André Giusti - foto: Luana Lleras
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‘Inda pouco eram sete horas

Agora são quase dez.

A semana já está acabando

E sábado-e-domingo também é tão rápido.

O ano passou do meio

E minha vida, da metade.

Logo é outro natal

Teu aniversário é mês que vem

Qualquer dia, a nossa morte.

Apenas a gradual angústia das horas

É lenta,

Lenta feito um visgo-movediço-vagaroso

Nos subindo pelas pernas,

Passando da cinutra

Até nos roubar inteiramente o ar.

* Esse poema esta publicado no último número de caderno de poesias 7faces. Conheça o caderno acessando http://set7aces.blogspot.com/

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O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, disse hoje que a denúncia de suborno, que pôs ainda mais pimenta no vatapá da bandalheira em Brasília, significa a falência múltipla das instituições, ou da moralidade, ou da dignidade da administração pública. Agora não vem à cabeça a frase com exatidão, mas o sentido era esse, carregado de uma contundência que, aliás, está faltando às autoridades que podem tirar do poder a quadrilha que envergonha o morador da capital do país.

A expressão falência múltipla me faz, ainda uma última vez, falar de Ernesto Silva nesse espaço. O médico, pioneiro de Brasília, morreu quarta-feira aos 95 anos. Falência múltipla foi a causa mortis, o que geralmente consta nos atestados de óbito de alguém que viveu tanto tempo como ele, boa parte se dedicando a construir e a manter uma cidade bem diferente da que vivemos hoje física e, acima de tudo, moralmente.

A falência múltipla levou Ernesto, libertou-o de um corpo que já era um fardo.

Pois bem.

Que leve também o corpo apodrecido da roubalheira que envergonha e pesa nos ombros da gente honesta dessa terra.

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Parece emblemático que Ernesto Silva tenha ido embora justamente no momento mais delicado da história de Brasília, quando a podridão exposta ao resto do país quase dá de ombros, certa de que não haverá golpe algum de justiça capaz de abalá-la.

Aos que nada conhecem da história desse pediatra, foi um dos homens mais importantes da construção da nova capital. Veio aqui ainda no governo Vargas demarcar os limites da cidade, época em que os tatus e as onças mandavam no terreiro. Construída a capital, resolveu fazer dela a sua casa. Foi o único dos nomes conhecidos da odisséia Brasília que decidiu morar na cidade que ajudou a levantar. Terminou sua missão pouco antes que a grande filha em forma de avião completasse 50 anos.

Mais importante do que o passado de Ernesto Silva em Brasília, era o presente de Ernesto Silva em Brasília. Defendia a cidade como patrimônio histórico, mas na verdade seu combate era pela qualidade de vida, o maior patrimônio que o morador de qualquer cidade pode almejar conseguir. Insurgindo-se contra o andar a mais nos prédios do Plano Piloto, defendendo a área pública da ocupação sem ordem ou os gramados e as árvores do apetite dos carros, era uma pedra no sapato daqueles que querem susbstituir a liberdade dos grandes espaços pela opressão dos arranha-céus e pela neurose dos congestionamentos.

Ernesto Silva era um dos últimos intérpretes de uma Brasília que se quis humana, que nunca se imaginou recebendo o lixo político do resto do país nem servindo de retiro a uma elite funcional parasitária, engordada por vantagens e gratificações –  muitas vezes imorais – ou propinas e comissões – sempre ilegais. Uma elite, não apenas de funcionários públicos, mas de outros ramos da economia, que em parceria com a classe média e com o chamado povão, é cúmplice por omissão ou por proveito de um governo local alcaponiano, de um parlamento distrital inútil e apodrecido e de uma justiça vaidosa, preguiçosa e complacente.

A morte de Ernesto Silva nos deixa a sensação inesgotável da orfandade, e leva com ela uma Brasília que talvez sequer tenha existido de fato, e que certamente nós que ficamos não conseguiremos recuperar.

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Morreu hoje, às 13h15, o médico Ernesto Silva, pioneiro de Brasília e um dos homens mais importantes da história da cidade, não apenas no que se refere à construção, mas também à sua história e preservação arquitetônica.

Estava com 95 anos e doente há alguns meses. Morreu de falência múltipla dos órgãos. Não verá completar meio século a terra que ajudou a levantar. Pela defesa aguerrida de Brasília como patrimônio da humanidade e da área verde da capital do país, principal riqueza da cidade, o blog presta sua homenagem.

Morreu Ernesto Silva.

E agora, como ficará o jardim em frente ao bloco?

Quem vai proteger a área verde lá da quadra?

Quem vai impedir que o parquinho das crianças vire estacionamento?

Meu Deus!

Quem vai nos defender da Via Engenharia?

Da PaulOOctávio?

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Aprendi na pouca teoria sobre jornalismo que li em minha vida que a imprensa é o canal entre o estado (governo) e a sociedade. Cabe ao jornalista traduzir para esse estado (governo) os anseios da sociedade, e voltar trazendo de maneira interpretada os (des)mandos dos palácios. Ir e vir, tornando claro o entendimento para cada parte.

Pelo menos em relação à linguagem não é isso que está acontecendo. Não no radiojornalismo.

Os textos de repórteres e redatores estão sufocados pelo “oficialismo” vazio das autoridades, que usam e abusam da linguagem emproada. Usam a espuma dos discursos prolixos para esconder que não conhecem nada do que estão falando. Enchendo os ouvidos da sociedade com palavras de efeito e termos técnicos, disfarçam que o secretário de saúde nada entende de hospitais, o de educação de escolas, e por aí vai. E nós caímos feito patos nessa esparrela. Essa ignorância que deveria ficar nua nos textos das emissoras de rádio, ao contrário, fica muito bem vestidinha com um modelito de falsa competência, porque não conseguimos traduzir e desmascarar o que eles falam para a linguagem do homem, da mulher comum.

Mais uma vez não vou me estender nos exemplos. Eles dariam um blog inteiro. Falarei de apenas dois.

Vejamos a palavra demanda, vocábulo básico do universo economês. Não deveria, mas atravessou as fronteiras desse mundo inalcançável pela maioria dos mortais e hoje é de emprego corriqueiro em situações que passam longe dos assuntos de economia. Não existem mais vontade, necessidade e procura. Todas elas são substituídas pela chique demanda, mesmo que seu significado não se encaixe exatamente no que se quer dizer ou escrever. O que importa é “tascar” uma demanda no meio do texto para ficar bonito, importante. Afinal, a autoridade, aquele homem tão bem vestido falou “que a demanda isso, que a demanda aquilo”. Sem pensar no que realmente significa demanda, sem criatividade para achar alternativa que deixe clara a informação para o ouvinte, o repórter ou o redator entram no ar, gravam a reportagem sem terem cumprido plenamente seu papel de ponte entre estado e sociedade.

Unidade é outra palavra a qual o linguajar técnico atribui um significado maior do que aquele que ela possui originalmente. Unidade, nos relatórios embolorados dos gabinetes, quer dizer escola, hospital ou posto de saúde, delegacia e outros lugares sustentados com nossos impostos. A designação parece que se libertou do mofo da burocracia e ganhou as ondas do rádio. É cada vez mais comum ouvirmos sobre a inauguração de tal unidade de saúde ou então que tantos alunos vão estudar em tal unidade escolar. Há pouco tempo, em uma das rádios de notícias do país, em um boletim de míseros quarenta segundos a repórter falou a palavra unidade três vezes ao se referir a um desses locais.

Sou do tempo em que escrever hospital e escola era bem mais fácil.

E mais piedoso com os ouvidos da audiência.

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Obrigado, por força do ofício, a ouvir diariamente as chamadas emissoras de rádio all news, constato há muito tempo que o texto de redatores e repórteres é um convite a que ponhamos nos ouvidos os fones de nossos MP3. Ou mesmo que optemos pelo silêncio da alienação.

Eu poderia partir de vários pontos para começar esse post abordando a baixíssima qualidade do que é escrito no rádio no Brasil, especialmente no jornalismo de rádio, que é a minha parte nesse latifúndio. Penso que o assunto é merecedor de um blog inteiro, com atualização diária devido à grande quantidade de defeitos do que se ouve nas emissoras, e que não se encerra em uma única postagem. Para ser mais realista, precisa-se mesmo é de uma urgente discussão envolvendo quem está fazendo rádio e quem está ensinando e aprendendo radiojornalismo.

Nesse caminho pedregoso e espinhento, vou me ater aos dois aspectos que me parecem mais graves: a falta de vocabulário e o predomínio da linguagem e dos termos oficiais no que se escreve, e consequentemente no que se ouve.

Tomo o verbo afirmar como exemplo da aridez vocabular nas ondas do rádio.

Em um idioma com cerca de 30 mil verbos, nos textos de radiojornalismo todo mundo afirma alguma coisa no país e no mundo. Só afirma. Nenhuma autoridade, artista, jogador de futebol, qualquer um que dê a mais banal das declarações aos jornalistas de rádio diz, fala, conta, informa, garante, assegura, lembra, alerta, adverte, rebate, insiste, argumenta, pondera. Todos, nos textos de repórteres e redatores, só afirmam, sempre afirmam, numa irritante demonstração do quão está limitado o universo de verbos dos nossos profissionais. Afirmar, que é verbo forte e por isso deve ser preservado, é usado em frases que não o exigem, que ficariam melhores com verbos mais fracos. Se o posto de saúde mudou o horário de funcionamento, prepare-se para ouvir que a diretora do posto afirmou que o posto mudou de horário, quando o que ela na realidade fez foi informar a mudança. Informar é verbo mais humilde, corriqueiro, perfeito para uma situação quotidiana de um noticiário. Mas no lugar dele vulgariza-se o afirmar, saturando a paciência do ouvinte.

Na esteira de afirmar, seguem outros exemplos, até mesmo fora do clube dos verbos. A expressão por conta substitui invariavelmente suas primas por causa ou por que. Nenhuma rua mais enche por causa do temporal ou por que choveu muito. É sempre por conta do temporal. Nos textos de radiojornalismo, toda pessoa que seja notícia sempre vai fazer isso ou aquilo, chegar a esse ou àquele lugar na manhã de hoje, na tarde de amanhã, na noite de segunda, quando, na verdade, as pessoas, incluindo os jornalistas, vão ao cinema hoje à tarde, vão jantar fora amanhã à noite ou jogaram futebol ontem de manhã.

 

Os profissionais de rádio estão se esquecendo de que o meio pede que falemos da maneira que falamos em nosso dia-a-dia, obviamente resguardando o ouvinte das gírias e expressões incorretas. Sem se darem conta disso, banem de seus textos elementos fundamentais ao uso diário de nossa língua. O Presidente nunca acredita que o país vai superar a crise, mas sempre diz acreditar que o país vai superar a crise. O jogador nunca diz que está confiante na vitória. É sempre diz estar confiante. O que faz parte de nossa vida, nossa língua, é apoio até mesmo da elegância do texto, e não pode ser dispensado sempre. O uso indiscriminado do verbo no infinitivo é tão aborrecido quanto o “queísmo” , tão corretamente combatido anos atrás dentro das redações.

Amanhã falo sobre como a linguagem embromada das autoridades está ganhando de goleada da clareza do texto jornalístico.

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Meu quarto livro de contos, A liberdade é amarela e conversível, lançado ano passado pela Coleção Rocinante, da 7Letras, está sendo sorteado no blog O BULE.

O BULE é um blog bem interessante, que entrou no ar no primeiro dia do ano. Traz resenhas, críticas e sempre textos interessantes, como contos e crônicas.

Destaco a apresentação da página. Belíssima.

Tem gente boa participando, entre as quais o escritor Geraldo Lima, que recentemente lançou o romance UM, pela editora LGE.

Quem quiser participar do sorteio do meu livro, é só acessar http://o-bule.blogspot.com/ , e aproveitar para conhecer o bom conteúdo do blog.

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Pois é, para você ver.

Vasculhando fichários empoeirados da mente, descobri que esse vácuo de minha vida de leitor pode ter a ver com a faculdade de Comunicação Social.

É que na década de 80, a exemplo do que já fazia há mais de trinta anos nos Estados Unidos, O apanhador no campo de centeio norteava as cabeças de uma penca de jovens no Brasil, ainda mais se fossem estudantes de comunicação, e principalmente dos que queriam ser jornalistas. Nos anos 80, alguns estudantes de jornalismo ainda pensavam em chegar às redações para mudar o mundo, derrubar governos. Serviço Público era somente o destino de conformados burocratas sem talento, e na faculdade nimguém achava que o curso serviria de trilha para se entrar no Big Brother, até porque, à época, nada existia de tão grotesco.

Lembro-me de um professor universitário dizer que a obra máxima de Salinger estava para os pretensos comunicólogos assim como O Pequeno Príncipe estava para as misses nos anos 50. E parecia mesmo. O livro morava nas bolsas de couro de um povo que se odiava por não ter vivido nos anos 70. Estava também na cabeceira de tipos convictos de serem intelectuais de uma resistência que só existia na cabeça deles.

Olhando para trás, no tempo, chego à conclusão de que foi isso que me privou de Salinger. E como parte de minha responsabilidade, a irresistível tendência em ser do contra.

Na verdade, é bem normal que ao longo da vida não consigamos ler todos os mais importantes livros da história. O problema é que quando um grande autor morre, fica um sentimento de culpa, um complexo de ser desconectado se nada dele conhecemos.

Bem tarde devorei Cem anos de Solidão, em êxtase.

Bem mais tarde do que deveria, parei de fumar.

Semana passada, em O Globo, o colunista José Castello disse que até hoje Salinger lhe provoca assombro.

Pois sempre é tempo de se assombrar.

E de ser rebelde.

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A quantos lugares retorno vendo a lua.

Quantas épocas vivo outra vez olhando a lua.

Quantos outros volto a ser quando nasce a lua.

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Quando viu, a pequena de dois anos estava mexendo no aparelho, querendo pendurá-lo pelo fio do headphone. O coração veio-lhe à boca. 120 GB, dez prestações, e ainda estava na terceira.

-Filha! Larga o Ipod do papai!

Levantou num salto da poltrona, mas logo deu-se conta de que movimentos bruscos assustam as crianças, da mesma forma que espantam os peixes. Assustadas, podem deixar cair o que seguram. Há casos em que jogam na parede o que têm às mãos. São mesmo terroristas imprevisíveis que acendem o pavio da dinamite ou puxam o detonador da granada ao se sentirem ameaçados. Todo cuidado com essas coisinhas patuscas.

Então, cuidou em se aproximar devagar, amansando a voz. Imagina só, um arquivo já com dez mil músicas! E se aquilo quebra? A grana, o trabalhão de baixar tudo de novo.

Tocou mansamente sua “peixinha”, sussurou para sua linda Bin Laden.

-Filha, dá o Ipod do papai, dá? Toma o porquinho rosa…

Ela se convenceu da troca, afinal o tody era molinho, coloridinho. Aquele negócio que o papai botava no bolso, que tinha uns fios que ele enfiava no ouvido, era duro, cinza, sem graça.

Enquanto ela sumia pelo corredor, ele voltou à poltrona. Ficou olhando as capas dos CDs reproduzidas na tela do aparelhinho. Tinha mais de quarenta, nascera no vinil, migrara para o CD. Agora, baixava músicas para não ser dinossauro, para que a garotada de vinte e poucos pelo menos não risse tanto dele, que não lhe devotasse tanto o sarcasmo reservado aos tios.

Ipod, papai. No eco de sua cabeça, aquelas duas palavras não combinavam. Era de um tempo em que pai tinha chinelo, óculos, caneco de chope, caneta parker, relógio mondaine, rádio philco pro futebol. Pai não tinha Ipod quando ele era criança.

E aí veio um aperto no peito, uma lágrima nascendo lá por trás do olho. Pela janela, no fundo da noite lá do infinito, viu o pai dizendo num sorriso “é a vida, é a vida”.

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