André Giusti - foto: Luana Lleras
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CalendarioFeriado2015

Nesta quinta-feira, 30, é dia do evangélico em Brasília, um feriado local em que metade da cidade não trabalha e a outra metade ignora solenemente, incluindo aí o serviço público federal.

Taxar de absurdo haver um feriado em homenagem aos evangélicos é discriminar os adeptos da crença.

Por sua vez, dizer que, então, se deve criar o dia do espírita, do islâmico, do umbandista, do budista é levar a discussão pro lado mais raso (e confortável) da piscina.

Quem defende estado laico precisa estar disposto a abrir mão dos feriados religiosos. E ter coragem de dizer isso.

Se é errado dia do evangélico, correto certamente não são dia de finados e Nossa Senhora da Aparecida.
‘Bora ter coerência política e propor acabarem com dia de pernas pro ar na sexta-feira santa e no 25 de dezembro? Isso mesmo. Natal.

1º de janeiro pode ficar, porque aí é um evento, a meu ver, mais ligado ao calendário do que à religiosidade, embora contemos o tempo a partir do nascimento de Cristo. Além do mais, é feriado no mundo inteiro.

No lugar disso tudo, coloquemos, por exemplo, feriado no dia 22 de abril. Será que o descobrimento de um país colossal feito este não merece uma comemoração? Teríamos um big refresco, já que emendaríamos com Tiradentes.

Outra sugestão seria o 13 de maio. Se a Proclamação da República merece feriado, porque não uma data que deu fim à barbaridade que era a escravidão?
Não é ela tão ou mais merecedora de feriado do que a de um golpe que uniu elite e militares para derrubar um imperador então querido pela população?

Fica a dica aos laicos de plantão. E de discurso.

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noel-gallagher-2

Fiquei positivamente surpreendido com o disco novo do Noel Gallangher. Achei muito bom. Eu gosto de Oasis, mas o álbum pode agradar também a quem não curte a banda, justamente porque pouco ou quase nada tem de Oasis. Confira!

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copos

Quando nada nos falta, não prestamos a real atenção à utilidade das coisas, especialmente as usadas.

Exemplo: os copos de vidro de requeijão, que muitos de nós jogamos no lixo depois do uso, possuem um valor tremendo em alguns lugares.

Falo dos asilos, dos orfanatos.

Imagina aquele tanto de menino tomando água e refresco o dia inteiro.

E o cafezinho que distrai a solidão dos idosos, em tantos casos esquecidos pelas próprias famílias.

Toda hora um copo cai e quebra nesses lugares. É quase proporcional ao tanto de crianças e velhinhos abandonados.

Se você não pode se despencar agora para a África para ajudar a salvar da fome as vítimas daquelas guerras insanas, junte uns copinhos de requeijão para doar a asilos e orfanatos. Já é uma forma de tornar o mundo um pouquinho melhor.

E se você é um preguiçoso sem vergonha que nem eu, que não se dá ao trabalho de tirar o rótulo dos copos, não se preocupe que lá mesmo eles dão um jeito nisso.

Um rótulo grudado no copo não é nada perto das dificuldades enfrentadas nesses lugares.

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Ditadura

1 – A cabeça de quem defende a volta da ditadura deveria ser objeto de estudo da neurociência. Outro dia ouvi de uma dessas pessoas que eu “precisava respeitar a opinião dele”. Até pensei em lembrá-lo de que uma das principais características do regime que ele defende é justamente esta: não respeitar a opinião do outro. Mas me deu sono, parei por ali.

2 – Em Goiás, a polícia descobriu que os presos saíam do presídio em companhia dos agentes penitenciários para sacar dinheiro no caixa eletrônico para pagar propina aos próprios agentes. É o Brasil se superando no talento de ser um país esdrúxulo.

3 – A entrevista da Suzana Vieira sobre política ao Diário do Centro do Mundo é de dar água na cabeça. Se for ler, tenha cuidado. Estou até agora com um zumbido entre os miolos.

Suzana

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Bastante pertinente o artigo de ARTHUR ELOI ontem, no UOL (https://omelete.uol.com.br/series-tv/artigo/stranger-things-nostalgia-anos-80/), sobre a nostalgia de uma geração que nem sonhava em nascer na década de 80, mas que cultua aqueles tempos e tem naqueles anos boa parte de suas referências. De forma bem acertada, o autor, que nasceu, segundo ele mesmo, muito tempo depois, nos lembra o quanto atualmente há de influência dos anos 80 na estética do cinema, da música, da eletrônica.

Não esperem de mim aquele papo tiozão de que aqueles eram tempos melhores. Havia muita coisa ruim, acreditem, e O Menudo nem era o pior exemplo (Teve Figueiredo e Sarney, um em cada metade da década, e pra fechar com chave de ouro, Collor eleito no final).

Menudo

É que me lembrei de uma entrevista do Ringo, quando, dez anos atrás, o Sargent Peppers fez 40 anos. Ele disse que nem ele nem os outros Beatles tinham qualquer ideia de que estavam gravando simplesmente aquele que é considerado o mais importante disco da história do Rock.

E vocês sabem que era mais ou menos assim, com todos nós, naqueles tempos? Vivíamos intensamente, mas talvez sem perceber, em toda sua dimensão, as mudanças que estavam acontecendo, e muito menos sem imaginar que aquilo tudo teria tanta influência quando tivéssemos cabelos grisalhos e filhos namorando.

É até engraçado lembrar que à época cultuava-se demais os anos 60. Durante um período, eu mesmo achei que os anos 60 é que haviam sido legais.
Agora, já faz pelo menos uns dez anos que há esse culto todo à década de 80, o que sugere o aparecimento de um ciclo de nostalgia a cada 20 anos.

Fichas

O artigo do link acima faz, definitivamente, cair a ficha (usando uma expressão bem oitentista) de que aquilo que se tornou história passava corriqueiramente pelas nossas mãos, feito as notas mais vagabundas de nosso vagabundo dinheiro de então. E a gente, por imaturidade, não prestava tanta atenção.

Mas, se pensarmos bem, isso é uma propriedade até óbvia da juventude: ela só vai mostrar o quão inesquecível foi, depois de ter passado.

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wack

Talvez porque eu seja um sujeito que sempre ganhou a vida com a comunicação, o preconceito quando vem de um formador de opinião me deixa mais triste. E indignado.

Câmeras e microfones, que são instrumentos de informação, devem discutir divergências, mas promovendo a paz e a igualdade entre as pessoas.

Um estúdio de TV ou rádio é palco apropriado para se ajudar na construção de um mundo novo, e não na alimentação do velho mundo do ódio e da discriminação.

Preconceito e discriminação são lamentáveis partindo de qualquer pessoa.

Mas se ela tem o poder profissional de reverberar isso, tornam-se ainda piores.

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prateleiras

A trabalho, tenho visitado algumas indústrias no Distrito Federal, pois Brasília não é apenas essa repartição pública a céu aberto que o país imagina.

Hoje, em uma fábrica de pães, que exporta até para os Estados Unidos, alguém que estava comigo na visita chamou a atenção para as instalações da fábrica.

A simplicidade espartana começava pela sala de trabalho de um dos sócios, onde mal couberam ele, a esposa, eu e as cinco pessoas que eu acompanhei. Oito no total.

Nos esprememos ainda mais porque em uma mesa transversal estava um delicioso café da manhã. Cada um de nós se serviu, não havia ninguém para fazer isso.

PGR

Não sou servidor público. Estou servidor público. Pela terceira vez, aliás.

Nessas passagens, me acostumei a ambientes amplos, salas e antessalas e corredores com sofás e outras salas de espera. E mais móveis, e mesas, e cadeiras para todos os lados. Em um dos órgãos públicos em que trabalhei, no espaço do gabinete principal moraria, com conforto, uma família de quatro pessoas. E em todos eles, garçons e copeiras, café e água gelada pra cá e pra lá, entrando e saindo de intermináveis reuniões.

Sem falar nos vidros fumês, nos pisos de mármore.

Não vanglorio nem execro a iniciativa privada. Não defendo estado mínimo nem estatizante. Cada um tem sua função, que precisa ser exercida com eficiência em prol da sociedade, não visando apenas o lucro, muito menos o interesse político.

Mas inegavelmente existem dois países.

Um é o que a gente compra nas prateleiras (em forma de pão de queijo, por exemplo).

O outro é o que a gente paga em forma de imposto.

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Dove

Todo esse tempo e esqueci de dizer: tá acabando o último frasco de xampu Dove que comprei na vida. É o mínimo que eu poderia fazer.

Dove 2

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preview_todososabismosbaixa

O mais recente livro de minha conterrânea, e assim como eu radicada em Brasília, Cinthia Kriemler, apresenta vários sintomas de um bom livro.

O principal deles é: a gente pega e demora a largar, lamenta quando tem que parar, ir dormir. Lamenta ainda mais quando acaba de ler, o que é um dos encantos da leitura.

Mas Todos os Abismos Convidam Para um Mergulho (Editora Patuá, 2017) possui um traço principal nesse rico mundo de autores contemporâneos.

Cínthia Kriemler não teve a pretensão de buscar uma forma diferente de contar uma história, não buscou a vaidade de ser ovacionada com um “oh, como ela é uma autora genial e inovadora”.

Buscou tão somente contar de forma objetiva, direta, nua e crua (muito crua) uma triste e real história de nossos dias, que precisa ser denunciada todos os dias.

Dessa forma, sem invencionice que dê sono ou simplesmente impeça a compreensão do livro, ela cumpre sua função de escritora: dizer o que pensa e colocar o leitor para refletir.

Recomendo.

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macarronada

Em São Paulo, entre um show e outro do U2, me perdi em cafés, cantinas e mercados com pastéis e chope.
Como acabei me hospedando em área nobre, esperava uma facada daquelas nas contas. Afinal, era São Paulo, templo da gastronomia, bairros da alta.

Surpresa. E boa. Os preços estão iguais ou até menores do que em Brasília. E se formos levar em conta a proporção do que é servido e fazer a relação quantidade/qualidade X preços, aí é que fica mais barato mesmo.

Voltei para Brasília com a impressão que sempre tive, fortalecida: os preços na capital do país são, na maioria dos lugares, estabelecidos de acordo com os salários irreais de uma elite do funcionalismo público, aquela mesma cujos contracheques causam escândalo quando aparecem no jornal nacional. E que se dane a maioria assalariada, com o que vem no fim do mês cada vez mais achatado.

Um café espresso bem servido (e bom, muito bom) em São Paulo me custou R$ 6, R$ 7. Aqui, já paguei, meses atrás, os mesmos R$ 6 por dois míseros dedos de café sem qualquer biscoitinho pra fazer dupla, nem água gasosa em copo de cachaça. Mas o lugarzinho é cool e aproveita que a classe média precisa posar de descolada ouvindo jazz e Cartola junto ao Parque na Asa Norte domingo de manhã.

Lá, em Sampa, encontrei um espaguete gigantesco, que entope três italianos esfomeados feito eu, por pouco mais de R$ 100. Aqui, sejamos justos, encontra-se também comida farta e por preço razoável, mas temo que, além de não serem a regra geral, esses lugares estão cada vez em menor número em relação aos que te deixam com fome por R$ 50, R$ 60. Mas fiquemos quietos, comamos calados. Afinal, são locais gourmets, bistrôs e servem cozinha de autor.

Pra encerrar, os vinhos. É claro que o dono do restaurante precisa ganhar uma margem boa em cima da garrafa. O problema é que em Brasília, em boa parte dos lugares, o povo parece querer ganhar três garrafas em uma. Lá, na Paulicéia, vinhos que conheço estavam no máximo R$ 20 mais caros.

Não fui a todos os restaurantes de São Paulo, claro, mas foi uma mostra que me surpreendeu.

É muito injusto quando, revoltadas com a corrupção, pessoas dos quatro cantos dessa pátria injuriada querem culpar Brasília pela roubalheira. Esquecem que aqui se recebe o lixo político das 27 unidades da Federação. Inclusive o nosso, que também o produzimos.

Mas esse achaque ao consumidor nos bares e restaurantes, embora não seja invenção candanga, é um traço que vem se acentuando na cidade, fazendo com que a desconexão de muitos de seus moradores em relação à realidade do país comece pela cozinha, balcão e adega.

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