André Giusti - foto: Luana Lleras
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O Arruda vai passar mais um fim-de-semana preso. Já tem mais de sete dias que ele está só na base da quentinha levada pela mulher e lendo os livros de auto ajuda que recebe de uns tipos inomináveis que aparecem por lá. Se de tanto ler auto ajuda o sujeito realmente melhora, ele sairá em lágrimas e de joelhos, pedindo perdão em praça pública. E devolvendo o dinheiro, o que é o mais importante.

O governador afastado e preso parece mesmo que irritou muito a Justiça. O histórico da senhora de venda nos olhos nesse país é de aliviar a barra dos graúdos. Quantos pretos pobres neste exato instante vivem o inferno das cadeias, tendo merecimento de estarem longe dali? E quantos “Daniéis Dantas” e similares de Arruda são fotografados pelas colunas sociais quando deveriam estar olhando as paredes das celas, relfetindo em quanta escola e hospital deixaram de ser construídos por causa do dinheiro que eles levaram do país?

Arruda começava, pouco a pouco, a ser esquecido pela mídia nacional. Controlando quase todos os veículos de comunicação em Brasília, começava a ver assentar a poeira do vendaval do escândalo que estourou em novembro. Aí quis se livrar da patifaria com mais patifaria.

Dizem que nada irrita mais a Justiça do que tentar atrapalhar o seu trabalho. E Arruda caiu na desgraça de tentar subornar quem, simplesmente, arquitetou todo o plano executado pelo homem que o desnudou moralmente perante o país. Parece que corrupção e burrice juntas não dão bom resultado.

Todo esse tempo na prisão possivelmente não seja tanto pelas imagens da mão gananciosa pegando o dinheiro suspeito, mas certamente é pela tentativa de dar um drible na Justiça, de se achar inatingível na prática de remover qualquer pedra do caminho com dinheiro. Dinheiro sujo.

Agora foi transferido da sala em que estava na Polícia Federal para uma menor, sem janela e sem banheiro. Precisará passar pelo constrangimento de pedir ao policial que toma conta do cárecere cada vez que quiser fazer xixi e cocô.

Um governador de estado?

Pois é, um governador.

O advogado de Arruda, Nélio Machado, considera a situação vexatória para um homem que ocupa tal cargo. O que disse é apenas caixa de ressonância do pensamento de quem está nos degraus mais altos da política, da economia, da sociedade de uma forma geral: a lei não pode mesmo ser igual para todos. Daqui, dos degraus mais baixos, é de se pensar ao modo de uma imagem invertida pelo espelho. Não pode ser igual, deveria ser mais rígida para quem rouba depois de ter recebido a confiança do povo.

Do jeito que seu cliente azedou o humor da Dona Justa, Dr. Nélio, que se dê por satisfeito de não estar na Papuda.

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A Beija-flor não fez um grande desfile. Como não entendo patavina de carnaval, acabo acreditando que o terceiro lugar foi mais do que lucro para a escola que homenageou os cinquenta anos de Brasília, e que para isso levou R$ 3 milhões dos cofres públicos.

Li e ouvi dos entendidos que, entre outros pecados, a escola pisou no acelerador nos últimos minutos de desfile, que houve gente quase correndo para chegar à Praça da Apoteose cumprindo o prazo estipulado pela ditadura da cronometragem.

Mas pelo que me disseram, ruim mesmo foi o desenvolvimento do enredo.

Quem mora em Brasília convive diariamente com a história da construção da cidade. Apesar de meio século já ter se passado, boa parte dos pioneiros, dos candangos, está viva, transita entre nós contando os casos da fundação, e são muitas vezes nossos vizinhos. Seus filhos foram nossos colegas de escola, muitos trabalham conosco. Não raro, nós mesmos somos filhos de pioneiros. Ou seja, a história de Brasília é uma senhora forte, ativa, que anda pela cidade cumprimentando a todos, lembrando esse ou aquele fato por onde passa.

E pelo que me disseram, não foi essa a história – a dos candangos, dos pioneiros – levada à avenida pela Beija-flor. Contar a influência das pirâmides do Egito na arquitetura da cidade, ou mesmo falar do papel do Anhanguera no desbravamento do Planalto Central, são tópicos importantes, mas que não deveriam ofuscar, no desfile, a história de Brasília que ouvimos na padaria, no churrasco de fim-de-semana. É como se ao contar a história do Rio de Janeiro, determinada escola se preocupasse mais em falar sobre Estácio de Sá, por exemplo, deixando de lado o nascimento da Bossa Nova e relegando a segundo plano a Garota de Ipanema.

Ouvi também falarem mal do boneco de fibra representando JK. O jornalista Fernando Molica explica em seu blog que a fibra é péssimo material para tentar reproduzir a figura humana, a não ser que a intenção seja a caricatura. Mas parece que não era. O objetivo foi mesmo levar para a Sapucaí uma espécie de busto alegórico do Juscelino.

Mas o pior de tudo – também me contaram – é que o boneco acabou ficando a cara do Arruda.

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Na sexta-feira, na hora do almoço, o pai veio com a notícia: teria que passar o sábado e o domingo em Volta Redonda. É que surgira um entrevero entre a empresa em que trabalhava e a Companhia Siderúrgia Nacional, a poderosa CSN, àquela época ainda estatal. O patrão nem quis discutir se era carnaval. Vá lá, veja do que se trata e só volte quando tudo estiver resolvido.

O menino, decepcionado, olhou os olhos baixos da mãe, que foram parar no chão igualmente desencantados. Haviam programado um passeio, zoológico, Quinta da Boa Vista, pelo que parecia.

Logo em seguida, o rosto do pai clareou-se em idéia de conforto.

Por que não vamos todos? Mal ou bem, dá-se um passeio.

Daquela proposta à manhã de sábado, tudo o mais se apagou da memória do menino. Desde lá, só se lembra do dia muito azul, e bem cedo todos já de pé: o pai, a mãe e ele, indócil,  como bem sabem ser as crianças perante as novidades. Deveria ser lá pela metade dos anos 70, nem bem tinha sete anos, pelo que pode recordar.

E agora, o baile do nosso querido folião!

E os pais, quase em coro, apontaram-lhe o fusca laranja, tirado semanas antes da concessionária, todo decorado de serpentina e confete. Nas mãos do pai, um colorido e sonoro reco-reco, roubando o silêncio da manhã que o sol do verão começava a esquentar. A mãe lhe entregou um pacotinho de confete, e girou com ele no colo, cantando mansamente em seus ouvidos:

“Ó, mas quanto riso!

Ó, quanta alegria!

Mais de mil palhaços no salão…”

 

A memória corta a cena já para a estrada. Ele segura forte um rolinho de serpentina, de onde sobra um pedaço desenrolado, quase se desprendendo enlouquecido pelo vento que entra forte pela janela do pai. Junto, vem um cheiro de eucalipto perfumar a liberdade da estrada. No rádio, ouvem um especial sobre antigas marchinhas de carnaval.

“Ó, mas quanto riso!

Ó, quanta alegria…”

É a que toca lá pelas tantas, e a mãe arregala os olhos num tipo de espanto feliz. Emenda a letra, pega-lhe os dedos, e mesmo no carro em velocidade imita movimentos de um salão de baile.

Agora, no quarto escuro, no limiar abafado da quarta-feira de cinzas, uma brisa de momento traz alívio apressado para o calor da noite. Não tem a força do vento da janela do fusca, não cheira a eucalipto de estrada, mas carrega saudade maior que a distância do passado.

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De manhã,

o silêncio também é música.

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Chuva branda

escorre na vidraça

e o enfado suave

desse movimento

me lembra mulher

- que não tenho -

adormecida branca linda

que também se move

querendo retornar

do abismo

do sono intocável

do silêncio da noite

que ainda faz

o quarto imenso.

Da rua chegam

os avisos tímidos

da roxa cinza chumbo

aurora de figuras fugidias.

Corpo de mulher

nem santa nem devassa

apenas comum

semi-nua imagem

desvanecida se apagando

junto às últimas luzes.

Em outra manhã

de outro mundo

minha poesia acorda

amarrota lençóis

e transforma em luz

pássaros que abandonam

seus cabelos

e descobrem o sol.

1991.

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Ouvida pelo telejornal de uma emissora, a moradora de Brasília defende a gestão de José Roberto Arruda. Diz que no governo, o homem que deverá mesmo (por incrível que pareça) passar o carnaval no xilindró, fez muitas obras, melhorou o transporte de ônibus, ordenou a cidade e por aí vai.

Não era muito difícil para Arruda fazer algo melhor do que seu antecessor, Joaquim Roriz, que perigosamente ameaça voltar a governar o Distrito Federal, de acordo com pesquisas. De fato, Arruda mandou os empresários sovinas comprarem mais ônibus, embora esse sistema de transporte no DF continue inacreditavelmente horroroso. Sabe-se lá a que custo ambiental, rasgou o DF em várias partes alargando vias, rodovias e passando viadutos para lá e para cá, seguindo a tradição brasileira de prestigiar o carro em detrimento do trem e do metrô. Iniciou a regularização dos condomínios, invasões de classe média que enriqueceram muitos grileiros de terras públicas, alguns dos quais, dizem, estão na política ocupando cargos de destaque. Pretendeu começar por aqui uma espécie de choque de ordem, que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, consegue fazer de forma mais amplificada, até porque é no Rio. Arruda investiu-se como administrador da ordem, mas esqueceu que só se chega à ordem se houver moralidade. E esse foi o maior abismo do governo Arruda.

A moradora ouvida pela televisão parece aceitar, mesmo sem pensar que aceita, a máxima do ademarismo, que é o rouba, mas faz. Não, uma administração boa não é uma administração corrupta, como disse aqui mesmo, nos comentários do blog, o poeta e professor Alexandre Pilati. Mesmo que faça obras, que mande comprar ônibus, que faça hospitais. Mesmo que torne o ensino público coisa de primeiro mundo, um governante que rouba não é um bom governante.

Queremos obras, ônibus, hospitais e escolas.

Mas tudo isso sem roubar. Ou melhor, sem que nos roubem.

* Campanha lançada do blog do jornalista Ricardo Noblat.     

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Anunciaram meses a fio que a festa pelos 50 anos de Brasília seria um desfile de astros. Disseram que com Paul MaCartney estava tudo acertado, que só faltavam alguns detalhes. E que ao lado dele estaria Roberto Carlos cantando uma canção com o ex-Beatle. U2 e Madonna, figurinha fácil por aqui nos últimos tempos, também estavam cotados para sacudir os esqueletos dos moradores da capital do país.

Paul MaCartney, dizem, pediu alto, e não haveria dinheiro escondido nas meias que pagasse o cachê. Roberto Carlos saiu de fininho. Mandou dizer que tinha shows na agenda. A essa altura da vida é muito tarde para sujar seus belos blazers com migalhas de panetones suspeitos.

Quando a bandalheira veio à tona, acho que nem tiveram mais cara de procurar gente lá fora para animar o cinquentenário da cidade. Tiveram que correr por aqui mesmo e resolveram a parada com os mesmos de sempre. Cláudia Leite, Ivete Sangalo e uma ou outra dupla sertaneja que todo fim-de-semana estão por aqui foram convocadas às pressas para que houvesse ao menos alguém fazendo barulho no palco a ser armado na Esplanada dos Ministérios.

A programação para festa dos 50 anos de Brasília se anuncia deprimente, mas é o retrato da lama em que a ladroagem mais repugnante e descarada enfiou a cidade e, de quebra, a reputação dos moradores, honestos em sua quase totalidade.

Possivelmente quando você estiver lendo esse texto, o chefe da quadrilha já tenha deixado a prisão por causa do entendimento de algum notabilíssimo e empavonado ministro de tribunal superior.

É bem possível também que em abril, quando Brasília sopra as velhinhas, o Distrito Federal esteja sendo governado por um interventor nomeado. O  fato é inédito entre as unidades da Federação, pelo menos nos tempos mais recentes e, mais ainda, por causa de gatunagem explícita. Um presente que JK jamais pensou que a cidade que construiu ganharia quando soprasse 50 velinhas.

Óbvio que no caso de uma intervenção federal, quem estiver com essa batata quente na mão terá milhões de outros abacaxis para descascar, e os 50 anos de Brasília não deverão estar na pauta do dia. Talvez nem música baiana nem dupla que chora os chifres que a mulher botou dê para trazer, o que convenhamos não seria má idéia.  

Mas já que estragaram mesmo a festa toda, se a capital não poderá festejar seu meio século de fundação do jeito que merece, que ao menos passe seu aniversário livre de quem a saqueou os cofres. Vendo por esse lado, dá até para comemorar. Desde que não seja, é claro, com axé e música sertaneja.

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Uma das poucas coisas de que não sinto falta no Rio de Janeiro certamente é o calor de fevereiro. Não há novidade no que está nos jornais, dizendo que a cidade só não é mais quente do que um lugar perdido lá no Saara. Qualquer carioca que more ou tenha ido, por exemplo, a Bangu e adjacências nessa época do ano na hora do almoço sabe que lá o diabo tem saudade de casa.

No verão carioca jamais deixe o carro estacionado debaixo do sol. Se deixar, não pegue o volante sem a proteção de uma flanela. Ao contrário, suas mãos ficarão feito gado marcado com ferro em brasa. Lamento dizer, mas não estou sendo tão exagerado assim.

Certa vez estava fazendo uma reportagem na favela de Vigário Geral. Era um desses dias de janeiro ou fevereiro, mais de duas horas atrás da Polícia em uma operação de rotina. E por uma dessas crueldades do jornalismo de televisão (com o repórter, diga-se de passagem), eu vestia um vistoso terno e uma bela gravata, mas que me eram instrumentos de tortura naquela situação.

Terminado o trabalho da Polícia, mais de meio-dia, comprei duas enormes garrafas de água mineral. Uma bebi feito um camelo desidratado. A outra, virei inteira na cabeça, sem pena de ensopar o paletó.

Bom, toda essa introdução para falar de poesia. Abaixo, uma pequena série de cinco poemas escritos entre 1992 e 1995, bem nos meses da canícula, daí o título.

Aos meus conterrâneos, tentem refrescar ao menos a alma.

O Rio em janeiro fevereiro e março

I.

O dia amanhecendo
derretia luzes na Lapa.

II.

A noite caiu
a terra em volta abre
poros quentes.
Vapor
Vapor
Vapor.
Árvores imóveis
não dão sinal de chuva:
peço piedade
pro dia seguinte.

III.

Era de manhã
quando meu coração louco
passou a 120 pela Lagoa – Barra.
A Pedra da Gávea sorriu para mim,
me mandou beijos com ares de Mona Lisa.
O dia estava azul para sempre
e me apaixonei mais cinco vezes
até a noite.

IV.

Urca
Baía de brilhos
e curvas
e espuma de cerveja.
A vida roda ali agora
em mão dupla
na enseada de Botafogo.
A lua calada
quem sabe confessa
saudades de um sambista morto.
Marola vem e volta
pra escuridão
(e isso, na pedra,
é antiga percussão).
Na mureta
velha amiga solta o cabelo
insinua seios
giro olho e língua
vira nova amante. 

V.

Os flamboyants sangrando
nos galhos suspensos
são corais que se entediaram do mar
e foram viver nas árvores.
Outras flores
de nomes confusos
esperam entardecidas
o vento furioso
de um provável temporal.
O sol é um tigre asiático,
devora meus ombros
com fome de três dias.
Samambaias avencas
begônias jibóias
por trás dos muros que fervem
rezam pela misericórdia
da brisa.
As sombras heróicas
irredutíveis
montam guarda
embaixo das mangueiras
das amendoeiras
e aguardam que cheguem
suas irmãs noturnas
recortadas pela lua.
Deus é um pintor de horas vagas
que carrega nas cores
de vez em quando.

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De vez em quando você se dá conta de que ficou mesmo faltando ler alguns dos mais importantes livros da humanidade, de que teve em mãos e deixou passar Cervantes ou James Joyce, aliás, um saco, a maioria diz, mas mesmo essa oportunidade, a de também achar chato, você perdeu.

Também entrou e saiu de seus ouvidos o nome de algum dos discos que estão na lista dos mais de mil que você deveria ouvir antes de morrer. Resignadamente, pois, você morrerá sem ouvi-lo. Por mais que estique o elástico da memória, você não recaptura o nome do disco e muito menos o do sujeito que lhe falou dele, para que você vá atrás e pergunte de novo.

Jamais viu o pôr-do-sol no Pontão do Atalaia, porque também nunca prestou atenção onde fica ao certo esse lugar, se é mar, serra, chapada, despenhadeiro, logo ali ou fim do mundo.

Nunca aceitou o convite do antigo parceiro para montar um time de botão e jogarem como faziam na adolescência. E olha que você adora o cara, mais ainda jogar botão.

Pouquíssimo tem visto a lua, e quando finalmente procurou na frente do prédio o jasmineiro em flor, do qual sua mulher falou semanas, a florada já havia terminado.

Nem lembra o último filme a que assistiu do Woody Allen, logo você que quando era mais novo não perdia um.

Nunca mais também escutou Iran Maiden. Aliás, em que canto da casa a expansão da família confinou seus vinis do Iran, do Deep Purple?

Já morre de saudades do tempo em que a filha mais velha era bebê, e que você a trocava apressado ou com sono no meio da madrugada, iludindo-se, pensando que o tempo seria congelado para que você pudesse curtir tudo aquilo com mais calma, quando estivesse mais folgado.

Tem dias que você quase manda mesmo tudo às favas e vai  viver ver ler assistir ouvir tocar as coisas que são as mais importantes.

Mas esse também é um outro problema seu: você nunca chegou muito perto do quase.

Irritantemente covarde, você sempre abaixou a cabeça para as coisas sem importância.

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Foi por acaso que passou pela gôndola dos vinhos. Na verdade procurava pão-de-forma, que a mulher pedira para comprar em cima da hora de ele voltar do almoço para mais uma reunião sem importância, daquelas que não convém faltar. Mas como estivesse cansado, deixou-se contemplando aqueles rótulos vistosos. Às vezes, quando pousava os olhos assim em um conjunto de elementos coloridos, aliviava o esgotamento, parecia até que respirava pelos olhos.

Deu com a bandeirinha da Itália. Seus vinhos prediletos eram de lá, contrapunham os sabores fortes, os temperos quentes de que tanto gostava.

Suas noites de sábado eram calmas no geral, em paz como a consciência dos que vivem do próprio esforço. Havia travessura de crianças, mas mesmo assim conseguia ouvir jazz ou blues. Mais para a madrugada, com o sono, chegavam o silêncio e as sombras que a luz da rua desenhava na parede da sala. E o vinho italiano descia refrescando a alma e seus sonhos teimosos, aqueles mais verdadeiros.

Pão-de-forma.

Se der, compra amaciante.

E as camisas passadas na lavanderia, quem vai buscar?

Há dias doíam as costas, e ele nem desconfiava do motivo.

A gravata tolindo o pescoço, e o diabo de uma calça quente pinicando as pernas.

Lá fora um calor sem piedade derretia o mundo.

Cinco minutos ou menos para a reunião.

Olhou uma das garrafas, a do seu preferido.

Mas ainda era somente terça-feira.

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