André Giusti - foto: Luana Lleras
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Não chame Cidade de Goiás de Goiás Velho. É errado e os moradores não gostam. Em um mundo de smartsphones e telas planas, é difícil imaginar que velho e antigo não sejam, necessariamente, a mesma coisa. Cidade de Goiás, ou apenas Goiás, é antiga por que a população abraçou o patrimônio histórico. Preservar é atividade natural na vida da antiga Villa Boa de Goyáz, encravada aos pés da Serra dourada. Por isso ela não é velha.

A exemplo de Ouro Preto, Goiás é cidade pequena que manteve a altivez dos tempos de capital do estado, posto que perdeu para Goiânia na década de trinta do século passado. Não pense no lugar como o vilarejo de vida besta do poema de Drummond, em que cachorro e homem passam devagar. É claro, o ritmo não é o desenfreado das grandes cidades, mas lá não vive a mesmice de casas de tapera e ruas de barro. Nas janelas do casario, nas sacadas dos palácios, se debruçam a pompa e a cirscuntância do palco de grandes decisões e conchavos políticos.

Cidade de Goiás fica a quase 300 quilômetros de Brasília e a pouco mais de 100 de Goiânia. Recebe todos os anos o Festival de Cinema e o Museu Casa de Cora Coralina é sua principal parada do chamado turismo histórico. Aliás, na casa de Cora, descobrimos a mulher simples feito seus doces, feito sua poesia, tão afastada de sombrias questões metafísicas, de aborrecidas complexidades humanas. Uma poesia extremamente compreensível para o leitor, uma poesia profundamente simples.

Imperdíveis também são o Palácio Conde dos Arcos, que foi a sede do governo da província e em seguida do estado, e a casa de Câmara e Cadeia, no alto da Praça Brasil Ramos Caiado, a principal da cidade. Tem esse nome porque lá funcionou o parlamento e a cadeia. Exatamente, no mesmo prédio, talvez algo mais de acordo com os dias de hoje. 

Mas o que vale muito – e esse deve ser o espírito da visita a Cidade de Goiás – é andar pelas ruas, mesmo que debaixo do sol abrasivo que uma ou outra nuvem esconde de vez em quando por piedade de nós. Embrenhados nas vielas, ouvimos o silêncio do tempo, com a impressão de que volte e meia escutamos estalarem nas pedras do calçamento as botas pesadas de sisudos comendadores.

Repare em cada casa, não deixe que fujam detalhes das cores, da eira e da beira dos telhados. De dentro das que estão de janelas fechadas e cortinas cerradas, nos espiam os mansos olhos dos séculos. Há também as que ficam de portas abertas, a família toda tocando a vida lá dentro e o vento entrando junto com o olhar curioso dos visitantes. Muitas são de doceiras, que vivem do principal ofício de Cora. Servem de pretexto para uma pausa na caminhada, para pequenas provas dos doces cristalizados e até breves madornas nas varandas ensombreadas do meio da tarde. Mas evite cochilar em Cidade de Goiás, principalmente no meio da tarde. Corre-se o risco de se acordar no século 18.

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Lobo e loba embebedados, escorados no carro, de vez em quando um no outro, pois nos conhecemos há tanto tempo que isso nos é permitido sem pedir permissão. O bar faz as primeiras ameaças de fechar. Três e alguma coisa da manhã. Daríamos tudo para que ainda não houvesse passado das nove do dia que já acabou, para que a noite estivesse ainda naquela eufórica promessa do começo.

                   Coloco uma fita, um esporro do cão. Tem gente que olha, tem gente que gosta, comenta com outros “Ih! Se lembra? Isso é velho!”. Eu quero cantar, esqueço a letra, eu tento dizer “É do  Kiss, Rock’n Roll All Nite. Eles vieram ao Rio, eu vi, foi em 83, você lembra?” Do Kiss, é claro, do show, talvez, e até mesmo do perdido ano no calendário você poderá lembrar, para sempre, inclusive. Mas amanhã tenho lá homéricas dúvidas se, nessa memória encharcada de álcool e devaneios, haverá muita coisa que reste dessa noite. Encostamos a terceira tulipa de cada um junto ao pneu. Nos olhamos fundo, nos olhos, não precisa dizer mais nada. Vamos roubar as tulipas.

                   Mas isso fica para depois. Antes, passemos à vida alheia, que ninguém é santo. Fulano de tal, aquele falso, caso daquela vaca que roubou o marido da amiga, que por sinal, noite passada, beijou a boca da mulher que um dia deu prum terceiro que todo mundo só foi conhecer ontem, na festa da sicrana, que coitada, de tão boba nem merece ser sacaneada. Tira ela disso. O veneno nos escorre das risadas cúmplices, mais altas que guitarra do Judas Priest. Aliás, parados na calçada, na porta do bar, em atitude suspeita, traficamos risos frouxos, soltos, largos, demasiados, e que se dane quem olha da mesa querendo ir embora, incomodado. Quem pede a conta a essa hora, no limiar de tudo, tem mais é que ir pra casa catar traça no travesseiro. Há pouco, eu disse que ninguém era santo. Apaga. Somos santos debochados no altar dessa calçada e a indulgência da nossa euforia há de redimir  as almas viciadas em tédio, inferiores a nós.

                   Desvairado um carro dobra a esquina. Os pneus cantam no asfalto, mas não nos abalamos. É apenas mais um dos sons que embalam os lobos e nossos comparsas morcegos. São os nossos sons, estamos acostumados, estamos em casa. Por alguns segundos, os faróis alimentam seu rosto de luz e afugentam a penumbra. Nada demais. Estas são as nossas luzes. O carro dobra a outra esquina e vai cortar a cidade, essa imensa solidão.

                   Nossas línguas estão grudadas no céu da boca, das bocas do lobo e da loba embriagados. São os sinais de que não estamos bem, ou seja, estamos ótimos. O ato de falar carece de esforço e pecamos pela falta de concisão, pela ausência de lógica. Primamos pela sinceridade, como se, em vez do diálogo, conversássemos por meio de um blues pegajoso, daqueles bem rascantes, anos 30, banjo, gaita e conhaque de alcatrão. Ensaio três acordes básicos para lhe contar, pela trigésima segunda vez em duas semanas, a história do meu coração em caquinhos de bijuteria barata. E o que é pior: você quer ouvir tudo de novo e chega mais perto, se interessa pelos mesmos detalhes da saga do amor que perdi nas lonjuras dessa pátria amada, Brasil! Quando encerro minha ladainha de beata, você desfia armadilhas para a reconquista, esfaqueia meus brios, me desafia a tomar de volta a paixão que me fez errante no tempo e no destino, tenta me explicar truques que cativam mulheres. Só que há muito perdi o saco para amor de distâncias. Vou ser prático: farei com que ele se finja de morto, morto de uma doença que me mata e faço de conta que não tenho. E aí não lhe encho mais a sacolinha.

                   Querida amiga loba, tonta, tontinha, que se escora em mim, pior do que tudo que você já viu. Também sei de seu coração papel picado. Também sei que fizeram estrogonofe do seu sentimento valioso. Quebraram-lhe também, eu sei, em pedaços, e o que sobrou,  recolocado, ainda cheira a cola DUREFLEX INSTANTÂNEA, prazo de validade não fornecido pelo fabricante. Eu sei que você escapa em beijos furtivos que preenchem as horas vagas, sem qualquer sedução que mereça a dignidade das cartas e da saudade. Eu sei dos homens pelos quais você não morre, nem de amor, nem de prazer, nem de nada. Eu sei daquele pelo qual você daria a vida.

                   Saideira!, já grita o garçom há uma hora. Só que agora não tem choro, não tem prorrogação, “Vão pra casa, que eu vou ver meu filho em Del Castilho!” e ele decreta o fim de nossa sobrevida nessas paragens sem qualquer resto de piedade. Baita frieza a da sociedade de hoje. Agora somos só nós dois, um só tem o outro, nossos amores não, outros amigos longe, nossos flertes por aí, eu lhe resto, você me resta e de sacanagem roubamos as tulipas.

                   Mas nos recusamos a voltar. É preciso resistir. A noite ainda é longa como os seus cabelos de sereno. É preciso resistir, até a última estrela. É preciso resistir, até o falecer da lua. É preciso resistir, porque a casa é fria e a cama vazia feito o mar dos náufragos. E, além do mais, somos descolados, sarados, 15 anos de gíria nos ensinaram a não dar mole para a caretice.     

                   Nos abrigamos aqui mesmo nessa praça, nessa tenda dos milagres, essa velha kombi com fogão e freezer dentro, economia superinformal e descontraída no país da globalização. Limão, cachaça, churrasco de gato e uma cerveja qualquer, pois os lobos permanecem com sede. Um cobrador de ônibus mija no poste, um taxista arrota do lado e até o garçom, aquele mesmo que ia ver o filho em Del Castilho, pede uma e põe na conta. Todos notam você, visão de paz no meio do caos, e a devoram com os olhos, com os pensamentos mais imundos que a frigideira da kombi. Era o que me faltava, ter que tomar uma atitude. Me levanto. Vou fazer xixi no poste.

                   Um resto de néon, outro de nossos brilhos, vaza das sombras e lhe cai maravilhosamente bem, mas tão bem, amiga loba, que esqueço da amiga. Desfocado e sonolento, observo a loba, melhor que as gatas, mais útil que as cachorras.

                   A mais distante das estrelas começa a embranquecer. Cabeças empapuçadas sentem a rotação do planeta. As trevas cedem, lá vem a luz, está chegando o nosso aviso, vamos fugir antes que o sol nos pegue em flagrante. Tentaremos em outra noite a felicidade, agora não há mais tempo. Voltaremos pelos mesmos caminhos de ontem, de anteontem, do ano passado, de anos atrás, até que não precisemos nunca mais voltar, porque não haverá necessidade de estarmos aqui. Por hora go back. O cheiro de urina é insuportável. Um gato angorá assa na brasa da churrasqueira.

                   O cigarro queima na minha mão do lado de fora e eu dirijo mais com o instinto do que com a certeza. Terceira, quarta, quinta, na entrada da curva procuro a tangência, terceira direto, a traseira empina, o pneu grita, acelero, o motor responde mal educado, o ronco do motor é uma canção antiga que me embala. Quarta, quinta em menos de cinco segundos. Outras curvas se contorcem no retrovisor, bairros ficam para trás, recendendo a jasmim, pão, perfumes do dia. O vento desvairado pela janela faz rebelião nos seus cabelos. Você ressuscita do sono, acende nos olhos um brilho esmaecido, discursa sobre a aurora, sobre os pássaros, a vida é linda, é o que você diz, eu vou amar de novo e demais, você promete, diminui a velocidade, você pede, sente o cheiro da manhã, você me avisa, a gente é muito feliz, entendeu? A gente é feliz pacas e nem se toca, você me garante. Pena que, quando você acordar, não poderá lembrar desse comício relâmpago sobre o sentido simples das coisas. Pena que você nunca vai saber das suas palavras mais lindas, loba querida. Que bom que eu vou guardá-las para sempre.

                   Cai o pano. O pisca alerta reluz na lataria de um outro carro. A vizinha abre a janela e confere a hora em que você chegou. Como será a despedida dos lobos? Tchau, depois eu ligo, é isso? Não, vem cá, não é assim. Os lobos são mais carinhosos, inflamados. Faces deslizam uma na outra, ponta da língua no pé da orelha, você respira nervosa e cada vez mais perto, já perdi minhas mãos na ventania dos seus cabelos. Os amigos não se despedem assim. Claro que não. Só os lobos são capazes de arder, quando até mesmo as estrelas já estão apagadas. As línguas se tocam, são espadas que não se agridem, mas se permeiam. Um freio de mão ainda nos separa e derrubo a última barreira. Me absorva, amiga loba! O carro tá descendo! Mas não escuto enrolado em seu pescoço. O carro tá descendo, vai bater no tempra do vizinho. Nada me importa, é ótimo estar aqui. Eu também acho, mas engrena esse carro. Estico a perna, piso a embreagem, engato a marcha, tudo sem desgrudar da minha a sua boca, sem perder um movimento sequer da sua língua. Vamos fazer desses minutos os mais longos, é o que peço. Olha, eu nunca pensei, nós dois, há tanto tempo, nunca rolou, e você tenta uma explicação, fingindo um falso embaraço. Pois é, mas eu achava que ia, algum dia, os dois longe da matilha. É estranho, diferente, mas é bom. Amigo e amiga às vezes é normal, ainda mais sendo lobos. Não explica, não aceito teses, só beijos. Eu avisei que a essa altura só nós nos restávamos. Eu não te amo, mas me sinto em casa. Então vem, nós merecemos esse abrigo provisório de colchão macio e água quente.

                   É estranho, diferente, não dá pra entender direito, você repete já do lado de fora, com a cara na minha janela, o sol nascido, uma hora depois. Não dá pra entender direito, você insiste doida feito pisca alerta, disco velho com defeito. É como arte, eu argumento. Não é para entender, é para gostar. Valeu, Monet! Tô te devendo.

                   Você vira as costas, vai embora, mas volta numa fração de segundos com as mãos estendidas. Oba!, arregalo os olhos, vai acontecer o quê agora? As tulipas, eu quero a minha parte no roubo. Toma, pega com cuidado, você tá tonta, não se machuque, a vida é linda, eu e você vamos amar de novo e demais. O último beijo, teu lábio molhado, a claridade inteira em cima de nós. Os lobos se despedem assim. Bom dia, durma bem.

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Eu a encontrava ocasionalmente ao longo dos dias de trabalho, um convívio irregular que não permitia maior aproximação. Trocávamos um cordial boa tarde e não íamos além de algumas considerações sobre a temperatura e as longas esperas nas ante-salas. Ela, a falar trivialidades, preferia o silêncio que a mantinha distante dos outros e que bem casava com a formalidade das repartições. A todos que surgiam indiferentes a nós, que aguardávamos em um sofá sempre fora de moda, espreitava com seus olhos verdes de rara cristalização. Não sei se naturalmente ou por causa do rouge, sua pele exibia um tom avermelhado junto às maçãs, o que lhe conferia destaque maior aos olhos. Eles e sua pele me remetiam a algum país do mediterrâneo. Eu pensava na Tunísia. Sem embasamento, achava que lá as mulheres deveriam ter pele e olhos assim.

            Eu estava no corredor bebendo o café velho e morno que me ofereceram quando ela saiu da ante-sala falando ao celular. Talvez por descuido, mas acho que de propósito, deixou que a porta batesse com força maior que o tolerado pela sisudez do ambiente. Percebendo que eu notara aquele contido destempero, procurou abrandar a voz para disfarçar a irritação ao telefone, o que não conseguiu até o final da conversa, quando já dizia em bom som, à outra pessoa, que estava procurando o advogado e que a coisa seria, então, resolvida daquela forma.

            Parou em frente a mim mordiscando os lábios ainda nervosa e desta vez apenas ouvia. Voltou a caminhar e dez passos depois, e agora sim, enraivecida de vez, soltou a voz, e senão aos berros, o suficiente para fazer com que na sala próxima um burocrata se desconcentrasse de seus papéis. Ela tentara entrar em acordo, pelo que alegava, mas o outro queria briga e teriam briga, certamente.

            Já no fim do corredor, girou abrindo a bolsa para guardar o celular. Veio voltando, caindo em si de que provavelmente eu ouvira toda a discussão. Levei à boca o copinho plástico querendo disfarçar que o tempo todo estive entretido com aquele café insuportável.

            Quando se aproximou, abri a porta para que entrasse. Agradeceu-me o cavalheirismo com o cenho enrugado. Tornei também à ante-sala.

            Ali, o único lugar disponível era a seu lado. Sentei-me percebendo pelas expressões gerais que ainda haveria alguns minutos de espera, talvez quase uma hora até que nos atendessem.

            Enfastiada, minha vizinha de poltrona perguntou-me onde eu havia conseguido café. Apontei-lhe uma pequena copa no canto, mas tive a consideração de avisar-lhe que o café não valia o esforço de se ir até lá. Convencida disto ficou imóvel na poltrona e suspirou aborrecida, dizendo que se pudesse iria embora, não esperaria mais, afinal tinha tanta coisa para resolver na vida e ficava ali, perdendo esse tempo todo.

            Antes que eu tentasse qualquer frase banal que consolasse seu lamento inútil, deixou escapulir o que motivava sua verdadeira inquietação. Ela estava se separando.                                                                                           

A frase soou tão direta quanto reticente e por isso permaneceu algum tempo no ar, até ser engolida pelos ruídos monótonos ao redor. Ela afundou as costas na poltrona e levou os olhos verdes a buscarem o céu que se percebia através das lâminas tortas da antiga persiana.

            Nem cheguei a dizer algo feito “que pena” ou “isso acontece com qualquer um”, pois ela insistiu no assunto, agora em seus detalhes. O casamento durou cinco felizes anos ou ao menos, como ela considerava, de normalidade conjugal. Belo dia ele chegou do nada dizendo que estava insatisfeito, que o casamento não dera a ele aquilo que procurara.

            Não parecia preocupada se eu estava interessado, muito menos escutava minhas breves observações abestalhadas. Mexia as mãos apressadamente à medida que se aprofundava na história. No anular esquerdo, a aliança ainda resistia.

            Do final do ano em diante, o marido ficou diferente. Irritava-se com besteiras, tolices tais como um botão de camisa faltando ou o bife que a empregada não fez no ponto. O que mais doía, entretanto, era evitá-la na calada da noite, quando os filhos adormecidos traziam sossego. Não, não é outra mulher, estava certa, antecipando-se sem saber à primeira hipótese que me ocorreu no silêncio de minha atenção. Olhou as unhas bem pintadas como se nelas visse com mais clareza as provas do que dizia. Já investigara. Não havia bilhetes, números diferentes no celular, valores de compras estranhas na fatura do cartão. Ele sempre estava no trabalho na hora do expediente e não chegava tarde nem inventava compromissos. O problema estava nele mesmo, ela acreditava, e finalmente tratando-me como seu interlocutor olhou para mim perguntando se eu entendia. Ainda assim não me deixou falar e emendou contando que o marido lamentava o tempo passando e a vida dele sem acontecer, trabalhando em algo de que não gostava, em um lugar de que não gostava, junto a pessoas das quais gostava menos ainda.

            Calou-se e me pôs outra vez como interlocutor-figurante. Percebi que buscava novamente o céu nas frestas da persiana e que com isso seus olhos ganhavam emoção nova. Mas não era alegria ou esperança. Era apenas desencanto.

            Descobriu também que casou com a mulher que ele não gosta, e esta sua última frase também foi morrendo aos poucos, vencida por outras conversas paralelas, toques de telefone, folhas de papel saindo da impressora.

            Procurei argumentos que quebrassem o constrangimento daquele silêncio final. Via-me na obrigação de encontrar palavras de ânimo, por mais vazias ou pueris que fossem, mas que justificassem, em parte, meu papel de ouvinte. Aquilo tudo era só uma fase ruim, o marido colocaria a cabeça no lugar e se não colocasse, pior para ele, ela era ainda muito jovem, casaria de novo, pretendentes não faltariam. Mas acabei engolindo inteiras as frases de emergência que arranjei, pois ela própria me cutucava avisando que chegara a hora de sermos atendidos. Levantamos, e acabei não sabendo o porquê do advogado, a parte da discussão da qual fui testemunha.

            Dez ou quinze dias correram sem que nos víssemos. Quando a reencontrei, achei que me cabia o direito de perguntar com mais interesse a quantas andava a sua vida. Estava tudo bem, respondeu-me com secura e procurando um pretexto próximo para logo se afastar. Levantou suas trincheiras de silêncio e manteve-se distante de todos, e – não sei se eu exagerava – preferencialmente de mim.

            As expressões gerais anunciavam que a espera não seria rápida. Fui atrás de um café velho e morno que me fizesse companhia. Ela, num canto, espreitava o ambiente com seus olhos tunisianos.

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O comissário parou ao lado de nossas poltronas e disse a meu pai que a cidade que sobrevoávamos naquele momento era Ihéus, de acordo com o comandante. Meu pai pegou-me e também minha irmã, uma de cada vez, e nos pôs na janelinha do avião, narizes achatados no vidro. Vi que as luzes da cidade eram pequenos pontos dourados espalhados no breu da madrugada, como se sobre veludo negro houvessem derramado pedrinhas de ouro. Mas do que me lembro mesmo é da lua no final do crescente, ainda cavada na borda, boiando no canto da janela. Ela prateava, um pouco abaixo do avião e bem acima de Ilhéus, nuvens acolchoadas que guardavam a paz de nosso vôo. “São os tapetes dos pés de Deus”, disse meu pai. “Neles, teus amigos anjos brincam de rolar”, completou e apagou a luz de leitura depois de correr os dedos nos meus e nos cabelos de minha irmã. Dormimos até o pouso em João Pessoa.

            Na noite daquele mesmo dia, fomos para a varanda e ali afoguei meus olhos no mar e no céu, que àquela hora formavam uma única escuridão. Tranquilas, no fundo dela, luzes de barcos de pesca representavam estrelas caídas. “Olhem!”, e meu pai chamou nossa atenção e também de minha mãe, que no quarto esticava lençóis. Sua voz entusiasmada agitou ainda mais o vento que vinha da praia e da eternidade. Era a lua o motivo da euforia. Agora, inteiramente redonda, ela deixava o fundo do oceano bem naquele ponto onde continua além de nossas vistas esse imenso mar do nordeste, que não cabe no mundo. Abriu estrada na água e vinha amarela-prateada até a areia molhada.

            Deitamos na cadeira reclinada. Meu pai colocou-me sobre seu peito, que arfava no compasso das ondas. Ele tomava chá de carqueja e alegre dizia à minha mãe que se fechasse os olhos e recuasse nos séculos a imaginação, ouviria tiros de canhão expulsando holandeses ali perto, no Recife. Seu riso foi morrendo na escuridão do vento e logo ele apontou o dedo para o alto, para imensas nuvens que chegavam engolindo e devolvendo a lua outra vez ao céu. Elas passavam em silêncio, dando a impressão de extensas tropas cansadas, mas vitoriosas e em paz. Porém, pouco antes de ser vencida pelo sono, eu já pensava naquelas formas como gigantes que nos quisessem abraçar com amor.

            Na noite seguinte e na outra, cumpri um efêmero ritual. Ficava na varanda olhando os barcos e esperando a lua, as nuvens, meu pai. Ele deitava e me punha a navegar no barco do seu peito. Minha mãe vinha com a xícara fumegante e nunca em minha memória o mar deixou de saber a carqueja. Em seguida era a vez da lua. “Oba! Estão chegando as nuvens”, e meu pai festejava quando finalmente elas surgiam, do mesmo modo que ainda me aparecem hoje trazendo consolo nas noites escuras de medo e aflição.

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Quando vim morar em Brasília, quase 12 anos atrás, o computador foi a solução para segurar a barra de ter me visto, de uma hora para outra, pego pelo colarinho e jogado no meio do Planalto Central sem conhecer nada nem ninguém. A cidade me foi uma imensa dor no início, feita de céu azul, avenidas imensas e quarto de hotel. Uma dor solitária, que hora mastigava, hora era mastigada pelas saudades do meu mundo.

Nos primeiros dias, pressenti que a situação não oferecia outra alternativa para aplacar a dor de minhas tantas ausências, o vazio de tantas distâncias. Sem escapatória, decidi transformar aquele quase exílio em experiência literária. Aluguei em micro, me enfiei no hotel e disso nasceu um dos mais intensos processos que vivi como escritor.

Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Brasília não tinha esse título. Chamava-se Essa solidão, Brasília. Mas como aconteceu comigo em outros contos ( e até em livros), uma frase pinçada do meio do texto acaba batizando a obra, porque, em um estalo, a cabeça nos convence que aquela frase resume o carretel inteiro da história.

O conto, que é chamado de novela por alguns, é uma história de forasteiro, sobre como se sentem os forasteiros em Brasília, escrita para forasteiros, mas também para os brasilenses, para que saibam do impacto que a cidade, diferente de tudo que já vimos, causa em quem no estalar dos dedos se vê tendo que decorar ( e entender ) endereços sem nomes, precisando chegar no local indicado por um código com letras e números.

O título é um rápido tratado sobre a intimidade, partindo do princípio de que o ato preguiçoso e corriqueiro de bater a porta da geladeira com o pé decorre do grau de estreiteza que possuímos com pessoas e lugares.

É dos meus livros o mais autobiográfico, mesmo não sendo inteiramente isso. Relatei parte da experiência própria, mas a ela anexei histórias que ouvi, irmanadas à minha pela solidão e pela saudade.

Para que a narrativa não virasse um diário enfadonho, fugi da estrutura clássica, calcada na cronologia, entre outros elementos. As situações não dão continuidade umas às outras necessariamente, mas estão amarradas em um fio condutor que traz a reboque também saltos no tempo e nos próprios lugares, e passagens rápidas de bastão de um personagem para outro. Em tudo, procurei dar agilidade ao texto, para que a monotonia de uma vida de hotel-trabalho-rua oferecesse algum interesse ao leitor.

Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Brasília foi publicado em 2004 pela editora LGE. O livro traz ainda outro conto, Dóceis Beatniks, que mantém a mesma estrutura narrativa.

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Demorou um pouco, mas finalmente já é possível baixar meu primeiro e terceiro livros em meu site, cujo acesso pode ser feito na página desse blog.

Voando pela noite (até de manhã) foi publicado em 1996 pela mesma 7Letras que lançou A solidão do livro emprestado (2003) e A liberdade é amarela e conversível (2009). Na época, a editora ainda se chamava Sette Letras, e o Jorge Viveiros de Castro decidiu bancar a estréia de um contista de 28 anos, sem qualquer penetração no meio literário, como publicações em revistas ou suplementos.

Os dez contos que compôem o livro foram escritos entre 1991 e 1994. O mais antigo deles, A história triste de Hans & Alice, me veio à cabeça depois de uma reportagem policial em tórrido sábado de plantão no Rio. O texto foi parar na gaveta, de onde só saiu dois anos depois, quando me decidi realmente pela prosa, e mais especificamente pelo conto, deixando em segundo plano anos e anos como poeta sem tanto brilho. Ao menos nunca tive muita pretensão com a poesia.

Numa noite de sexta-feira, no fim do verão de 1993, quando um temporal deixou o Rio debaixo d’água, as primeiras situações do conto Alagados começaram a me roubar o sono. Eu já apagara a luz e tentava dormir. O problema é que aqueles personagens quase se materializaram ao lado de minha cama para me fazerem levantar. Conseguiram. Sentei à máquina (lembram que em 93 pouca gente tinha computador em casa?) e fui até às cinco da manhã. Mais dois ou três dias trabalhando no mesmo ritmo, e estava pronta a primeira história de amor que escrevi na vida, e que até hoje deixa assim assim corações enamorados.

Os meses seguintes também foram de trabalho intenso, madrugadas debruçadas sobre a velha Olivetti Praxis 20 (eletrônica) dando asas àquela experiência fascinante de conceder a vida a personagens em situações criadas a partir da imaginação ou da observação atenta do dia-a-dia. Muitas dessas situações queria eu ter vivido. Não consegui, mas escrevi.

O conto que dá título ao livro e que encerra o volume foi escrito em madrugadas afogadas em café e nubladas de fumaça de cigarro. De fundo, Acthung Baby, do U2, disco que tão bem define os anos 90. Para descansar, botava o disco (vinil, ainda), ouvia-o freneticamente, e voltava para a máquina. Quando raramente volto a ler esse conto, nos momentos de maior solidão do personagem principal, em minha cabeça volta a tocar One, a mais bela canção daquela década que já se distancia no tempo.

Voando pela noite (até de manhã) é um livro sobre solidão masculina e falta / procura de amor, tendo como cenário a noite encerrada em bares ou no carro, cortando a cidade, de volta pra casa pra fazer dormir o desespero, o vazio de às vezes ser jovem. Algumas histórias destoam desse contexto e roubam um pouco da unidade do livro. São os casos de Estressado e da própria tragédia de Hans & Alice, que entraram por causa de sentimentalismo de autor inciante, aliado a uma certa falta de critério editorial.

No site estão simplesmente a capa e os textos. Créditos, dedicatórias e epígrafes não entraram, pois o arquivo do livro, muito antigo, foi perdido na editora e esses detalhes não foram reproduzidos na nova digitação que precisou ser feita. Também não está no site o conto Ângela Sauer. É uma história de violência gratuita, sem sentido para a minha cabeça hoje, escrita na época por um autor (como tantos outros ainda atualmente) convicto de que escrever bem e causar impacto com literaturta, só imitando Rubem Fonseca.

O livro foi finalista do Prêmio Jabuti em 1997. Está esgotado, sem muita possibilidade de uma nova edição.

Amanhã escrevo sobre Eu nunca fecharei a porta da geladeria com o pé em Brasília, uma visão forasteira da capital do país.

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O terremoto no Haiti me remete automaticamente à piada gasta e já sem qualquer graça sobre o dia em que Deus criou o Brasil. Além de dar ao nosso país as mais belas praias, matas, cachoeiras e paisagens afins, ainda nos poupou dos catastróficos fenômenos da natureza.

Algum santo, ou assessor que o valha, questionou tanto privilégio. Ao que Deus virou e deu a explicação conhecida: “Ah, mas você vai ver o povinho que eu vou botar lá”.

Há uma versão mais moderna, que pretende ser engajada, politizada. É a que troca povinho por políticos, como se estes fossem postos onde estão por ação divina e não pelos votos de nós, pobres mortais.

Pense nessa piada olhando as fotos estampadas na Folha de São Paulo, em O Globo e no Estadão de hoje. Depois, ligue os noticiários de rádio e TV. Lembre outra vez da piada assistindo às imagens da desgraça, ouvindo os urros do desespero, do desatino, da completa ausência da esperança.

O povinho e os políticos.

Tudo bem, mas isso dá pra mudar.

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O jornalista Cláudio Humberto, que divide comigo a bancada do jornal Gente Brasília (2ª a 6ª às 9h na BandNews 90,5 FM) observou no programa de hoje que a tragédia no Haiti oferece oportunidade ímpar e definitiva para que o chamado mundo rico ofereça uma realidade nova ao país.

Na hora sorri com desdém da idéia, não pelo seu conteúdo, mas pela impossibilidade de vê-la nascer na prática. Logo eu, que sou bem mais utópico que meu companheiro de microfone, homem sem ilusões, calejado pela cobertura jornalística do poder.

Agora, substituído o desdém pelo humanitarismo, me pergunto se não seria mesmo a hora de se resgatar de debaixo dos escombros não apenas corpos dilacerados e milagrosos sobreviventes, mas um país inteiro. Tendo na história duas ditaduras familiares e sangrentas (Papa Doc e Baby Doc), o Haiti é soterrado pela miséria extrema, 80% da população estão abaixo da linha da pobreza.

O terremoto poderia servir para que a globalização estendesse ao menos uma vez a mão para ajudar aqueles cuja vida ela própria surgiu prometendo melhorar.

Numericamente, é plenamente possível. O Goldman Sachs pagou no ano passado a título de bônus a seus executivos o equivalente a 1/3 do PIB do Haiti. Se reduzisse a fatia para 1/4 e desse uma parte aos miseráveis que vivem com menos de US$ 1 por mês, já resgataria dos escombros um pouco da dignidade no país.
Não estamos pedindo o bônus inteiro, só um pedaço pequeno. Não estamos pedindo um pedaço pequeno apenas ao Goldman Sachs, mas igualmente aos outros que se equivalem. Não estamos pedindo o dinheiro do lucro de produção, do salário de trabalhadores, mas o que entra pela janela desses bancos trazido pelos ventos generosos dos lucros.

Por falar em lucros, a tragédia no Haiti aconteceu no mesmo dia em que Barack Obama anunciou a taxação sobre o que os bancos ganharam no ano passado. Meio sem graça e com sorriso amarelo, Obama está cobrando de volta o dinheiro do contribuinte que ele emprestou para os banqueiros saírem da crise que eles mesmos fundaram. Sugiro que o presidente cobre juros sobre os juros cobrados, ou seja, que combata fogo com fogo ou a cobra com seu próprio veneno, e que mande entregar a diferença ao Haiti, para que o país comece a sair de seu permanente terremoto.

E se não for pedir demais – e não é mesmo – pensem também na África, credora secular de uma dívida moral e humana de grande parte do mundo, incluindo o Brasil.

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O menino triste que mora em meu prédio está lá embaixo quase todas as vezes em que chego ou saio, sempre levando pela coleira dois ou três cachorros. Não distingo as raças, de cães entendo apenas de fazer festa nos mais dóceis e manter distância dos mais bravos. Só sei que em cada leva que vai para o passeio, são diferentes os bichos. A mãe do menino triste tem 14 cachorros dentro de um apartamento, para a revolta e incômodo dos vizinhos. É do tipo que acha que cachorro é mais importante do que gente, do que criança, que é a melhor espécie de gente. Respeito os bichos, mas ainda penso que as pessoas, apesar de todos os problemas que trazem, são mais importantes.

Morando em um “canil”, é compreensível que o menino viva lá embaixo, invariavelmente com duas ou três coleiras na mão. Passa ao largo das outras crianças do prédio, desvia das correrias. Quando está longe – e quase sempre está – arrisca olhar as brincadeiras, e em meio a cocô, xixi e latidos, parece dar como justo e normal que ser criança não é aventura que ele mereça. Atrás de bola nunca o vi, tampouco sentado no selim forçando as pernas curtas contra os pedais de uma bicicleta. Cercado de quatro, oito, doze patas, segue sua vida de menino sem meninice.

Eu não o cumprimentava. Injustamente, estendia ao garoto o silêncio dispensado à mãe, sem raciocinar que a culpa de se criar 14 cachorros em um apartamento não é da criança. Aliás, as culpas pelas imbecilidades do mundo nunca são das crianças.

Igualmente errados, os outros vizinhos dispensam ao menino nada além do olhar frio e acusatório que nasce das querelas adultas. Sabedor disso, o menino não foge apenas dos de sua idade. Toma distância também dos grandes, desses mais ainda, pois podem condená-lo pelo erro do qual ele compactua porque é menino, porque menino não tem muito direito de querer ou não. Mantém-se isolado, na companhia de cachorros, falando com cachorros.

Até que outro dia, um dos cães que ele levava latiu para uma de minhas filhas. Nervoso, temendo que o litígio com a vizinhança explodisse ali, tratou de dizer “Calma, ele não vai te morder, ele ‘tá é com medo de você”. E a frase foi seguida de um sorriso trêmulo, tímido, doce. Como eram doces a voz afobada e o sorriso acanhado do menino, que quase pedia permissão para sorrir. Foi a primeira vez que o vi sorrir. Foi a primeira vez que ouvi a voz do menino triste do meu prédio.

Ainda fiquei alguns minutos por ali. E como criança não tem mesmo muito assunto que puxar com adulto, repetiu mais um tanto “ele não vai ter morder, não fica com medo”, embora minha filha já até fizesse festa no focinho do bicho.

Desde lá passo e cumprimento o menino triste do meu prédio. Ele responde com a voz doce e afoita, desacostumado que é a receber “olá , como vai”. Às vezes até sorri, da mesma forma cândida, insegura. Mas quando as outras crianças estão por perto, me olha sério, pedinte, como querendo que eu, por um instante, tome conta dos cachorros para que ele vá correndo viver um momento que seja de meninice.

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Do lado direito da rodovia que liga o Rio de Janeiro a Brasília (BR 040), bem junto à entrada da cidade do Gama, fica um dos principais marcos da época da construção da nova capital.

O Catetinho está escondido atrás de uma curva, cerca de 200 metros após a saída da estrada. Os mais apressados ou desatentos à sinalização talvez nem notem a indicação de que ali fica um palácio, mesmo que de todo modo a construção renegue o substantivo que ostenta tanto garbo.

JK dormia ali quando vinha visitar o imenso canteiro de obras que virou o Planalto Central. Era, pois, a residência do Presidente da República naquele imenso rasgo vermelho que homens e máquinas abriram no cerrado. Por isso há quem o chame de palácio, especialmente os adoradores dos “oficialismos” da história. O Catetinho foi batizado assim por causa do – este sim pomposo – palácio da Rua do Catete, ícone do Rio capital da república, volte e meia trocado por Buenos Aires na desinformação do primeiro mundo. Catetinho, no diminutivo, soa como paródia, coisa bem de brasileiro.

O diminutivo do nome não resume apenas o tamanho da construção. Retrata também sua simpatia, calcada certamente na simplicidade.

Erguido em apenas dez dias, o Catetinho, claro, nasceu do traço de Oscar Niemayer, que deu forma à idéia de um grupo de amigos de Juscelino. O grupo se quotizou e bancou a casa em que o presidente morou enquanto construía Brasília.

Pela urgência em ficar pronto e pelos recursos disponíveis, o Catetinho foi feito em madeira. São apenas dois andares. Em cima, a sala de trabalho de JK e três ou quatro quartos, entre eles o do próprio presidente. Juscelino dormia em uma cama de casal tamanho padrão, posta em um espaço não maior que vinte metros quadrados, o necessário para uma mobília totalmente despojada de requinte. Colado ao quarto, um banheiro com uma pequena banheira. Juntos, quarto e banheiro certamente desapareceriam na imensidão suntuosa dos cômodos das mansões de hoje em dia da capital do país.

Embaixo estão a cozinha, a lavanderia e pequenas salas que eram depósitos na época, além de um espaço aberto que servia de refeitório. Nele, e em longas mesas de madeira, conta a história do Catetinho que JK almoçava ao lado dos engenheiros e dos operários, juntando o poder, a elite trabalhadora graduada na univerisdade e a parte de baixo que sustentava – e levantava – a pirâmide do sonho de Brasília, um convívio impossível na cidade dos dias de hoje com sua segregação social.

A ligar todos os cantos do Catetinho, ou o chão de cimento no lado de fora ou aquela cerâmica vermelha, tosca, tolida de qualquer acabamento.

É ingenuidade pensar que a época da construção de Brasília foi um tempo de anjos, de homens santos investidos de nobre missão. Corre paralela à versão oficial, a história – entre tantas outras – dos caminhões de terra que faziam uma viagem e recebiam por quatro. Mas passando os olhos pelo Catetinho e logo em seguida pelo Brasil de hoje, e principalmente pela Brasília de hoje, é de se duvidar de que os homens públicos de agora se contentariam com uma simples casa de madeira.

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