André Giusti - foto: Luana Lleras
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O jornalista Cláudio Humberto, que divide comigo a bancada do jornal Gente Brasília (2ª a 6ª às 9h na BandNews 90,5 FM) observou no programa de hoje que a tragédia no Haiti oferece oportunidade ímpar e definitiva para que o chamado mundo rico ofereça uma realidade nova ao país.

Na hora sorri com desdém da idéia, não pelo seu conteúdo, mas pela impossibilidade de vê-la nascer na prática. Logo eu, que sou bem mais utópico que meu companheiro de microfone, homem sem ilusões, calejado pela cobertura jornalística do poder.

Agora, substituído o desdém pelo humanitarismo, me pergunto se não seria mesmo a hora de se resgatar de debaixo dos escombros não apenas corpos dilacerados e milagrosos sobreviventes, mas um país inteiro. Tendo na história duas ditaduras familiares e sangrentas (Papa Doc e Baby Doc), o Haiti é soterrado pela miséria extrema, 80% da população estão abaixo da linha da pobreza.

O terremoto poderia servir para que a globalização estendesse ao menos uma vez a mão para ajudar aqueles cuja vida ela própria surgiu prometendo melhorar.

Numericamente, é plenamente possível. O Goldman Sachs pagou no ano passado a título de bônus a seus executivos o equivalente a 1/3 do PIB do Haiti. Se reduzisse a fatia para 1/4 e desse uma parte aos miseráveis que vivem com menos de US$ 1 por mês, já resgataria dos escombros um pouco da dignidade no país.
Não estamos pedindo o bônus inteiro, só um pedaço pequeno. Não estamos pedindo um pedaço pequeno apenas ao Goldman Sachs, mas igualmente aos outros que se equivalem. Não estamos pedindo o dinheiro do lucro de produção, do salário de trabalhadores, mas o que entra pela janela desses bancos trazido pelos ventos generosos dos lucros.

Por falar em lucros, a tragédia no Haiti aconteceu no mesmo dia em que Barack Obama anunciou a taxação sobre o que os bancos ganharam no ano passado. Meio sem graça e com sorriso amarelo, Obama está cobrando de volta o dinheiro do contribuinte que ele emprestou para os banqueiros saírem da crise que eles mesmos fundaram. Sugiro que o presidente cobre juros sobre os juros cobrados, ou seja, que combata fogo com fogo ou a cobra com seu próprio veneno, e que mande entregar a diferença ao Haiti, para que o país comece a sair de seu permanente terremoto.

E se não for pedir demais – e não é mesmo – pensem também na África, credora secular de uma dívida moral e humana de grande parte do mundo, incluindo o Brasil.

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O menino triste que mora em meu prédio está lá embaixo quase todas as vezes em que chego ou saio, sempre levando pela coleira dois ou três cachorros. Não distingo as raças, de cães entendo apenas de fazer festa nos mais dóceis e manter distância dos mais bravos. Só sei que em cada leva que vai para o passeio, são diferentes os bichos. A mãe do menino triste tem 14 cachorros dentro de um apartamento, para a revolta e incômodo dos vizinhos. É do tipo que acha que cachorro é mais importante do que gente, do que criança, que é a melhor espécie de gente. Respeito os bichos, mas ainda penso que as pessoas, apesar de todos os problemas que trazem, são mais importantes.

Morando em um “canil”, é compreensível que o menino viva lá embaixo, invariavelmente com duas ou três coleiras na mão. Passa ao largo das outras crianças do prédio, desvia das correrias. Quando está longe – e quase sempre está – arrisca olhar as brincadeiras, e em meio a cocô, xixi e latidos, parece dar como justo e normal que ser criança não é aventura que ele mereça. Atrás de bola nunca o vi, tampouco sentado no selim forçando as pernas curtas contra os pedais de uma bicicleta. Cercado de quatro, oito, doze patas, segue sua vida de menino sem meninice.

Eu não o cumprimentava. Injustamente, estendia ao garoto o silêncio dispensado à mãe, sem raciocinar que a culpa de se criar 14 cachorros em um apartamento não é da criança. Aliás, as culpas pelas imbecilidades do mundo nunca são das crianças.

Igualmente errados, os outros vizinhos dispensam ao menino nada além do olhar frio e acusatório que nasce das querelas adultas. Sabedor disso, o menino não foge apenas dos de sua idade. Toma distância também dos grandes, desses mais ainda, pois podem condená-lo pelo erro do qual ele compactua porque é menino, porque menino não tem muito direito de querer ou não. Mantém-se isolado, na companhia de cachorros, falando com cachorros.

Até que outro dia, um dos cães que ele levava latiu para uma de minhas filhas. Nervoso, temendo que o litígio com a vizinhança explodisse ali, tratou de dizer “Calma, ele não vai te morder, ele ‘tá é com medo de você”. E a frase foi seguida de um sorriso trêmulo, tímido, doce. Como eram doces a voz afobada e o sorriso acanhado do menino, que quase pedia permissão para sorrir. Foi a primeira vez que o vi sorrir. Foi a primeira vez que ouvi a voz do menino triste do meu prédio.

Ainda fiquei alguns minutos por ali. E como criança não tem mesmo muito assunto que puxar com adulto, repetiu mais um tanto “ele não vai ter morder, não fica com medo”, embora minha filha já até fizesse festa no focinho do bicho.

Desde lá passo e cumprimento o menino triste do meu prédio. Ele responde com a voz doce e afoita, desacostumado que é a receber “olá , como vai”. Às vezes até sorri, da mesma forma cândida, insegura. Mas quando as outras crianças estão por perto, me olha sério, pedinte, como querendo que eu, por um instante, tome conta dos cachorros para que ele vá correndo viver um momento que seja de meninice.

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Do lado direito da rodovia que liga o Rio de Janeiro a Brasília (BR 040), bem junto à entrada da cidade do Gama, fica um dos principais marcos da época da construção da nova capital.

O Catetinho está escondido atrás de uma curva, cerca de 200 metros após a saída da estrada. Os mais apressados ou desatentos à sinalização talvez nem notem a indicação de que ali fica um palácio, mesmo que de todo modo a construção renegue o substantivo que ostenta tanto garbo.

JK dormia ali quando vinha visitar o imenso canteiro de obras que virou o Planalto Central. Era, pois, a residência do Presidente da República naquele imenso rasgo vermelho que homens e máquinas abriram no cerrado. Por isso há quem o chame de palácio, especialmente os adoradores dos “oficialismos” da história. O Catetinho foi batizado assim por causa do – este sim pomposo – palácio da Rua do Catete, ícone do Rio capital da república, volte e meia trocado por Buenos Aires na desinformação do primeiro mundo. Catetinho, no diminutivo, soa como paródia, coisa bem de brasileiro.

O diminutivo do nome não resume apenas o tamanho da construção. Retrata também sua simpatia, calcada certamente na simplicidade.

Erguido em apenas dez dias, o Catetinho, claro, nasceu do traço de Oscar Niemayer, que deu forma à idéia de um grupo de amigos de Juscelino. O grupo se quotizou e bancou a casa em que o presidente morou enquanto construía Brasília.

Pela urgência em ficar pronto e pelos recursos disponíveis, o Catetinho foi feito em madeira. São apenas dois andares. Em cima, a sala de trabalho de JK e três ou quatro quartos, entre eles o do próprio presidente. Juscelino dormia em uma cama de casal tamanho padrão, posta em um espaço não maior que vinte metros quadrados, o necessário para uma mobília totalmente despojada de requinte. Colado ao quarto, um banheiro com uma pequena banheira. Juntos, quarto e banheiro certamente desapareceriam na imensidão suntuosa dos cômodos das mansões de hoje em dia da capital do país.

Embaixo estão a cozinha, a lavanderia e pequenas salas que eram depósitos na época, além de um espaço aberto que servia de refeitório. Nele, e em longas mesas de madeira, conta a história do Catetinho que JK almoçava ao lado dos engenheiros e dos operários, juntando o poder, a elite trabalhadora graduada na univerisdade e a parte de baixo que sustentava – e levantava – a pirâmide do sonho de Brasília, um convívio impossível na cidade dos dias de hoje com sua segregação social.

A ligar todos os cantos do Catetinho, ou o chão de cimento no lado de fora ou aquela cerâmica vermelha, tosca, tolida de qualquer acabamento.

É ingenuidade pensar que a época da construção de Brasília foi um tempo de anjos, de homens santos investidos de nobre missão. Corre paralela à versão oficial, a história – entre tantas outras – dos caminhões de terra que faziam uma viagem e recebiam por quatro. Mas passando os olhos pelo Catetinho e logo em seguida pelo Brasil de hoje, e principalmente pela Brasília de hoje, é de se duvidar de que os homens públicos de agora se contentariam com uma simples casa de madeira.

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Eu vou.

Não há quem tenha mais de 35 anos que não se lembre desta frase curta e direta formando o logotipo em que o mapa da América do Sul nascia do braço de uma guitarra. Decorou milhares de camisetas e vidros de automóveis naquele verão de 1985. Além de propaganda do festival, era uma espécie de senha identificando quem havia comprado o ingresso. Não me lembro se tive camiseta ou adesivo, mas me lembro exatamente daquele 11 de janeiro, 25 anos atrás.

Era uma sexta-feira, calor igual ao que está fazendo hoje no Rio. Camiseta da Pier, bermudão de surfista, tênis all star e a mochila cheia de uns biscoitos que deveriam ser o cheetos da época. O ponto da Praça Sãens Peña lotado de fedelhos iguais a mim, que iriam encarar duas lentas horas apinhados num 233 (Rodoviária – Novo Leblon) até chegar a nosso destino histórico dentro de nossa geração: a Cidade do Rock, em Jacarepaguá.

Eu ainda não tinha 17 anos e é bom lembrar que, naqueles idos oitentistas, havia controle mais rígido dos pais em cima de um moleque dessa idade. Não vagávamos pela cidade como hoje, sem hora para chegar em casa e também não estávamos liberados para ir a qualquer canto quando bem entendêssemos com quem bem entendêssemos. Mas, naquele dia, o pirralho que não podia chegar em casa depois de duas da manhã cruzou os muros da Cidade do Rock liberado para voltar só depois que o último show acabasse. E quando deparei com aquela imensidão de gente já ficando doida e com o palco gigantesco, 1500 vezes maior que os “tablados” em que Barão, Paralamas e Lulu tocavam nos clubes da zona norte, fui tomado por uma sensação de maioridade. Esta, na verdade, chegava para o Brasil no campo das turnês dos grandes astros do Rock e da música pop. O Rock in Rio abriu as portas para que as grandes bandas colocassem o país na rota de suas andanças pelo mundo. As gerações de hoje, acostumadas a terem os Stones, U2, Madonna e etc toda hora por aqui, não sabem o que é tratar um show do Kiss no Maracanã (1983) como o evento do século. Antes do Rock in Rio, essa gente achava que o Brasil era um reino no meio da selva, onde só se ouvia bongô e atabaque.

O Rock in Rio ocorreu no primeiro dos três anos de glória do chamado Rock Brasil. O ano anterior foi o da explosão, e os dois seguintes (86 e 87) os que consagraram o gênero preferido da geração coca-cola (em 88 os ventos começaram a soprar mais fracos). E ocorreu também em um dos meses mais marcantes da vida nacional. No dia 15, no final da tarde, Cazuza anunciou durante o show do Barão que Tancredo Neves fora eleito Presidente da República pelo Congresso Nacional. Hoje, o fato é histórico. No dia, provavelmente passou sem a devida importância pelos filhos da revolução, que se esbaldavam ao som de Pro dia nascer feliz.

Não lembro bem das atrações nacionais do dia 11, acho que nenhuma das grandes bandas nacionais (que, aliás, nem eram tão grandes ainda) subiu ao palco. Whitesnake, Iran Maiden e Queen formavam a programação internacional. Como nunca gostei do Iran, assisti ao show como um flamenguista que vê um 0X0 entre Vasco e Fluminense. Ao Whitesnake, assisti com o queixo caindo aos poucos. A banda de David Coverdale era pouquíssimo conhecida no Brasil. Pelo que me lembro, veio no lugar do Pretenders, vedete das pistas de dança da época com Middle of the road, porque a vocalista Cris Hind estava grávida. Pois bem. O Whitesnake subiu ao palco e nunca mais saiu do gosto dos rockeiros que vivem abaixo da linha do Equador. Depois que assisti ao Coverdale girando no alto o microfone de pedestal, e mesmo assim cantando com extrema afinação e vigor, comprei o vinil duplo Live…in the heart of the city, que junta shows da banda em 1978 e 80. Até hoje, esse disco mora nos cantos privilegiados de minhas memórias afetivas e musicais.

Já era madrugada quando começou o primeiro dos três maiores shows que vi na vida – os outros foram Paul MaCartney em 90 e U2 em 97. Poderia parecer irreal, mas eu estava a cerca de 200 metros do Queen, numa época em que a banda não era um revival, mas atual, que tocava nas rádios e lançava discos com músicas inéditas. E que tinha Freddy Mercury. Em carne e osso. Não apenas a memória de alguém que um dia foi um dos maiores vocalistas do Rock. E tinha Bryan May. E Roger Taylor. E John Deacon. E para ouvir, Bohemian Rapsody, Love of my life e We will rock you, canções que apresentaram o Rock’n Roll a muita gente. No encerramento da apoteose, We are the champions, com a sacação do momento político brasileiro. Mercury entrou no palco vestindo a bandeira do Reino Unido, e quando virou de costas, desfraldou uma imensa bandeira brasileira para o delírio de um nacionalismo atabalhoado e recém-nascido, esperançoso de que algo no país iria mesmo mudar.

Voltei para casa de manhã, sentado na roleta e dormindo em cima da mesa do trocador do mesmo 233 que devolvia aos pais aquele bando de pirralhos sonados. Nos ouvidos, ecos de uma noite que viverá até mesmo quando forem vovôs decrépitos aqueles mesmos fedelhos que já se achavam grandes pessoas. Na cabeça, o êxtase e a leve desconfiança de que presenciamos um marco de nossa geração.

Eu fui.

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Está no ar uma entrevista minha à Revista Capitu sobre meu quatro livro de contos, A liberdade é amarela e conversível. O editor da revista, Duanne Ribeiro, é quem assina a matéria. As perguntas estão bem formuladas por que Duanne leu o livro, ao contrário de alguns colegas jornalistas que ao entrevistarem um escritor se resumem a perguntar sobre processo de criação, do que tratam as histórias e – a mais trivial de todas as perguntas para um autor – como é escrever em um país de tão poucos leitores.

Para nós, escritores, o mais interessante das perguntas de quem lê o que a gente escreve, é que elas tocam em pontos que nós mesmos, que criamos as histórias, nem sempre paramos para pensar naquela possibilidade que nos está sendo colocada.

No caso da entrevista à Capitu, está indentificada pelo entrevistador a distância que separa meus personagens do que eles querem, desejam, sonham, procuram. Aprofundadas, as perguntas me permitiram ir até um pouco além do livro falando de um de meus personagens preferidos, o Zedias, que enlouqueceu depois de ter perdido a paciência com o mundo.

Confiram no site da revista: http://www.revistacapitu.com/materia.asp?codigo=142

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Na próxima segunda-feira, dia 11, a Câmara Legislativa do Distrito Federal volta aos trabalhos (?). O presidente da casa, Leonardo Prudente, disse alguns dias atrás que vai reassumir o cargo do qual pediu licença no dia seguinte à exibição de uma das imagens mais constrangedoras, ridículas e revoltantes da história política do país. Para quem não está ligando o nome ao escândalo, Prudente é aquele que aparece colocando dinheiro de propina nas meias. Como explicação, titubeante veio a público, de forma patética, dizer que recebeu o dinheiro e “colo-quei o mes-mo nas mi-nhas ves-tes pois não u-so pas-ta”.

Há analista político dizendo que a intenção de Prudente é mesmo reassumir a presidência e sair atirando. Acusado de ser homem do esquema do mensalão do DEM, e de outros esquemas, falam que ele pode, com o poder do cargo na mão, usar o que sabe para acusar seus pares também enrolados e gente de outro poder, o Executivo. Dessa forma, em uma futura campanha eleitoral, posaria de denunciante da bandalheira, apostando que a curta memória do eleitor não lembraria que ele colocou a mão no dinheiro. E este nas meias.

Há quem diga que ele poderá permanecer no cargo movido pelo apetite da vingança. Ou seja, como foi e será novamente alvo a partir de segunda, pode abrir a boca, sair atirando com a idéia de que “vou morrer, mas mato muita gente antes”. Se ele realmente “morrer”, então está ótimo.

É claro que os outros tantos deputados envolvidos no esquema e os encarregados de defender José Roberto Arruda dos pedidos de impeachment não vão deixar que Prudente sente outra vez naquela cadeira. Vão tratar de tocá-lo dali, de preferência posando de defensores da moralidade. Mas a sociedade não pode se contentar com isso, pois não se limpa lama com lama.

Estamos nas mãos dos estudantes, os mesmos que ocuparam a Câmara em dezembro. Se a ocupação se repetir – de preferência de forma ordeira, para que os ramos conservadores não tenham pretexto para falar mal – Prudente, que é fruta podre, cai do galho com um esbarrão. É claro que só ele é muito pouco, parece que é preciso derrubar a árvore inteira, mas já será alguma coisa.

Óbvio que vão dizer que os estudantes são manobrados pela CUT e pelo PT, e que quando estourou o mensalão do Lula ninguém deu as caras na rua. Isso é fato, é correto. Mas se esses meninos e meninas, mesmo que erguendo bandeiras, não fizerem barulho, não será a classe – média de Brasília, bem estabelecida e preocupada com seus coquetéis, horas extras e gratificações, que vai botar a quadrilha no olho da rua.

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Quando a discografia dos Beatles foi relançada recentemente em estéreo remasterizado, muitos fãs de longa data da banda mostraram-se céticos e até amargos, rotulando a novidade como apenas mais uma jogada da indústria fonográfica para ganhar mais dinheiro em cima do maior fenômeno musical e mercadológico de todos os tempos.

Confesso que não me rendi de imediato à curiosidade de saber o que eu, que ouço Beatles desde que me entendo por gente, ainda poderia ouvir de novo dos quatro. Tive vários dos CD`s nas mãos, achei caro, não me seduzi pelo belo aspecto gráfico. Deixei pra lá.

Até que Guilherme Guedes, baterista da banda Lafusa, de Brasília, me disse que conseguiu lá fora um pen drive com todos os discos remasterizados em estéreo. Confiei a ele, aprendiz de feiticeiro na redação da BandNews FM, um de meus maiores tesouros: meu Ipod, e ele descarregou no meu aparelhinho as novas gravações.

Não há dúvida: se você é betleamaníaco, vale a pena ajudar a encher ainda mais de dinheiro a burra de Paul, Ringo e das viúvas e herdeiros e John e George.

Outro companheiro meu de trabalho, o crítico Rodrigo Leitão, proclamava em plena redação que essas gravações revelaram ao mundo uma banda que não conhecíamos, que somente agora veríamos realmente o que os caras, junto com George Martin, haviam feito quase 50 anos atrás.

Não vou tão longe no entusiasmo, mas garanto: há muita diferença entre as gravações que chegaram dos Beatles ao Brasil (principalmente as que foram passadas para CD nos anos 80/90) e essas remasterizadas em estéreo. Até ouvidos moucos como os meus conseguem perceber detalhes escondidos antes desse trato que deram às canções mais importantes da história do Rock`n Roll.

Prestando atenção, você ouvirá, principalmente nos quatro ou cinco primeiros discos, que o violão, por exemplo, em determinada música ganha mais corpo. Em Help, é possível notar sem muito esforço a batida de John nas cordas de uma forma mais candenciada, mais “blusera”, mais lenta, que segundo reza a lenda era como ele queria que a canção houvesse sido gravada.

O instrumento que mais saiu ganhando nessa revitalização das gravações dos Beatles certamente foi a bateria. As novas técnicas de estúdio realçaram principalmente os pratos e o bumbo, e encorparam os contra-tempos e viradas. Se ainda restava alguma dúvida, a remasterização esclareceu tudo: Ringo Star era um senhor “batera” sim, que inovou muito e sem presepada, ainda mais se pensarmos que ele batia dessa forma quase meio século atrás.

Mas a grande diferença, e isso é o que realmente vale em comprar os CDs ou adquirir as gravações, é que os instrumentos e as vozes ganharam não apenas força, mas personalidade ainda maior. Dá para ouvir quem canta, quem faz coro e o que está sendo tocado com muito mais nitidez, e perceber a importância de cada um desses elementos no todo de cada gravação. Em algumas músicas de Please please me, essa nitidez chega ao requinte de deixar bem clara a respiração de John, e de nos apresentar o até agora desconhecido eco de gravação de algumas canções, efeito posto na época pelos técnicos de propósito, como um quê a mais.

As gravações remasterizadas em estéreo são o que podemos chamar de a segunda parte de uma reapresentação da obra dos Beatles ao mundo, principalmente às gerações mais novas. Isso começou nos anos 90 com a série Anthology (documentário, CDs e livro) e prossegue agora também com as versões originais em mono dos discos e o game Guitar Hero. Aliando tudo isso à genialidade dos quatro, é certo que a humanidade, da mesma forma que hoje ouve Mozart e Beethoven, estará ouvindo Beatles daqui a 200 anos.

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O custo de vida em Brasília é alto, um dos mais altos do país. Arrisco-me a dizer que talvez os preços por aqui só estejam abaixo dos de São Paulo, cidade-motor do Brasil, capital do estado que é nosso maior parque industrial.

Não tenho base em nenhuma pesquisa – embora devam existir milhões – mas falo como trabalhador assalariado (Aliás, PJ, sem direito trabalhista algum) que sente a mordida no bolso, o dinheiro sempre menor que o mês.

Por muitos anos aceitei, mesmo com desconfiança, que a estabilidade no serviço público e os altos salários de parte do funcionalismo eram os responsáveis pela vida cara, pelos preços acima do que se cobra em outras cidades. Como carioca, sei que no Rio as contas da maioria também não fecham, que o dinheiro também não dá, mas lá os preços, me parecem, estão sempre um pouco mais abaixo dos de Brasília (sempre que estou no Rio, aproveito para melhorar o guarda-roupa. Faz diferença sim). Por muitos anos também levei em consideração a explicação de que em Brasília os salários, de forma geral, são maiores. Sei que isso é verdade, ao menos em minha profissão, mas sempre desconfiei que houvesse algo mais por trás de tudo, escondido atrás dos números.

Os argumentos técnicos se mantêm de pé, mas, em minha opinião, não estão sozinhos na hora em que explicam – mas não justificam – os preços cobrados em Brasília.

Depois que o Brasil inteiro viu governador recebendo propina (e pagando também a deputados) e do presidente do Legislativo local colocando dinheiro nas meias, entendi que o morador da cidade paga mais um imposto embutido na volumosa carga tributária: o imposto da corrupção. Ele está lá, em nossa vida diária, não oficializado, mas papando com uma fome de adolescente nosso dinheiro suado.

Conhecida a bandalheira do poder local do DF, compreendi, por exemplo, os cálculos do mercado imobiliário em Brasília, esse setor fomentado pela ganância e desconectado da realidade nacional. Nos R$ 500 mil que vai custar uma reles quitinete no Noroeste, um bairro de ricos que começa a ser erguido devastando um pouco mais o cerrado da cidade, está embutido o preço da corrupção. O metro quadrado no local vai ficar em torno de irreais R$ 12 mil. Tanto no Noroeste quanto em outros bairros, pode ser o preço ao qual os empreiteiros chegaram depois que somaram os custos da obra, o lucro justo, a ganância do setor e, por último, o percentual a ser entregue em tais e tais gabinetes. Esta é a parcela que pode ser destinada tanto à mudança do plano diretor da cidade, quanto à licença ambiental para a construção em um local de nascentes, dependendo da situação.

Não raro, a corrupção pode arcar com seu próprio custo. É o caso de quem recebe o imposto arrecadado com a patifaria em Brasília e paga esse mesmo imposto com o dinheiro da bandalheira na hora em que compra um apartamento, isso para falarmos apenas do mercado imobiliário. É a corrupção remunerando a si própria, feito um cachorro doido que corre atrás do próprio rabo.

Não há como dimensionar o valor do imposto da corrupção no Distrito Federal, saber que pagamos tantos por cento como fazemos com os impostos oficiais. A alíquota (para que a coisa fique mesmo institucionalizada economicamente) vai depender da fome de quem estiver no poder.

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Levou à boca o garfo com bacalhau que sobrou da ceia. Ao contrário da noite anterior, quase nada dizia, respondia uma coisa ou outra com vagos monossílabos. E agora preferia o silêncio justamente por isso: por que antes falara demais. Não que houvesse bebido muito, ou muito mais do que estivesse acostumado. É que começaram a falar de política, de escândalos, e ele que já andava até a tampa com muita coisa, não economizou no verbo, sua palavra incendiou a noite, dentro da família fez mais barulho que o foguetório da virada. E azeitado por um razoável tinto argentino, soltou lá pelas tantas, depois que serviram o salpicão:

- Tinha que ter luta armada sim.

E fez-se um silêncio rápido e imediato, igual a quando cai uma taça e todos procuram saber quem foi que reduziu o patrimônio da casa.

Mas para que não houvesse dúvida de quem falou e do que foi dito, acrescentou até mais alto.

- Com sangue e cabeças rolando.

Ao silêncio fugaz, seguiu-se certo constrangimento, mas aí sua ira já viera à tona tal qual comida e bebidas postas pra fora do estômago pelo fígado maltratado pelos excessos.

- A Guerrilha do Araguaia, por exemplo, veio 40 anos antes. – ele estava certo disso, mesmo sem qualquer embasamento histórico. Era só ira e empolgação alcoólica.

Alguém, que tomava só coca-cola, ponderou sobre o estado de direito, as investigações, a Justiça. Outro tomou coragem e entrou na discussão defendendo o voto consciente, a participação política.

- Que nada! Pega o deputado que colocou grana na meia, o governador que pega propina… – e fez um gesto com a mão na altura do pescoço.

- Tudo bem, querem ter peninha? Então pega o cara, uns bons tabefes, uns dentinhos a menos. Ai que delícia um desgraçado desse todo costurado!

Alguém pigarreou, outro se levantou, tentaram mudar de assunto. Ele só queria tocar fogo no mundo.

- Outra idéia é pegar um deles, de madrugada, pintar de verde e pendurar pelado numa árvore no centro da cidade, deixar lá até a hora do almoço. O que acham? Os outros iam pensar duas vezes pra roubar de novo.

A prima de não sei quem, que veio de longe pra festa, se levantou assustada. A sogra da amiga da cunhada foi pegar sobremesa e não voltou mais. A mulher, ruborizada, também o deixou ali sozinho, pregando para si mesmo, olhando a fumaça que sobrara da queima de fogos naqueles primeiros minutos nublados do novo ano.

Agora, no almoço, mastigava a comida passada da véspera, mas também a ressaca física e até certo ponto moral. Olhando nos olhos de cada um, deu-se conta de seus excessos, nem tanto alcoólicos, mas sim verbais. E em algum momento dos comentários sobre a noite anterior, sua mulher tentou a defesa tardia do marido.

- Ele falou aquilo de brincadeira. Na verdade defende a paz como instrumento de mudança, que a coisa tem que se ajeitar é pelo voto, que quem roubou tem que ir pra cadeia e devolver o que roubou. Nada dessa doideira de cortar cabeça, de mandar político pro inferno.

Ele permaneceu calado, mastigando a comida, a ressaca, os pensamentos. Mas antes que o silêncio pudesse ser tomado por concordância completa com o que a mulher dissera, falou com a bochecha gorda de comida no canto da boca:

- É, mas que dá vontade, dá.

E engoliu.

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Antes que saíssem de casa para a festa, a menina perguntou ao pai, a voz quase engolida pelo espanto:

- Quer dizer que a gente vai sair agora de casa e só vamos voltar no ano que vem?

E como a resposta afirmativa a deixasse ainda mais abismada, arregalou uns olhos tão imensos quanto azuis, nos quais os mais atentos notariam que brotava o fascínio pelo misterioso e inevitável passar do tempo.

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