André Giusti - foto: Luana Lleras
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fa peigi

Já disse que as redes sociais representaram de alguma maneira a libertação de escritores.

Vinte, trinta anos atrás se o autor quisesse que seus escritos fossem lidos e não se perdessem no anonimato das gavetas, tinha dois caminhos: a paciência e boa vontade dos amigos (como importunei os meus!) ou a árdua batalha da publicação, dividida em duas frentes.

A primeira, a dos suplementos literários, nos quais a concorrência era grande – como ainda é – e em tantos casos requeriam conhecimento estreito e proximidade pessoal com quem os editava; e fanzines, que por aquele tempo começavam a surgir, principalmente nos meios universitários, como alternativa aos canais de publicação considerados mais formais.

A segunda frente para a publicação era a mais ortodoxa: o livro. Reuniam-se os textos, eivava-se de coragem e danava-se a bater à porta das editoras, donde vinha sempre a indiferença, ou no máximo um polido não: “apesar da qualidade, não é possível aproveitar seu trabalho no momento”.

Recorria-se, então, ao patrocínio do pai ou da mãe e ao empréstimo de amigos para que o livro viesse ao mundo em forma de edição independente a ser vendida, depois de publicada, em bares ou qualquer evento que tivesse cara de alternativo ou marginal. Poucos recuperavam o investimento e quitavam suas dívidas, e este certamente nunca foi o meu caso.

O que ganhei com essas edições? Muito divertimento, chope de graça em algumas situações e muitos tapinhas nas costas e palavras de incentivo.

Hoje, a exemplo das notícias, a literatura tem meio que uma pegada real time. Escreve-se agora, publica-se em cinco minutos na rede social, no blog.

Entre todas as desvantagens que isso possa vir a ter – e as que vejo são pequenas – há uma vantagem enorme em relação a quando comecei a escrever. Hoje em dia são bem maiores as possibilidades de sermos lidos. A literatura, principalmente no gênero da poesia, é material corriqueiro em nossas telas e smarts.

Embora eu seja péssimo com eles, acho que posso usar os números para tentar provar o que estou dizendo.

Nas últimas duas semanas, paguei R$ 50 ao feici búqui e publiquei dois poemas que, juntos, alcançaram 1.235 curtidas e 80 compartilhamentos, que na verdade são republicações gratuitas. Pelos números que recebi, mais de 30 mil pessoas viram as duas postagens.

Descontada a desconfiança que se deve ter em relação a esse montante de visualizações, é certo que ele não foi de meia dúzia de pessoas.

Com esse scout poético, reafirmei a pergunta que faço a mim mesmo há tempos: quando que, publicando meus poemas, contos e crônicas apenas em livros ou outro veículo impresso, eu teria mais de 1.200 leitores em poucos dias?

Espectro impensável, ainda mais para a poesia, gênero dos dois textos, limitado a um universo bem restrito de leitores.

O livro é sagrado e sempre será objeto de desejo meu como autor, mas como em outros campos da vida moderna, não se pode menosprezar, ou ficar cego para o potencial das redes sociais na literatura.

É claro que entre o que se publica há muita coisa de valor discutível.

Como sempre houve, há e haverá nos livros.

No cinema, no teatro, na música.

E na vida.
*
Acesse no FB André Giusti Escritor

https://web.facebook.com/andre.giusti.5/?ref=hl

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A notícia já era esperada para qualquer momento.

Na semana passada, a médica dissera que pelo aspecto do ovário, ou sei lá mais do quê, a coisa não passaria mesmo deste mês.

E quando pelo telefone a mãe dela me avisou, com ar de riso, que havia novidade, nem precisou completar a frase.

Eu mesmo, apressado, me encarreguei disso:

- Ela ficou mocinha! – e nem percebi que essa expressão – ficou mocinha -, que julgo tão ultrapassada, tão coisa de avó e avô, de um tempo em que as mulheres não tinham vontades ou direitos, me saiu da boca feito um sabonete que escorrega das mãos. Logo de minha boca, homem que se pretende tão moderno.

Toquei a campainha do apartamento pensando no que poderia dizer a ela, a minha filha mais velha.

Mas…o que se diz a uma menina que menstrua pela primeira vez? Tem que dar parabéns? Lembrar que antigamente era bem pior, porque os absorventes, pelo que dizem, não eram tão confortáveis?

Não me vieram palavras, eu nunca deparei com uma menina que tenha ficado menstruada pela primeira vez. E eu, claro, também nunca fiquei para saber como é e ter o que dizer.

Na dúvida, abri um sorriso, e a abracei com amor. O amor resolve tudo, até a dúvida do que dizer à filha mais velha, quando ela menstrua pela primeira vez.

Cheio de mel na voz, perguntei:

-Você tá se sentindo bem, meu amor?

- Tou, ué! – ela respondeu, com a impaciência típica de uma pré-adolescente, e no silêncio que fez em seguida, me perguntava por que, afinal, não estaria se sentindo bem.

É que a transformação do corpo parece que ainda não chegou muito à cabeça. Quer saber é da novelinha pra criança que passa à noite, da piada besta que o coleguinha postou no grupo do uatzápi.

Ninguém vira mulher de uma hora para outra, eu imagino, porque também não virei homem logo no dia em que meus primeiros espermatozoides vieram ao mundo.

Não obstante a pressa desse mundo precoce, a transformação ainda é gradual, e mesmo que não tenha sido eu a ficar menstruado pela primeira vez, posso notá-la – essa transformação – no espelho, me avisando que aos poucos estou deixando de ser pai de uma menina para ser pai de uma mulher.

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www.avidacomesclerosemultipla.com.br

www.avidacomesclerosemultipla.com.br

Acho que ele se chama Juvenal, embora seu nome possa ser Quirino, não tenho certeza.

Eu o conheço, passo sempre por ele, mas ele não sabe quem eu sou. É que sempre passo por ali de bicicleta, nunca de carro. Ou seja, não estaciono no ponto dele.

Juvenal – ou Quirino – é guardador, ou flanelinha, dependendo da cidade de quem me lê. Como ouvi de um deles certo dia, ele “mexe com o ramo de estacionamento”.

Hoje passei com minha magrela de novo por ele. Eu vinha pelo canto da rua, e tentava enxergar, na beira do meio fio, entre um carro e outro estacionado, uma rampinha em que eu pudesse subir, pegar a calçada e de lá a ciclovia.

Mesmo ainda de longe, o “dono do ponto” captou minha aflição, e logo foi apontando uma brecha entre os carros em que eu pudesse pegar uma rampinha e seguir em paz pedalando. “Aqui, ó! Entra aqui, ó!”, indicou rápido onde eu deveria virar, antes que eu passasse do local.

Virei e segui em paz pedalando, pensando que Juvenal, ou Quirino, é um cara legal, do tipo que percebe a necessidade do próximo, e o melhor: se importa com ela.

Mesmo que não se dê conta, já entendeu que para ser solidário não é preciso, necessariamente, embarcar numa força humanitária para combater a fome na África.

Dá pra ajudar o semelhante entre um motorista e outro que liberam uma gorjeta.

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Um dos melhores rifis de guitarra de toda a história do Rock`n Roll. Valeu, David! Pega teu disco voador, que os homens das estrelas estão te esperando.

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café

Vale um viva a iniciativa dessa franquia de cafeterias de resgatar o bom e velho brasileiríssimo café coado, dando ao freguês uma alternativa à ditadura do café expresso, que na maioria das vezes é servido demasiadamente quente e ralo, uma caricatura mal feita do original italiano.

Em tempo: não estou ganhando nada pela propaganda. Nem um cafezinho sequer.

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www.marinelacarniato.com

www.marinelacarniato.com

Não adianta ser – ou se dizer – progressista e não ter caráter, hombridade.

Pouco vale defender as minorias, postar contra o machismo, o racismo e atacar o Bolsonaro, se você faz intriga, se você apunhala por trás os que convivem contigo, seja em que esfera for.

Não adianta ser contra o impeachment, por exemplo, e puxar o tapete do colega de trabalho, o que é uma espécie de golpe de estado no âmbito privado.

Uma postura tida como socialmente progressista requer moral (o que você faz sem ninguém ver) e não apenas ética (o que você faz quando todo mundo está vendo).

Em último caso, vale mais a pena conviver com um conservador, um reacionário, mas que tenha caráter.

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www.postais.net

www.postais.net

Existem coisas que parecem à toa mas que são maiores e mais importantes que coisas que parecem grandes e importantes. Não sei se você entendeu, mas é isso aí mesmo.

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www.youtube.com

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Meu grande Marcelo Bebiano me diz que no Rio está fazendo clima de montanha.

Ser carioca é mais do que nascer no Rio, é um estado de espírito permanente.

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g1.globo.com

g1.globo.com

Acho que com o passar do tempo essas festas de fim de ano vão perdendo o brilho e a graça.

Há um determinado momento da vida, que não sei precisar qual, em que começamos a ter dificuldade de respirar os tais ares de esperança trazidos pelo fim de ano.

Talvez sejam as perdas as responsáveis por isso.

Afinal, é muito pai e mãe que morre na vida da gente (às vezes, filhos também), é muito amigo querido há anos morando longe, é muito divórcio, muito namoro feliz que acabou de repente.

E por mais que haja reposição de peça (netos, novos amigos e amores) as perdas se acumulam e parece que passam o ano todo esperando para pesarem ainda mais em dezembro, no meio de tanta rua cheia, de tanta loja entupida, de tanta confraternização forçada, de tanta caridade feita como convenção e satisfação à sociedade.

Então, depois de uma certa idade, quando chega dezembro, no fundo o que a gente quer mesmo é que janeiro comece logo, despachando pra longe essa irritante obrigação de estarmos felizes e esperançosos.

Ps1: Essa caridade anual, com data marcada pra dezembro, também me cansa.

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caroldaemon.blogspot.com

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Há um momento na vida de um casal que acontece geralmente aos fins de semana e com frequência maior nestas festas de fim de ano.

É aquele momento maravilhoso em que os dois estão bebendo vinho (ou cerveja) na mesa e ela então se levanta falando “amor, vou na cozinha pegar a comida”.

Você, solicito, mas na verdade sem fazer qualquer movimento de se levantar, pergunta se ela quer ajuda, e ela responde “não, amor, pode ficar aí bebendo”.

É bom que não se enxergue aí qualquer machismo e muito menos submissão feminina.

Na frase condescendente dela, há uma entrelinha, mais clara que o que foi dito: “a louça é sua, querido”.

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