André Giusti - foto: Luana Lleras
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Uma das poucas coisas de que não sinto falta no Rio de Janeiro certamente é o calor de fevereiro. Não há novidade no que está nos jornais, dizendo que a cidade só não é mais quente do que um lugar perdido lá no Saara. Qualquer carioca que more ou tenha ido, por exemplo, a Bangu e adjacências nessa época do ano na hora do almoço sabe que lá o diabo tem saudade de casa.

No verão carioca jamais deixe o carro estacionado debaixo do sol. Se deixar, não pegue o volante sem a proteção de uma flanela. Ao contrário, suas mãos ficarão feito gado marcado com ferro em brasa. Lamento dizer, mas não estou sendo tão exagerado assim.

Certa vez estava fazendo uma reportagem na favela de Vigário Geral. Era um desses dias de janeiro ou fevereiro, mais de duas horas atrás da Polícia em uma operação de rotina. E por uma dessas crueldades do jornalismo de televisão (com o repórter, diga-se de passagem), eu vestia um vistoso terno e uma bela gravata, mas que me eram instrumentos de tortura naquela situação.

Terminado o trabalho da Polícia, mais de meio-dia, comprei duas enormes garrafas de água mineral. Uma bebi feito um camelo desidratado. A outra, virei inteira na cabeça, sem pena de ensopar o paletó.

Bom, toda essa introdução para falar de poesia. Abaixo, uma pequena série de cinco poemas escritos entre 1992 e 1995, bem nos meses da canícula, daí o título.

Aos meus conterrâneos, tentem refrescar ao menos a alma.

O Rio em janeiro fevereiro e março

I.

O dia amanhecendo
derretia luzes na Lapa.

II.

A noite caiu
a terra em volta abre
poros quentes.
Vapor
Vapor
Vapor.
Árvores imóveis
não dão sinal de chuva:
peço piedade
pro dia seguinte.

III.

Era de manhã
quando meu coração louco
passou a 120 pela Lagoa – Barra.
A Pedra da Gávea sorriu para mim,
me mandou beijos com ares de Mona Lisa.
O dia estava azul para sempre
e me apaixonei mais cinco vezes
até a noite.

IV.

Urca
Baía de brilhos
e curvas
e espuma de cerveja.
A vida roda ali agora
em mão dupla
na enseada de Botafogo.
A lua calada
quem sabe confessa
saudades de um sambista morto.
Marola vem e volta
pra escuridão
(e isso, na pedra,
é antiga percussão).
Na mureta
velha amiga solta o cabelo
insinua seios
giro olho e língua
vira nova amante. 

V.

Os flamboyants sangrando
nos galhos suspensos
são corais que se entediaram do mar
e foram viver nas árvores.
Outras flores
de nomes confusos
esperam entardecidas
o vento furioso
de um provável temporal.
O sol é um tigre asiático,
devora meus ombros
com fome de três dias.
Samambaias avencas
begônias jibóias
por trás dos muros que fervem
rezam pela misericórdia
da brisa.
As sombras heróicas
irredutíveis
montam guarda
embaixo das mangueiras
das amendoeiras
e aguardam que cheguem
suas irmãs noturnas
recortadas pela lua.
Deus é um pintor de horas vagas
que carrega nas cores
de vez em quando.

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De vez em quando você se dá conta de que ficou mesmo faltando ler alguns dos mais importantes livros da humanidade, de que teve em mãos e deixou passar Cervantes ou James Joyce, aliás, um saco, a maioria diz, mas mesmo essa oportunidade, a de também achar chato, você perdeu.

Também entrou e saiu de seus ouvidos o nome de algum dos discos que estão na lista dos mais de mil que você deveria ouvir antes de morrer. Resignadamente, pois, você morrerá sem ouvi-lo. Por mais que estique o elástico da memória, você não recaptura o nome do disco e muito menos o do sujeito que lhe falou dele, para que você vá atrás e pergunte de novo.

Jamais viu o pôr-do-sol no Pontão do Atalaia, porque também nunca prestou atenção onde fica ao certo esse lugar, se é mar, serra, chapada, despenhadeiro, logo ali ou fim do mundo.

Nunca aceitou o convite do antigo parceiro para montar um time de botão e jogarem como faziam na adolescência. E olha que você adora o cara, mais ainda jogar botão.

Pouquíssimo tem visto a lua, e quando finalmente procurou na frente do prédio o jasmineiro em flor, do qual sua mulher falou semanas, a florada já havia terminado.

Nem lembra o último filme a que assistiu do Woody Allen, logo você que quando era mais novo não perdia um.

Nunca mais também escutou Iran Maiden. Aliás, em que canto da casa a expansão da família confinou seus vinis do Iran, do Deep Purple?

Já morre de saudades do tempo em que a filha mais velha era bebê, e que você a trocava apressado ou com sono no meio da madrugada, iludindo-se, pensando que o tempo seria congelado para que você pudesse curtir tudo aquilo com mais calma, quando estivesse mais folgado.

Tem dias que você quase manda mesmo tudo às favas e vai  viver ver ler assistir ouvir tocar as coisas que são as mais importantes.

Mas esse também é um outro problema seu: você nunca chegou muito perto do quase.

Irritantemente covarde, você sempre abaixou a cabeça para as coisas sem importância.

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Foi por acaso que passou pela gôndola dos vinhos. Na verdade procurava pão-de-forma, que a mulher pedira para comprar em cima da hora de ele voltar do almoço para mais uma reunião sem importância, daquelas que não convém faltar. Mas como estivesse cansado, deixou-se contemplando aqueles rótulos vistosos. Às vezes, quando pousava os olhos assim em um conjunto de elementos coloridos, aliviava o esgotamento, parecia até que respirava pelos olhos.

Deu com a bandeirinha da Itália. Seus vinhos prediletos eram de lá, contrapunham os sabores fortes, os temperos quentes de que tanto gostava.

Suas noites de sábado eram calmas no geral, em paz como a consciência dos que vivem do próprio esforço. Havia travessura de crianças, mas mesmo assim conseguia ouvir jazz ou blues. Mais para a madrugada, com o sono, chegavam o silêncio e as sombras que a luz da rua desenhava na parede da sala. E o vinho italiano descia refrescando a alma e seus sonhos teimosos, aqueles mais verdadeiros.

Pão-de-forma.

Se der, compra amaciante.

E as camisas passadas na lavanderia, quem vai buscar?

Há dias doíam as costas, e ele nem desconfiava do motivo.

A gravata tolindo o pescoço, e o diabo de uma calça quente pinicando as pernas.

Lá fora um calor sem piedade derretia o mundo.

Cinco minutos ou menos para a reunião.

Olhou uma das garrafas, a do seu preferido.

Mas ainda era somente terça-feira.

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                  Dos porões dos anos 90, divido com vocês essa prosa poética apaixonada, para começarmos a semana.

 

Ah, Maria! Quantos poemas, Maria!…Quantos poemas possíveis quando deixas os olhos abertos aguardando as constelações no fim da tarde. Maria, quantos poemas inseminados de vento gelado…trovas, estrofes, métricas perfeitas, modernismo, futurismo, rimas ricas, caras, entrelaçadas, contos, novelas e até romances, Maria, veja só, romances épicos, premiados, best sellers vendendo mais do que amendoim torrado em bar da Avenida Atlântica.

Palavras, Maria, Palavras! Páginas de um dicionário inteiro voam quando teus olhos me fitam por distração, matando o tempo enquanto não chegam as constelações do fim de tarde. Ah, Maria! E eu que nunca cacei borboletas, deixo as palavras passarem por minhas mãos rumo ao princípio do planeta. Você calada já diz tudo, Maria, e eu quero ser um poeta calado, embriagado do teu silêncio. Você calada e a poesia sobrevive entre os cães do mundo, passa batom discreto, bate a porta e vai ver o luar de todo o céu.

Ah, Maria! Poemas, Maria, poemas! É tudo que tenho vontade de fazer quando penso em teu cabelo na cara, minha adorada bonequinha de pano maltratada pelo frio. Poemas, Maria, o dia inteiro escrevendo para ti, os pés na mesa, a casa de lado imitando o caos, louça na pia, poeira no móvel, cabelo, barba crescendo, a esferográfica me dando calo na dobra do dedo e a agenda do ano retrasado sobre o colo, encharcada do teu nome, Maria. Poemas todos os tipos: odes, sonetos ultrapassados, quadras, tercetos, versos livres, enredos de sambas amalucados, hai khais mínimos como folhas de trevos, longas e longas páginas cobrindo a Avenida Brasil, do Caju a Santa Cruz. Poemas, Maria, que fizessem justiça, que curassem doentes, abrigassem crianças, matassem fome, frio, mas que me levassem contigo, Maria, pra Taiwan, Luxemburgo, Bali, Madagascar. Poemas, Maria! Poemas que tornassem possível transformar em Interprise que sobe as serras meu Passat 82 queimando óleo. Eu e você dentro dele, acima das nuvens, sentindo cheiro de baunilha, framboesa, damasco, hortelã.

Ah, Maria! Quantos poemas possíveis quando me abraças tirando-me o chão dos pés e me pões para andar descalço no cosmos, como se fora ele o tapete de luxo que não tenho na sala. E eu sinto, Maria, eu juro que sinto, não é mentira, eu sinto as estrelas entre meus dedos como se fosse a terra bem fina do leito dos rios. Ah, Maria, em quantos poemas te imagino de surpresa aqui em casa, sem amarras, solta de engrenagens, chegando das profundezas de um temporal, rindo da minha cara abrindo a porta, ensopada, pedindo uma camiseta seca e um pouco de carinho e êxtase madrugada adentro. Ah, Maria, você aqui em casa eu invento um chalé em Teresópolis, um bangalô em Arraial ou deixo tudo assim mesmo, nesse “apertamento” de homem solitário – onde do quarto acendo a luz da cozinha sem tirar os pés da sala – de medidas certas para você e eu.

Ah, Maria, quantos poemas possíveis com você aqui em casa e a gente comendo macarrão em um só prato, como se fôssemos mesmo The Lady and The Bad Tramp, uma distribuição NetWork, versão brasileira A6 São Paulo. Você viu quando era criança? Claro, eu sei, todo mundo viu. Mas eu te prefiro mais boneca de pano do que dama, do que  Demi Moore ou Daryll Hanna. Maria, você não é filme, nem teatro meu ou do absurdo. É só poesia inspirando a música louca dos pardais.

Rio de Janeiro, 1994.

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‘Inda pouco eram sete horas

Agora são quase dez.

A semana já está acabando

E sábado-e-domingo também é tão rápido.

O ano passou do meio

E minha vida, da metade.

Logo é outro natal

Teu aniversário é mês que vem

Qualquer dia, a nossa morte.

Apenas a gradual angústia das horas

É lenta,

Lenta feito um visgo-movediço-vagaroso

Nos subindo pelas pernas,

Passando da cinutra

Até nos roubar inteiramente o ar.

* Esse poema esta publicado no último número de caderno de poesias 7faces. Conheça o caderno acessando http://set7aces.blogspot.com/

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O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, disse hoje que a denúncia de suborno, que pôs ainda mais pimenta no vatapá da bandalheira em Brasília, significa a falência múltipla das instituições, ou da moralidade, ou da dignidade da administração pública. Agora não vem à cabeça a frase com exatidão, mas o sentido era esse, carregado de uma contundência que, aliás, está faltando às autoridades que podem tirar do poder a quadrilha que envergonha o morador da capital do país.

A expressão falência múltipla me faz, ainda uma última vez, falar de Ernesto Silva nesse espaço. O médico, pioneiro de Brasília, morreu quarta-feira aos 95 anos. Falência múltipla foi a causa mortis, o que geralmente consta nos atestados de óbito de alguém que viveu tanto tempo como ele, boa parte se dedicando a construir e a manter uma cidade bem diferente da que vivemos hoje física e, acima de tudo, moralmente.

A falência múltipla levou Ernesto, libertou-o de um corpo que já era um fardo.

Pois bem.

Que leve também o corpo apodrecido da roubalheira que envergonha e pesa nos ombros da gente honesta dessa terra.

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Parece emblemático que Ernesto Silva tenha ido embora justamente no momento mais delicado da história de Brasília, quando a podridão exposta ao resto do país quase dá de ombros, certa de que não haverá golpe algum de justiça capaz de abalá-la.

Aos que nada conhecem da história desse pediatra, foi um dos homens mais importantes da construção da nova capital. Veio aqui ainda no governo Vargas demarcar os limites da cidade, época em que os tatus e as onças mandavam no terreiro. Construída a capital, resolveu fazer dela a sua casa. Foi o único dos nomes conhecidos da odisséia Brasília que decidiu morar na cidade que ajudou a levantar. Terminou sua missão pouco antes que a grande filha em forma de avião completasse 50 anos.

Mais importante do que o passado de Ernesto Silva em Brasília, era o presente de Ernesto Silva em Brasília. Defendia a cidade como patrimônio histórico, mas na verdade seu combate era pela qualidade de vida, o maior patrimônio que o morador de qualquer cidade pode almejar conseguir. Insurgindo-se contra o andar a mais nos prédios do Plano Piloto, defendendo a área pública da ocupação sem ordem ou os gramados e as árvores do apetite dos carros, era uma pedra no sapato daqueles que querem susbstituir a liberdade dos grandes espaços pela opressão dos arranha-céus e pela neurose dos congestionamentos.

Ernesto Silva era um dos últimos intérpretes de uma Brasília que se quis humana, que nunca se imaginou recebendo o lixo político do resto do país nem servindo de retiro a uma elite funcional parasitária, engordada por vantagens e gratificações –  muitas vezes imorais – ou propinas e comissões – sempre ilegais. Uma elite, não apenas de funcionários públicos, mas de outros ramos da economia, que em parceria com a classe média e com o chamado povão, é cúmplice por omissão ou por proveito de um governo local alcaponiano, de um parlamento distrital inútil e apodrecido e de uma justiça vaidosa, preguiçosa e complacente.

A morte de Ernesto Silva nos deixa a sensação inesgotável da orfandade, e leva com ela uma Brasília que talvez sequer tenha existido de fato, e que certamente nós que ficamos não conseguiremos recuperar.

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Morreu hoje, às 13h15, o médico Ernesto Silva, pioneiro de Brasília e um dos homens mais importantes da história da cidade, não apenas no que se refere à construção, mas também à sua história e preservação arquitetônica.

Estava com 95 anos e doente há alguns meses. Morreu de falência múltipla dos órgãos. Não verá completar meio século a terra que ajudou a levantar. Pela defesa aguerrida de Brasília como patrimônio da humanidade e da área verde da capital do país, principal riqueza da cidade, o blog presta sua homenagem.

Morreu Ernesto Silva.

E agora, como ficará o jardim em frente ao bloco?

Quem vai proteger a área verde lá da quadra?

Quem vai impedir que o parquinho das crianças vire estacionamento?

Meu Deus!

Quem vai nos defender da Via Engenharia?

Da PaulOOctávio?

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Aprendi na pouca teoria sobre jornalismo que li em minha vida que a imprensa é o canal entre o estado (governo) e a sociedade. Cabe ao jornalista traduzir para esse estado (governo) os anseios da sociedade, e voltar trazendo de maneira interpretada os (des)mandos dos palácios. Ir e vir, tornando claro o entendimento para cada parte.

Pelo menos em relação à linguagem não é isso que está acontecendo. Não no radiojornalismo.

Os textos de repórteres e redatores estão sufocados pelo “oficialismo” vazio das autoridades, que usam e abusam da linguagem emproada. Usam a espuma dos discursos prolixos para esconder que não conhecem nada do que estão falando. Enchendo os ouvidos da sociedade com palavras de efeito e termos técnicos, disfarçam que o secretário de saúde nada entende de hospitais, o de educação de escolas, e por aí vai. E nós caímos feito patos nessa esparrela. Essa ignorância que deveria ficar nua nos textos das emissoras de rádio, ao contrário, fica muito bem vestidinha com um modelito de falsa competência, porque não conseguimos traduzir e desmascarar o que eles falam para a linguagem do homem, da mulher comum.

Mais uma vez não vou me estender nos exemplos. Eles dariam um blog inteiro. Falarei de apenas dois.

Vejamos a palavra demanda, vocábulo básico do universo economês. Não deveria, mas atravessou as fronteiras desse mundo inalcançável pela maioria dos mortais e hoje é de emprego corriqueiro em situações que passam longe dos assuntos de economia. Não existem mais vontade, necessidade e procura. Todas elas são substituídas pela chique demanda, mesmo que seu significado não se encaixe exatamente no que se quer dizer ou escrever. O que importa é “tascar” uma demanda no meio do texto para ficar bonito, importante. Afinal, a autoridade, aquele homem tão bem vestido falou “que a demanda isso, que a demanda aquilo”. Sem pensar no que realmente significa demanda, sem criatividade para achar alternativa que deixe clara a informação para o ouvinte, o repórter ou o redator entram no ar, gravam a reportagem sem terem cumprido plenamente seu papel de ponte entre estado e sociedade.

Unidade é outra palavra a qual o linguajar técnico atribui um significado maior do que aquele que ela possui originalmente. Unidade, nos relatórios embolorados dos gabinetes, quer dizer escola, hospital ou posto de saúde, delegacia e outros lugares sustentados com nossos impostos. A designação parece que se libertou do mofo da burocracia e ganhou as ondas do rádio. É cada vez mais comum ouvirmos sobre a inauguração de tal unidade de saúde ou então que tantos alunos vão estudar em tal unidade escolar. Há pouco tempo, em uma das rádios de notícias do país, em um boletim de míseros quarenta segundos a repórter falou a palavra unidade três vezes ao se referir a um desses locais.

Sou do tempo em que escrever hospital e escola era bem mais fácil.

E mais piedoso com os ouvidos da audiência.

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Obrigado, por força do ofício, a ouvir diariamente as chamadas emissoras de rádio all news, constato há muito tempo que o texto de redatores e repórteres é um convite a que ponhamos nos ouvidos os fones de nossos MP3. Ou mesmo que optemos pelo silêncio da alienação.

Eu poderia partir de vários pontos para começar esse post abordando a baixíssima qualidade do que é escrito no rádio no Brasil, especialmente no jornalismo de rádio, que é a minha parte nesse latifúndio. Penso que o assunto é merecedor de um blog inteiro, com atualização diária devido à grande quantidade de defeitos do que se ouve nas emissoras, e que não se encerra em uma única postagem. Para ser mais realista, precisa-se mesmo é de uma urgente discussão envolvendo quem está fazendo rádio e quem está ensinando e aprendendo radiojornalismo.

Nesse caminho pedregoso e espinhento, vou me ater aos dois aspectos que me parecem mais graves: a falta de vocabulário e o predomínio da linguagem e dos termos oficiais no que se escreve, e consequentemente no que se ouve.

Tomo o verbo afirmar como exemplo da aridez vocabular nas ondas do rádio.

Em um idioma com cerca de 30 mil verbos, nos textos de radiojornalismo todo mundo afirma alguma coisa no país e no mundo. Só afirma. Nenhuma autoridade, artista, jogador de futebol, qualquer um que dê a mais banal das declarações aos jornalistas de rádio diz, fala, conta, informa, garante, assegura, lembra, alerta, adverte, rebate, insiste, argumenta, pondera. Todos, nos textos de repórteres e redatores, só afirmam, sempre afirmam, numa irritante demonstração do quão está limitado o universo de verbos dos nossos profissionais. Afirmar, que é verbo forte e por isso deve ser preservado, é usado em frases que não o exigem, que ficariam melhores com verbos mais fracos. Se o posto de saúde mudou o horário de funcionamento, prepare-se para ouvir que a diretora do posto afirmou que o posto mudou de horário, quando o que ela na realidade fez foi informar a mudança. Informar é verbo mais humilde, corriqueiro, perfeito para uma situação quotidiana de um noticiário. Mas no lugar dele vulgariza-se o afirmar, saturando a paciência do ouvinte.

Na esteira de afirmar, seguem outros exemplos, até mesmo fora do clube dos verbos. A expressão por conta substitui invariavelmente suas primas por causa ou por que. Nenhuma rua mais enche por causa do temporal ou por que choveu muito. É sempre por conta do temporal. Nos textos de radiojornalismo, toda pessoa que seja notícia sempre vai fazer isso ou aquilo, chegar a esse ou àquele lugar na manhã de hoje, na tarde de amanhã, na noite de segunda, quando, na verdade, as pessoas, incluindo os jornalistas, vão ao cinema hoje à tarde, vão jantar fora amanhã à noite ou jogaram futebol ontem de manhã.

 

Os profissionais de rádio estão se esquecendo de que o meio pede que falemos da maneira que falamos em nosso dia-a-dia, obviamente resguardando o ouvinte das gírias e expressões incorretas. Sem se darem conta disso, banem de seus textos elementos fundamentais ao uso diário de nossa língua. O Presidente nunca acredita que o país vai superar a crise, mas sempre diz acreditar que o país vai superar a crise. O jogador nunca diz que está confiante na vitória. É sempre diz estar confiante. O que faz parte de nossa vida, nossa língua, é apoio até mesmo da elegância do texto, e não pode ser dispensado sempre. O uso indiscriminado do verbo no infinitivo é tão aborrecido quanto o “queísmo” , tão corretamente combatido anos atrás dentro das redações.

Amanhã falo sobre como a linguagem embromada das autoridades está ganhando de goleada da clareza do texto jornalístico.

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