, e por isso traiçoeiras. Ao ver o sol cegando o mundo, apostamos no calor e ganhamos às ruas apenas com nossas frágeis camisetas de verão. Quando damos pelo casaco, já é tarde, se foi metade do caminho, o ônibus está quase no ponto de descida, a hora do expediente está quase em cima. Mas aí a garganta já arde, não deixa engolir direito; a cabeça começou a doer do nada, um frio estranho e repentino nos faz tremer. E então nos enxergamos na goela do dia desejando apenas desaparecer em nossas cobertas.

Quantas dessas cenas tem vivas na memória: a manhã  mais espetacular que um cristal lavado, e ele escondido do frio num grosso capote, queimando em febre nos braços do pai, no colo da mãe, rumo ao médico que lhe receitaria injeções e xaropes repulsivos.

Por essas combinações da vida com o calendário, abril lhe desenterra da memória sobressaltos e a ocorrência de contratempos. Não tem o máximo da certeza, ou – vá lá – não tão nítida quanto as cores do mês – mas parentes e amigos queridos morreram em abril, de quando também recorda ter perdido o emprego e passado longo tempo batendo às portas. Fora em abril que batera o carro aquela vez, reduzindo-o a sucata? Se não era, estava perto de ser. Ano passado havia sido o abscesso no dente, a extração às pressas, uma semana de molho. Coincidências que desmerecem a aquarela desses dias, ele pensa no sinal fechado, olhando no horizonte a cortina alaranjada, rastro do sol desaparecido.

E este ano, o que vai ser? Pelo menos até agora, uma hérnia com certa urgência cirúrgica.

Queria virar tinta guache e ser espalhado na natureza por um pintor amalucado, embora de agudo senso estético. Ele demora a ir quando o sinal abre, porque está escolhendo que cor gostaria de ser.

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Ontem foi dia do jornalista. Eu sei que nessa profissão é pecado mortal falarmos de algum assunto depois de todo mundo. Mas estou escrevendo sobre isso só hoje porque não me abalam em nada essas datas. O próprio dia das mães pouco me comove. Inventado pelos comerciantes, sua própria origem explica tudo: faturar, com o apelo do amor materno. É claro que ninguém saiu dando presentes para os jornalistas, mas mesmo que não tenha o caráter comercial, acho irrelevante um dia para uma categoria profissional. Em todo o caso, obrigado pelos e-mails enviados.

Não vou usar aqui o chavão dos repórteres de TV quando fazem a cobertura de dia dos médicos, professores, etc: “No dia de tal categoria, não há muito o que comemorar.”, se bem que no caso dos jornalistas não há mesmo. Em lugar disso, atenho-me a uma frase postada no tuíter.  Ela é de G.K. Chesterton, que só por ocasião da data descobri ter sido escritor inglês nascido no século 19. A frase diz que “não foi o mundo que piorou, as coberturas jornalísticas é que melhoraram muito”.

Serve para aqueles momentos em que abrimos os jornais, ligamos o rádio ou a TV e não vemos qualquer motivo para nutrir alguma esperança no planeta, na humanidade. Convenhamos, desde que a Igreja foi fundada padres abusam de coroinhas, e hoje no Brasil não se deve roubar tão mais assim do que no Império ou na Colônia. A diferença é que atualmente nós ficamos sabendo. E se somos mais bem informados, certamente o crédito é muito mais da tecnologia do que da qualificação profissional.

Instantaneamente, soube-se pelo tuíter que o Ahmadinejad fraudou as eleições no Irã (e nesse caso a tecnologia deu um drible também na censura). Nos terremotos, nas enchentes do Rio, as imagens feitas pelos celulares encheram o tempo dos telejornais.

A regra da informação hoje é a rapidez, a amplitude do espaço, a riqueza da imagem. Quanto à profundidade… bem, sinceramente, às vezes parece que o pensamento é “vamos ouvir um especialista aí qualquer e saímos achando que aprofundamos o assunto”.

*

 

Nesse dia do jornalista li várias mensagens defendendo o diploma. Também defendo, mas até hoje não vi ninguém discutir a melhoria urgente dos cursos de comunicação. Alguém me explica por que os alunos não têm aulas de direito constitucional? De português aplicado ao texto jornalístico?

Estúdios e equipamentos ultramodernos não ajudam a pensar. Essa tarefa é dos livros e dos professores.

Diploma tem que existir, mas segurando ele deve estar um profissional bem formado, com o mínimo de consciência da sociedade e de organização dessa sociedade.

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Jazz e chuva são quase a mesma coisa.

Então ouça se os pingos no parabrisa

Não parecem sax ou piano

Na noite iluminada e semideserta

Engolindo a cidade.

PS: Na cobertura de alguns sites sobre o aguaceiro no Rio, havia link para o relato dos “famosos” sobre o toró. Realmente, a imprensa se supera a cada dia no seu esforço de ser ridícula.

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O preço era recheado de zeros à direita.

E foi aí que entendeu o exagero da classificação:

Só mesmo sendo astro de róliuudi.

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