André Giusti - foto: Luana Lleras
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Se há um filme em cartaz que trata de questões contemporâneas, este filme é certamente The Square – A Arte da Discórdia, candidato sueco ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

E ele não se limita a apenas uma questão, como outros que escolheram falar sobre racismo, homofobia, pedofilia, etc.

The Square abre o leque das mazelas de uma Europa egoísta, que não reconhece nos seus problemas atuais o fruto de suas ações predatórias ao longo dos séculos.

AdoroCinema

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Partindo do mundo egocêntrico das galerias de arte, The Square começa falando da desconexão desse universo com o sentimento e entendimento do homem comum, que deveria perceber na arte uma forma de compreensão e mudança de sua existência e do próprio mundo.

Mas isso não acontece por causa da pretensa genialidade de artistas que a gente não entende porque e como se consagram, que produzem para uma camada de dez ou doze tão egocêntricos e desconectados feito eles.

Mas The Square fala também sobre liberdade de expressão, sobre quem defende liberdade de expressão a qualquer preço. Até que se vê agredido, ofendido e até ameaçado por essa liberdade de expressão.

Fala sobre racismo e xenofobia, praticados também por quem é vítima dessas duas abomináveis condutas.

Fala sobre a superficialidade das relações, sobre nossa desatenção cada vez maior com o outro, seja no trabalho, na rua, seja na cama.

Fala sobre as oportunidades que perdemos diariamente de pedirmos perdão pelos seres egoístas que somos. Oportunidades que nem sempre voltam.

Fala até (sobrou pra imprensa, claro) da falta de consistência com que são produzidos conteúdos que recebemos diariamente e que deveriam nos orientar na hora de pensar, escolher, decidir.

The Square é um filme necessário de ser visto, no mínimo para nos chamar a atenção sobre como estamos conduzindo nossas vidas e pilotando esse planeta.

Não assisti aos outros candidatos ao Oscar de filme estrangeiro, mas pela mensagem que traz, The Square já é meu favorito.

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Não sou crítico literário, não tenho obrigação de me estender sobre um livro que acabei de ler.

É porque não preciso de mais do que uma palavra para definir o livro de Aline Bei. Aliás, duas palavras: lindo demais, e peço logo perdão pela redundância, pois se é lindo, já é demais, mas neste caso cabem as duas, sem exagero.

Ah, e se você, ao começar a ler, ficar em dúvida se é um romance ou um livro de poesia, fique tranquilo. Uma hora é um; outra hora, é outro, mesmo que pareça difícil existir um livro assim.

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Dicas Gerais

Dicas Gerais

A pessoa é sua amiga na rede social, e com alguma frequência na vida real também.

Claro que sabe que você é escritor, tem até ao menos um de seus livros.

Mas não dá um sinal de vida quando você posta um poema, um trecho de conto, uma crônica.

Aí, num belo domingo madorrento, você tasca lá na tua página a foto do rango feito com carinho pela namorada ou semelhante. De quebra ainda vai o vinho que você guardou para uma ocasião que fizesse jus ao rótulo.

Em cinco minutos, a pessoa aparece cheia de coraçãozinho ou carinha de uau! e ainda comenta “maravilhoso”, “que delícia” ou elogios do gênero.

Ela até pode estar elogiando teu cardápio, tua carta de vinhos, mas, sei lá, acho que na verdade está dizendo, de outro modo, “cara, você é bacana, mas não gosto de você como escritor”.

Capaz de ser paranoia minha. Capaz que não.

Coisas de autor em tempos de rede.

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Em todo fim de ano despencam sobre nós avalanches de listas dos dez melhores do ano.

Pelo jeito deve haver lista até dos dez melhores vasos de planta.

Natural que haja de livros também.

Alguns autores conhecidos meus emplacaram seus livros em listas de sites, blogs e jornais literários considerados de peso no meio das letras. Não li todos os livros desses meus conhecidos. Dois ou três que li merecem as citações nas listas.

Meu livro mais recente – A Maturidade Angustiada (Contos, Penalux, 2017) – figura numa lista, que nem é de dez, mas de sete (ou seja, uma peneira ainda mais rigorosa).

É a lista dos sete melhores livros nacionais publicados em 2017 de acordo com o também escritor Matheus Peleteiro.

Peleteiro está de trabalho novo: Pro Inferno Com Isso (Contos, edição do autor).

Meu A Maturidade Angustiada foi bem elogiado desde o lançamento em maio, mas não entrou em nenhuma lista desses veículos literários tidos como de relevância opinativa para o mercado editorial.

Mas se paramos para pensar que essas listas são feitas a partir de avaliações subjetivas construídas em cima do gosto pessoal de quem lê (pois o crítico, se imparcial e sem interesse comercial, é também um leitor) a lista do Matheus, na minha opinião, tem o mesmo peso de uma lista da Folha de São Paulo, da Cult ou do Rascunho.

Por isso tô bem feliz de estar nela.

http://www.andregiusti.com.br/site/livros/a-maturidade-angustiada/

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Penso que no fundo, no fundo a data é mais um pretexto para bebermos e comermos desmesuradamente.

É tão somente um dia no calendário, muito pouco para ser marco inicial de alguma mudança.

Esta, se quisermos, poderá acontecer em alguma quarta-feira de maio ou agosto, antes ou pouco depois do almoço. Prefere outubro? Março? Fique à vontade.

O que se encerra hoje é apenas mais um ciclo da Terra em volta do Sol. As datas dos nossos ciclos dependem da nossa percepção em relação ao início, final e continuidade deles, e isso não se atrela a calendários.

Hoje, à meia-noite, ninguém lá em cima, ou sei lá onde, vai virar uma chave pra mudar tua vida. Nessa chave é você quem mexe. Ou sua própria vida, a hora em que ela achar que algo já te basta. Em qualquer dos doze meses do ano.

Mas eu sou mais otimista do que realmente pareço.

Se toda essa onda de felicitações (quando até quem passou o ano inteiro sem te dar um alô manda aquela mensagem standart com aquele vídeo fofo de 12 minutos) te motiva a ser melhor, ótimo! Aproveite, feito o surfista que se lança na onda subindo no mar bravo.

Que teu desejo de ser melhor sobreviva, amanhã, à cabeça pesada e ao estômago virado.

Ressaca
*
Neste ano da graça de 2018, devo chegar aos 50 mil km rodados.

Em meu caso, a meia idade me trouxe paciência. Mas também intolerância.

Hoje sou compreensivo, benevolente, tolerante com coisas que me tiravam do juízo 20, 30 anos atrás.

Por outro lado, não aceito nas pessoas procedimentos que relevava no passado.

Na verdade, sou ainda o mesmo, ainda alternando tolerância e irritação, apenas mudei móveis de lugar.

O que me atingia não me move mais. O que eu fingia não ver pra não esquentar a cabeça, hoje me agride.

Como estará essa mobília daqui a dez anos, se eu ainda vestir este corpo de carne e ossos?
*
Ah! Feliz ano novo!

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Amigo de rede social tem postando músicas bem legais que falam sobre o verão. Parece que a estação dá mesmo vontade de a gente ouvir mais música e falar/escrever sobre elas.

Hoje lembrei que lá pelos meus 15 anos, todos os dias eu pegava o 454 (Grajaú-Leblon), no Andaraí, bairro no Rio em que morei dos dez aos 24 anos. Era o modo de um moleque suburbano ir à praia. Na época, o metrô do Rio não chegava a tantas estações.

Duas horas depois eu saltava no Posto 9, em Ipanema, do outro lado da cidade, e ficava o dia inteiro na praia, com colegas de rua e colégio, fiscalizando ondas e biquínis.

No busum, um azulão da finada CTC, eu ia cantando essa música aí debaixo, me achando o surfista só porque pegava uns jacarés muito caidinhos.

Ah, detalhe! Eu gosto dessa gravação, com o Ricardo Graça Mello, que era trilha sonora do filme Menino do Rio, muito mais legal do que com o mala do Lulu Santos.

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Acho que ouço Rock desde a outra encarnação, mas houve um tempo em que comecei a comprar os discos, a ler sobre as bandas, conversar com quem gostava também. E sempre tinha uns nojentinhos que torciam o nariz se a banda tocava no rádio. De repente, o sujeito até gostava, mas se estourava nas paradas, ele batia o pezinho: ah, é muito comercial. E ficava lá, cagando a goma de gostar de umas bandas que só ele e metade da torcida do Botafogo conheciam.

Muita gente carregou a pecha de ser ruim só porque fazia música que tocava no rádio. Phill Collins é um dos exemplos que me ocorre. Isso respingou até em entidades superiores como a trup de Fred Mercury. Confesso que, nas inseguranças da adolescência, eu ficava assim assim de gostar (demais) de muita coisa que tocava no rádio. Mas poucos anos depois, um pouco mais velho, eu já sacava que fazer som comercial nada tinha a ver com qualidade, as duas coisas poderiam caminhar juntamente, sem nenhum problema.

E exemplos, ao longo da história, não faltaram.

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“Menina veneno você tem um jeito sereno de ser” é um dos versos mais cretinos e imbecis que se escreveu na música brasileira. Mas como a gente cantava, ah! como a gente cantava…todos querendo pegar cada um sua menina veneno. Lembrei disso porque um vizinho desceu assoviando hoje de manhã.

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Não sou crítico de música nem de literatura, mas de vez em quando arrisco uns pitacos e indico uns discos e uns livrinhos pra deixar a vida mais leve.

Hoje a dica é sonora.

Gostei muito, muito mesmo, do segundo disco da banda Commodities, lançado por esses dias nas plataformas digitais. Na verdade, pelo que li e conheço, a banda é basicamente o músico mineiro radicado em Brasília Raphael Rocha batendo escanteio e correndo para cabecear, ou seja, tocando boa parte dos instrumentos. Mas parece que de vez em quando aparece alguém para bater um lateral ou tiro de meta.

Se é trabalho de banda ou solo com cooperação, não importa. O fato é que Behind the curtain There Is Another Curtain me agradou e muito. Raphael Rocha usa efeitos para alcançar uma bela sonoridade em melodias agradáveis e ótimos arranjos instrumentais.

Para mim, ficam claras suas influências de Stereophonics. Foi fácil para mim sacar isso, pois uma vez o vi dizendo que gosta da banda, realmente uma das melhores dos últimos 20 anos. Mas há no disco também bastante de Oasis e até mesmo do mais recente disco (e muito bom também) de Noel Galangher, do qual , inclusive, falei outro dia.

Não há problema algum um artista mostrar que sofre influências. Até hoje mostro em meus livros que sou influenciado pelos autores que me fazem a cabeça.

Estava para escrever sobre a Commodities desde o primeiro disco, lançado em 2014, que me causou ótima impressão. Cumpri a tarefa agora, somente com o segundo, no qual a Commodities entrega de maneira eficiente a sua mercadoria.

A banda serve também para trazer esperança aos meus contemporâneos de que o Rock’ n Roll continua uma coisa viva, pulsando solto no cosmos e no caos.

Se a Commodities não traz nenhuma grande novidade em suas músicas, para mim também não há qualquer problema. Fazendo bem feito o que já conhecemos tá valendo muito e já é um grande motivo par escutar com atenção e prazer.

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Escrevo com uma certa segurança de que não falarei apenas por mim.

A cada ano gosto menos das festas de fim de ano.

A chegada do natal e a badalação do ano novo me deprimem. Não consigo, de verdade, sentir essa tal vibração fraterna ou esperança em novos tempos.

Em meio à pretensa alegria que a maioria das pessoas na verdade se obriga a sentir, o que sinto na verdade é melancolia, nostalgia, ansiedade para que esses dias passem rápido.

Fico tenso, tenso pacas, uma panela de pressão esquecida no fogo. Para mim, nenhum mês é mais nervoso e irritadiço do que dezembro, com suas lojas americanas apinhadas de gente se estapeando pelo panetone (ruim) que dá azia.

Nada mais opressivo do que as tais festas de confraternização no trabalho, nas quais desfilarão sorrisos amarelos de quem o ano inteiro cruza contigo no corredor e nem te dá bom dia.

Papai noel

Dezembro, nesses moldes de histeria consumista, poderia ter apenas 15 dias, ou os dias terem apenas 12 horas. Seria um alívio.

Me explicaram que esse sentimento advém das perdas que tivemos ao longo da vida, da impossibilidade de estarmos, justamente num período de aproximação entre as pessoas, juntos de alguns que nos deixaram e que no fundo, no fundo, por mais que a gente ache que se acostumou, foram na realidade perdas irreparáveis.

Órfão de pai e mãe, divorciado e etc e tal sou passível de compreender a explicação e atémesmo ilustrar a teoria.

É difícil, mas tô tentando fazer com que dezembro seja bem mais reflexão e menos, bem menos hi-pi hi-pi urra urra!.

Quem comemora o natal é porque em alguma medida acredita no aniversariante, mas a cada ano parece que mais e mais a mensagem do cara se perde nos corredores lotados dos shoppings e nas mesas de fartura exagerada, com aquela comida que já no dia seguinte ninguém, na verdade, aguenta mais.

Vejo muita gente pedindo que 2017 acabe logo. Foi assim com 2016, 2015. Deve ter sido assim com 1972. Será com 2018.

Quero menos a espuma dessa alegria forçada. Menos ‘bebeção’, menos rabanada dura de tanto açúcar, carne de porco brilhando de gordura e aquele peru da sadia seco e sem gosto.

Tá foda de conseguir, mas tô procurando olhar melhor pro fundo da minha cuca pirada e ver como posso ser menos pior do que sou, já amanhã, ainda em 2017.

Tô numas de querer um eu melhor pra 2018 do que fui em 2017.

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