André Giusti - foto: Luana Lleras
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Adoro Cinema

Adoro Cinema

Na minha vida profissional trabalhei com alguns colegas que sempre se mostraram preocupados em demasia com os interesses comerciais e políticos das empresas em que trabalhavam.

Quando uma matéria tinha sinais de que poderia incomodar relações prezadas pelos patrões, ainda antes de ela ser fechada o sujeito já estava cheio de dedos, refugando na hora de escrever o que sabia e o que era importante dar conhecimento à sociedade, o principal cliente de um veículo de comunicação.

Ben Bradlee, personagem de Tom Hanks no excelente The Post – A Guerra Secreta, é o editor chefe do Washington Post e seu (único) compromisso é com a informação no caso do vazamento de um relatório secreto do governo americano sobre a guerra do Vietnam.

Em duas horas de filme, Bradlee enfrenta pressões principalmente dentro do próprio jornal para não dar conhecimento ao povo americano da notícia que é nitroglicerina pura.

Em certo momento do filme, me lembrei de um rapaz, de futuro promissor na profissão, que chegou certa vez para mim na redação com um belo exemplo daquilo que chamamos furo de reportagem.

Titubeante, sua preocupação maior era se haveria represália quando a matéria fosse ao ar. Respondi que na emissora havia gente que ganhava bem mais do que ele para se preocupar com isso, e que seu papel ali, naquela hora, era gravar a matéria e entregar ao editor.

Pois Ben Bradlee, a partir de experiências anteriores do personagem, torna-se exemplo a ser seguido por alguns colegas que, infelizmente, se acham mais realistas do que o rei e se arvoram em defender interesses que na verdade nem sabem se são realmente de quem os emprega.

E se forem, a preocupação é justamente do patrão.

A nossa é com a notícia.

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Menina andando de bicicleta
Testemunhar a conquista de um filho nos traz igualmente a sensação da vitória.

Quando dobram alguma dificuldade, ultrapassam obstáculos, obtêm êxito em desafios é um pouco (aliás, um muito) de nós que também sai vencedor.

Nossa dedicação não deixa de estar ali consagrada.

Pela minha lembrança, o primeiro desses tantos momentos é quando a criança aprende a andar, quando solta de nossas mãos e vai pela casa, pela calçada, confiante já em suas próprias pernas.

O segundo certamente é quando aprendem a andar de bicicleta.

Por esses dias, pela terceira vez em minha vida de pai levantei esse troféu imaginário.

Após alguns dias de tombos e choro, minha filha mais nova saiu pedalando pelo jardim, enchendo de gritos de alegria (meus, dela e das irmãs) a noite de verão.

O equilíbrio inseguro foi se firmando a cada vai e volta emocionado da novidade, conquistada também com um pouco do meu esforço em lhe transmitir amor e confiança.

Vendo-a se distanciar no longo corredor embaixo do prédio e dominar o mistério de se mover sobre duas rodas, sobreveio-me a orgulhosa impressão de que estou colaborando para que, quando realmente estiver longe de mim, saiba se equilibrar também na vida.
*
André Giusti
Do Livro As Estranhas Réguas do Tempo (Crônicas, Editora Multifoco, 2014)
À venda aqui, na seção Livros do site

Capa As Estranhas Réguas

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Cony

Comprei este exemplar de um dos clássicos de Carlos Heitor Cony uns dois meses atrás.

A morte do autor, há algumas semanas, fez com que a obra furasse a minha sempre extensa fila de livros a serem lidos.

Percebi nas páginas que contam a história de um publicitário e sua mulher, 30 anos mais jovem, traços comuns a outros livros de Cony.

Parece haver em sua literatura a imperfeição da pressa jornalística, característica de quem escreve sempre com o ponteiro do relógio apontado contra si, feito uma arma.

Isto faz pensar que alguns parágrafos poderiam ter sido escritos de outra forma.

Talvez também o que dizem os personagens em alguns momentos poderia estar na boca do narrador. E vice-versa.

Há, até mesmo, a impressão de que Cony usou de modo inadequado determinado verbo, quando deveria ter optado por outro, que demonstraria melhor o sentido que ele quis dar à frase.

Mas – com tudo isso e apesar disso – tente e veja se consegue interromper ou deixar de lado a leitura de um livro de Cony.

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O Pontão do Lago Sul é um dos mais belos locais de Brasília. À beira do Lago Paranoá, reúne bares e restaurantes sofisticados e, claro, bem caros em sua maioria.

Pena que a beleza do local é inversamente proporcional à qualidade das músicas que ali se escutam.

O Pontão, em minha opinião, é um exemplo de que poder aquisitivo nada tem a ver em absoluto com bom gosto, principalmente cultural.

E ontem uma das músicas, sempre tocadas em alto volume dentro dos iates e lanchas luxuosos que desfilam pela orla, me chamou particularmente a atenção.

Não pela pieguice imbecil das letras ou pela pobreza aguda das melodias e dos arranjos.

Não pelo grotesco a que a maioria dos brasileiros se acostumou, anestesiada, a ouvir.

Mas pela agressividade da banalização do ato sexual, descrito de uma forma tão grotesca e vulgar, que me senti agredido, ofendido.

Lanchas

Estou longe de ser santo e os prazeres físicos me chamam por demais a atenção, mas aquilo que ouvi na letra passa feito um rolo compressor por cima da dignidade das mulheres. E de uma certa forma da dos homens também, por dar a entender que todos nós agimos daquele jeito.

Se você fica insensível a uma letra que diz “transa com uma, duas, seis, dezesseis” – e o verbo usado não era transar, estou amenizando -, se você não sente ao menos um pingo de nojo, pare e pense, procure ajuda, meu/minha amigo/amiga, porque você não está com a cabeça sã.

A bordo da bela lancha de sei lá quantos mil pés, rapazes e moças brancas, filhos da boa cepa brasiliense, regalavam-se com a música (?) que a indústria fonográfica tenta nos fazer acreditar que é o canto das favelas. Favelas que por sinal ninguém ali naquela embarcação tem sequer uma migalha de noção do que sejam.

Por causa de uma criança que em companhia da mãe entrou numa exposição de arte em que havia um homem nu, o tal MBL fez um escarcéu dos infernos.

Por que, então, não tenta impedir a veiculação de uma música com esse teor?

Se existem mesmo os tais moral e bons costumes, o que ouvi neste domingo é que é, certamente, uma violação a esses ditames.

Não se trata de liberdade de expressão. É lixo embrulhado em ofensa e agressão à dignidade.

O MBL não fez nem fará nada, assim como não vejo os eleitores que votarão na boçalidade e na estupidez dizerem nada, porque o pensamento e a conduta média de todos se coadunam exatamente com o que prega a letra da música.

Quando é do interesse, vestem a capa da moralidade.

Quando não, se trancam no silêncio da cumplicidade de quem trata mulheres, negros, gays, índios apenas como material de rima para um funk barato.

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Interrogação

Eu permaneço sem me convencer de que Lula é culpado, apesar da unanimidade do placar de ontem.

Não posso me convencer da culpa quando lembro do juiz de rostinho colado ao do Aécio, rindo e contando segredinhos.

Se jornais como o New Yor Times colocam em xeque tudo isso, que dirá minha consciência.

Mas como cidadão comum, homem do povo com no máximo uma pós-graduação, estou longe de ter a certeza de alguma inocência.

Se não pisei em pedras pontudas nesse rio até agora, suas águas também não se mostram claras para que eu possa ver o fundo.

Parece que é demais exigir ter alguma certeza no Brasil de hoje.

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Cerca de um ano atrás conheci a Nova Acrópole (Nova Acrópole Brasil – Escola Internacional de Filosofia), o que me fez me aproximar da filosofia.

Por interesse, e mais ainda por necessidade interior, tornei-me aluno da escola.

Lá descobri que filosofia é um instrumento para melhorar o mundo a partir de nós mesmos, da nossa melhora diante dos desafios que os problemas diários nos impõem.

Os grandes filósofos falavam as coisas de maneira simples, de fácil entendimento para qualquer um, independentemente do grau de instrução.

Nova Acrópole faz exatamente isso: leva às pessoas a filosofia sem preciosismos acadêmicos, para ser aplicada à vida prática e nos dar possibilidade de melhorarmos o mundo um pouco a cada minuto, começando por nós mesmos.

Então, convido vocês a assistirem à entrevista da professora Lúcia Helena Galvão Maya à Leda Nagle, na qual ela explica não apenas o que é a instituição, mas também qual é a utilidade da própria filosofia para o ser humano.

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Não tive acesso a qualquer estatística do tipo, nem sei se existem.

Mas me parece que, ao menos em Brasília, aumentou nos últimos tempos o número de carros batidos na traseira. E consequentemente os que têm a frente amassada também.

Arrisco com segurança um palpite: gente que dirige digitando ao celular.

A conferir.

batida

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Levei minhas três filhas para assistir ao documentário Cora Coralina: Todas as vidas.

Já no corredor do shopping, a mais velha disse, mãos nos bolsos, pensativa em seus 14 anos.

- Pai, eu entendi tudo o que ela quis dizer nos poemas. Por que outros poetas não escrevem assim, pra gente entender o que eles estão dizendo?

Tentei argumentar que muitas vezes à poesia não cabe apenas o simples papel do entendimento fácil. Muitas vezes é necessária também a construção de imagens fora do senso comum, do normal, do padrão, imagens que inflem as asas da imaginação do leitor.

Tudo bem, ela concordou, mas em seu rosto, visivelmente estava a preferência pelo estilo simples de poeta goiana em dizer coisas belas..

interneeduca.com.br

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Essa parte do documentário é a que cabe a nós escritores: estamos nos fazendo entender? Nossa mensagem está cumprindo seu papel, ou o que dizemos faz sentido apenas para o nosso restrito universo de autor e nossa pretensão estética?

A outra parte do documentário diz respeito a todos nós, poetas, advogados, técnicos em edificações, oficiais de cartório… e é bem mais importante que qualquer reflexão sobre o fazer poético.

O que fazemos diariamente para justificarmos nossas vidas? Estamos colocando nelas toda a alegria, força, dedicação, esperança, energia e amor que elas merecem? Nós somos felizes com nossas vidas?

Ao final do filme, a poesia acaba sendo a menor parte de Cora Coralina.

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Irmãs
Uma das moças na mesa ao lado no restaurante espera a irmã, que demora um pouco. É domingo, faz sol e elas são bem jovens. Portanto, a espera não incomoda.

A irmã chega fazendo cara de lamento e pergunta “Sabe aquele casaquinho que você me emprestou?”. Embora não perca a tranquilidade, a outra já sabe que boa coisa não aconteceu. “Pois é, fui lavar e ele ficou assim e assim”, e detalha o estrago, se desmanchando em pedidos de desculpas.

A dona do casaco não se abala. Dá de ombros, “tudo bem”, e ela diz que tem vários, não vai fazer falta.

É claro que esse comportamento é traço de sua personalidade, mas fico pensando que nele deve haver muito da educação dada pelos pais.

É possível que tenham ensinado que não vale a pena privar-se da paz de um domingo ensolarado por causa de coisas sem muita importância, mesmo que às vezes sejam até maiores e mais valiosas que um casaco.

É provável também que tenham cultivado nas filhas o sentimento de não competição, de não quererem, a qualquer custo e de todo o modo, ser sempre melhor do que a outra, do que os outros em todos os lugares e ocasiões.

Acho que se educarmos nossos filhos assim, no lugar do conflito teremos a harmonia; no da vingança, o perdão, e a amizade substituirá, certamente, a rivalidade.

Quando nos dermos conta, no futuro, teremos contribuído para um mundo melhor.

Aliás, na casa daquelas duas irmãs do restaurante, o mundo certamente deve ser um pouco melhor.
*
André Giusti, do livro As Estranhas Réguas do tempo (Crônicas, Editora Multifoco, 2014)

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Se há um filme em cartaz que trata de questões contemporâneas, este filme é certamente The Square – A Arte da Discórdia, candidato sueco ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

E ele não se limita a apenas uma questão, como outros que escolheram falar sobre racismo, homofobia, pedofilia, etc.

The Square abre o leque das mazelas de uma Europa egoísta, que não reconhece nos seus problemas atuais o fruto de suas ações predatórias ao longo dos séculos.

AdoroCinema

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Partindo do mundo egocêntrico das galerias de arte, The Square começa falando da desconexão desse universo com o sentimento e entendimento do homem comum, que deveria perceber na arte uma forma de compreensão e mudança de sua existência e do próprio mundo.

Mas isso não acontece por causa da pretensa genialidade de artistas que a gente não entende porque e como se consagram, que produzem para uma camada de dez ou doze tão egocêntricos e desconectados feito eles.

Mas The Square fala também sobre liberdade de expressão, sobre quem defende liberdade de expressão a qualquer preço. Até que se vê agredido, ofendido e até ameaçado por essa liberdade de expressão.

Fala sobre racismo e xenofobia, praticados também por quem é vítima dessas duas abomináveis condutas.

Fala sobre a superficialidade das relações, sobre nossa desatenção cada vez maior com o outro, seja no trabalho, na rua, seja na cama.

Fala sobre as oportunidades que perdemos diariamente de pedirmos perdão pelos seres egoístas que somos. Oportunidades que nem sempre voltam.

Fala até (sobrou pra imprensa, claro) da falta de consistência com que são produzidos conteúdos que recebemos diariamente e que deveriam nos orientar na hora de pensar, escolher, decidir.

The Square é um filme necessário de ser visto, no mínimo para nos chamar a atenção sobre como estamos conduzindo nossas vidas e pilotando esse planeta.

Não assisti aos outros candidatos ao Oscar de filme estrangeiro, mas pela mensagem que traz, The Square já é meu favorito.

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