Crônica da indiferença e do destino trágico.
Um menino de apenas quatro anos morreu imprensado por um portão eletrônico de garagem em um prédio na Asa Norte de Brasília, bairro nobre da capital do país.
Encontrou aberta a porta do apartamento em que morava com os pais adotivos, e escapou para ver o mundo lá fora.
Da quadra onde vivia, andou até duas outras em frente, um trajeto tranquilo para um adulto, extenso para uma criança de quatro anos.
Levou pouco mais de meia hora para lá e para cá, até que chegou a um prédio parecido com o que morava. Obviamente sem senso de direção, achou que conseguira voltar para casa. Aproveitou que um carro entrava na garagem e tentou fazer o mesmo. Passou no exato instante em que o portão – de tecnologia obsoleta, sem um sensor que travasse o equipamento – se fechava.
Até o momento da tragédia, a criança vagou por mais de meia hora completamente sozinha pelas ruas de Brasília, em plena tarde quente de verão. Para um e para outro, o menino disse que estava perdido. O porteiro de um prédio achou que ele estivesse brincando, não deu trela, deixou que ele seguisse, livrando-se do incômodo que seria perambular pelo sol quente da tarde com o pequeno pelas mãos, correndo o risco de ser chamado à atenção pelo síndico por ter abandonado a guarita que guarda o patrimônio da classe-média de Brasília.
Ninguém achou estranho que uma criança tão pequena, com tipo e roupas da mesma classe-média supracitada, vagasse sem destino e sozinha pela cidade.
Ninguém se interessou em pará-lo e perguntar “vem cá menino, onde você mora? Cadê teus pais?”
Ninguém pôde perder cinco minutos do domingo ensolarado para pegar a criança e deixá-la no posto policial, que, aliás, fica bem perto.
Ninguém disposto a atrasar, apenas um pouco, a hora do almoço, o horário do cinema, o encontro com os amigos.
Sozinho e perdido num mundo de pessoas de almas cegas, de corações anestesiados, o menino não encontrou o caminho de casa.
A indiferença foi sua companhia até o destino trágico.
