André Giusti - foto: Luana Lleras
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Ontem fui comprar desodorante e quando pedi o que costumo usar, a moça disse que ele havia sido “descontinuado”.

Após a pontada que senti no estômago por causa da palavra que ela usou, perguntei, só para me certificar: “Ele deixou de ser fabricado? É isso?”.

Ao que ela, desconfiada, disse sim.

Talvez eu esteja um pouco pessimista hoje, afinal, é 2ª feira de manhã, mas às vezes dá uma sensação de que esse país piora em tudo a cada dia, inclusive no jeito de as pessoas falarem.

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Ideias para onde passar o fim do mundo

Estive com João Almino uma única vez, em uma bienal do livro de Brasília, exatamente dez anos atrás.

Aliás, esta bienal candanga ocorreu mais uns dois anos, se não me falha a memória, sendo que a última edição parecia mais uma feira de papelaria do que um evento literário.

Nesta primeira mediei um debate do qual Almino tomou parte.

Foi extremamente simpático e gentil comigo (acho que me escutava/assistia em meus tempos de âncora de rádio e TV) e, desde então, me prometi conhecer sua obra.

Levei uma década para pagar a promessa, e comecei com Ideias Para Onde Passar o Fim do Mundo.

A elegância no trato João Almino levou para estas páginas, ambientadas em um lugar que o autor conhece bem: a capital do país.

A partir de uma fotografia, o autor dá vida a personagens que aparecem nela e cria uma narrativa envolvente e lisérgica, descrevendo tipos de uma Brasília histórica que nem sei se existe mais, uma cidade bem mais cosmopolita do que a atual provinciana.

É uma cidade real, de pessoas reais com seus traumas, seus dramas, seus desejos e desenganos, descrita em um livro que é uma ótima oportunidade para que o resto do Brasil saiba que existe uma Brasília para além dos escândalos e desmandos.

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Dragão da inflação

Ontem comprei um produto cujo quilo, há duas semanas, custava pouco mais de R$ 49.

Agora passa de R$ 58.

A maquininha aqui me diz que são 20% de aumento.

Por pior que seja a inflação da pandemia, do Putin ou do facismo neoliberal tupinimquim ela não chega a esse percentual em 15 dias.

Já ouvi de um político com experiência em governos que o pior da inflação é sua cultura, ou seja, é um tal de “tá tudo aumentando, eu vou aumentar também” estipulando parâmetros um tanto aleatórios na cadeia produtiva.

Nela, cada peça (produtor/intermediário/vendedor) dessa engrenagem parece criar sua própria inflação, com base em índices particulares e em cálculos engendrados pelo caráter, de modo geral duvidoso, de nossos empresários e comerciantes.

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Passando por aqui para falar, rapidamente, de um dos últimos livros que li.

Trata-se dessa raridade chamada Drama de um Padre, escrito nos anos 1950.

Esse exemplar, o único, foi encontrado em um único sebo, que nem cadastrado na Estante Virtual está.

O autor, Isócrates de Oliveira, foi diplomata, filósofo, teólogo e, claro, escritor.

Mas antes de tudo isso, tentou ser padre.

E não conseguiu.

Então escreveu essa cacetada na forma como a igreja católica ordena seus sacerdotes, na base da repressão medieval, de acordo com o autor.

Isócrates descreve uma preparação que em tudo agride e oprime a natureza humana, começando pela sexualidade.

Não é de se admirar que o livro tenha causado escândalo à época.

Drama de um Padre mostra o jogo de poder, vaidade, mesquinhez e interesses do clero, mas, acima de tudo, a conduta de bispos e arcebispos, em nada condizentes com o ensinamentos do Cristo, o que, justiça seja feita, não é privilégio dos católicos entre as religiões cristãs, pois basta frequentar uma igreja evangélica ou um centro espírita para detectar também nesses templos a hipocrisia e o desvirtuamento das palavras do messias.

Isócrates nasceu em Pirenópolis, essa joia histórica cravada junto à Serra dos Pireneus, em Goiás.

Sua casa é hoje uma pousada, que manteve, por exigência da família, parte de sua biblioteca e escritório exatamente do jeito que o autor deixou (ele morreu em 1999).

Como é realmente difícil encontrar um exemplar de Drama de um Padre, sugiro a quem puder um pulo em Piri e uma visita rápida ao local, ao menos para sentir a essência da alma do escritor.

Mas já aviso de antemão: não espere encontrar o livro lá, pois levaram e não devolveram o único exemplar que havia na biblioteca.

Uma conduta nada cristã, diga-se de passagem.

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Eu já havia lido algumas aldravias por aí, mas não sabia que se chamavam assim.

Era mais ou menos como aquelas pessoas que a gente conhece, esbarra todo dia, mas não sabe o nome.

O Gilbson Alencar é quem me apresentou formalmente a esse formato poético em que a palavra é mais importante do que nunca e que pode até mesmo, dependendo do caso, sobreviver sem um verbo.

Ele não inventou a aldravia, mas pescou direitinho o desafio e consegue explicar em duas ou três palavras – às vezes em apenas uma – o que em outros casos requereria uma frase bem encorpada, e tudo isso com o necessário impacto poético.
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Mas a qualidade do recém-lançado Brutos e Flores não se resume às aldravias (não lembra nome de doce português?).

Há poemas fortes, bem estruturados, com imagens relevantes e passeios pelo eu lírico, interiorano ou urbano.

Há também uma parte em prosa, mas essa eu ainda não li.

Vou petiscar mais algumas aldravias do Gilbson antes de chegar lá.

Depois volto para contar.
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Menino

O combate à violência e ao desrespeito contra a mulher pode começar nas casas de quem tem filho homem pequeno.

Um simples “em menina não se bate” dito desde que o garotinho comece a se entender como gente pode formar um adulto ciente desse respeito que é mote de homenagem em oito de março, mas que tanto falta nos outros dias do ano.

No bojo, terá que vir, certamente, a cultura de que mulher não é objeto, de que mulher não nasceu para usufruto do prazer masculino e nem para dar conta sozinha das tarefas domésticas.

Aliás, que tal, desde pequenino, colocar seu mocinho para pôr/tirar a mesa e ajudar a lavar os pratos?

E por aí vai.

Artur do Val, o tal do Mamãe Falei (sugiro que mude para Mamãe Falei Merda), certamente nunca escutou em casa um “e se fosse com a sua mãe? E se fosse com a sua irmã?”

Machismo, misoginia e discriminação são fatores culturais, e entendo a família como a fonte primária de formação da cultura, ou, de modo mais direto, onde se pode e deve cortar o mal pela raíz.

Se você tem filho homem, pense no que tem feito para que oito de março não seja apenas um dia de florzinhas e bombons fofos.

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Livro Cinthia

Uma vez uma conhecida me pediu uma dica de uma escritora contemporânea e eu sugeri Cinthia Kriemler.

Ela já conhecia, respirou fundo e disse que eram necessárias forças dobradas para ler.

Sempre dei razão a essa minha conhecida.

Eu já havia lido Todos os abismos convidam para um mergulho, e ontem terminei a leitura de Tudo que Morde Pede Socorro, que recebi das mãos da própria Cinthia uns três anos atrás e deixei algum tempo na fila.

Acho que eu estava mesmo redobrando as forças para ler, porque o universo de estupros, violação de menores, violência contra a mulher, racismo e outros horrores que permeiam a literatura de Cinthia Kriemler definitivamente não são entretenimento.

São denúncias de uma literatura necessária, que em algum momento se faz inevitável, da qual você não pode fugir de enfrentar.

Algo parecido como viver no Brasil atual, já que, para a maioria na qual me incluo, não há como se mandar para outro país.

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Foto: Reprodução/ TV Globo

Foto: Reprodução/ TV Globo

A partir de minhas várias e marcantes experiências de repórter cobrindo deslizamentos de terra e todo o tipo de soterramento, me parece que é simples a equação dessas tragédias.

O Estado nunca se importou com política habitacional para as classes menos favorecidas, ou, em bom português, nunca se preocupou em fazer casa para pobre.

O pouco que se fez alguns anos atrás foi desmontado de 2019 para cá, como, aliás, quase tudo nesse país foi ou está sendo.

Então quem não tem onde morar faz casa na encosta ou em área de alagamento.

Fiam-se não apenas na incompetência e falta de vontade do poder público em fiscalizar, mas também no cagaço político de governadores e prefeitos em tirarem as pessoas dessas áreas, porque são redutos eleitorais de deputados e vereadores (especialmente vereadores), que são os que pedem e conseguem votos para candidatos a prefeito e governador.

É de se anotar que não apenas pobres constroem em áreas de risco.

Há muita mansão em encostas Brasil afora, e aí entra aquela máxima: já viu governo mexer com rico nesse país?

Então, vai se vivendo, construindo e morando, sabendo-se que apenas a fúria da natureza poderá tirá-los dali.

O que, infelizmente, às vezes acontece.

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Livro Nathan Souza

Volta e meia sinto ganas de meter o carro na estrada e parar na primeira cidade que encontrar ao anoitecer.

Sempre acho que esse tipo de aventura poderá colocar em ordem pensamentos, sentimentos e o próprio sentido da existência.

Tenho uma razoável ideia do que estou fazendo aqui nesse planeta complicado, mas às vezes bate mesmo uma dúvida e até um questionamento: porra, vale a pena?

Não é sempre, mas bate.

Foi o que aconteceu com o personagem principal de Sua Gente Estranha, romance (com elementos de novela e agilidade de conto) do escritor piauense Nathan Souza: encarou a estrada para organizar as ideias e sentimentos, antes de mandar tudo para o inferno em definitivo, tudo isso sob a égide da obra de Albert Camus.

Nathan é poeta premiado e vence um desafio que nem todos os poetas conseguem quando arregaçam as mangas para pôr as mãos na massa da prosa: escrever com clareza, objetividade e, é claro, poesia, mas sem exagero (sim, exagero poético na prosa pode condená-la à chatice).

Claro que não vou contar aqui (ou dar spoiller, é como os moderninhos falam, né?) se o sujeito se encontra ou permanece “descauculado” (essa palavra ouvi um dia de um sujeito no interior de Minas e sempre esperei a chance de usar. Obrigado, Nathan).

Isso não é tão importante.

A grande valia do livro é que ele desperta no leitor exatamente o que o personagem quer fazer: o desejo de pensar, de ressignificar um punhado de coisas, ou, ao menos, as principais.

Sem ser em momento algum de auto-ajuda, o livro de Nathan Souza pode te ajudar nisso, caso você, feito eu, não possa, por agora, nem sonhar em sumir na estrada.

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Capa Livro Leandro Leal

Olho Roxo é o segundo romance do escritor Leandro Leal e o segundo bom livro dele.

Ou seja, quando se passa pela prova de fogo da segunda obra – às vezes mais difícil do que agradar na estreia – é sinal de que o autor deve prosseguir.

O personagem principal busca suas referências principais, enquanto sua própria identidade lhe oferece perigo.

E isso traz suspense, violência na medida certa e umas puxadas de tapete que tão bem fazem à leitura e o leitor a pensar que o autor realmente leva jeito pro ofício.

Para encerrar, um detalhe que pode até passar despercebido, mas que em minha opinião é o espírito da história: o não se sentir aceito ou pertencente ao mundo.

Se, feito eu, você se sente assim, é bem capaz de também gostar do livro do Leandro.

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