André Giusti - foto: Luana Lleras
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Portas, janelas, becos, átrios, ruínas … A alma de homem moderno se refaz no antigo.

Pírenópolis, GO. Fotos Giusti Press e Ana Maria de Souza

Pírenópolis, GO.
Fotos Giusti Press e Ana Maria de Souza

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Tudo o que eu quero pra hoje é uma estrada em Goiás que me leve a um lugar aonde eu possa parar o tempo.

Fotos br.worldmapz.com

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casa simples

Quando abriu a porta e acendeu a luz, o pequeno apartamento de apenas 30 metros quadrados lhe pareceu tão maior e vazio quanto uma mansão de 20 quartos sem móveis e moradores.

Naquela noite, foi dormir cedo, muito mais por solidão do que por cansaço.

Até hoje não sabe se sonhou ou se tudo não passou de sua imaginação, disfarçada de sonho naquele limiar do sono, quando já estamos quase dormindo, mas ainda restam algumas tomadas plugadas ao mundo concreto do dia que termina.

O que sabe é que se viu numa casa bem maior que seu apartamento, mas bem longe de ser mansão.

Era térrea, sem escadas, e chamava a atenção pela simplicidade, pelo acabamento desleixado.

O piso era de cimento queimado e lembra-se de que duas ou três paredes estavam ainda no reboco. Não sendo antiga, também não era recém-construída. Percebia-se que estar pronta sendo inacabada era traço permanente, incorporado com o tempo.

Outra marca era a claridade permeando a sala espaçosa, três grandes quartos e a cozinha, capaz de caber mesa pra seis.

Em seu dorme não dorme, sonha não sonha, não conseguia a certeza se a luz do dia era a da manhã ou a da tarde.

Era luz, e isso era o mais importante. Ali, pelo jeito, ele pensou quase dormindo (ou sonhando?)que o luar também deveria fazer visitas, e se hospedar feito primo que vem sempre.

O vento, este mais que se hospedava. O vento morava. Aproveitava as grandes janelas sempre abertas, sem grades e cortinas, e circulava pelo ambiente de poucos móveis e imensos clarões entre mesa e sofá, camas e guarda-roupas.

O vento entrava e saía, esperava alguns instantes, voltava. O vento parecia um cachorro de casa: do quintal pra dentro, de dentro pro quintal, até que alguém o notasse e fizesse festa pela sua presença.

Quando sua mente, naquele túnel irreal, ainda percorria os cômodos e vislumbrava do janelão da cozinha uma varanda imensa, coberta por telhas, sem laje, começou a ouvir vozes de meninas, meninas entre a infância e a pré-adolescência.

- Pai! ‘Cê tá em casa, pai? – era a voz da filha mais velha, entrando esbaforida, jogando a mochila no primeiro espaço vazio.

- Pai! Tirei nove em matemática! – avisou a do meio, entrando junto à primeira.

- Pai, cadê o Dique? – e logo surgiu a caçula, passando por ele e voltando segundos depois, seguida pelo cachorro labrador imenso e carinhoso. Ele sorriu no sonho, ou no que quer que fosse aquilo que embalava seu adormecer: havia também um cachorro, para também entrar e sair quando quisesse.

Eram suas filhas, e moravam com ele no sonho, no limiar do sono ou na imaginação meio acordada, outra metade adormecida. Não precisava pegá-las de quinze em quinze dias, pois era ele quem cuidava delas todos os dias, do que haveria para almoço e para a janta, era ele quem recolhia suas presilhas de cabelos, suas fitinhas e laços esquecidos pelos cômodos. Era ele quem as ouvia contar histórias do recreio na escola e entregarem, cada uma, segredos inocentes sobre namoradinhos.

E depois que almoçavam, nas tardes de sábado, iam para a varanda terminar de rir das tolas piadas que contaram à mesa. Lá pelo meio das três horas, esticado em uma encorpada cadeira de madeira rústica, ele perdia os olhos em um horizonte baixo que havia para ser medido do alto da colina onde ficava a casa. A paisagem sumia num cochilo bom e profundo, mas reaparecia quando ele acordava com o vento mais forte derrubando mangas no fundo do quintal e anunciando chuva grossa no fim da tarde.

Espreguiçava-se em paz, com a certeza do cheiro da terra e grama molhadas. Era a mesma certeza de que mais tarde, quando já fosse noite, as nuvens descarregadas do temporal dariam lugar no céu às estrelas, e que ainda mais tarde uma lua amarela, pela metade, subiria o muro do mesmo horizonte baixo.

Terminando de esticar os braços e os últimos bocejos, levantava-se e ia investigar os quartos, onde as encontrava enfiadas nos livros, nas mensagens dos celulares e quase sempre no apronto sem fim dos cabelos.

Do corredor, perguntava alto:

- Quem vai querer pizza de noite?

- Eu!

- Eu!

- Eu!

E a sequência irrompia pela casa, carregada pela expectativa do sabor.

Eram suas filhas, moravam com ele, e ele, quando chegava em casa, não encontrava solidão. Ouvia no sonho, ou no galope da imaginação, a chuva chegando, sentia o cheiro da terra molhada invadindo a casa. As janelas batendo com o vento e a copa da mangueira sacudida lá fora avisavam que ele era feliz e que aquela era uma casa simples e em paz.

Um dia, o curso normal da vida levaria as três, uma a uma, mas logo logo o recompensaria com netos e netas, e a casa, sempre inacabada, estaria cada vez mais firme em sua simplicidade e em sua paz.

As filhas moravam com ele.

E se realmente sonhara, fora o sonho mais lindo que tivera na vida.

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confiramais.com.br

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É claro que foi emocionante ver a judoca brasileira com a medalha de ouro no peito, muito menos por patriotismo do que pelo histórico de luta e preconceitos que essa moça já sofreu.

Em que pese a ajuda do governo para que ela pudesse se recuperar do fracasso em Londres, em 2012, e faturar o ouro este ano, é triste constatar que o Brasil, como Estado, perdeu a oportunidade, ao sediar os jogos olímpicos, de finalmente criar uma cultura olímpica.

Quando o Rio foi anunciado cidade sede, imaginei todas as escolas com quadras, piscinas e pistas de atletismo, pequenos canteiros a germinar sementinhas de potência esportiva.

Bem, também imaginei a Baía de Guanabara despoluída, item que aparecia com destaque na lista do tal legado olímpico, peça publicitária para que a sociedade apoiasse a candidatura do Rio.

O que de concreto até agora me parece existir são obras faraônicas e super faturadas (este nosso legado rotineiro) e um total de medalhas para o Brasil que, acho, não será muito diferente das outras olimpíadas, quando o esforço pessoal de cada atleta pesou sempre mais do que qualquer política pública.

Aos que ainda se ufanam pela beleza da solenidade de abertura e chegam mesmo a achar que ela foi uma espécie de resgate do país perante o mundo, lembro que o Brasil sempre foi muito bom para fazer festa.

Eu disse festa.

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celebridades.uol.com.br

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Em minha nada importante opinião acerca do que não vai mudar sua vida, aquilo que considero explosão de mau gosto na música brasileira ( que é apenas uma vertente do mau gosto geral da vida nacional) foi detonado no verão de 1995, quando estourou nas rádios o primeiro sucesso do É o Tchan!

A pobreza harmônica e a imbecilidade das letras, que faziam sacudir as belíssimas bundas de Carla Perez e Sheila Carvalho, avisavam sobre o que a indústria cultural de massa plastificada nos impingiria nessas duas últimas décadas.

Pra minha sorte, há muitos anos não escutava É o Tchan! Mas no último domingo, a odiosa musiquinha me chegou aos ouvidos acidentalmente, como, aliás, em todas as vezes em que fui obrigado a ouvi-la.

E não poderia ser em outro lugar que não no Pontão do Lago Sul, aqui em Brasília, ponto turístico da capital, cuja qualidade musical é inversamente proporcional à beleza do lugar.

E aí, escutando aquela irritante melodia, conjugada com aquele ainda mais irritante bater de tambor e pandeiro, acabei pensando em tudo a que a podridão da indústria fonográfica – apoiada por Faustões & cia – nos subjugou em mais de vinte anos.

E cheguei à sombria conclusão que perto do que se fez depois, o É o Tchan! era até razoável.

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Nos tantos anos em que atuei como repórter no jornalismo, fiz a cobertura de vários acidentes automobilísticos, muitos nas estradas, e foram incontáveis aqueles com mortos ou pessoas que ficaram para sempre sequeladas.

Nunca, mas nunca mesmo, ouvi de algum motorista envolvido nesses acidentes, e mesmo de qualquer policial responsável por registrar a ocorrência, que a tragédia aconteceu porque um dos carros trafegava, em plena luz do dia, de faróis apagados e não pode ser visto pelo outro, ou outros motoristas, envolvido na colisão.

Sem tanta vontade de escrever sobre o assunto, há dias remoo essa desculpa esfarrapada, debochada de um estado insaciavelmente arrecadador, que quanto mais leva de nós em imposto ou multa, menos nos entrega em serviços básicos e direitos.

Mas aí li nessa reportagem do Congresso em Foco (link no final) sobre as pontes na BR-080 – rodovia aberta na ditadura militar para ligar o Distrito Federal ao Amazonas – e resolvi escrever, já nem tanto sobre a obrigação dos faróis à luz do dia, mas sobre o fato de que neste país o estado mergulhou num mar tão fantástico de cinismo e hipocrisia, assemelhando-se àquele doente mental que, a cada dia mais débil, fica totalmente isolado em sua própria realidade doentia e desconectada.

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/pontes-de-toras-de-arvore-na-floresta-amazonica/

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produto.mercadolivre.com.br

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Hoje pela manhã alguém postou na rede social a capa do segundo disco da Legião Urbana, lembrando que exatamente trinta anos atrás, num dia 20 de julho (ontem, portanto), ele estava sendo lançado.

A pessoa que postou lembra o abalo que esse disco provocou e do que ele representou para toda uma geração de jovens.

Eu, que o levei pra casa na semana do lançamento, lembro bem que o LP (era assim que se chamava o vinil) mostrava que a Legião, ao contrário do R.P.M e do Ultraje a Rigor, não seria uma banda de um disco só.

O disco foi marcante não apenas pela sua qualidade, mas também por ter saído no contexto de um país que se redescobria livre para dizer o que pensava, de uma geração que, massacrada na infância pelas aulas de Moral e Cívica, de uma hora pra outra ficou sabendo que podia ir pras ruas gritar palavras de ordem.

Tudo isso estava sendo vivido intensamente naquele tempo, ao som do Dois, da Legião. E tudo aquilo que vivíamos ficaria marcado para sempre, embora não nos déssemos conta disso.

É que certamente estávamos muito ocupados tentando decorar a letra de Eduardo e Mônica.

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http://www.imagenstop.blog.br/

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Aceitaram de bom grado o convite para se apresentarem na feijoada bolchevique.

Leriam dois ou três poemas antes da roda de samba. O cachê era o sorriso iluminado e grato da organizadora, velha amiga de um deles, e um belo e suculento prato de feijoada.

Festa grande, coisa de 200 pessoas. Quem fosse, estaria contribuindo para pagar a passagem de uma caravana que ano que vem vai à Rússia, comemorar os 100 anos da revolução bolchevique. Daí foi batizada assim a comilança.

- Revolução bolchevique…que coisa mais anacrônica… – um deles balançou a cabeça, rosto torcido em tom de desprezo.

O outro concordou

Mas, logo em seguida, parecendo refletir melhor, o que dera o muxoxo tratou de emendar.

- Bem, em todo caso é muito melhor do que Escola sem Partido.

E o outro concordou de novo. E mais ainda.

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dialmformovies.wordpress.com

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Outro dia escrevi na rede social que gosto muito quando vejo uma moça nova cuidando bem da mãe. Ou um rapaz fazendo o mesmo com o pai. Ou vice-versa.

É que vi, na praça de alimentação do shopping, uma moça típica dos dias de hoje: tatuagem, piercing, corpo malhado e beleza viril. Que se desmanchava em zelo com a mãe, uns trinta anos mais velha.

Com amor em forma de cuidado e atenção, leu o cardápio do restaurante para a senhora. Depois acomodou-a numa das mesas da praça da alimentação. Minutos depois, foi apressada pegar a comida quando a campainha chamou a senha.

Só esqueci de dizer que provavelmente aquela senhora estava colhendo os frutos de uma educação que entregou à filha amor, zelo, cuidado e atenção.

E agora estava recebendo de volta.

Educar os filhos com amor não é pensar apenas neles.

É pensar também em nós.

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